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Aliança União Brasil-PP vive divisão interna, saídas e apreensão com Master e Refit

Sete meses após anunciada, a federação entre União Brasil e PP passou a enfrentar cada vez mais divergências nos estados, agora somadas à apreensão pela proximidade de seus principais líderes com o banqueiro Daniel Vorcaro e com o empresário Ricardo Magro, ambos alvos de investigações recentes.

Para políticos desses partidos e de outras legendas, as relações entre os presidentes do PP, o senador Ciro Nogueira (PI), e do União Brasil, Antonio Rueda, com o dono do Banco Master serão exploradas ao longo dos próximos meses, com desgaste para candidatos da federação e para a direita como um todo.

Rueda é o presidente da federação e Ciro Nogueira, o vice-presidente. Vorcaro foi preso no dia 17, em São Paulo, acusado de emissão de títulos de crédito falsos, que levaram à liquidação do seu banco no dia seguinte.

Nesta quinta (27), a Receita Federal realizou operação junto com polícias estaduais contra o Grupo Fit (a antiga Refit, dona da refinaria de Manguinhos) e seu controlador, Ricardo Magro, sob suspeita da prática de crimes como sonegação, fraude e ocultação de patrimônio.

Segundo os investigadores, o esquema teria causado prejuízo de R$ 26 bilhões aos cofres estaduais e federal. A assessoria do empresário não respondeu. Em entrevista à Folha em setembro, Ricardo Magro afirmou que suas empresas não sonegam. Ciro Nogueira atuou no Congresso em projetos de interesse do grupo, como a proposta para ampliar a atuação do poder público contra o devedor contumaz.

Até o momento, não houve operação contra políticos, e os casos ocorreram na primeira instância do Judiciário por não envolverem pessoas com foro especial.

Congressistas de siglas do centrão afirmam que Rueda e Ciro Nogueira concentram grande poder no comando de seus partidos e que esses episódios podem afetar as candidaturas da federação como um todo.

Já integrantes do PP e do União Brasil minimizam esse receio. Afirmam que Vorcaro, por exemplo, mantinha relação com diversas autoridades em Brasília e políticos de outros partidos, assim como seu ex-sócio no Master, Augusto Lima, era próximo de integrantes do PT na Bahia. Lima também foi preso pela Polícia Federal. Seria o mesmo caso de Magro, que mantém contato com outros políticos.

Ciro Nogueira e Rueda foram procurados, mas não responderam.

Os episódios do Banco Master e do Grupo Fit se somam às divergências sobre quem comandará os diretórios da federação em cada estado –e, consequentemente, terá mais força nas alianças com governadores e prefeitos e para emplacar as próprias candidaturas.

A federação obrigará União Brasil e PP a montarem chapas juntos por duas eleições. Por outro lado, somará o tempo de propaganda na TV, fundo eleitoral e votos para deputado.

A aliança foi lançada em abril mirando papel de destaque na eleição presidencial, além de facilitar o processo de formação de chapas para deputados e senadores. De lá para cá, no entanto, lideranças do grupo reconhecem que o objetivo principal deixou de ser a eleição à Presidência e que o foco é eleger o maior número de deputados e senadores para se consolidar como a principal força do Congresso.

Uma das consequências das operações, segundo integrantes do PP, é a mudança no discurso de Ciro Nogueira, que trabalhava para ser vice na chapa adversária de Lula em 2026. Em falas públicas recentes, ele passou a dizer que estará focado na eleição para o Senado no Piauí e desistiu do plano nacional.

Na semana passada, no dia seguinte à prisão de Vorcaro, o senador afirmou que, "diante da falta de bom senso e de estratégia no centro e na direita", vai defender que o foco da federação seja "as eleições estaduais e as nossas bancadas".

Políticos afirmam, no entanto, que ainda há muitas arestas a serem contornadas. Mesmo após sete meses do anúncio, um terço dos estados (Distrito Federal, em Minas Gerais, no Maranhão, na Paraíba, no Paraná, no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Sergipe e no Tocantins) permanece com o comando indefinido. Os outros 18 serão divididos igualmente entre PP e União Brasil.

Nos casos em que há divergência, caberá a Ciro Nogueira e Rueda deliberar. "Ciro e Rueda vão decidir de forma consensual quem comandará esses nove estados. Essa definição deve ocorrer nos próximos meses", diz o deputado Cláudio Cajado (PP-BA), que vai integrar a executiva nacional da federação.

Apesar de o estatuto da federação garantir que as decisões deverão ser tomadas em conjunto pelos dois políticos, integrantes falam em receio de quais serão os critérios adotados e admitem a saída de quem se sentir preterido. Um primeiro desentendimento já ocorreu entre Rueda e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), que tinha a promessa de presidir a federação no início, mas acabou alijado.

Outro conflito é com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), que apoiou a federação após a promessa de que teria espaço para concorrer à Presidência se alcançasse mais de 10% nas pesquisas, mas entrou em conflito com Ciro Nogueira e hoje defende o rompimento da aliança.

As disputas estaduais também já levaram às primeiras desfiliações. O senador Alan Rick deixou o União Brasil há duas semanas para concorrer ao Governo do Acre pelo Republicanos. No estado, a federação será comandada pelo governador Gladson Camelli (PP).

Na Paraíba, o desentendimento é triplo por causa da disputa ao governo estadual. O prefeito da capital, Cícero Lucena, já deixou o PP para concorrer ao cargo. O senador Efraim Filho (União Brasil), também candidato, se aliou à direita, enquanto o vice-governador Lucas Ribeiro (PP), disputará com apoio de Lula.

No Paraná, o conflito entre os grupos do deputado federal Ricardo Barros (PP) e do senador Sergio Moro (União Brasil) já causou a saída do deputado Pedro Lupion (para o Republicanos). O deputado Felipe Francischini (União Brasil) deve disputar a reeleição pelo Podemos.

Em outros estados, principalmente do Nordeste, deputados têm criticado o tom oposicionista adotado pela cúpula da federação contra Lula, já que, em muitos casos, estarão aliados a governadores do PT.

Apesar das dificuldades, as cúpulas das duas siglas dizem que a federação é irreversível e garantem que ela sairá do papel para a eleição de 2026. Eles atribuem a demora de sete meses para entrar com o pedido no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) à burocracia desse tipo de processo e a um erro nas atas do diretório nacional do PP, que já estaria corrigido.
Por Raphael Di Cunto e Victoria Azevedo, Folhapress

PT lança oficialmente congresso interno, em meio a pressão por adiamento

O PT fará na próxima quinta-feira (4) o lançamento oficial de seu congresso interno, que está marcado para abril do ano que vem.

Apesar disso, diversas lideranças partidárias defendem o adiamento do encontro para depois das eleições.

Uma alternativa seria dividir o evento, com a discussão diretamente ligada ao pleito sendo mantida na data planejada e temas mais estruturais, como reforma do estatuto e atualização do programa político para as próximas décadas, ocorrendo em 2027.

Um dos que se colocam abertamente contra fazer o congresso em 2026 é o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, que considera um desperdício de tempo e energia entrar em discussões internas em meio à pré-campanha eleitoral. Ele defende a realização em 2027.

