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Facções criminosas usam vídeos de dança e emojis para alcançar público jovem nas redes sociais

Meta diz que mantém campanha educativa para evitar que usuários interajam com conteúdo potencialmente perigoso.
Dois traficantes de costas segurando rifles em suas mãos
Dancinhas com objetos na cintura que simulam armas de fogo, músicas de funk e emojis viraram ferramenta para expandir a influência de facções criminosas entre os mais jovens nas redes sociais.

Esse fenômeno é conhecido entre especialistas como narcocultura digital e descreve a apropriação de símbolos, estéticas e narrativas do mundo do crime pelos ambientes virtuais, especialmente em plataformas como o Instagram e o TikTok.

Em muitos casos, o conteúdo se apresenta como tendência. Vídeos que replicam coreografias populares incorporam gestos e objetos que remetem a armas de fogo. As trilhas sonoras com batidas de funk trazem menções diretas a organizações criminosas.

Para entender o alcance desse tipo de conteúdo, a reportagem fez um teste para ver se o algoritmo das redes pode sugerir esse tipo de conteúdo.

A reportagem criou um perfil no Instagram, sem qualquer histórico de navegação, e passou a consumir vídeos que, a princípio, não faziam apologia ao crime nem a facções criminosas —como registros de bailes funk, gravações de manobras em motos e conteúdos de humor associados à periferia.

Ao longo da navegação, porém, o algoritmo passou a associar esse universo a publicações sobre facções e começou a recomendar esse tipo de conteúdo. Em menos de 30 minutos, a plataforma já tratava postagens ligadas a facções como de interesse do usuário.

Procurada, a Meta afirmou, em nota, que mantém no Brasil uma campanha educativa voltada à conscientização de jovens sobre conteúdos potencialmente perigosos. A empresa informou ainda que removeu as publicações identificadas pela reportagem e que colabora com autoridades de investigação, nos termos da legislação aplicável.

Entre os conteúdos mostrados com mais frequência estavam imagens de supostos integrantes de facções, com rostos e armas encobertos por emojis de símbolos associados a esses grupos.

O emoji de urso aparece como referência a Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho no Rio de Janeiro. Ele é ligado ao tráfico na região da Penha e dá nome ao grupo conhecido como Tropa do Urso, associado a ações armadas da facção.

Os conteúdos indicados pelo algoritmo aparecem em formatos de edits, que são vídeos curtos com músicas de funk ou trap, efeitos visuais e cortes rápidos. Além de imagens, a reportagem também encontrou postagens feitas por supostos integrantes de facções que atuam como influenciadores.

Lideranças criminosas viraram personagens envoltas em trilhas dramáticas e efeitos visuais. A estética se aproxima da cultura pop, juntando o universo do crime a referências comuns ao entretenimento digital.

Mais do que visibilidade, essa subcultura vende uma ideia. A de ganhos rápidos, reconhecimento e poder. Em paralelo, práticas como o estelionato digital são normalizadas e até celebradas. Nas redes, recebem apelidos como raul e bigode, termos usados para designar criminosos que aplicam golpes online.

O padrão se repete, com elementos visuais simples e de fácil replicação combinados a símbolos que funcionam como marcadores de pertencimento, enquanto usuários levantavam a bandeira da mesma facção na seção de comentários.
Por Felipe Bramucci/Folhapress

Facções criminosas fazem aliança com máfias internacionais e diversificam negócio, diz secretário da OEA

Ivan Marques
O lucro do crime organizado na América Latina deixou de se concentrar exclusivamente no narcotráfico e passou a se estruturar como uma engrenagem diversificada de negócios ilícitos, segundo o secretário de Segurança Multidimensional da OEA (Organização dos Estados Americanos), Ivan Marques.

De acordo com ele, organizações transnacionais operam sob a lógica da convergência criminal, em que a cocaína é somente uma das fontes de receita, cedendo espaço a diferentes atividades ilegais numa cesta ampliada de lucros.

Essa estrutura torna o crime organizado altamente fluido, com atuação que se estende por mercados que vão do tráfico de armas e de pessoas ao comércio ilegal de fauna, exploração sexual, extorsão, extração clandestina de madeira e ouro, além da mistura entre negócios legais e ilegais.

Diferentemente da lógica dos grandes cartéis do passado, hierarquizados e centralizados –como o de Pablo Escobar–, essas organizações passaram a operar em redes independentes e mais flexíveis.

Em vez de concentrar o controle da cadeia, grupos transnacionais firmam alianças com atores locais, de gangues a estruturas de base territorial que, em alguns países da América Latina, chegam a ter caráter familiar ou atuação restrita, para garantir distribuição, logística e capilaridade.

No Brasil, facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho já atuam além das fronteiras. Como mostrou a Folha, elas mantêm negócios em ao menos 20 países. Evidências recentes indicam que o faturamento das duas facções já não depende majoritariamente do tráfico de drogas, mas de um portfólio diversificado de atividades ilícitas.

Ao ampliar o olhar para além do Brasil, entram em cena os cartéis mexicanos, como o Jalisco Nueva Generación, e também organizações mafiosas europeias com atuação nas Américas. Máfias albanesas, italianas, húngaras e croatas integram uma espécie de coalizão transnacional que opera de forma articulada.

"A rede transnacional é composta por grupos locais menores para dar vazão a um mercado de ilícitos bastante variado. O controle de toda cadeia de produção e logística é disperso entre múltiplos grupos delinquentes, assim como o risco. O objetivo é, de modo geral, o lucro, mesmo que a violência seja uma das consequências dessas operações", disse.

