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Master gastou R$ 60 milhões com autoridades da República em Londres, Nova York e Lisboa

"Ministro do STF Alexandre de Moraes fala em painel do Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres, em abril de 2024; evento do Grupo Voto, que recebeu quase R$ 40 milhões do Master, incluiu entretenimento suntuoso em endereços de luxo"

Quando banqueiro, no comando do Master, Daniel Vorcaro acompanhou pessoalmente o desembolso de US$ 11,5 milhões, equivalentes a R$ 60 milhões pela cotação atual, para financiar eventos internacionais de alto padrão, repletos de autoridades, que ocorreram em três momentos de 2024.

As despesas, descritas em documentos coletados pela Polícia Federal, incluem jatinhos para Brasília, shows com dançarinas, troféus de cristal, degustação e distribuição de uísque e muito mais.

Em 2024, o Master bancou toda a agenda do 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres, de 24 a 26 de abril. Menos de um mês depois, estava prestigiando a semana do Brasil em Nova York, de 12 a 18 de maio. A equipe de Vorcaro também atuou em eventos sociais paralelos à 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, de 26 a 28 de junho, mais conhecido como Gilmarpalooza, numa referência ao idealizador, ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

À reportagem, a defesa de Vorcaro disse que não se manifestaria sobre os eventos.

O mais custoso foi o de Londres. Vorcaro desembolsou cerca de US$ 7,5 milhões (R$ 38,7 milhões na cotação atual). Vazamento inicial sobre quem seriam os patrocinadores desse evento chegou a apontar que o principal deles era o Grupo FS, da área de cibersegurança. A Folha apurou que a FS na verdade entrou com R$ 500 mil.

Oficialmente, o fórum foi promovido pelo Grupo Voto para debater contribuições jurídicas em temas como democracia, segurança e estabilidade institucional, e a imprensa não teve acesso às discussões.

Procurado pela Folha, o Grupo Voto disse que não tinha responsabilidade pelo entretenimento em paralelo ao fórum. No entanto, pessoas que participaram do evento afirmaram à reportagem que a agenda para socialização dos painelistas, seus familiares e convidados sempre constou da programação, como é de praxe nesses encontros.

O que chamou a atenção foi o nível de ostentação. O local escolhido para as discussões e a hospedagem foi o hotel Península, endereço sofisticado que custa acima da média até para o padrão de Londres, que já é conhecida como uma das cidades mais caras do mundo.

O orçamento descreve que Vorcaro pagou a locação da área da conferência e também salas de reuniões no hotel, além de acomodações para os convidados. O Master cuidou das despesas para 70 pessoas, das quais 25 participavam do fórum.

O banqueiro ficou responsável por uma noite de homenagem, na véspera da abertura, que ocorreu no Wallace Collection, um museu que tem espaço para recepções de alto nível. A despesa incluiu troféus de cristal. O grande homenageado da noite foi o ex-presidente Michel Temer —que era um dos painelistas na longa lista de altas autoridades.

O banqueiro recepcionou três ministros do STF, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, então presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), e mais cinco ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça): Antonio Saldanha Palheiro, Benedito Gonçalves, Luis Felipe Salomão, Mauro Campbell Marques e Raul Araújo.

Também estavam presentes o ministro Ricardo Lewandowski (Justiça e Segurança Pública), o advogado-geral da União, Jorge Messias, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o presidente do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) à época, Alexandre Cordeiro.

Representando o Legislativo estavam Hugo Motta, que agora preside a Câmara, e o senador Ciro Nogueira, presidente do PP. A iniciativa privada tinha dois painelistas, o fundador do Grupo FS, Alberto Leite, e Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, representando o banco BTG Pactual.

Vorcaro discursou na abertura, que contou com show do cantor britânico Seal. Um dos almoços do evento financiado pelo Master ocorreu no Brooklands, restaurante de atmosfera sofisticada, com duas estrelas Michelin, que fica no oitavo andar do Península. Ao longo da semana, Vorcaro também ofereceu outros encontros em locais luxuosos da cidade, como o Gaia, um restaurante de alta gastronomia com inspiração mediterrânea.

Um profissional que acompanhou a agenda, e falou na condição de não ter o nome citado, disse à Folha que a ostentação foi particularmente impactante no Annabel's, um dos clubes privados mais exclusivos de Londres.

A exuberância da decoração, que mistura rococó francês e art déco, somada às apresentações artísticas montadas pela equipe de Vorcaro, fazia o ambiente parecer cenário da série Bridgerton, da Netflix, que narra a vida social da aristocracia britânica.

O roteiro também incluiu degustação de uísque Macallan, no refinado George Club para os homens, e visita a museu para mulheres. Reportagem do site Poder 360 mostrou que estavam presentes nesse encontro os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

A colunista Mônica Bergamo antecipou na Folha que trocas de mensagens em documentos do caso Master reunidos pela PF mostram que Vorcaro combinava detalhes desse evento em Londres diretamente com o ministro Alexandre de Moraes.

Na viagem seguinte focada em autoridades, na semana do Brasil em Nova York, o Master desembolsou US$ 2,5 milhões (cerca de R$ 13 milhões). Além de novamente circular em eventos oficiais em que atuou como patrocinador, com inúmeras autoridades, Daniel Vorcaro ofereceu encontros paralelos.

Houve nova rodada de degustações, desta vez no Carnegie Club, especializado em uísque e charutos. A prestação de contas detalha que, além dos custos com o open bar, foram gastos US$ 121 mil (R$ 625 mil) com 25 garrafas de uísque Macallan 30 anos para presentear convidados.

Apesar de outros profissionais do Master terem feito a viagem em voo de carreira, Vorcaro mobilizou dois jatinhos que, juntos, podem levar até 28 passageiros. Para esses voos, desembolsou US$ 3.600 (R$ 18,6 mil) só com alimentação.

Em Portugal, o custo ficou em US$ 1,6 milhão (R$ 8,3 milhões), e o roteiro de luxo se repetiu, com DJs, dançarinas, restaurantes e até compras em shopping. A despesa ainda abarcou a locação de dois jatinhos fretados de Lisboa para Brasília, por US$ 232,6 mil (R$ 1,2 milhão), nos dias 28 e 29 de junho. Os jatos foram utilizados por outros participantes do evento, uma vez que Vorcaro seguiu no dia 28 para os EUA.