Reservadamente, dirigentes e filiados têm a mesma opinião. O presidente da legenda, Edinho Silva, quer manter a data, no entanto, argumentando que isso ajudaria na mobilização para a eleição.

Por Fábio Zanini/Folhapress

Alcolumbre conta votos contra Messias e ameaça sessão relâmpago para derrotar indicado de Lula

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), afirmou a aliados ter 60 votos para rejeitar a indicação de Jorge Messias para o STF (Supremo Tribunal Federal) no plenário. Mesmo que o governo obtenha os apoios necessários, ele teria sinalizado que encurtaria o tempo de votação para evitar que haja o mínimo necessário para Messias assumir o cargo.

A pressão representa um passo a mais na movimentação do presidente do Senado contra o indicado por Lula. Alcolumbre fez campanha aberta pelo nome de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para a vaga.

Senadores ouvidos pela reportagem dizem acreditar que os 60 votos mencionados pelo senador do Amapá são um exagero —e que ele pode estar querendo vender caro o seu apoio—, mas reconhecem haver maioria contra Messias.

A dois aliados, Alcolumbre afirmou que o governo terá que "apostar uma corrida" para ver quem serão os primeiros 41 senadores a registrarem o voto no plenário porque encerrará a votação pouco depois do quórum ser atingido. A postura seria diferente da verificada na aprovação de autoridades na semana passada, quando ele esperou que mais de 70 senadores votassem antes de proclamar o resultado.

O indicado pelo presidente da República para o cargo de ministro do STF precisa do voto favorável de 41 dos 81 senadores para ser aprovado, a maioria absoluta do plenário. Qualquer placar abaixo disso levará à rejeição do nome, algo que não ocorre desde o fim do século 19, quando cinco escolhidos pelo ex-presidente Floriano Peixoto foram derrotados.

No caso do procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, que também precisava do apoio de 41 senadores, a aprovação durou 16 minutos, com 45 votos a favor e 26 contra. O placar apertado, de apenas quatro votos a mais do que o necessário, foi visto como um recado sobre a indicação para o STF. O Palácio do Planalto preferiu apontar a ausência de quatro governistas para sustentar que a margem poderia ser maior.

Na mesma sessão foram aprovadas ainda a indicação de outras autoridades, e Alcolumbre pediu diversas vezes para que os senadores se mantivessem no plenário e votassem. A preocupação era com a possibilidade de alguma rejeição por falta de votos. "Tem que todo mundo ficar. Se alguém quiser viajar, mude para amanhã", disse Alcolumbre na ocasião.

Já no caso do STF, Alcolumbre tem se recusado a encontrar com Messias e marcou a sabatina na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) para 10 de dezembro, com a votação no mesmo dia, prazo considerado curto pelos governistas por causa da resistência dos senadores —que, assim como Alcolumbre, preferiam a indicação de Pacheco.

O presidente do Senado tem procurado os colegas para defender que, embora o presidente Lula (PT) tenha a prerrogativa de indicar o ministro, cabe aos senadores concordar ou não com a escolha, e que seria a chance de o Legislativo reafirmar essa prerrogativa.

Procurado nesta quinta (27), o presidente do Senado não comentou

Aliados do governo dizem que Lula deve procurar Alcolumbre e que há espaços abertos para negociação com o Senado, como a presidência do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) —que está ocupada de forma interina desde julho— e a presidência da ANA (Agência Nacional de Águas), com mandato vencendo em 15 de janeiro.

Na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), além da vaga de presidente, há uma diretoria desocupada desde dezembro e outra que será liberada no fim deste ano. O Ministério da Fazenda, no entanto, tenta evitar que esses postos entrem na negociação política e busca preenchê-los com nomes técnicos, assim como duas diretorias do Banco Central.

A vaga de ministro do STF, no entanto, seria inegociável, porque abrir mão desta escolha seria o presidente da República abrir mão de suas próprias prerrogativas —um caminho sem volta, na avaliação de governistas.

Messias tem procurado senadores por telefone e pessoalmente para tentar vencer resistências e buscar apoio a sua indicação. Na maioria das conversas, ouve que sua situação é delicada por causa dos desentendimentos entre o governo e Alcolumbre.

Lula teve o Senado como sua principal fonte de governabilidade ao longo do atual mandato. A indicação de Messias para a vaga deixada por Luís Roberto Barroso no STF, porém, estremeceu a relação.

O indicado de Lula tem dito em reuniões que não deve ser penalizado por uma crise entre Alcolumbre e o governo federal. Também afirma, nos bastidores, que costumava ter boa relação com o presidente do Senado quando foi assessor da Casa —ele atuou no gabinete do senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo e com quem Alcolumbre rompeu.

Messias faz movimentos para tentar se reaproximar do presidente do Senado. Na segunda-feira (24), divulgou uma nota pública com elogios a Alcolumbre. A repercussão no Senado foi ruim. Alcolumbre respondeu o texto com uma nota fria, na qual sequer cita o indicado de Lula pelo nome.

Governistas falam nos bastidores em recorrer a uma formalidade regimental para tentar adiar a data e contam com o presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA), para ganhar mais tempo.

Por Raphael Di Cunto e Caio Spechoto, Folhpress

Aécio Neves volta ao comando do PSDB criticando polarização e Lava Jato, da qual foi alvo

O deputado federal Aécio Neves reassumiu a presidência nacional do PSDB nesta quinta (27) atribuindo a derrocada do partido à polarização entre o presidente Lula (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e aos reflexos da operação Lava Jato, que acusou alguns dos principais líderes do partido.

"Fomos todos atropelados pela tragédia da polarização ideológica", afirmou. "Mas é impossível não mencionar o efeito danoso da irresponsável criminalização da atividade política ocorrida no país há alguns anos. Manifesto aqui a solidariedade aos companheiros tucanos e de outros partidos, que assim como eu, foram covarde e injustamente acusados por atos jamais praticados", disse.

Aécio reassumiu a presidência do PSDB após mais de oito anos. Quando deixou o cargo daquela vez, em 2017, era alvo da delação premiada do empresário Joesley Batista, da JBS, e de decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) para que fosse afastado do mandato de senador.

Aécio deixou o cargo daquela vez para "provar sua inocência", conseguiu manter o mandato de senador e os processos foram arquivados anos depois, assim como a quase totalidade de investigações decorrentes da operação Lava Jato. As investigações afetaram outros importantes líderes da sigla, como Marconi Perillo, Beto Richa e Geraldo Alckmin (hoje vice-presidente da República e aliado do PT).

O novo presidente do partido também afirmou que o PSDB cometeu erros. "Mas o maior deles foi nunca ter defendido com a coragem necessária os avanços promovidos quando governamos o país", disse o mineiro, que saiu de presidenciável a deputado nesse período.

O partido também minguou após a operação e a chegada de Bolsonaro ao poder, com o crescimento de uma nova direita. Perdeu todos os seus governadores (dos eleitos em 2022, dois foram para o PSD e um para o PP) e quase todos seus senadores (hoje são apenas três), elegeu só 13 deputados federais e não terá, pela segunda vez, candidato à Presidência da República.