Marques aponta que o tráfico de drogas segue como eixo central na região. As Américas concentram a produção da cocaína consumida no mundo, o que mantém o tema sob atenção permanente.

Ao mesmo tempo, a Secretaria de Segurança Multidimensional da OEA monitora novas frentes de ameaça, como o avanço dos crimes cibernéticos, o controle de materiais biológicos e radioativos. Há uma migração crescente da extorsão e dos roubos tradicionais para o ambiente digital, fenômeno do qual o Brasil figura entre as principais vítimas globais.

Ele também demonstra preocupação com o Caribe, onde o perfil da criminalidade vem se tornando mais violento e armado. A OEA tem prestado assistência técnica a países da região e da América Central, especialmente para reduzir o tráfico de armas e munições.

Outro ponto de alerta é o desvio de explosivos de operações de mineração lícitas para as mãos de organizações criminosas. Para enfrentar esse cenário, têm sido estruturados planos estratégicos regionais, como o acordo firmado por sete países da América Central para intensificar o combate ao tráfico de armas.

Na avaliação de Marques, o enfrentamento eficaz do crime organizado transnacional exige uma mudança de paradigma: sair de um modelo centrado exclusivamente na ação policial e avançar para uma lógica de cooperação interagências.

Entre as medidas defendidas está a criação de grupos de investigação conjunta, a exemplo do que já ocorre no Brasil, onde a Receita Federal atua no rastreamento financeiro e na lavagem de dinheiro, enquanto polícias federal e estaduais e Gaecos (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público investigam a estrutura das facções e conduzem operações.

O Brasil é citado como um país que já possui maturidade em operações interagências. Ele cita como exemplo de sucesso a Operação Carbono Oculto, que desestruturou uma organização criminosa sem disparar um único tiro.

"Parece algo óbvio, mas ainda é pouco explorado na América Latina e no Caribe. As agências de segurança, como polícias, Ministérios Públicos, aduanas, muitas vezes não se comunicam. A criação desses grupos integrados, como forças-tarefa multiagências exclusivas à investigação ao crime organizado transnacional, é uma inovação institucional", afirma.

Marques também classifica como fundamental a liderança brasileira na criação de uma base de coordenação da Interpol na Argentina, com participação de países da América do Sul.

Para ele, a cooperação diplomática é o caminho que deve ser trilhado pelo Brasil, a despeito de iniciativas na região apostarem na militarização do enfrentamento ao crime organizado.

À frente da Secretaria de Segurança Multidimensional, Marques tem como principal projeto a criação de uma rede regional de combate ao crime organizado transnacional, baseada na replicação de operações nos países-membros.

A organização quer impulsionar que os países a trabalhem alinhados para facilitar a troca de informações, além de atuar em operações coordenadas.

Por Paulo Saldaña/Folhapress

STF e PGR preveem dilema se delação de Vorcaro implicar Toffoli e Moraes


 O STF (Supremo Tribunal Federal) e a PGR (Procuradoria-Geral da República) preveem enfrentar um dilema caso a delação premiada do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, prospere e atinja os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que tinham ligações com o ex-banqueiro.

Autoridades avaliam que essa possibilidade representará um desafio para a atuação tanto do relator da investigação, André Mendonça, como do procurador-geral da República, Paulo Gonet —ambos têm relações cordiais com os dois ministros.

Interlocutores de Mendonça e Gonet afirmam, sob reserva, que a situação deve exigir dos dois um ponto de equilíbrio entre agir com prudência, por um lado, e levar a investigação adiante se houver evidências contra os ministros, por outro.

Mendonça tem afirmado a pessoas próximas que a investigação não pode se prestar a prejulgamentos ou perseguições, mas que, se as provas do processo demonstrarem o envolvimento real de seus colegas na teia de Vorcaro, vai trabalhar com seriedade e seguir em frente.

Segundo relatos feitos à Folha por interlocutores de Mendonça, ele leva em conta o fato de que a opinião pública exige respostas sobre as fraudes financeiras do Master e, havendo evidências concretas de irregularidades, não aceitará que Toffoli e Moraes se livrem das consequências por coleguismo.

O argumento sobre a expectativa da sociedade foi recentemente usado por Mendonça no caso dos desvios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), mas não é bem aceito por uma ala do tribunal. Esse grupo entende ter sido esse um dos principais equívocos da Operação Lava Jato e prega cautela para que excessos não se repitam.

Sob reserva, um ministro disse à Folha que Mendonça deveria ter cuidado para não supervalorizar informações que não sejam objetivamente criminosas, sob pena de minar a confiança da população no Judiciário e sujeitar a corte e seus integrantes a uma nova onda de ataques.

Em etapas iniciais das negociações para um acordo de delação, advogados que representavam Vorcaro chegaram a sugerir aos investigadores que não fossem mencionados ministros do Supremo. A ideia foi rechaçada porque não se pode dar ao delator a prerrogativa de selecionar quem entregar e quem poupar.

Como mostrou a Folha, para que a delação seja homologada por Mendonça, Vorcaro terá de apresentar provas inéditas e indicar a possibilidade de recuperação dos valores obtidos de forma fraudulenta. Os termos do acordo estão sendo negociados em conjunto pela PGR e pela PF (Polícia Federal).

Mendonça foi um dos defensores de Toffoli na reunião secreta ocorrida em fevereiro entre os integrantes da corte para debater o relatório apresentado por investigadores com menções ao colega. Ele considerou que os fatos apresentados até ali não eram suficientes para considerar o magistrado suspeito.