TEIA DE CONEXÕES

Além dos gastos suntuosos, o avanço de investigações do caso Master tem revelado que Vorcaro estreitou relações, não apenas profissionais, mas também pessoais, com muitas das autoridades que participaram desses encontros —e até com seus familiares.

Tomando como exemplo as presenças no evento de Londres, o Master tinha contrato de R$ 129 milhões com o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes —Viviane Barci de Moraes—, que segundo participantes do evento em Londres, acompanhou o marido.

A família do ministro Dias Toffoli foi sócia do resort Tayayá por meio da empresa Maridt, que detinha participação relevante no empreendimento. Entre 2021 e 2025, essa fatia foi vendida a fundos de investimento ligados ao entorno de Vorcaro, incluindo estruturas associadas ao Banco Master.

A Folha também mostrou que Moraes, Viviane e Toffoli utilizavam jatos da empresa Prime, ligada a Vorcaro.

A reportagem fez contato com os painelistas, por meio das instituições que representavam, para que comentassem sobre o risco de conflito de interesse. Nesses eventos, as agendas pública e privada se misturam em ambientes informais e com entretenimento suntuoso.

As assessorias do STF, do STJ, da AGU, do Ministério da Justiça, do BTG, do senador Nogueira, do empresário Leite e de Faria não enviaram manifestações.

Em nota, a assessoria da PGR afirmou que o procurador-geral da República foi ao evento como palestrante, integrando a programação ao lado de autoridades do Judiciário e de acadêmicos do Brasil e do exterior, e que o convite não mencionou detalhes da organização.

A assessoria do deputado Hugo Motta disse que participação em eventos institucionais é própria da atividade política. "Cabe a cada parlamentar decidir, em cada caso em que é convidado, pela sua presença, independentemente de quem os organiza e promove: seja órgão da mídia, empresas, instituições financeiras ou acadêmicas", afirmou o texto.

Por meio da assessoria de imprensa, Lewandowski disse que foi a Londres como painelista, e que, como então ministro da Justiça, aproveitou a viagem para cumprir agendas de interesse da pasta. Lá, firmou com autoridades inglesas um acordo para o combate ao crime organizado, incluindo corrupção e lavagem de dinheiro.

A assessoria da PF, em nota, destacou que o diretor-geral da instituição também cumpriu agendas oficiais, e que participou como painelista, sem acompanhante familiar. "Os resultados das ações da Polícia Federal evidenciam que a participação do diretor-geral em eventos dessa natureza em nada afeta o cumprimento das atribuições constitucionais e legais da Instituição", disse o texto.

O Cade enviou nota afirmando que faz parte de suas atribuições como órgão da concorrência estar presente em eventos institucionais que tratem de suas funções.

A assessoria do ex-presidente informou que Michel Temer exige saber a fonte pagadora quando contratado para os eventos, mas que no caso do fórum em Londres foi a convite e também homenageado.

O Grupo Voto, em nota, disse que foi responsável apenas pela organização e curadoria e que os patrocinadores, como ocorre nesse tipo de evento, arcaram com as despesas. "Ressaltamos que este foi o único projeto realizado com o patrocínio do Master e que, à época, não havia qualquer suspeita pública sobre a instituição financeira, cujas investigações só vieram à tona no final de 2025", afirmou o texto.Por Alexa Salomão, Joana Cunha e Dani Braga, Folhapress

Ciro Nogueira voou oito vezes em avião de sócio da JBS

Ciro Nogueira
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) fez oito voos em 2025 no avião de um sócio da JBS na subsidiária de terminais marítimos da empresa, indicam documentos obtidos pela Folha.

O avião utilizado pelo parlamentar é um Embraer 500 prefixo PR-VEL que pertence à empresa Aerovista, registrada em Santa Catarina. Dados da junta comercial do estado mostram que ela pertence ao advogado Roberto Carlos Castagnaro, sócio da JBS Terminais.

Ciro Nogueira não quis comentar.

A JBS disse em nota que não dispõe de informações sobre aeronaves que não lhe pertencem e sobre as quais não exerce qualquer controle. "A Companhia aguarda que a reportagem esclareça qual seria o nexo causal entre suas operações e o fato relatado, dado que o objeto da apuração é totalmente alheio à JBS."

Castagnaro confirmou por meio de sua assessoria de imprensa que emprestou o avião para o senador. "O Castagnaro não tem negócio algum com o setor público. O Ciro não pode fazer favor algum pro Roberto. Agora, o senador é um cara muito querido. Quem pode ajudar ele, ajuda", afirmou sua assessoria.

O advogado virou sócio da JBS no negócio por ter visto a oportunidade e juntado as pontas, explicou. Com isso, ficou com 15% da operação. Ele tem outros negócios, como rádios em Santa Catarina.

A Aerovista foi criada em 19 de agosto de 2024. O único acionista da empresa é a RCC Administração Patrimonial, que pertence a Castagnaro.

A RCC comprou o avião PR-VEL por R$ 12,5 milhões em 25 de novembro de 2024. Quem vendeu o jato foi a empresa Fraction 033, que pertence à Prime Aviation, empresa que tinha como sócio Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master.

O avião estava com a subsidiária da Prime Aviation desde março de 2024, primeiro como arrendadora e, a partir de novembro do mesmo ano, como proprietária ao pagar o saldo devedor de R$ 5,1 milhões.

No mesmo dia que comprou o avião da Fraction 033, a RCC passou o avião para sua subsidiária, a Aerovista, com quem permanece até hoje.

Os registros de entrada no terminal executivo de Brasília mostram que outros parlamentares pegaram carona nos voos realizados pelo ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL) no avião de Castagnaro.

O que mais aparece é o deputado federal Julio Arcoverde (PP-PI), aliado de Ciro Nogueira. Ele esteve com o senador em quatro voos diferentes.

Já os deputados Dudu da Fonte (PP-PE), Lula da Fonte (PP-PE) e Atila Lira (PP-PI), a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, viajaram uma vez cada um com Nogueira.

Arcoverde disse que não falaria porque não sabia de quem era o avião Os demais parlamentares não responderam aos questionamentos da reportagem.

O primeiro voo aconteceu em 2 de fevereiro, um domingo. Não é comum parlamentares estarem em Brasília no fim de semana, mas no dia anterior, ocorreram as eleições para a presidência do Senado e da Câmara dos Deputados.

Ciro Nogueira e Julio Arcoverde entraram às 17h30 no terminal e o jato PR-VEL decolou para Teresina (PI) às 17h42.