Pouco para quem chegou a eleger 99 deputados federais e sete governadores em 1998, auge do governo FHC, além de contar com 16 senadores. Mais importante, está ameaçado de não ultrapassar a cláusula de desempenho em 2026, o que o deixaria sem fundo partidário e propaganda na TV e rádio, praticamente obrigado a se unir a outra legenda.

No ato desta quinta, as palavras mais citadas por dirigentes e representantes de segmentos tucanos foram "reestruturação" e "renovação", além da expectativa de representar eleitores que não se sentem representados pela polarização entre PT e Bolsonaro –polo que, uma vez, já foi dos tucanos.

O ex-governador de Goiás Marconi Perillo, que deixou a presidência do PSDB nesta quinta, agradeceu aos que ficaram no partido "enquanto muitos preferiram sair". "O PSDB estava num momento delicado. Vivíamos fase de desafios internos, de questionamento sobre nosso papel", comentou. "Não sucumbimos, como muitos acreditavam."

A sigla celebrou a filiação de dois deputados federais eleitos pelo Rio de Janeiro, Marcelo Queiroz e Luciano Vieira, como uma mostra de recuperação. Mas a saída de parte da atual bancada já é esperada, e muitos sequer apareceram para eleger a nova direção num auditório em Brasília.

A única presidente de partido a prestigiar a posse foi a deputada Renata Abreu (SP), que comanda o Podemos, sigla que quase incorporou o PSDB no primeiro semestre. A negociação se arrastou por meses e chegou a ser oficialmente anunciada, mas acabou abortada por resistência dos tucanos em abrir mão do comando, apesar de serem menores. "A gente namorou muito PSDB e Podemos, mas o futuro a Deus pertence", disse ela.

Outros partidos, como MDB, PP e PL, foram representados por deputados federais. "O partido que mais enfrentou o PT foi o PSDB, isso nos une", afirmou o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ). "Sei que você vai trazer o partido para o centro, porque o centro tem papel importante, mas vocês nunca vão se aliar com o PT".

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), defendeu o papel do PSDB na política nacional e que "o cidadão que está na ponta possa voltar a ser a prioridade do debate". "Na Câmara estaremos sempre de portas abertas para esse diálogo, naquilo que realmente interessa o nosso país", afirmou.

Por Raphael Di Cunto, Folhapress

Congresso esquece Bolsonaro, escala crise com Lula e põe em risco agenda do governo

A escalada da crise entre a cúpula do Congresso e o governo, simbolizada pela ausência dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), no ato de sanção da isenção do Imposto de Renda nesta quarta (26), ameaça matérias importantes para Lula (PT).

A elaboração do Orçamento de 2026, que definirá quais gastos e programas serão executados no ano eleitoral, a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública e a aprovação de Jorge Messias para vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) são citados por parlamentares como temas em que o Executivo pode sair derrotado.

Nesta quinta (27), por exemplo, Alcolumbre marcou sessão do Congresso para analisar vetos presidenciais e a expectativa, nos bastidores, é de uma nova expressiva derrota para Lula.

O embate com o Palácio do Planalto também fez com que a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ficasse em segundo plano no Congresso, com reação tímida da direita. O debate sobre a anistia ficou relegado a conversas de bastidores, sem apoio explícito ou defesa por parte do centrão.

Motta e Alcolumbre se distanciaram do governo recentemente. O presidente do Congresso era o principal fiador de Lula no Legislativo, mas declarou guerra com a indicação de Messias para o Supremo em vez do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

Alcolumbre tem procurado senadores para defender a rejeição ao indicado por Lula e aprovou no Senado projeto com impacto bilionário nas contas públicas, para conceder aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate a endemias, num recado de insatisfação com o governo.

Apesar disso, governistas minimizaram a insatisfação. Afirmam que o presidente do Senado poderia ter sido mais duro, e votado a PEC dos agentes comunitários de saúde (que já foi aprovada pela Câmara e vai à promulgação, o que não permitiria um veto do presidente). Lula também deve procurá-lo antes da votação de Messias para conversar, e senadores dizem que nenhum dos dois ganha com um rompimento.

O presidente da Câmara, por sua vez, rompeu publicamente com o líder do PT, deputado Lindbergh Farias (RJ), após críticas recebidas pela escolha do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) –secretário de Tarcísio de Freitas– como relator do projeto antifacção, que era a aposta de Lula na segurança pública.

Petistas dizem que Motta os procurou para dizer que o rompimento era com o líder do PT, não com a bancada e tampouco com o governo, mas que destacou que a relação com o Palácio do Planalto também está ruim, principalmente pelo que considera acordos não cumpridos, como a demora na execução das emendas parlamentares e nomeação de cargos para aliados.

O grupo de Motta ainda acusa o governo de incentivar e promover ataques à Câmara junto à opinião pública. Nos bastidores, aliados do presidente da Casa reclamam dos ministros Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais), Fernando Haddad (Fazenda) e Sidônio Palmeira (Secom).

Motta se queixou a interlocutores de declarações de Gleisi e Haddad sobre a tramitação e o projeto de lei antifacção aprovado pela Câmara, afirmando que eles agiram de forma desleal e desonesta. Teria dito também que enxerga dedo da Secom nos ataques que o Congresso recebeu nas redes sociais.

O grupo do presidente da Câmara afirma ainda que é preciso repensar a relação com Haddad. Dizem que os deputados atenderam os pedidos do ministro ao longo do ano, mas que isso poderá mudar daqui para frente.

Além da votação do Orçamento e de medidas necessárias para fechar as contas, como o corte de quase R$ 20 bilhões em subsídios tributários para empresas, a cúpula da Casa fala em dificultar a tramitação da MP (medida provisória) que estimula a instalação de data centers no Brasil.

Integrantes do governo dizem que da mesma forma que há desconfiança e descontentamento da cúpula da Câmara com o Planalto, a recíproca é verdadeira. Auxiliares de Lula afirmam que há embates no debate político, mas que as relações institucionais entre os dois Poderes não deveriam ser afetadas.

Um interlocutor frequente de Lula defende que é preciso distensionar o clima com o Congresso e uma atuação maior do presidente no diálogo com os parlamentares.

Aliados do petista rebatem que todas as decisões de Motta têm consequências políticas, como a escolha por um relator de oposição para matérias prioritárias para o presidente ou pautar projetos contra o governo. Eles afirmam que os posicionamentos do governo tiveram aval e foram incentivados pelo próprio Lula.

Para se fortalecer diante das cobranças do governo e da oposição, Motta organizou um bloco parlamentar com 275 deputados, a maioria da Casa, para sustentar sua governabilidade. Foram unidos oito partidos, como PSD, União Brasil, PP, MDB e Republicanos. O movimento também é visto como um passo inicial para construir uma base de apoio que o reeleja em 2027, apesar de dissidências internas.

O tamanho permite ao grupo apresentar requerimentos de urgência e aprová-los sem a necessidade de apoio da esquerda ou da direita, por exemplo. Também garante uma maioria, que ora pode se aliar ao governo, ora com a oposição.