O episódio provocou uma indisposição do tribunal com a cúpula da PF, uma vez que os ministros, incluindo Mendonça, entenderam que o órgão não apenas identificou citações a Toffoli, mas se excedeu e realizou uma investigação sem supervisão do Supremo, o que seria irregular.

Uma autoridade próxima a Gonet avalia que, tecnicamente, não se pode aceitar um acordo "pela metade", em que Vorcaro deliberadamente opte por deixar de fora determinadas autoridades. Ao mesmo tempo, admite que eventuais citações a Toffoli e Moraes colocariam o procurador-geral, conhecido por seu perfil discreto, em uma situação delicada.

As menções a Toffoli e Moraes no celular de Vorcaro, apreendido pela PF no âmbito da Operação Compliance Zero, estão no centro da crise de imagem atualmente vivida pelo tribunal. O presidente do STF, Edson Fachin, segue em um fogo cruzado sobre como lidar com a intensificação dos desgastes.

As mensagens envolvendo Toffoli apontam para pagamentos feitos à empresa Maridt, que tem o ministro entre os sócios. A Maridt vendeu participação no resort Tayayá, no Paraná, a um fundo de investimentos usado na engrenagem de fraudes do Master. O magistrado diz que a transação foi devidamente declarada e nega ser amigo ou ter recebido dinheiro de Vorcaro.

Já em relação a Moraes pesa o contrato de R$ 129 milhões que o escritório da sua mulher, a advogada Viviane Barci, firmou com o Master para representar os interesses da instituição financeira na Justiça. O ministro também teria trocado mensagens com Vorcaro no dia em que o empresário foi preso, o que ele nega.

Documentos obtidos pela Folha apontam ainda para oito viagens feitas por Moraes e Viviane em jatos executivos de empresas de Vorcaro entre maio e outubro de 2025. O gabinete do ministro afirmou que ele "jamais viajou em nenhum avião de Vorcaro ou em sua companhia".

Outro ministro que foi atingido pelo caso Master é Kassio Nunes Marques. Documentos indicam que ele viajou em um avião da Prime Aviation, empresa que tinha Daniel Vorcaro como um dos sócios, de Brasília para Maceió, em novembro.

A viagem foi organizada e paga pela advogada Camilla Ewerton Ramos, de acordo com o próprio ministro. Ela atua para o banco.

Por Luísa Martins e Ana Pompeu/Folhapress

'O STF precisa de reformas, pois o rei está nu', diz José Dirceu

Aos 80 anos, e duas décadas depois de ser cassado pela Câmara dos Deputados no que ficou conhecido como escândalo do mensalão, em 2005, José Dirceu (PT) vai disputar as eleições para tentar retornar ao Legislativo.

Em entrevista à reportagem, ele se diz otimista com a possibilidade de Lula (PT) se reeleger presidente, mesmo com o opositor Flávio Bolsonaro (PL) empatando nas pesquisas.

"O PT tem o que apresentar. Deu estabilidade institucional ao país. Deu inflação baixa, crescimento, manteve o Brasil fora de conflitos internacionais, conduziu bem as relações com os EUA", diz.

Em caso de derrota, afirma que "Lula vai liderar o país" na oposição, já que Flávio, mesmo eleito, não estaria "à altura" do desafio.

Dirceu afirma ainda que a delação do banqueiro Daniel Vorcaro, se vingar, levará o país a reformas que já se mostram inadiáveis -ou, como diz, a um "freio de arrumação geral".

Ele inclui nisso a necessidade de o STF (Supremo Tribunal Federal) se autorreformar. "Quando uma pesquisa mostra que 70% das pessoas querem que o Supremo mude, a corte tem que fazer uma autorreflexão. Desconhecer a opinião pública é um erro", afirma.

"O Supremo não precisa ter medo de debater com o país", diz, afirmando que, se isso não ocorrer, uma maioria pode se formar no Parlamento para impor essas mudanças à corte.

"Vai ser pior", afirma o ex-ministro.

PERGUNTA - A desaprovação do governo aumentou e Flávio Bolsonaro encostou em Lula nas pesquisas. O PT pode perder as eleições?

JOSÉ DIRCEU - Em 2014, 2018 e 2022 também foi assim [com o vencedor começando atrás nas pesquisas].

Não há novidade. O governo vinha em ascensão. A pauta da reforma tributária e do BBB [cobrar impostos de bancos, bets e bilionários] tinha amplo respaldo da opinião pública, bem como o debate da [escala de trabalho] 6x1.

Eram pautas que estavam pegando, junto com a defesa da nossa soberania. Mas os casos do [Banco] Master e do INSS [de descontos indevidos de aposentados] e a tentativa de envolver nele o Fábio Luís [filho do presidente Lula] acabaram mudando a agenda do país.

P - Os escândalos se sobrepuseram a tudo.

JD - Sim. E nós vamos disputar essa eleição para discutir os problemas do Brasil ou, novamente, a corrupção?

O [ex-presidente] Jânio [Quadros] ia acabar com a corrupção, o [Fernando] Collor ia acabar com a corrupção, o [Jair] Bolsonaro também. A ditadura militar se dizia contra a corrupção. E deu no que deu.
Eu, de verdade, acredito que nós temos condições de retomar a pauta que interessa o país.

P - O senhor acredita mesmo que será possível mudar de assunto?