Em 14 de março, uma sexta-feira, Nogueira e Arcoverde chegam no terminal às 7h30. Eles estão acompanhados dos deputados Dudu da Fonte e Lula da Fonte, que são pai e filho, respectivamente.

O jato utilizado recorrentemente por Ciro decolou às 7h58 para Araripina (PE), cidade perto da fronteira entre Pernambuco e Piauí. De lá, ele seguiu para Teresina.

Em 24 de abril, também uma sexta-feira, Nogueira chega às 9h30 no terminal. No mesmo horário estão registradas as entradas de Arcoverde e Atila Lira. O jatinho PR-VEL decola às 9h57 para Teresina

O avião viajou novamente para Teresina em 5 de junho, uma quinta-feira. Ele decolou às 7h28. O senador chegou no terminal às 7h.

No mesmo mês, em 27 de junho, uma sexta-feira, Nogueira chegou às 5h30 no aeroporto e o avião da Embraer decolou às 5h49.

O senador utilizou o avião em 10 de julho, uma quinta-feira, para ir ao aniversário do ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), em Uberaba. Nogueira e Rueda chegaram no aeroporto às 18h30 e o avião PR-VEL decolou às 18h49.

Em 21 de agosto, Nogueira utilizou o jato para um evento político do PP em Cuiabá. Ele e a senadora Tereza Cristina (PP-MS), cotada para vice na chapa presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), chegaram no terminal às 9h. O jato PR-VEL decolou às 9h21 para o Mato Grosso.

No mês seguinte, em 30 de outubro, o terminal executivo do aeroporto de Brasília registram a entrada de Nogueira e o deputado Julio Arcoverde às 8h45. O jato da Aerovista decolou às 9h07 para Teresina.

O último voo de Nogueira no avião saindo de Brasília aconteceu em 11 de dezembro. Ele chegou às 12h30 daquele dia no terminal e o avião decolou às 12h35 com destino a Araripina (PE) e em seguida a Teresina (PI).

Por Lucas Marchesini e Mônica Bergamo/Folhapress
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Lula faz cobrança pública a integrantes do STF e diz que ministro não pode querer ser milionário

Presidente mostra afastamento do tribunal em meio a investigações do caso Master
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cobrou publicamente ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) nesta quarta-feira (8) e disse que integrantes da corte não podem ficar milionários. A fala mostra um afastamento do tribunal, do qual o petista foi próximo ao longo do atual mandato.

A declaração do petista foi dada em um contexto de desgaste da corte causado pelo caso do Banco Master. Os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli são citados no escândalo.

"Quando se vai para a Suprema Corte, tem que fazer um compromisso quase religioso. Ele não está lá para ganhar dinheiro", disse o presidente da República. "Se o cara quer ficar milionário, não pode ser ministro do Supremo", afirmou Lula.

O chefe do governo também defendeu que os ministros expliquem quando são publicamente ligados a irregularidades. O petista deu as declarações em entrevista ao ICL Notícias.

"É preciso uma explicação convincente para a população. Se tem algum membro do Supremo que cometeu um desvio, que esse cidadão pague. Não a instituição", declarou Lula.

O chefe do governo defende que a Constituição determine as exigências de conduta para os integrantes do Supremo, em vez de um código com regras internas. O presidente do tribunal, Edson Fachin, tem defendido a criação de um código de conduta para os ministros.

"Você tem que ter na Constituição melhor quais exigências se faz para ser ministro do Supremo", declarou o chefe do governo.

Lula está irritado há meses com o desgaste político causado pelo Banco Master. O chefe do governo avalia que tem arcado com a perda de popularidade mesmo sem ter nada a ver com o escândalo.

O presidente cultivou uma relação próxima com o Supremo Tribunal Federal ao longo do seu atual mandato, e teve na corte uma de suas principais fontes de apoio. Por isso a exposição de seu descontentamento tem significado político amplificado.

Na entrevista desta quarta-feira, ele também criticou as frequentes viagens de ministros da corte para participar de eventos no exterior. E afirmou ter conversado com Alexandre de Moraes sobre o caso Master.

Lula, de acordo com o próprio relato, disse a Moraes que ele teve um papel importante no processo da trama golpista e que ele precisa preservar a própria biografia.

Como mostrou a Folha em janeiro, a irritação do petista com as ligações expostas entre ministros do Supremo e o Banco Master é tamanha que ele chegou a afirmar, em conversas reservadas, que Dias Toffoli deveria deixar o supremo.

Moraes passou a ser citado no escândalo do Banco Master depois de um contrato entre a empresa e o escritório da advogada Vivane Barci, mulher do ministro, chegar ao conhecimento público. No caso de Toffoli, o elo seria o resort Tayayá.

Por Caio Spechoto, Folhapress

Comissão do Senado aprova fim da aposentadoria compulsória para juízes

A senadora Eliziane Gama (PSD-MA), relatora do texto na CCJ do Senado
A CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) do Senado aprovou nesta quarta-feira (8) uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que determina o fim da aposentadoria compulsória como punição para juízes, desembargadores e membros do Ministério Público que cometerem crimes.

A PEC é de autoria do então senador Flávio Dino, que hoje é ministro do STF. A proposta foi aprovada em votação simbólica, sem contagem de votos, e agora segue para o plenário.

O texto, relatado pela senadora Eliziane Gama (PSD-MA), acatou emendas que estabelecem que o magistrado passará por uma ação cível, para julgar a suposta infração e determinar a demissão. Nesse período da ação, que terá um prazo de até 30 dias para ser proposta, o servidor será afastado do cargo e terá remuneração suspensa.

O texto original obrigava ainda militares que cometessem infrações a serem demitidos. No entanto, após destaque de emenda do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), os membros das Forças Armadas ficaram de fora da proposta.

Hoje, a aposentadoria compulsória é a punição máxima mais comum aplicada a membros de Poder que cometerem infrações. A demissão também pode ocorrer, mas apenas após decisão judicial transitada em julgado —no geral, referente a crime comum. Isso porque magistrados e membros do Ministério Público têm direito a vitaliciedade, adquirida após dois anos de exercício.

Com a aposentadoria, esses membros de Poder têm direito a receber salário proporcional ao período em que atuaram. Como mostrou reportagem da Folha, juízes que sofrem com essa punição recebem, em média, R$ 54.441. Apenas 1% das punições a juízes resultam em demissão.

Segundo a justificativa da PEC, essa punição é um desvio da finalidade da aposentadoria.