Os bolsonaristas tentam aproveitar o momento e a prisão do ex-presidente para retomar a pauta da anistia, mas o projeto segue travado. Motta só admite levar o texto ao plenário se ficar restrito à redução de penas. O PL não cedeu e insiste na anistia completa por meio de votação no plenário.

Líder do PL na Câmara, o deputado Sóstenes Cavalcante (RJ) afirmou que a votação da anistia segue em um impasse.

A reação bolsonarista no Congresso já indica uma perda de força desse grupo político. Em agosto, deputados e senadores que apoiam Bolsonaro fizeram um motim e tomaram os plenários da Câmara e do Senado depois de o ex-presidente ser colocado em prisão domiciliar.

Bolsonaro foi preso preventivamente no sábado (22). Na terça (25), começou a cumprir sua pena de 27 de prisão, resultante do processo da trama golpista.

No entanto, só sete senadores o defenderam na tribuna entre segunda e terça. Na Câmara, um grupo maior de deputados discursou, mas os atos ficaram restritos a falas no plenário, sem protestos no salão verde, passeatas, obstrução de votações no plenário ou pedidos de impeachment de ministros.

Questionado, Sóstenes minimizou a reação tímida da direita. "Talvez seja a hora de se trabalhar com mais estratégia e menos radicalidade", disse.

"Estamos reagindo à prisão dele desde julho. É que a prisão do [ex-]presidente não foi uma prisão comum, igual à do Lula, que inclusive deram um espetáculo eleitoral. A prisão de Bolsonaro foi feita com morfina, a passos lentos, de tortura."

Por Victoria Azevedo , Raphael Di Cunto , Carolina Linhares e Caio Spechoto/Folhapress

Motta isola PT e PL e organiza bloco com 275 deputados, a maioria da Câmara

Rompido com os líderes do PT e do PL, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), organizou um bloco parlamentar com 275 deputados, a maioria da Casa, para sustentar sua governabilidade e se fortalecer no embate com o governo Lula e a oposição.

O movimento também é visto por parlamentares como um passo inicial para Motta construir uma base de apoio que o reeleja em 2027, apesar de dissidências internas.

O bloco é parte do grupo que apoiou sua candidatura à presidência da Câmara em fevereiro, quando ele foi eleito com 444 votos, mas estava esvaziado desde o começo do ano, com a saída de algumas siglas, como Solidariedade, Patriota e Avante, além do próprio PT e do PL.

No fim de outubro, diante das dificuldades para tocar a pauta e do estremecimento na relação com PT e PL, Motta reuniu os partidos de centro-direita para reorganizar o bloco parlamentar, com o compromisso de um revezamento entre os partidos na liderança do grupo e o compromisso de que ele se mantenha unido até dezembro de 2026.

Em agosto, o PT já havia formalizado sua saída do bloco, após o governo ser derrotado numa manobra na CPI do INSS que garantiu que oposicionistas ocupassem os principais cargos do colegiado. Naquele momento, de acordo com relatos, a ministra Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais) chegou a procurar líderes aliados estimulando que eles também deixassem o bloco.

Segundo um líder que acompanhou as conversas, a ministra foi avisada quando as conversas para a organização do novo grupo de Motta foram concluídas.

Fazem parte do bloco de sustentação o presidente da Câmara os partidos União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, a federação PSDB/Cidadania e o Podemos. Juntos, eles somam 275 dos 513 deputados da Câmara. Com isso, o grupo é capaz de apresentar requerimentos de urgência e aprová-los sem a necessidade de apoio da esquerda ou da direita, por exemplo.

O primeiro líder anunciado do bloco foi Pedro Lucas Fernandes (União Brasil-MA). Agora, o posto já é ocupado por Doutor Luizinho (PP-RJ). Haverá um revezamento de cerca de 30 dias cada. O líder é o responsável por assinar os requerimentos e discursar em nome da bancada no plenário.

Para se ter uma ideia do tamanho do bloco, são 63 vice-líderes (deputados que podem representar o grupo na ausência do líder). Esse número é maior do que quase todos os partidos da Câmara, com exceção de PL e PT.

Foi essa base de apoio que permitiu a Motta aprovar o projeto de lei antifacção mesmo com a oposição e com o governo trabalhando contra. O PT atacou o presidente da Câmara pela escolha do relator, o deputado Guilherme Derrite (PP-SP), e por mudanças no texto, que era a principal aposta do presidente Lula para a pauta da segurança pública.

Já o PL insistiu em votar uma emenda para classificar facções criminosas como grupos terroristas, ideia que Motta e o relator tinham abandonado após críticas de especialistas e de integrantes do mercado financeiro, que apontaram risco para as investigações em curso e de uma fuga de investimentos do país.

A Câmara aprovou o projeto por 370 votos a 110 na semana passada, a despeito da posição contrária do governo. A emenda sobre o terrorismo foi rejeitada de ofício por Motta, que a considerou inconstitucional e não a submeteu à votação.

Foi esse mesmo projeto que levou ao rompimento do presidente da Câmara com o líder do PT, Lindbergh Farias (RJ), e um estremecimento na relação dele com o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ).

Motta disse à Folha que não tinha "mais interesse em ter nenhum tipo de relação com o deputado Lindbergh Farias". No caso do PL, houve desentendimento porque o presidente da Câmara se queixou ao deputado da insistência dele em seguir atuando pela emenda sobre o terrorismo.

Como mostrou a coluna Mônica Bergamo, Motta enviou uma mensagem de WhatsApp para Sóstenes, afirmando que o parlamentar não poderia mais contar com o presidente da Câmara. Os dois não se falam há uma semana.

Na avaliação de deputados, com esse movimento de se afastar de Lindbergh e Sóstenes, Motta acaba se isolando de dois partidos que foram importantes para sua eleição e detentores das maiores bancadas da Casa. Além disso, nomes do centrão afirmam que o presidente da Câmara tem diminuído seu grupo de aliados de primeira hora. Eles citam como exemplo o afastamento entre Motta e seu antecessor, Arthur Lira (PP-AL).

Parlamentares afirmam que a construção do bloco é uma forma também de Motta começar a organizar sua base para disputar à reeleição para a presidência da Câmara, em 1º de fevereiro de 2027. O grupo, se mantido unido, daria uma margem de largada importante contra as pressões do PT e do PL, seja qual for o presidente da República eleito.

Parte dos aliados de Motta nega que o bloco tenha a eleição legislativa como pano de fundo. "Não houve discussão de eleição de presidente na Câmara. Ainda falta muito tempo, temos uma eleição no meio. Ninguém sabe quem serão os eleitores da próxima Mesa Diretora", diz o líder do MDB, Isnaldo Bulhões Jr. (AL), um dos principais aliados de Motta.

Outra ala diz que o bloco parlamentar tem esse objetivo, mas que o presidente da Câmara precisa se mostrar viável ao fim do mandato para debelar as dissidências internas, e que também é preciso aguardar o tamanho que cada partido sairá das urnas.