JD - Tem que mudar. O Brasil tem problemas muito mais graves para enfrentar e resolver, como a guerra, a desestruturação da Petrobras, a segurança pública, a educação, a ciência e a tecnologia.

O mundo está mudando e o país precisa correr atrás da revolução tecnológica. Ou debatemos os problemas do país, e cada candidato apresenta a sua proposta, ou vamos iludir o Brasil de que o nosso principal problema é a corrupção.

P - O presidente Lula não estimulou também essa pauta ao dizer, por exemplo, que queria chegar aos "magnatas da corrupção"?

JD - Eu não vou julgar o que o Lula falou.

Eu quero debater: quem é o candidato que nós vamos enfrentar? Vamos colocar o Brasil nas mãos do Flávio Bolsonaro, que vai entregar os nossos recursos naturais ao Trump? Que vai liberar o acesso às terras raras aos EUA? Que vai liberar as big techs?

Vamos voltar à órbita exclusiva dos EUA? O Brasil é uma potência, um dos maiores países do mundo. Flávio Bolsonaro está à altura de governar o país nessa crise mundial? O Lula já mostrou que está.
Nós temos que fazer essa agenda prevalecer, com um projeto de desenvolvimento de dez anos para o país.

P - Além do Flávio Bolsonaro, a campanha deve ter candidatos de uma possível terceira via.

JD - Falar que o [ex-governador de Goiás] Ronaldo Caiado [lançado pré-candidato pelo PSD] é terceira via...[rindo] ele está à direita do Flávio Bolsonaro.

E o Flávio agora quer se apresentar como moderado. Mas ele é filho, indicado e preposto de Jair Bolsonaro.

O mais provável é que percam, porque nós estamos no governo. Eles é que têm que ganhar de nós.

P - Bolsonaro estava no governo em 2022 e perdeu para o Lula. E Flávio está mostrando que não será um candidato fácil de ser derrotado, como dizia o PT.

JD - Não é fácil derrotar ninguém no mundo de hoje. Só o Trump está caminhando para uma derrota, que fez por merecer. Na América Latina, todas as eleições têm sido muito equilibradas.

P - Mas a direita está em vantagem. Governa a Argentina e acaba de ganhar no Chile.

JD - Mas no Chile eles não têm a Câmara e o Senado. Na Argentina, é muito difícil também fazer essa maioria.

Nós estamos vivendo um período de crescimento da extrema direita no mundo, mas ela não é invencível.
Não podemos entrar em uma perspectiva de que não somos fortes. Nós somos muito fortes. Já ganhamos cinco eleições no Brasil.

P - Há alguma possibilidade de Fernando Haddad substituir Lula como candidato?

JD - Zero. Zero. Haddad está tocando a campanha como candidato ao governo. Eu vou sair daqui para almoçar no comitê dele, inclusive.

P - Mas, se Lula perder, e Haddad também for derrotado em SP, a situação do PT não se complica? A esquerda não fica sem uma referência viável para o futuro?

JD - Não acredito nessa hipótese. Mas, se ocorrer, nós, do PT, já mostramos que somos capazes de sobreviver.

Primeiro: somos democratas, respeitamos o resultado. Segundo, fazemos oposição e reconquistamos o governo. Dilma sofreu um golpe. Lula foi preso. Fomos capazes de resistir, disputar as eleições e reeleger o presidente.

Acreditar que nós, por causa de uma derrota, não seremos capazes de dar continuidade a um projeto não corresponde aos fatos.

Lula [mesmo derrotado] vai liderar o país. Porque eu não acredito que o Flávio Bolsonaro, mesmo eleito, consiga fazer isso. O Brasil está caminhando pra uma crise institucional. Alguma reforma vai ter que ser feita.

P - O Brasil caminha para uma crise ou já está mergulhado nela, com o caso do Banco Master e de Daniel Vorcaro sendo a sua face mais evidente?

JD - Temos que ter frieza e serenidade para discutir uma reforma política e institucional no Brasil, que distribua renda, que implante a fidelidade partidária.

A opinião pública mudou. Aquela de 5 milhões de pessoas já era. Hoje, se cair o teto aqui nessa entrevista, em cinco minutos, 60 milhões, 80, 100 milhões de pessoas ficam sabendo. É com essa opinião pública que temos que dialogar.

P - O STF foi arrastado para a crise. Como o senhor vê o desgaste da corte?

JD - Temos que reafirmar o papel do STF na defesa do Estado democrático de Direito, que ficará registrado na história do Brasil.

Outra questão é a reforma que temos que fazer, frente às evidências. Quando uma pesquisa mostra que 70% das pessoas querem que o Supremo mude, a corte tem que fazer uma autorreflexão. Desconhecer a opinião pública é um erro.

O ideal é que o Supremo faça uma autorreforma, como já fez no caso dos penduricalhos [pagos a juízes]. Não vai mostrar fraqueza. Ele vai mostrar que está em sintonia com o sentimento do país.

E esse sentimento é contra a democracia, contra os poderes do Supremo? Não. É um sentimento por mudanças.

É preciso debater, por exemplo, a adoção de um código de ética. Ministro precisa ter mandato ou limite de idade para ficar no STF? Quais são as restrições para ser sócio de uma empresa?

O Supremo não precisa ter medo de debater com o país. A transparência está na Constituição.

P - Mas o STF tem que se curvar à opinião pública, sendo uma corte contramajoritária?
JD - São coisas totalmente diferentes.

O Supremo não pode se submeter, por exemplo, ao clamor pela pena de morte no Brasil. Não tem que submeter decisões e sentenças à opinião pública, como querem os bolsonaristas.