"A aposentadoria, portanto, assume caráter de sanção, o que corresponde ao desvio de finalidade dessa espécie de benefício previdenciário que visa assegurar ao trabalhador condições dignas de vida quando não mais for possível o desenvolvimento de atividade laboral."

Uma das preocupações da categoria era a inserção de texto que possibilitaria o fim da garantia da vitaliciedade para esses servidores. O tema também repercutiu entre associações de juízes, desembargadores e membros do MP, que tentaram frear o avanço da proposta.

A ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) afirmou, em nota pública, que sugestões de adendos à proposta podem avançar "sobre o núcleo da garantia constitucional da vitaliciedade dos membros do Ministério Público e da magistratura".

Na terça-feira (7), entidades da categoria estiveram na CCJ para se posicionar contra o fim da aposentadoria compulsória.

O texto foi debatido pela relatora Eliziane Gama e o senador Sergio Moro (PL-PR). Na última sessão, em março, Moro havia pedido vista para avaliar a matéria.

No STF, o ministro Flávio Dino também tomou a decisão de dar fim à aposentadoria compulsória como punição a magistrados. A PGR recorreu da determinação do ministro no fim de março.

Em tese, a determinação se aplica apenas ao caso concreto do processo em que ele proferiu a ordem, segundo especialistas consultados pela Folha. Mas o despacho de Dino pode abrir precedente para outros órgãos, deixando de aplicar esse tipo de punição. Como não passou pelo plenário, a decisão é menos robusta.

Por Luany Galdeano, Folhapress

Documentos da Receita indicam pagamento de R$ 40 mi do Master a escritório de mulher de Moraes

Alexandre de Moraes
Documentos da Receita Federal enviados à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Senado que investiga o crime organizado indicam que o Banco Master, de Daniel Vorcaro, pagou R$ 40,11 milhões ao escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes, o Barci de Moraes Sociedade de Advogados, em 2024.

Procurado, o Barci de Moraes disse que "não confirma essas informações incorretas e vazadas ilicitamente, lembrando que todos os dados fiscais são sigilosos". O escritório não quis informar qual seria o valor correto dos pagamentos. Moraes foi procurado, mas não se manifestou até a publicação deste texto.

Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), é uma das sócias do escritório, e admitiu que manteve contrato com o Master.

Os pagamentos aparecem em uma declaração de Imposto de Renda do Master, que teve seu sigilo fiscal quebrado pela CPI do Crime Organizado.

O contrato do Master com o escritório Barci de Moraes foi assinado em 2024. Previa o pagamento mensal de R$ 3,5 milhões, num total de R$ 129 milhões em três anos, segundo informações divulgadas pelo jornal O Globo.

Os dados da Receita obtidos pela Folha mostram que o banco declarou 11 pagamentos mensais de R$ 3.646.529,72 ao escritório em 2024, totalizando R$ 40.111.826,92. Sobre esses pagamentos, o Master informou ter recolhido R$ 2.466.877,38 em impostos retidos na fonte.

Nesta terça-feira (7), durante a sessão plenária do Senado, o relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), anunciou que os dados haviam sido entregues à comissão. Ele afirmou que a Receita Federal teria enviado dados incompletos sobre o banco e que a complementação das informações chegou apenas na segunda (6).

"Mesmo com a quebra de sigilo aprovada pela Comissão Parlamentar de Inquérito e não suspensa pela Justiça, a Receita Federal do Brasil mandou os dados incompletos. Foi preciso solicitar a reiteração, a complementação, para que chegasse o dado bancário que comprova o recebimento e a dedução de impostos pelo escritório da doutora Viviane Barci. Só em um ano, R$ 40 milhões recebidos. Contraprestação de serviço? A própria doutora Viviane já publicizou: nada que justifique esse valor", disse o senador.

O contrato do Master com o escritório previa 36 pagamentos, mas foi interrompido em novembro de 2025, quando a instituição de Daniel Vorcaro foi liquidada pelo BC (Banco Central) e o ex-banqueiro foi preso.

A defesa de Vorcaro também foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou.

No mês passado, o Barci de Moraes confirmou que prestou serviços de consultoria e atuação jurídica ao banco entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, período em que realizou 94 reuniões de trabalho. De acordo com o escritório, 79 delas foram presenciais, na sede do Master.

O Barci de Moraes diz ainda que produziu 36 pareceres e opiniões legais sobre compliance, regulação, questões trabalhistas e previdenciárias, entre outros temas.

Afirmou também que a contratação pelo banco envolveu o trabalho de 15 advogados e ainda serviços de outros três escritórios especializados em consultoria.

Disse que a equipe jurídica ajudou a implementar o novo código de ética e conduta do banco e que nunca conduziu nenhuma causa no âmbito do STF.

Também nesta terça-feira, Vieira teve uma reunião com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para pedir a prorrogação da CPI do Crime Organizado, mas a resposta foi negativa. Com isso, a comissão será encerrada na próxima terça-feira (14), com a votação do relatório final.

Segundo Vieira afirmou à imprensa, Alcolumbre preferiu não estender a CPI em meio ao período eleitoral, o que o senador classificou como um "desserviço para o Brasil".

Em dezembro, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, determinou o arquivamento de um pedido de investigação sobre a possível atuação de Moraes no caso Master. O autor era o advogado Enio Martins Murad.

Na ocasião, Gonet disse não ter vislumbrado "qualquer ilicitude" que justificasse a intervenção da Procuradoria-Geral. Disse que não seria de sua competência "a ingerência em negócios jurídicos firmados entre particulares".

Por Thaísa Oliveira, Carolina Linhares e Mateus Vargas/Folhapress

Facções criminosas usam vídeos de dança e emojis para alcançar público jovem nas redes sociais

Meta diz que mantém campanha educativa para evitar que usuários interajam com conteúdo potencialmente perigoso.
Dois traficantes de costas segurando rifles em suas mãos
Dancinhas com objetos na cintura que simulam armas de fogo, músicas de funk e emojis viraram ferramenta para expandir a influência de facções criminosas entre os mais jovens nas redes sociais.

Esse fenômeno é conhecido entre especialistas como narcocultura digital e descreve a apropriação de símbolos, estéticas e narrativas do mundo do crime pelos ambientes virtuais, especialmente em plataformas como o Instagram e o TikTok.