Nos bastidores, são citados como possíveis candidatos ao comando da Câmara os deputados Antonio Brito (PSD-BA), Doutor Luizinho (PP-RJ), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Altineu Côrtes (PL-RJ) e o próprio Isnaldo. O nome de Lira também não é descartado, mas aliados do parlamentar negam a possibilidade e afirmam que ele deverá ser candidato ao Senado no próximo ano.

Lula deverá procurar Alcolumbre para tratar de Messias no STF, dizem aliados

Aliados do presidente Lula (PT) dizem que ele deverá procurar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para conversar sobre a indicação de Jorge Messias para o STF (Supremo Tribunal Federal).

A expectativa é que isso ocorra a partir desta semana, com o retorno do chefe do Executivo de viagem internacional. Lula embarcou para a África do Sul na quinta (20) para participar da Cúpula dos Líderes do G20 e voltou a Brasília nesta terça-feira (25).

O presidente oficializou o nome de Messias na semana passada, antes de viajar e após se reunir com o chefe da AGU (Advocacia-Geral da União) no Palácio da Alvorada. A decisão, no entanto, contrariou Alcolumbre, que trabalhava para que Lula escolhesse Rodrigo Pacheco (PSD-MG), seu antecessor no cargo e um de seus principais aliados.

De lá para cá, Alcolumbre sinalizou a aliados que trabalharia contra o indicado de Lula, ironizou Messias e anunciou que levará ao plenário de votações um projeto considerado pauta-bomba, com potencial de impacto de bilhões de reais para as contas públicas. Além disso, afirmou a aliados que está rompido com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).

Nesta terça (25), o presidente do Senado anunciou que a sabatina de Messias será no próximo dia 10, prazo considerado apertado e que pressionará o chefe da AGU e seus aliados a conseguirem o apoio necessário para sua aprovação. Em discurso de tom sóbrio e institucional à imprensa, Alcolumbre repetiu que foi informado da indicação de Lula pelo noticiário.

Lula também volta ao país num momento de tensão da cúpula da Câmara com o Palácio do Planalto. Na segunda (24), o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou que rompeu relações com o líder do PT, Lindbergh Farias (RJ).

Os dois chefes do Legislativo foram convidados pelo governo para participar de cerimônia de sanção do projeto de lei que dá isenção do IR (Imposto de Renda) para quem ganha até R$ 5.000, que será nesta quarta (26), no Planalto. Ainda não há confirmação da participação deles no evento.

Desde que a indicação de Messias foi oficializada, o presidente do Senado tem demonstrado a interlocutores descontentamento com o governo, se queixando que não foi avisado previamente da decisão e dizendo que atuará contra o nome do AGU na sabatina no Senado. A assessoria de imprensa de Alcolumbre afirmou horas após a oficialização de Messias que Lula não havia ligado nem antes nem depois para informar o senador.

Na segunda (24), o presidente do Senado respondeu com uma nota à tentativa de aproximação de Messias, que tinha divulgado um texto no qual elogiava Alcolumbre. O senador disse que a indicação será analisada "no momento oportuno" e afirmou que tomou conhecimento "com respeito institucional" da manifestação do chefe da AGU —sem citá-lo nominalmente.

Interlocutores de Lula afirmam que gera preocupação as posições e movimentos recentes de Alcolumbre, mas defendem que o diálogo prevaleça. Eles afirmam que é prerrogativa da Presidência da República indicar nomes para a Suprema Corte e que Lula conduziu esse processo ouvindo a todos, de forma respeitosa. Além disso, dizem que agora é que começa o trabalho para viabilizar a aprovação de Messias.

Nesse sentido, dizem que é importante essa atuação de Lula diretamente com Alcolumbre. Parlamentares com bom trânsito na Câmara e no Senado também estão sendo procurados por governistas para ajudar nas conversas.

Aliados de Lula apontam que os dois políticos mantém boa relação, que o presidente do Senado é considerado um dos principais aliados do petista no Congresso e que vem tendo suas demandas atendidas pelo Planalto, como indicações de aliados do senador para cargos estratégicos na gestão federal e nas discussões de propostas de interesse do parlamentar.

O presidente do Senado foi responsável pela indicação de dois ministros de Lula, Frederico de Siqueira Filho (Comunicações) e Waldez Góes (Desenvolvimento Regional), além de nomes em diretorias de agências reguladoras e cargos de comando na Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba).

Um auxiliar do petista afirma que o presidente da República tem como foco principal a aprovação de Messias na sabatina e está disposto a atuar para distensionar qualquer ruído. Outro aliado próximo do presidente reconhece que o cenário é difícil e exigirá muita negociação do petista com Alcolumbre. Há avaliação entre interlocutores do presidente que, sem o apoio de Alcolumbre ou de Pacheco, o chefe da AGU não conseguirá ter os votos necessários.

Messias já começou a procurar líderes do Senado para marcar conversas e diminuir resistências à sua indicação ao Supremo.

A indicação de nomes para vagas na Suprema Corte são prerrogativas da Presidência da República, mas os nomes precisam ser chancelados pelos senadores. Cabe ao Senado aprovar a indicação do presidente para o STF, e para isso é necessário o apoio mínimo de 41 dos 81 senadores, em votação secreta.

Por Victoria Azevedo/Folhapress

Motta rompe também com líder do PL, por WhatsApp: "Não conte mais comigo para nada"

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), rompeu com o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), por meio de uma mensagem de Whatsapp enviada às 2h da madrugada na semana passada.

"Não conte mais comigo para nada", afirmou Motta ao pastor. Que respondeu que, em nome da amizade entre os dois, preferia nada comentar.

Ambos não se falam há uma semana.

É o segundo rompimento de Motta com lideranças partidárias da Casa: na segunda (24), ele afirmou à Folha não ter mais "interesse em nenhum tipo de relação com o deputado Lindbergh Farias", que é líder do PT.

O motivo mais recente do estresse é o mesmo: as discussões sobre o projeto de lei antifacção, aprovado na Câmara na semana passada.

Lindbergh se contrapôs frontalmente à escolha do relator da proposta, Guilherme Derrite (PP-SP), e Sóstenes também apresentou divergências ao resultado final dos debates.

As discussões entre os partidos estavam acaloradas em torno da ideia de equiparar facções a grupos terroristas.

Para superar o impasse, Derrite retirou o tema do projeto. Sóstenes, no entanto, apresentou um destaque para que ela retornasse ao texto.

Em uma reunião na presença de outras lideranças e também do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que defendia a ideia, Motta pediu ao líder do PL que retirasse a proposta. Houve uma discussão acalorada.

De acordo com pessoas que estavam na reunião, Sóstenes disse "e o que você me oferece em troca? Coloca o projeto do [deputado] Danilo Fortes [sobre antiterrorismo] para votar?".

Motta afirmou que não tinha como se comprometer. Sóstenes então não retirou o destaque.

No plenário, o presidente da Câmara barrou o destaque de ofício, sob o argumento de que ele era inconstitucional, e a proposta do PL ficou fora do projeto.

Motta afirmou a interlocutores que respeita Sóstenes, mas que ele e Lindbergh adoram gerar um caos semanal nas votações, levando a Câmara a desgastes desnecessários.