Eu, quando fui condenado por corrupção, mesmo inocente, aceitei a decisão e cumpri a minha pena. Não fugi do país. Recorri da sentença e vou, depois das eleições, como permite a lei, pedir a revisão criminal do meu caso.

Respeitei a corte. Agora, como cidadão, eu tenho o direito de cobrar transparência dos ministros. É o sentimento da sociedade.

P - Mas o STF seria mesmo, hoje, o maior problema do país, ou há exagero nas críticas?

JD - Todos os Poderes têm que passar por uma reforma.

O Legislativo vai seguir do jeito que está, com as emendas parlamentares? E acha que não vai acontecer nada? Que a casa não vai cair? Daqui a pouco 93 parlamentares vão responder a inquérito policial. Todos os dias [vão ocorrer] busca e apreensão na casa de parlamentares? As pessoas, nas cidades deles, não percebem quando há enriquecimento injustificável?

O Executivo também tem que passar pela reforma administrativa.

Nós queremos que a democracia seja desmoralizada e que se justifique um regime autoritário no Brasil? Não queremos? Então vamos preservar a democracia reformando o que for necessário.

P - Lula acerta quando faz críticas a ministros do STF, dizendo, por exemplo, que Dias Toffoli deveria sair da corte?

JD - Eu nunca ouvi isso da boca dele.

P - Muitas pessoas já ouviram.

JD - Eu não vejo que o presidente da República possa pedir ao Dias Toffoli ou ao Alexandre de Moraes para se licenciarem. Seria uma intervenção do Executivo no Judiciário.

E o problema não é individual. É do Supremo, que precisa se autorreformar.

Daqui a pouco se forma uma maioria e ele vai ser reformado pelo Parlamento. Vai ser pior.

E não é possível mais dizer: "Se criticar o Supremo, você vai enfraquecer o Supremo". O rei está nu.
Os brasileiros querem discutir se haverá ou não um código de ética e quais limitações os magistrados devem ter.

P - Ministros entendem que não é possível discutir uma reforma no momento em que o STF está sob ataque.

JD - A extrema direita vai propor ao eleitorado medidas contra o Supremo, e nós vamos defender o Supremo sem propor mudança alguma? Vamos perder. É isso o que eles querem?

A direita só está calada, hoje, porque teme o caso Daniel Vorcaro.

P - A delação dele pode atingir o governo ou o PT da Bahia?

JD - Não vejo como ela pode atingir o governo. Pode talvez trazer um desgaste na disputa política por causa [da contratação, pelo Master] do Guido Mantega, do Ricardo Lewandowski [ex-ministros de governos de Lula]. Mas isso não quer dizer que essas pessoas estão ligadas a algum crime.

Há uma tentativa de sequestrar politicamente essa agenda e jogar o escândalo nas costas do governo. Quem deu a carta-patente ao Master, que deu início a todo esse processo, foi o Banco Central no governo Bolsonaro.

P - E como o senhor vê a delação de Daniel Vorcaro e a possibilidade de ele receber benefícios da Justiça?

JD - Transformaram o Vorcaro, no noticiário, no criminoso mais abominável da história do país. Aí depois ele faz uma delação e é perdoado? A sociedade aceita isso?

O instituto da delação, como está, traz essa dúvida moral. E tem algo muito assustador no caso: Vorcaro decidiu fazer delação porque foi colocado em um presídio de segurança máxima. Isso não é tortura psicológica?

P - A delação é criticada, mas há uma expectativa de que, com ela, sejam elucidados muitos crimes.

JD - A colaboração do Vorcaro pode revelar a importância de iniciarmos um processo de reformas no Brasil.

O país está precisando de um freio de arrumação geral. Precisaríamos de um pacto entre empresariado, trabalhadores e todas as forças políticas, para decidir como conduzir o país nos próximos dez anos, frente às mudanças tecnológicas, à guerra, à tempestade que se avizinha.

Em algum momento teremos que refundar o Estado brasileiro. Mas não vejo hoje maioria no país fazermos isso.

JOSÉ DIRCEU, 80

Nascido em Passa Quatro (432 km de Belo Horizonte), é formado em direito e foi líder estudantil durante a ditadura militar. É um dos fundadores do PT e foi presidente da sigla de 1995 a 2002. Foi eleito deputado estadual e federal, e chefiou a Casa Civil de 2003 a 2005, no primeiro governo Lula. Foi cassado e condenado pelo STF por envolvimento no mensalão.
Por Mônica Bergamo / Folhapress

Veja os elos de ministros do STF e seus parentes com caso do Banco Master

Plenário do STF
Os elos entre ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e o Banco Master têm marcado a condução do caso na corte. As relações pessoais e profissionais do dono da instituição financeira, Daniel Vorcaro, com membros do tribunal e seus parentes levataram suspeitas e culminaram em troca na relatoria do processo.

O cerne do escândalo financeiro, que levou a decretação da liquidação do banco em novembro de 2025, envolve a oferta de investimentos com redimentos acima do praticado pelo mercado. O esquema tinha como objetivo inflar os ativos da instituição e, para isso, recorria a mecanismos como emissão de títulos falsos.

O processo corre no STF após decisão do ministro Dias Toffoli, então relator do caso. O motivo foi uma negociação imobiliária entre Vorcaro e o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), que possui foro privilegiado.