Em muitos casos, o conteúdo se apresenta como tendência. Vídeos que replicam coreografias populares incorporam gestos e objetos que remetem a armas de fogo. As trilhas sonoras com batidas de funk trazem menções diretas a organizações criminosas.

Para entender o alcance desse tipo de conteúdo, a reportagem fez um teste para ver se o algoritmo das redes pode sugerir esse tipo de conteúdo.

A reportagem criou um perfil no Instagram, sem qualquer histórico de navegação, e passou a consumir vídeos que, a princípio, não faziam apologia ao crime nem a facções criminosas —como registros de bailes funk, gravações de manobras em motos e conteúdos de humor associados à periferia.

Ao longo da navegação, porém, o algoritmo passou a associar esse universo a publicações sobre facções e começou a recomendar esse tipo de conteúdo. Em menos de 30 minutos, a plataforma já tratava postagens ligadas a facções como de interesse do usuário.

Procurada, a Meta afirmou, em nota, que mantém no Brasil uma campanha educativa voltada à conscientização de jovens sobre conteúdos potencialmente perigosos. A empresa informou ainda que removeu as publicações identificadas pela reportagem e que colabora com autoridades de investigação, nos termos da legislação aplicável.

Entre os conteúdos mostrados com mais frequência estavam imagens de supostos integrantes de facções, com rostos e armas encobertos por emojis de símbolos associados a esses grupos.

O emoji de urso aparece como referência a Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho no Rio de Janeiro. Ele é ligado ao tráfico na região da Penha e dá nome ao grupo conhecido como Tropa do Urso, associado a ações armadas da facção.

Os conteúdos indicados pelo algoritmo aparecem em formatos de edits, que são vídeos curtos com músicas de funk ou trap, efeitos visuais e cortes rápidos. Além de imagens, a reportagem também encontrou postagens feitas por supostos integrantes de facções que atuam como influenciadores.

Lideranças criminosas viraram personagens envoltas em trilhas dramáticas e efeitos visuais. A estética se aproxima da cultura pop, juntando o universo do crime a referências comuns ao entretenimento digital.

Mais do que visibilidade, essa subcultura vende uma ideia. A de ganhos rápidos, reconhecimento e poder. Em paralelo, práticas como o estelionato digital são normalizadas e até celebradas. Nas redes, recebem apelidos como raul e bigode, termos usados para designar criminosos que aplicam golpes online.

O padrão se repete, com elementos visuais simples e de fácil replicação combinados a símbolos que funcionam como marcadores de pertencimento, enquanto usuários levantavam a bandeira da mesma facção na seção de comentários.
Por Felipe Bramucci/Folhapress

Facções criminosas fazem aliança com máfias internacionais e diversificam negócio, diz secretário da OEA

Ivan Marques
O lucro do crime organizado na América Latina deixou de se concentrar exclusivamente no narcotráfico e passou a se estruturar como uma engrenagem diversificada de negócios ilícitos, segundo o secretário de Segurança Multidimensional da OEA (Organização dos Estados Americanos), Ivan Marques.

De acordo com ele, organizações transnacionais operam sob a lógica da convergência criminal, em que a cocaína é somente uma das fontes de receita, cedendo espaço a diferentes atividades ilegais numa cesta ampliada de lucros.

Essa estrutura torna o crime organizado altamente fluido, com atuação que se estende por mercados que vão do tráfico de armas e de pessoas ao comércio ilegal de fauna, exploração sexual, extorsão, extração clandestina de madeira e ouro, além da mistura entre negócios legais e ilegais.

Diferentemente da lógica dos grandes cartéis do passado, hierarquizados e centralizados –como o de Pablo Escobar–, essas organizações passaram a operar em redes independentes e mais flexíveis.

Em vez de concentrar o controle da cadeia, grupos transnacionais firmam alianças com atores locais, de gangues a estruturas de base territorial que, em alguns países da América Latina, chegam a ter caráter familiar ou atuação restrita, para garantir distribuição, logística e capilaridade.

No Brasil, facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho já atuam além das fronteiras. Como mostrou a Folha, elas mantêm negócios em ao menos 20 países. Evidências recentes indicam que o faturamento das duas facções já não depende majoritariamente do tráfico de drogas, mas de um portfólio diversificado de atividades ilícitas.

Ao ampliar o olhar para além do Brasil, entram em cena os cartéis mexicanos, como o Jalisco Nueva Generación, e também organizações mafiosas europeias com atuação nas Américas. Máfias albanesas, italianas, húngaras e croatas integram uma espécie de coalizão transnacional que opera de forma articulada.

"A rede transnacional é composta por grupos locais menores para dar vazão a um mercado de ilícitos bastante variado. O controle de toda cadeia de produção e logística é disperso entre múltiplos grupos delinquentes, assim como o risco. O objetivo é, de modo geral, o lucro, mesmo que a violência seja uma das consequências dessas operações", disse.

Marques aponta que o tráfico de drogas segue como eixo central na região. As Américas concentram a produção da cocaína consumida no mundo, o que mantém o tema sob atenção permanente.

Ao mesmo tempo, a Secretaria de Segurança Multidimensional da OEA monitora novas frentes de ameaça, como o avanço dos crimes cibernéticos, o controle de materiais biológicos e radioativos. Há uma migração crescente da extorsão e dos roubos tradicionais para o ambiente digital, fenômeno do qual o Brasil figura entre as principais vítimas globais.

Ele também demonstra preocupação com o Caribe, onde o perfil da criminalidade vem se tornando mais violento e armado. A OEA tem prestado assistência técnica a países da região e da América Central, especialmente para reduzir o tráfico de armas e munições.

Outro ponto de alerta é o desvio de explosivos de operações de mineração lícitas para as mãos de organizações criminosas. Para enfrentar esse cenário, têm sido estruturados planos estratégicos regionais, como o acordo firmado por sete países da América Central para intensificar o combate ao tráfico de armas.

Na avaliação de Marques, o enfrentamento eficaz do crime organizado transnacional exige uma mudança de paradigma: sair de um modelo centrado exclusivamente na ação policial e avançar para uma lógica de cooperação interagências.

Entre as medidas defendidas está a criação de grupos de investigação conjunta, a exemplo do que já ocorre no Brasil, onde a Receita Federal atua no rastreamento financeiro e na lavagem de dinheiro, enquanto polícias federal e estaduais e Gaecos (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público investigam a estrutura das facções e conduzem operações.