Os dois líderes, embora de partidos divergentes, são muito amigos. E, na visão de Motta, combinam até o dia de brigar, ganhando destaque em meios de comunicação, que frequentemente os convidam para debater.

Questionados, Motta e Sóstenes não quiseram comentar.

Lindbergh já tinha respondido que considera a reação do presidente da Casa "imatura".

Por Mônica Bergamo/Folhapress

Motta rompe com líder do PT e agrava desgaste na relação do governo Lula com o Congresso

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou à Folha que rompeu com o líder do PT na Casa, Lindbergh Farias (RJ). "Não tenho mais interesse em ter nenhum tipo de relação com o deputado Lindbergh Farias", declarou.

O tensionamento entre os dois políticos pode acentuar os desgastes na relação do governo Lula (PT) com a Câmara, num momento em que há atritos também do Palácio do Planalto com o Senado. De acordo com dois líderes da Casa próximos a Motta, a relação entre os dois, agora, será meramente institucional.

Nos últimos meses, o grupo de Motta se queixava da atuação de Lindbergh, acusando o parlamentar de se exaltar nas discussões e buscar desgastar a imagem da Câmara junto à opinião pública. A cúpula da Casa também critica o comportamento do deputado nas reuniões semanais com líderes e Motta, afirmando que ele atua como se fosse líder do governo, quando deveria responder só pela bancada do PT.

O petista é um dos deputados mais atuantes na defesa do governo e de suas pautas na Casa e tem usado publicações nas redes sociais e falas na tribuna para fazer essa disputa política.

A discussão do projeto de lei antifacção, aprovado na Câmara na semana passada, acentuou o desgaste na relação de Motta com Lindbergh, dizem aliados do parlamentar. Integrantes da cúpula da Câmara se queixam, sob reserva, da atuação do governo e de seus ministros na tramitação da matéria, acusando-os de incentivar ataques à Câmara e do que consideram "narrativas" acerca do conteúdo do texto.

Motta escolheu como relator do projeto enviado pelo Executivo —e apontado como principal resposta de Lula à crise na segurança pública após megaoperação no Rio— o deputado Guilherme Derrite (PP-SP), secretário de segurança do governo Tarcísio de Freitas, considerado o potencial adversário do petista em 2026.

A decisão do presidente da Câmara gerou contrariedade entre integrantes do Planalto e tensionou o debate da matéria. O relator fez uma série de mudanças ao texto que foram criticadas pelo governo federal. Diante disso, o Executivo orientou votação contra a proposta, mas acabou sendo derrotado. O texto, agora, está em análise pelo Senado.

O próprio Motta falou publicamente do descontentamento em entrevistas e publicações nas redes nos últimos dias.

Um cardeal do centrão diz que, hoje, o clima entre os parlamentares e o Planalto é muito ruim, citando também o que classifica como acordos não cumpridos do Executivo, seja na redistribuição de cargos, na baixa execução orçamentária e em relação às matérias em discussão na Casa.

Esse parlamentar prevê maior tensionamento nos próximos dias. Aliados de Motta negam, no entanto, que haja um rompimento com Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais), responsável pela relação entre Executivo e Legislativo, mas afirmam que a relação do parlamentar com a ministra também foi abalada.

O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), é apontado por líderes do centrão como um nome que atua para distensionar a relação da cúpula da Casa com o Planalto.

Motta assumiu a presidência da Câmara no começo deste ano, após conseguir apoio de quase todos os partidos da Casa, indo do PT ao PL. Lindbergh e Gleisi foram alguns dos entusiastas do apoio do partido e do governo à candidatura de Motta e trabalharam para viabilizar essa aliança.

De lá para cá, no entanto, a relação do Palácio do Planalto com a Câmara foi de altos e baixos, marcada por um sentimento de desconfiança mútua. Episódios como a derrubada de decreto presidencial do IOF (Imposto Sobre Operações Financeiras) pelos deputados, a decisão de não avançar com MP (medida provisória) que aumentava impostos e, mais recentemente, a tramitação do projeto de lei antifacção desagradaram o governo.

Em abril do ano passado, o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), anunciou rompimento com o então ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha. Naquela ocasião, o deputado disse que Padilha era seu "desafeto pessoal" e o chamou de "incompetente". Lula decidiu manter o ministro no cargo mesmo assim.

Com minoria da esquerda na Casa, a relação do Planalto com a Câmara neste terceiro mandato do petista foi marcada por instabilidades. Esse novo tensionamento entre os deputados e o governo ocorre num momento de ruído também na relação do governo com o Senado, principal fonte de governabilidade da gestão até o momento.

A indicação de Jorge Messias para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) gerou contrariedade na cúpula da Casa, que trabalhava pelo nome de Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que era considerado um dos principais aliados de Lula no Congresso, pautou a votação de uma pauta-bomba horas após o anúncio de Messias e afirmou a interlocutores que trabalhará contra a indicação do atual chefe da AGU.
Por Victoria Azevedo, Folhapress

Alcolumbre diz a amigos que mostrará a Lula o que é não ter o presidente do Senado como aliado

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), disse a interlocutores que, a partir de agora, será um “novo Davi” para o Palácio do Planalto. Mais do que contrariedade, Alcolumbre manifestou revolta com a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de indicar o ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF).

“Vou mostrar ao governo o que é não ter o presidente do Senado como aliado”, afirmou Alcolumbre na quinta-feira, 20, a portas fechadas, depois de saber que Lula confirmara a escolha de Messias.

Dois dias antes, ele já havia sido duro com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que é amigo do advogado-geral da União e, no seu diagnóstico, foi desleal com seus pares.

“Não me procure mais”, avisou Alcolumbre, irritado com o resultado da conversa entre Lula e o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), na noite anterior. O presidente tentou convencer Pacheco a ser candidato ao governo de Minas, mas o convidado foi categórico: disse que vai encerrar sua carreira política em janeiro de 2027.

Wagner amenizou o mal-estar, sob argumento de que tudo era “boato”. Alcolumbre, porém, confirmou o rompimento. Logo depois do anúncio de Messias, o presidente do Senado começou a desengavetar projetos que aumentam os gastos públicos, além de propostas que incomodam Lula.

A pauta-bomba prevê mudanças no Orçamento para estabelecer um calendário obrigatório de pagamento das emendas parlamentares no primeiro semestre de 2026, ano eleitoral. Alcolumbre também vai criar dificuldades para o governo na CPI do INSS e já tirou da prateleira o projeto de lei complementar que regulamenta a aposentadoria especial dos agentes comunitários de saúde e de combate às endemias.

A proposta foi aprovada pela Câmara em outubro, mas repousava no Senado, a pedido da equipe econômica, porque seu impacto fiscal ultrapassa os R$ 20 bilhões em 10 anos. Agora, Alcolumbre afirmou que vai pautar a votação para terça-feira, 25.

Quarenta e oito horas depois está marcada uma sessão do Congresso para apreciar mais de 50 vetos de Lula a projetos que passaram pelo crivo do Legislativo, entre eles o que afrouxa normas do licenciamento ambiental.