Quem é quem
  • Alexandre de Moraes
  • Arleen
  • Banco Master
  • Consult
  • Daniel Vorcaro
  • Dias Toffoli
  • Fabiano Zettel
  • Kevin de Carvalho Marques
  • Kassio Nunes Marques
  • Maridt
  • Viviane Barci de Moraes
Alexandre de Moraes

Ele é citado em mensagens vazadas do celular de Vorcaro. O ministro e o dono do Master podem ter coversado no dia da primeira prisão do ex-banqueiro, 17 de novembro de 2025. Segundo informações do jornal O Globo, Vorcaro teria perguntado, na manhã em que foi detido, se o ministro tinha "alguma novidade". "Conseguiu bloquear?", questiona o dono do Master.

Alexandre de Moraes teria respondido com mensagens de texto covertidas em imagens com vizualiação única. O ministro, entretanto, nega a comunicação e afirma se tratar de "ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal".

Também pesam contra ele um contrato no valor de R$ 129 milhões firmado entre o Master e o escritório de sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes.

A Folha ainda revelou que o ministro e a mulher dele, Viviane Barci de Moraes, viajaram em jatos executivos de empresas de Vorcaro ou ligadas a ele entre maio e outubro de 2025.

Arleen

Fundo de investimento que comprou uma parte das cotas da Maridt Participações S.A. no resort Tayayá, em Ribeirão Claro (SC). O Arleen era administrado pela financeira Reag, investigada na operação Carbono Oculto por suspeita de envolvimento com o PCC.

A ligação com o Master teria origem na teia usada para inflar artificialmente os ativos do banco. Além disso, as ações da Arleen pertenciam ao fundo Leal. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, esse outro fundo pertence a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.

Banco Master

Instituição financeira de Daniel Vorcaro liquidada pelo BC (Banco Central) após serem constatados problemas de liquidez. A fraude é estimada em R$ 12 bilhões.

O rendimento oferecido pelo banco era maior do que o praticado pelo mercado, e os valores captados iam para investimentos pouco rentáveis. O esquema dependia da entrada constante de recursos. Emissões de títulos sem lastro e aumento artificial nos ativos do banco também são algumas das operações investigadas pela Polícia Federal.

A relação do Master com instituições financeiras públicas também é focalizada nas investigações. A tentativa de venda para o BRB (Banco de Brasília) e o uso de dinheiro proveniente de fundos de pensão de servidores em aplicações são os principais pontos.

Consult

Empresa de consultoria tributária recebeu R$ 6,6 milhões do Master entre agosto de 2024 e julho de 2025. Desses, R$ 281,6 mil foram repassados a Kevin de Cravalho Marques, que também é sócio do filho do fundados da Consult em outro empreendimento.

Daniel Vorcaro

Sócio e presidente do Master. Foi preso em 17 novembro de 2025, quando tentava embarcar em um vôo internacional. Ele seria solto no dia 29 daquele mês, mas preso, novamente, em maço de 2026. O ex-banqueiro assinou acordo de colaboração premiada e deve fazer delação.

Dias Toffoli

Ministro do STF e sócio da Maridt, foi o primeiro relator do Master na corte. Ele teve sua atuação posta sob suspeita após uma série de decisões consideradas incomuns. Entre elas, o reconhecimento da competência do Supremo para o caso, a convocação de acareação com um diretor do BC, decretação de alto nível de sigilo e a nomeção pelo seu gabinete dos peritos. O ministro chegou a voltar atrás e criticou publicamente o trabalho da Polícia Federal.

Deixou a condução do caso depois da PF encaminhar um relatório ao presidente da corte, Edson Fcahin, detalhando as transferências financeiras entre a empresa de sua família e os fundos ligados ao Master, também dilgadas pela Folha. A decisão de afastar o então relator foi tomada em reunião secreta com os ministros. Toffoli chegou a se defender no plenário do Supremo, dizendo que "vários magistrados são donos de empresas".

O ministro também voou em um avião de empresa que tinha Vorcaro como sócio em julho de 2025, segundo documentos obtidos pela Folha.

Fabiano Zettel

Pastor, cunhado de Vorcaro e ex-diretor do Master. Ele é apontado como principal operador financeiro do ex-banqueiro e aparece em mensagens combinando pagamentos à empresa dos irmãos Toffoli. Zettel também era o principal acionista do fundo dono do Arleen.

Kevin de Carvalho Marques

Filho do ministro Nunes Marques, tem 25 anos e é advogado. Ele foi subcontratado pela Consult e recebeu 11 parcelas no valor de R$ 25 mil. Ao todo, os repasses a ele somaram R$ 281,6 mil. Kevin é sócio do filho do fundador da Consult, Gabriel Campelo de Carvalho, em uma empresa chamada IPGT (Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária). As companhias têm o mesmo endereço de email.

Em site posteriormente retirado do ar, Kevin afirmava que, com um ano de profissão, possuia mais de 500 clientes e 1000 casos concluídos, segundo informações do jornal O Estado de São Paulo. A assessoria informou que a postagem da página era uma versão preliminar.

Kássio Nunes Marques

Antes da designação de Toffoli, a defesa de Vorcaro pediu para que Marques fosse escolhido relator. O argumento usado foi possível relação do caso Master com a Operação Overclean, relatada por ele.

Maridt

Empresa de Toffoli com os irmãos José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli que possuia participações no resort Tayayá. O nome é um acrônimo feito a partir da palavra "Marília", terra natal da família, e das iniciais de Dias Toffoli.