O Brasil é citado como um país que já possui maturidade em operações interagências. Ele cita como exemplo de sucesso a Operação Carbono Oculto, que desestruturou uma organização criminosa sem disparar um único tiro.

"Parece algo óbvio, mas ainda é pouco explorado na América Latina e no Caribe. As agências de segurança, como polícias, Ministérios Públicos, aduanas, muitas vezes não se comunicam. A criação desses grupos integrados, como forças-tarefa multiagências exclusivas à investigação ao crime organizado transnacional, é uma inovação institucional", afirma.

Marques também classifica como fundamental a liderança brasileira na criação de uma base de coordenação da Interpol na Argentina, com participação de países da América do Sul.

Para ele, a cooperação diplomática é o caminho que deve ser trilhado pelo Brasil, a despeito de iniciativas na região apostarem na militarização do enfrentamento ao crime organizado.

À frente da Secretaria de Segurança Multidimensional, Marques tem como principal projeto a criação de uma rede regional de combate ao crime organizado transnacional, baseada na replicação de operações nos países-membros.

A organização quer impulsionar que os países a trabalhem alinhados para facilitar a troca de informações, além de atuar em operações coordenadas.

Por Paulo Saldaña/Folhapress

STF e PGR preveem dilema se delação de Vorcaro implicar Toffoli e Moraes


 O STF (Supremo Tribunal Federal) e a PGR (Procuradoria-Geral da República) preveem enfrentar um dilema caso a delação premiada do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, prospere e atinja os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que tinham ligações com o ex-banqueiro.

Autoridades avaliam que essa possibilidade representará um desafio para a atuação tanto do relator da investigação, André Mendonça, como do procurador-geral da República, Paulo Gonet —ambos têm relações cordiais com os dois ministros.

Interlocutores de Mendonça e Gonet afirmam, sob reserva, que a situação deve exigir dos dois um ponto de equilíbrio entre agir com prudência, por um lado, e levar a investigação adiante se houver evidências contra os ministros, por outro.

Mendonça tem afirmado a pessoas próximas que a investigação não pode se prestar a prejulgamentos ou perseguições, mas que, se as provas do processo demonstrarem o envolvimento real de seus colegas na teia de Vorcaro, vai trabalhar com seriedade e seguir em frente.

Segundo relatos feitos à Folha por interlocutores de Mendonça, ele leva em conta o fato de que a opinião pública exige respostas sobre as fraudes financeiras do Master e, havendo evidências concretas de irregularidades, não aceitará que Toffoli e Moraes se livrem das consequências por coleguismo.

O argumento sobre a expectativa da sociedade foi recentemente usado por Mendonça no caso dos desvios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), mas não é bem aceito por uma ala do tribunal. Esse grupo entende ter sido esse um dos principais equívocos da Operação Lava Jato e prega cautela para que excessos não se repitam.

Sob reserva, um ministro disse à Folha que Mendonça deveria ter cuidado para não supervalorizar informações que não sejam objetivamente criminosas, sob pena de minar a confiança da população no Judiciário e sujeitar a corte e seus integrantes a uma nova onda de ataques.

Em etapas iniciais das negociações para um acordo de delação, advogados que representavam Vorcaro chegaram a sugerir aos investigadores que não fossem mencionados ministros do Supremo. A ideia foi rechaçada porque não se pode dar ao delator a prerrogativa de selecionar quem entregar e quem poupar.

Como mostrou a Folha, para que a delação seja homologada por Mendonça, Vorcaro terá de apresentar provas inéditas e indicar a possibilidade de recuperação dos valores obtidos de forma fraudulenta. Os termos do acordo estão sendo negociados em conjunto pela PGR e pela PF (Polícia Federal).

Mendonça foi um dos defensores de Toffoli na reunião secreta ocorrida em fevereiro entre os integrantes da corte para debater o relatório apresentado por investigadores com menções ao colega. Ele considerou que os fatos apresentados até ali não eram suficientes para considerar o magistrado suspeito.

O episódio provocou uma indisposição do tribunal com a cúpula da PF, uma vez que os ministros, incluindo Mendonça, entenderam que o órgão não apenas identificou citações a Toffoli, mas se excedeu e realizou uma investigação sem supervisão do Supremo, o que seria irregular.

Uma autoridade próxima a Gonet avalia que, tecnicamente, não se pode aceitar um acordo "pela metade", em que Vorcaro deliberadamente opte por deixar de fora determinadas autoridades. Ao mesmo tempo, admite que eventuais citações a Toffoli e Moraes colocariam o procurador-geral, conhecido por seu perfil discreto, em uma situação delicada.

As menções a Toffoli e Moraes no celular de Vorcaro, apreendido pela PF no âmbito da Operação Compliance Zero, estão no centro da crise de imagem atualmente vivida pelo tribunal. O presidente do STF, Edson Fachin, segue em um fogo cruzado sobre como lidar com a intensificação dos desgastes.

As mensagens envolvendo Toffoli apontam para pagamentos feitos à empresa Maridt, que tem o ministro entre os sócios. A Maridt vendeu participação no resort Tayayá, no Paraná, a um fundo de investimentos usado na engrenagem de fraudes do Master. O magistrado diz que a transação foi devidamente declarada e nega ser amigo ou ter recebido dinheiro de Vorcaro.

Já em relação a Moraes pesa o contrato de R$ 129 milhões que o escritório da sua mulher, a advogada Viviane Barci, firmou com o Master para representar os interesses da instituição financeira na Justiça. O ministro também teria trocado mensagens com Vorcaro no dia em que o empresário foi preso, o que ele nega.

Documentos obtidos pela Folha apontam ainda para oito viagens feitas por Moraes e Viviane em jatos executivos de empresas de Vorcaro entre maio e outubro de 2025. O gabinete do ministro afirmou que ele "jamais viajou em nenhum avião de Vorcaro ou em sua companhia".

Outro ministro que foi atingido pelo caso Master é Kassio Nunes Marques. Documentos indicam que ele viajou em um avião da Prime Aviation, empresa que tinha Daniel Vorcaro como um dos sócios, de Brasília para Maceió, em novembro.

A viagem foi organizada e paga pela advogada Camilla Ewerton Ramos, de acordo com o próprio ministro. Ela atua para o banco.

Por Luísa Martins e Ana Pompeu/Folhapress

'O STF precisa de reformas, pois o rei está nu', diz José Dirceu

Aos 80 anos, e duas décadas depois de ser cassado pela Câmara dos Deputados no que ficou conhecido como escândalo do mensalão, em 2005, José Dirceu (PT) vai disputar as eleições para tentar retornar ao Legislativo.