O governo já espera derrotas nos dois casos, mas pretende recorrer ao STF quando o texto aprovado trouxer impacto fiscal, a exemplo do que fez em julho, após o Congresso derrubar o decreto que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

A outra estratégia consiste em investir na disputa política pelas redes sociais para carimbar o Congresso como “inimigo do povo”. A mesma ofensiva ocorreu em setembro, quando a Câmara aprovou uma proposta de emenda à Constituição que protegia políticos de investigações criminais, chamada de PEC da Blindagem. Diante dos protestos, o Senado barrou a iniciativa.

Na avaliação do Planalto, Alcolumbre está agora usando a insatisfação com a escolha de Messias como “pretexto” para obter vantagens, embora defenda Pacheco, ex-presidente do Senado e nome que gostaria de ver na Corte.

Dois ministros disseram ao Estadão, sob reserva, que o escândalo do Banco Master envolve expoentes do Centrão e integrantes do grupo político de Alcolumbre. A operação da Polícia Federal que prendeu o banqueiro Daniel Vorcaro, na esteira da liquidação do Master, acendeu um sinal de alerta no Congresso.

O fundo de pensão Amapá Previdência (Amprev), por exemplo, investiu R$ 400 milhões no Master. Como mostrou o Estadão, foram quatro aportes em letras financeiras do banco e, embora a instituição afirme que os pagamentos aos servidores e aposentados estão assegurados, esse tipo de investimento não tem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito.

O diretor-presidente da Amprev, Jocildo Lemos, foi indicado por Alcolumbre para o cargo. O advogado Alberto Alcolumbre, por sua vez, é irmão do presidente do Senado e conselheiro fiscal da entidade.

Em conversas com aliados, o senador disse que os fatos foram divulgados de forma “distorcida”, com o objetivo de desgastar sua imagem e associá-lo à corrupção. Alcolumbre alega que o Banco Central avalizou o investimento da Amapá Previdência no Master.

A rota de colisão entre o Senado e o Planalto ganha novos capítulos justamente no momento em que o governo enfrenta cada vez mais crises no relacionamento com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). O estopim da briga ocorreu com as mudanças feitas no projeto antifacção, batizado como Marco Legal de Combate ao Crime Organizado.

Nesta sexta-feira, Motta rebateu o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para quem o texto aprovado, sob a relatoria do deputado Guilherme Derrite (PP-SP), asfixia financeiramente a Polícia Federal. Haddad observou que o projeto, da forma como saiu da Câmara, prejudica operações da Receita ao mudar o destino dos bens apreendidos de facções criminosas, redistribuindo os recursos de acordo com a atuação de cada força de segurança.

O Planalto espera que o Senado corrija “erros” da Câmara e retome a proposta original, enviada pelo Ministério da Justiça. Após a rebelião anunciada por Alcolumbre, no entanto, nenhum ministro arrisca um palpite sobre o que vem por aí. Para Motta, o governo promove uma “narrativa falsa” e faz “tempestade em copo d’água”.

Na prática, a votação do projeto provocou uma divisão na equipe de Lula. Enquanto o presidente, Haddad e a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, classificaram a proposta que recebeu sinal verde da Câmara como um texto sob medida para enfraquecer o combate ao crime organizado, integrantes do Ministério da Justiça preferiram comemorar os recuos de Derrite.

O deputado comanda a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e é braço direito do governador Tarcísio de Freitas, cotado para desafiar Lula nas eleições de 2026.

Derrite não conseguiu emplacar no projeto apresentado pelo governo a equiparação de facções criminosas a organizações terroristas. Além disso, teve de apagar o trecho que condicionava a ação da Polícia Federal à concordância dos governadores.

Com o ambiente político conturbado no Senado, aliados de Alcolumbre sustentam, no entanto, que “caprichos e intransigências do governo” não terão mais espaço depois da “ingratidão” de Lula ao não indicar Pacheco para o STF.

Questionado sobre quando despachará a indicação de Messias para análise da Comissão de Constituição e Justiça (CJJ), Alcolumbre faz mistério. “Agora é cada um dentro das suas próprias prerrogativas. É assim que vamos analisar os próximos passos”, respondeu.

Foi uma estocada na direção de ministros e líderes do PT, que passaram os últimos dias lembrando que a escolha de ministro do STF é uma prerrogativa do presidente da República.

Messias ainda precisa ter o nome aprovado em uma sabatina da CCJ e, depois, passar pelo plenário do Senado. Pela planilha em mãos de Alcolumbre, se a votação fosse hoje, ele não conseguiria mais do que 31 votos, quando necessita do apoio de, no mínimo, 41 dos 81 senadores.

Diante das resistências, o advogado-geral da União quer conversar primeiro com senadores do Centrão e do PL de Jair Bolsonaro. Diácono da Igreja Batista, Messias tem como cabos eleitorais o ministro do STF André Mendonça e a senadora Eliziane Gama (PSD-MA), também evangélicos.

Mendonça foi indicado por Bolsonaro em 2021 e ficou quase cinco meses esperando Alcolumbre – que era presidente da CCJ – marcar sua sabatina no colegiado.

À época, o senador pressionava o presidente a mudar a escolha e ungir o então procurador-geral da República, Augusto Aras, como ministro da Corte. Não conseguiu.

Quatro anos depois, Alcolumbre quer novamente enquadrar o governo. Agora, porém, não se sabe se ele pretende atrasar o relógio ou obrigar Messias a correr contra o tempo.
Por Vera Rosa/Estadão Conteúdo

Malafaia critica Alcolumbre por vetar Messias: 'Tenta escolher ministro do STF no lugar de Lula, como fez com Bolsonaro'

O pastor Silas Malafaia afirma que não vai "entrar no jogo do [presidente do Senado, Davi] Alcolumbre", que tenta vetar o nome de Jorge Messias, indicado por Lula para o STF (Supremo Tribunal Federal).

"Eu tenho divergências grandes com o Messias. Ele é esquerdopata gospel, e eu não sou. Eu tenho mil diferenças com o Lula. Mas todo mundo sabe que é prerrogativa do presidente da República indicar ministros do STF. E Alcolumbre agora tenta escolher ministro do STF no lugar de Lula, como fez com Bolsonaro", afirma Malafaia.

"Eu tenho memória", segue o pastor. "Eu me lembro quando Alcolumbre jogou pesadíssimo para tentar derrubar a indicação de André Mendonça ao Supremo [feita pelo então presidente Jair Bolsonaro, e que acabou sendo aprovada]. Fez isso porque tinha um candidato dele [para a vaga]."

"Foi uma guerra", relembra Malafaia. "E eu não vou participar desse jogo de Alcolumbre, porque ele também não é confiável. Quando interessa a ele, ele faz o jogo. É só ver o que está fazendo aí com a questão da anistia [o presidente do Senado é contra a votação de um projeto que beneficia Bolsonaro]. E agora a direita vai fazer graça para o Alcolumbre?", questiona. "Eu não vou participar desse joguinho por algum interesse que ele tem."

Malafaia diz ainda que "eu só me levanto contra a indicação de alguém para o STF quando a pessoa cometeu crimes comprovados. Ou quando é comunista, como o Flávio Dino, porque o comunismo foi a revolução que mais massacrou cristão e matou evangélicos", afirma.