Por ser uma sociedade anônima, o nome do ministro não aparecia publicamente no quadro societário. Seus irmãos, por serem sócios-administradores, tinham os nomes divulgados nos regitros públicos da empresa. Toffoli adimitiu sua participação na companhia após a divulgação do relatório da PF.

Assim como no caso do Arleen, a CPI do Crime Organizado havia decretado a quebra de sigilo fiscal da empresa, o que foi revertido por decisão do ministro Gilmar Mendes.

Viviane Barci de Moraes

Esposa do ministro Alexandre de Moraes e sócia de um escritório que mantinha contrato de R$ 129 milhões com o Master. Os repasses eram mensais no valor de R$ 3,6 milhões e durariam cerca de três anos, segundo o jornal O Globo. O escopo do contrato era abrangente e não previa a prestação de nenhum serviço em específico.

Após a divulgação das possível conversa entre Moraes e Vorcaro no dia da prisão do ex-banqueiro, Viviane falou publicamente sobre o contrato. Segundo a advogada, entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, seu escritório relizou 94 reuniões de trabalho, produziu 36 pareceres e mobilizou 15 advogados.

Por João Pedro Abdo/Folhapress
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Mensagens mostram que Vorcaro tentou vender testes de Covid na pandemia

Daniel Vorcaro
Mensagens obtidas pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) mista do INSS mostram que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tentou vender testes da Covid-19 em março de 2020, quando ainda era um empresário distante dos holofotes.

O ex-banqueiro conversou com um integrante da Casa Civil da Presidência à época sobre a importação do produto. No diálogo registrado em uma captura de tela armazenada no celular de Vorcaro, o funcionário perguntou como o governo federal poderia ajudá-lo.

Na sequência, Vorcaro diz que teve um "empecilho" por causa de uma "intervenção" do governo coreano. O ex-banqueiro afirma que a compra havia sido dificultada, mas que estava trabalhando para "fechar com outro fornecedor".

Naquele momento, Vorcaro era um empresário com atuação principal no ramo imobiliário. Declarações de Imposto de Renda do ex-banqueiro que também chegaram à CPI apontam R$ 469,7 milhões em bens em 2020, valor que alcança R$ 2,64 bilhões em 2024.

Ele havia assumido o controle do Banco Máxima em 2019, meses antes do diálogo sobre a venda de testes. A instituição foi rebatizada para Master em 2021.

A conversa não permite concluir se o ex-banqueiro fez alguma compra de testes, efetivamente, ou desejava vender diretamente ao governo Jair Bolsonaro (PL). Também não menciona nomes de empresas ou modelos de testes.

A Folha apurou com integrantes da Casa Civil e do Ministério da Saúde que atuaram no comitê de crise do governo Bolsonaro que diversos empresários pediram ajuda para tentar importar testes, mas poucas tratativas avançaram.

Os mesmos funcionários afirmam que diversos países, incluindo a Coreia do Sul, restringiram exportações naquele momento para garantir estoque de produtos usados no controle da Covid-19.

Procurada, a assessoria de Vorcaro não quis se manifestar sobre os diálogos.

Nos primeiros meses da pandemia, o governo distribuiu principalmente testes rápidos recebidos por doações de empresas. No mesmo período, o Ministério da Saúde chegou a pedir ofertas de empresas interessadas em entregar os produtos para diagnóstico rápido, mas cancelou a compra.

Mais tarde, o governo comprou testes de uma farmacêutica coreana. A aquisição do exame do modelo RT-PCR, considerado padrão-ouro para diagnóstico, foi feita por meio da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde).

O Ministério da Saúde, porém, estocou por meses a maior parte dos exames, pois não havia comprado o kit completo para diagnóstico. Ao menos 1,2 milhão de exames perderam validade ainda no armazém da pasta.

Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro, quando tentava embarcar para o exterior, no Aeroporto de Guarulhos. Ele foi solto dez dias depois e voltou a ser preso em 4 de março em nova fase da operação policial Compliance Zero.

Vorcaro negocia com a PF e a PGR (Procuradoria-Geral da República) um acordo de delação premiada. Ele foi transferido da Penitenciária Federal de Brasília para a superintendência da PF na capital federal para discutir os termos do acordo.

Nas últimas semanas, a CPI do INSS recebeu milhares de documentos de Vorcaro. No último dia 16, porém, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça proibiu o acesso aos documentos decorrentes da quebra de sigilo do ex-banqueiro.

Entre as informações estão desde dados financeiros, como declarações de Imposto de Renda, até conversas com a ex-noiva Martha Graeff em que relata encontro com autoridades, como o ministro Alexandre de Moraes e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Por Thaísa Oliveira, Mateus Vargas e Augusto Tenório/Folhapress

Irã não tem arma nuclear, e EUA se meteram a fazer guerra desnecessária, diz Lula

O presidente Lula (PT) voltou a criticar nesta quarta-feira (1º) a guerra no Irã e afirmou ser uma mentira que o país do Oriente Médio tenha uma arma nuclear e que os Estados Unidos começaram uma guerra desnecessária sob esse argumento —Washington, no entanto, diz que atacou no dia 28 de fevereiro para impedir Teerã de construir o armamento.

"Os Estados Unidos se meteram a fazer uma guerra desnecessária com o Irã alegando que no Irã tinha arma nuclear, é mentira. Porque eu fui em 2010 no Irã fazer um acordo, e depois os EUA e a União Europeia não aceitaram", disse Lula em entrevista à TV Cidade do Ceará.