Em entrevista à reportagem, ele se diz otimista com a possibilidade de Lula (PT) se reeleger presidente, mesmo com o opositor Flávio Bolsonaro (PL) empatando nas pesquisas.

"O PT tem o que apresentar. Deu estabilidade institucional ao país. Deu inflação baixa, crescimento, manteve o Brasil fora de conflitos internacionais, conduziu bem as relações com os EUA", diz.

Em caso de derrota, afirma que "Lula vai liderar o país" na oposição, já que Flávio, mesmo eleito, não estaria "à altura" do desafio.

Dirceu afirma ainda que a delação do banqueiro Daniel Vorcaro, se vingar, levará o país a reformas que já se mostram inadiáveis -ou, como diz, a um "freio de arrumação geral".

Ele inclui nisso a necessidade de o STF (Supremo Tribunal Federal) se autorreformar. "Quando uma pesquisa mostra que 70% das pessoas querem que o Supremo mude, a corte tem que fazer uma autorreflexão. Desconhecer a opinião pública é um erro", afirma.

"O Supremo não precisa ter medo de debater com o país", diz, afirmando que, se isso não ocorrer, uma maioria pode se formar no Parlamento para impor essas mudanças à corte.

"Vai ser pior", afirma o ex-ministro.

PERGUNTA - A desaprovação do governo aumentou e Flávio Bolsonaro encostou em Lula nas pesquisas. O PT pode perder as eleições?

JOSÉ DIRCEU - Em 2014, 2018 e 2022 também foi assim [com o vencedor começando atrás nas pesquisas].

Não há novidade. O governo vinha em ascensão. A pauta da reforma tributária e do BBB [cobrar impostos de bancos, bets e bilionários] tinha amplo respaldo da opinião pública, bem como o debate da [escala de trabalho] 6x1.

Eram pautas que estavam pegando, junto com a defesa da nossa soberania. Mas os casos do [Banco] Master e do INSS [de descontos indevidos de aposentados] e a tentativa de envolver nele o Fábio Luís [filho do presidente Lula] acabaram mudando a agenda do país.

P - Os escândalos se sobrepuseram a tudo.

JD - Sim. E nós vamos disputar essa eleição para discutir os problemas do Brasil ou, novamente, a corrupção?

O [ex-presidente] Jânio [Quadros] ia acabar com a corrupção, o [Fernando] Collor ia acabar com a corrupção, o [Jair] Bolsonaro também. A ditadura militar se dizia contra a corrupção. E deu no que deu.
Eu, de verdade, acredito que nós temos condições de retomar a pauta que interessa o país.

P - O senhor acredita mesmo que será possível mudar de assunto?

JD - Tem que mudar. O Brasil tem problemas muito mais graves para enfrentar e resolver, como a guerra, a desestruturação da Petrobras, a segurança pública, a educação, a ciência e a tecnologia.

O mundo está mudando e o país precisa correr atrás da revolução tecnológica. Ou debatemos os problemas do país, e cada candidato apresenta a sua proposta, ou vamos iludir o Brasil de que o nosso principal problema é a corrupção.

P - O presidente Lula não estimulou também essa pauta ao dizer, por exemplo, que queria chegar aos "magnatas da corrupção"?

JD - Eu não vou julgar o que o Lula falou.

Eu quero debater: quem é o candidato que nós vamos enfrentar? Vamos colocar o Brasil nas mãos do Flávio Bolsonaro, que vai entregar os nossos recursos naturais ao Trump? Que vai liberar o acesso às terras raras aos EUA? Que vai liberar as big techs?

Vamos voltar à órbita exclusiva dos EUA? O Brasil é uma potência, um dos maiores países do mundo. Flávio Bolsonaro está à altura de governar o país nessa crise mundial? O Lula já mostrou que está.
Nós temos que fazer essa agenda prevalecer, com um projeto de desenvolvimento de dez anos para o país.

P - Além do Flávio Bolsonaro, a campanha deve ter candidatos de uma possível terceira via.

JD - Falar que o [ex-governador de Goiás] Ronaldo Caiado [lançado pré-candidato pelo PSD] é terceira via...[rindo] ele está à direita do Flávio Bolsonaro.

E o Flávio agora quer se apresentar como moderado. Mas ele é filho, indicado e preposto de Jair Bolsonaro.

O mais provável é que percam, porque nós estamos no governo. Eles é que têm que ganhar de nós.

P - Bolsonaro estava no governo em 2022 e perdeu para o Lula. E Flávio está mostrando que não será um candidato fácil de ser derrotado, como dizia o PT.

JD - Não é fácil derrotar ninguém no mundo de hoje. Só o Trump está caminhando para uma derrota, que fez por merecer. Na América Latina, todas as eleições têm sido muito equilibradas.

P - Mas a direita está em vantagem. Governa a Argentina e acaba de ganhar no Chile.

JD - Mas no Chile eles não têm a Câmara e o Senado. Na Argentina, é muito difícil também fazer essa maioria.

Nós estamos vivendo um período de crescimento da extrema direita no mundo, mas ela não é invencível.
Não podemos entrar em uma perspectiva de que não somos fortes. Nós somos muito fortes. Já ganhamos cinco eleições no Brasil.

P - Há alguma possibilidade de Fernando Haddad substituir Lula como candidato?

JD - Zero. Zero. Haddad está tocando a campanha como candidato ao governo. Eu vou sair daqui para almoçar no comitê dele, inclusive.

P - Mas, se Lula perder, e Haddad também for derrotado em SP, a situação do PT não se complica? A esquerda não fica sem uma referência viável para o futuro?

JD - Não acredito nessa hipótese. Mas, se ocorrer, nós, do PT, já mostramos que somos capazes de sobreviver.

Primeiro: somos democratas, respeitamos o resultado. Segundo, fazemos oposição e reconquistamos o governo. Dilma sofreu um golpe. Lula foi preso. Fomos capazes de resistir, disputar as eleições e reeleger o presidente.

Acreditar que nós, por causa de uma derrota, não seremos capazes de dar continuidade a um projeto não corresponde aos fatos.

Lula [mesmo derrotado] vai liderar o país. Porque eu não acredito que o Flávio Bolsonaro, mesmo eleito, consiga fazer isso. O Brasil está caminhando pra uma crise institucional. Alguma reforma vai ter que ser feita.