Ele afirma ainda que, quando o ministro Cristiano Zanin foi indicado por Lula, não fez oposição. Questionado, ele relembra que respondeu: "Qual é o problema de ele ter sido advogado de Lula? Qual é o crime do Zanin? Advogado é crime? Não, eu não vou ser contra".

"Fora isso, não é prerrogativa do presidente do Senado indicar ministros da Corte", diz. "Quer dizer então que é o Alcolumbre que é o confiável para indicar quem ele quer? Ele está repetindo agora o mesmo jogo que fez com o Bolsonaro. Só porque o Lula é meu inimigo político, então que se lasque? Não, tenha paciência. Minha consciência e meu caráter não permitem que eu faça isso."
Por Mônica Bergamo/Folhapress

Senadores relatam que nunca viram Alcolumbre com "tanto ódio" de Lula com indicação ao STF

Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado/Arquivo
Senadores e deputados que conversaram com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) afirmam que nunca viram ele com tanto "ódio" de Lula como agora, depois que o petista indicou Jorge Messias para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal).

Alcolumbre tinha outro candidato, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que acabou preterido na escolha.

"Ele está virado no Satanás, nunca vi ele tão bravo", afirma um parlamentar que conversou com Alcolumbre nesta sexta (21).

Um senador de oposição relata que nunca viu "esse cara com tanto ódio, irado", e descreve que "a veia dele até saltava do pescoço" ao falar da indicação de Lula, de tão "possesso" que Alcolumbre está.

De acordo com relatos, Alcolumbre passou a mão no telefone e ligou para diversos senadores e deputados da oposição a Lula para dizer que está disposto até mesmo a "romper totalmente com o governo" caso Lula "pressione muito" a favor de Messias.

O placar, até agora, não está definido, dizem os mesmos parlamentares. Por isso, Alcolumbre estaria "jogando tudo" na tentativa de derrotar o presidente.

A bolsonaristas, ele afirmou que só perde para o governo "se vocês me traírem", ou seja, se integrantes da oposição votarem a favor de Messias. É comum que indicados para o Supremo consigam votos entre senadores de todos os partidos.Alcolumbre também tem afirmado aos parlamentares que eles têm uma chance histórica de impor uma derrota ao Executivo.

Se Messias não for aprovado, será a primeira vez em 131 anos que um indicado pelo governo para a Suprema Corte será derrotado _em 1894, cinco indicações do governo de Floriano Peixoto foram rechaçadas.

As movimentações de Alcolumbre estão sendo acompanhadas de perto pelo governo Lula.

Interlocutores do presidente e de Messias afirmam que o senador, que poderia ser parte da solução e do diálogo, está indo para um confronto bruto e terá que ser enfrentado caso se coloque como o principal problema para a aprovação da indicação.

O placar de uma disputa direta de Lula contra Alcolumbre seria apertado.

De acordo com cálculos de parlamentares que conversaram com o presidente do Senado, ele teria o voto de oito a dez senadores completamente alinhados a seus desejos. E poderia contar com 32 da oposição _caso, como insiste com parlamentares bolsonaristas, não seja traído por eles.

Com isso, chegaria aos 41 votos necessários para derrotar o governo.

A votação no Senado para indicações ao STF é secreta.

Por Mônica Bergamo, Folhapress

Quem votou contra o projeto do PL Antifacção tem de se explicar, diz Hugo Motta

O presidente da Câmara dos deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), criticou nesta quarta-feira (19) os colegas que votaram contra o Projeto de Lei Antifacção e disse que eles têm de se explicar. Motta defendeu a escolha de Guilherme Derrite (PP-SP) para a relatoria e criticou a atuação do governo Lula no tema.

Motta disse, em entrevista à Rádio CBN, que a Câmara fez alterações que deixaram a proposta mais dura contra o crime organizado —como pena mínima de 20 aos de detenção, exigência de cumprimento de no mínimo 70% da pena para progressão, sem direito à visita íntima e gravação de todas as conversas com os advogados, entre outras medidas.

Ele chamou de narrativas as avaliações de deputados da base governistas de que as alterações na proposta beneficiariam chefes de organizações criminosas.

"Quem cria essa narrativa é quem não teve coragem de votar a favor ontem dessa proposta que é um anseio da sociedade brasileira. Aqueles que não tiveram coragem de votar a favor da proposta têm que se justificar hoje pela manhã porque ficaram contra aquilo que o povo brasileiro quer", afirmou.

"E quem votou contra tem que hoje dar a sua cara a tapa para dizer por que ficou contra a matéria e não ficar criando narrativas inverídicas. Porque o que nós fizemos foi endurecer o enfrentamento ao crime e nós vamos seguir assim", reforçou.

Motta ainda defendeu a escolha de Derrite para a relatoria da proposta. Segundo ele, era necessário alguém com experiência no tema da segurança pública.

"O deputado Derritte é secretário de segurança do maior estado do Brasil, que é o estado de São Paulo, tem já mais de 20 anos de experiência nesse enfrentamento e fez um trabalho eminentemente técnico. Não houve um debate político. Nem muito menos a construção de uma narrativa visando as eleições do ano que vem, que eu penso que seria a principal preocupação dos integrantes do Poder Executivo", avaliou.

Motta disse também que as "narrativas sobre o papel da Polícia Federal" caíram por terra e que o governo fez uso eleitoral da votação.

"O governo ter ficado contra [o PL], na minha avaliação, foi meramente por narrativa, foi meramente pensando na questão eleitoral. Eu penso que o governo erra quando opta por seguir por esse caminho porque está indo contra aquilo que a sociedade espera", afirmou.

O presidente da Câmara admitiu que a proposta pode ser alterada no Senado, mas evitou adiantar quais pontos ele acredita serem sensíveis.

"Se o Senado trouxer alterações, nós vamos analisar com imparcialidade, com moderação, procurando tratar de maneira técnica o tema, sem apego a nenhuma narrativa. Não há vitória da direita, vitória da esquerda. Há uma vitória da sociedade, que quer morar num país mais seguro, e que cobra das suas autoridades a condição de poder avançar nessa pauta que é tão cara para nós cidadãos brasileiros e eu penso que é isso que a Câmara dos Deputados fez no dia de ontem", disse.

Na terça-feira (18), a Câmara aprovou o projeto de Lei Antifacção por 370 votos a favor e 110 contra, num revés ao Palácio do Planalto, que viu seu projeto ser alterado e tentou adiar a apreciação da matéria após discordar de mudanças feitas. Partidos com representantes na Esplanada dos Ministérios entregaram 60% dos votos favoráveis, em mais um sinal da fragilidade da base aliada no Congresso.

O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), afirmou que a votação do projeto gera uma "crise de confiança" do governo Lula com o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).

"É claro que tem uma crise aqui de confiança, é claro que todo mundo sabe que o presidente [Lula] reclamou muito, é um projeto de autoria do Poder Executivo", afirmou Lindbergh à imprensa após a votação do projeto.
Por Francisco Lima Neto/Folhapress

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