O petista se refere a um acordo assinado na época entre Brasil, Turquia e Irã para que o enriquecimento de urânio do Irã fosse feito em um outro país, como forma de diminuir as ameaças de desenvolvimento de armamentos, que exige um nível mais complexo de enriquecimento. Em troca, o país receberia combustível enriquecido a nível mais baixo, para uso médico.

A tratativa, porém, não convenceu os EUA, que continuaram pressionando por sanções no Conselho de Segurança da ONU, realizaram um acordo à parte implementado em 2016 e deixado unilateralmente por Trump durante seu primeiro mandato.

Hoje, a Agência Internacional de Energia Atômica diz haver 440 kg de urânio enriquecido a 60% no país do Oriente Médio, suficientes para talvez 15 bombas de menor potência —além da arma mais fraca, transformar esse material em armamento é um processo à parte e posterior ao enriquecimento.

"Você está lembrada do ano 2000? Cadê a bomba nuclear e as armas químicas do [ex-ditador iraquiano] Saddam Hussein e do [ex-ditador da Líbia] Muammar Gaddafi, que não apareceram? Era um pretexto para fazer essas bobagens", disse o presidente.

O governo Lula condenou os ataques contra o Irã no início do conflito, manifestando "grave preocupação" com o episódio. Os países travavam processo de negociação pela paz antes dos bombardeios.

"O governo brasileiro condena e expressa grave preocupação com os ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã. Os ataques ocorreram em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho viável para a paz, posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região", diz o Itamaraty.

"O Brasil apela a todas as partes que respeitem o Direito Internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil", diz ainda a nota.

Por Artur Búrigo/Folhapress

Governo formaliza ao Senado indicação de Messsias para vaga no STF

O advogado-geral da União, Jorge Messias
A indicação oficial do ministro Jorge Messias para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) foi entregue formalmente pelo governo Lula (PT) ao Senado nesta quarta-feira (1º). Cabe aos senadores a aprovação da indicação do presidente da República.

A formalização foi confirmada pelo Senado e também em nota pelo governo Lula (PT). "A Secretaria Especial de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República acaba de realizar a entrega da documentação do ministro Jorge Messias para a indicação à vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal", diz nota divulgada pela Casa Civil.

O governo enfrentou um impasse que envolveu o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que resistia ao nome de Messias, que é ministro da Advocacia-Geral da União desde o início da atual gestão. A preferência inicial de Alcolumbre era pelo nome do também senador mineiro Rodrigo Pacheco, que nesta quarta troca do PSD pelo PSB.

O nome de Messias fora sido anunciado publicamente no fim do ano passado. Mas, diante da resitência do presidente do Senado, Lula adiou o envio do comunicado oficial para ter mais tempo de articulação política.

É prevista uma sabatina de Messias no Senado. A confirmação de Messias depende do aval de ao menos 41 dos 81 senadores, em votação secreta. O governo quer que ele ocupe a vaga deixada por Luís Roberto Barroso, que se afastou da corte em outubro de 2025.Por Folhapress

Vorcaro tenta acelerar delação para proteger fortuna bilionária ligada ao Banco Master

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tenta fechar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal do Brasil e a Procuradoria-Geral da República em até 60 dias. Segundo fontes ligadas à investigação, a pressa tem um motivo central: evitar que parte da fortuna bilionária que ele distribuiu em fundos de investimento no Brasil e no exterior desapareça antes da formalização do acordo. A informação é do jornal O Globo.

Mesmo após a liquidação do Banco Master pelo Banco Central do Brasil, Vorcaro ainda teria mais de R$ 10 bilhões espalhados em uma complexa rede de fundos. O temor é que gestores, investidores ou credores retirem ou desviem esses recursos enquanto ele está preso e sem controle sobre as movimentações financeiras.

A estratégia da defesa seria indicar aos investigadores onde estão os recursos para que sejam bloqueados e usados na negociação de benefícios judiciais, como redução de pena. Investigadores avaliam, porém, que a delação só deve avançar se houver devolução significativa de dinheiro aos cofres públicos, já que as fraudes investigadas envolvendo o banco podem superar R$ 12 bilhões e atingir autoridades e instituições do sistema político.

Em 6 meses, Fachin articula com Congresso aprovação de 4 projetos de interesse do Judiciário

Edson Fachin
Em meio à tramitação de projetos no Congresso que buscam restringir o poder do STF (Supremo Tribunal Federal), o presidente da Corte, Edson Fachin, tem garantido a aprovação de matérias de interesse do Poder Judiciário.

Em seis meses, o ministro articulou a aprovação de quatro propostas. Outras duas estão em estágio final de tramitação.

O pacote de medidas inclui desde a reestruturação de carreiras e funções comissionadas no STF, até a regulamentação da Polícia Judicial e a criação de 240 novos cargos no CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

A tramitação tem sido rápida. Projetos como esses costumam levar dois anos para passar pelas comissões.

Um deles foi aprovado na Casa em apenas 11 dias, o que cria o Departamento de Monitoramento de Decisões Internacionais de Direitos Humanos no CNJ.

Fachin tem realizado reuniões periódicas com a cúpula do Congresso Nacional e audiências com parlamentares. Em seis meses, mais de 40 parlamentares foram recebidos pelo presidente do STF.

Apesar do esforço de Fachin, a oposição não tem poupado a Corte e já apresentou quase 40 projetos que entram em embate com o STF. Um deles restringe decisões monocráticas dos ministros.

Há ainda propostas que definem crimes de responsabilidade de magistrados e que permitem impeachment por manifestações políticas dos ministros.
Por Gabriela Echenique/Folhapress

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