P - O Brasil caminha para uma crise ou já está mergulhado nela, com o caso do Banco Master e de Daniel Vorcaro sendo a sua face mais evidente?

JD - Temos que ter frieza e serenidade para discutir uma reforma política e institucional no Brasil, que distribua renda, que implante a fidelidade partidária.

A opinião pública mudou. Aquela de 5 milhões de pessoas já era. Hoje, se cair o teto aqui nessa entrevista, em cinco minutos, 60 milhões, 80, 100 milhões de pessoas ficam sabendo. É com essa opinião pública que temos que dialogar.

P - O STF foi arrastado para a crise. Como o senhor vê o desgaste da corte?

JD - Temos que reafirmar o papel do STF na defesa do Estado democrático de Direito, que ficará registrado na história do Brasil.

Outra questão é a reforma que temos que fazer, frente às evidências. Quando uma pesquisa mostra que 70% das pessoas querem que o Supremo mude, a corte tem que fazer uma autorreflexão. Desconhecer a opinião pública é um erro.

O ideal é que o Supremo faça uma autorreforma, como já fez no caso dos penduricalhos [pagos a juízes]. Não vai mostrar fraqueza. Ele vai mostrar que está em sintonia com o sentimento do país.

E esse sentimento é contra a democracia, contra os poderes do Supremo? Não. É um sentimento por mudanças.

É preciso debater, por exemplo, a adoção de um código de ética. Ministro precisa ter mandato ou limite de idade para ficar no STF? Quais são as restrições para ser sócio de uma empresa?

O Supremo não precisa ter medo de debater com o país. A transparência está na Constituição.

P - Mas o STF tem que se curvar à opinião pública, sendo uma corte contramajoritária?
JD - São coisas totalmente diferentes.

O Supremo não pode se submeter, por exemplo, ao clamor pela pena de morte no Brasil. Não tem que submeter decisões e sentenças à opinião pública, como querem os bolsonaristas.

Eu, quando fui condenado por corrupção, mesmo inocente, aceitei a decisão e cumpri a minha pena. Não fugi do país. Recorri da sentença e vou, depois das eleições, como permite a lei, pedir a revisão criminal do meu caso.

Respeitei a corte. Agora, como cidadão, eu tenho o direito de cobrar transparência dos ministros. É o sentimento da sociedade.

P - Mas o STF seria mesmo, hoje, o maior problema do país, ou há exagero nas críticas?

JD - Todos os Poderes têm que passar por uma reforma.

O Legislativo vai seguir do jeito que está, com as emendas parlamentares? E acha que não vai acontecer nada? Que a casa não vai cair? Daqui a pouco 93 parlamentares vão responder a inquérito policial. Todos os dias [vão ocorrer] busca e apreensão na casa de parlamentares? As pessoas, nas cidades deles, não percebem quando há enriquecimento injustificável?

O Executivo também tem que passar pela reforma administrativa.

Nós queremos que a democracia seja desmoralizada e que se justifique um regime autoritário no Brasil? Não queremos? Então vamos preservar a democracia reformando o que for necessário.

P - Lula acerta quando faz críticas a ministros do STF, dizendo, por exemplo, que Dias Toffoli deveria sair da corte?

JD - Eu nunca ouvi isso da boca dele.

P - Muitas pessoas já ouviram.

JD - Eu não vejo que o presidente da República possa pedir ao Dias Toffoli ou ao Alexandre de Moraes para se licenciarem. Seria uma intervenção do Executivo no Judiciário.

E o problema não é individual. É do Supremo, que precisa se autorreformar.

Daqui a pouco se forma uma maioria e ele vai ser reformado pelo Parlamento. Vai ser pior.

E não é possível mais dizer: "Se criticar o Supremo, você vai enfraquecer o Supremo". O rei está nu.
Os brasileiros querem discutir se haverá ou não um código de ética e quais limitações os magistrados devem ter.

P - Ministros entendem que não é possível discutir uma reforma no momento em que o STF está sob ataque.

JD - A extrema direita vai propor ao eleitorado medidas contra o Supremo, e nós vamos defender o Supremo sem propor mudança alguma? Vamos perder. É isso o que eles querem?

A direita só está calada, hoje, porque teme o caso Daniel Vorcaro.

P - A delação dele pode atingir o governo ou o PT da Bahia?

JD - Não vejo como ela pode atingir o governo. Pode talvez trazer um desgaste na disputa política por causa [da contratação, pelo Master] do Guido Mantega, do Ricardo Lewandowski [ex-ministros de governos de Lula]. Mas isso não quer dizer que essas pessoas estão ligadas a algum crime.

Há uma tentativa de sequestrar politicamente essa agenda e jogar o escândalo nas costas do governo. Quem deu a carta-patente ao Master, que deu início a todo esse processo, foi o Banco Central no governo Bolsonaro.

P - E como o senhor vê a delação de Daniel Vorcaro e a possibilidade de ele receber benefícios da Justiça?

JD - Transformaram o Vorcaro, no noticiário, no criminoso mais abominável da história do país. Aí depois ele faz uma delação e é perdoado? A sociedade aceita isso?

O instituto da delação, como está, traz essa dúvida moral. E tem algo muito assustador no caso: Vorcaro decidiu fazer delação porque foi colocado em um presídio de segurança máxima. Isso não é tortura psicológica?

P - A delação é criticada, mas há uma expectativa de que, com ela, sejam elucidados muitos crimes.

JD - A colaboração do Vorcaro pode revelar a importância de iniciarmos um processo de reformas no Brasil.

O país está precisando de um freio de arrumação geral. Precisaríamos de um pacto entre empresariado, trabalhadores e todas as forças políticas, para decidir como conduzir o país nos próximos dez anos, frente às mudanças tecnológicas, à guerra, à tempestade que se avizinha.

Em algum momento teremos que refundar o Estado brasileiro. Mas não vejo hoje maioria no país fazermos isso.

JOSÉ DIRCEU, 80

Nascido em Passa Quatro (432 km de Belo Horizonte), é formado em direito e foi líder estudantil durante a ditadura militar. É um dos fundadores do PT e foi presidente da sigla de 1995 a 2002. Foi eleito deputado estadual e federal, e chefiou a Casa Civil de 2003 a 2005, no primeiro governo Lula. Foi cassado e condenado pelo STF por envolvimento no mensalão.
Por Mônica Bergamo / Folhapress

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