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Mansão do lobby: como a Fictor tentou gerir recursos de Itaipu e fraudar depoimento na CPI do INSS

Casa de 500 metros quadrados alugada por ex-sócio da Fictor no Lago Sul, em Brasília, foi palco de encontros com ministros do governo Lula e de montagem de dossiê fraudulento contra testemunha em CPI
Foto: Reprodução/X
Investigada pela Polícia Federal e com dívidas de R$ 4 bilhões, a empresa de investimentos Fictor alugou uma mansão no Lago Sul, em Brasília, que foi usada para aproximação com o governo federal e abrigou pelo menos um evento com a presença de ministros do governo Lula. O local também foi palco de uma reunião para montar um dossiê contra uma testemunha da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e abastecer a bancada governista no colegiado.

A Fictor era uma relativamente desconhecida empresa do mercado financeiro que ganhou algum holofote por patrocinar o Palmeiras. Mas ficou famosa, mesmo, em novembro de 2025, quando anunciou um acordo para a compra do Master em consórcio com investidores dos Emirados Árabes - até hoje desconhecidos. No dia seguinte a esse anúncio, porém, o Master foi liquidado, o dono do banco, Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal e investigadores entraram no rastro da Fictor.

Antes disso tudo, a empresa vinha tentando se aproximar de políticos em Brasília para fazer negócios. Em um dos episódios descobertos pelo jornal O Estado de São Paulo, um consultor da Fictor, Felipe Alcântara, reuniu o deputado federal Paulo Pimenta (PT), líder da bancada do PT na CPMI, e o ex-policial civil Rogério Giglio, que havia gravado o advogado Eli Cohen e o acusou, na CPMI, de cobrar dinheiro da bancada bolsonarista para prestar um depoimento, também na comissão, contra o governo federal.

Giglio se retratou posteriormente, em cartório, do depoimento sobre Cohen. Em entrevista ao Estadão, disse ter sido pago por representantes da Fictor para mentir sobre Cohen e gravá-lo para abastecer o PT na CPMI. Pimenta disse que não sabia que a casa era da Fictor e se disse desconfiado do depoimento do policial que incriminava Cohen (leia mais abaixo).

Em outra ocasião, o mesmo consultor da Fictor tentou aproximar a empresa de Itaipu, para gerir recursos da hidrelétrica - o que acabou não acontecendo. A casa chegou a ser emprestada a petistas para a realização de um evento. O diretor-geral de Itaipu, Ênio Verri, esteve presente ao lado de próceres do partido, como a então presidente da legenda, Gleisi Hoffmann, e o então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha. Gleisi disse ter participado do encontro, mas negou ter recebido proposta. Padilha negou ter ido a eventos nos quais recebesse propostas da Fictor. Procurado pela reportagem, Verri não quis se pronunciar.

A mansão

A casa de 497 metros quadrados fica na quadra 22 do Lago Sul, bairro de residências de alto padrão de Brasília. Ela foi alugada pelo ex-sócio da Fictor, Luis Phillippi Rubini, até dezembro de 2025. Hoje, Rubini é credor da Fictor em R$ 35 milhões em contratos de mútuo com a própria empresa. A casa era usada pela empresa e teve seu portão pintado de verde, cor usada pela Fictor em sua identidade visual. O próprio wi-fi, para quem adentrasse e quisesse usar internet, era batizado de “Piscina Fictor”.

Além dele, quem frequentava a mansão e tentou captar investidores para a empresa foi o consultor Felipe Alcântara. Ele afirmou ao Estadão que recebia um valor simbólico da empresa, de R$ 2,5 mil mensais, com a promessa de participação porcentual em contratos fechados.

Alcântara diz ter levado clientes privados à Fictor. Também afirma ter usado a casa para aproximação com políticos. “O Rubini me falou: Pô, olha, Você conhece bastante gente, pode trazer captação e você ganha aqui, acho que é 0,20% ou 0,30% sobre rendimento, pode ser uma boa para você. Ele me colocou lá”, disse Alcântara. Por meio de nota, Rubini respondeu que deixou a Fictor em dezembro de 2024 e negou “veementemente qualquer envolvimento com os fatos mencionados”.

A testemunha da CPMI

Em um dos episódios apurados pelo Estadão, a casa foi usada para uma articulação relacionada à CPMI do INSS. O objetivo era fazer um dossiê contra o advogado Eli Cohen, que foi um dos denunciantes da atuação de associações ligadas a um mesmo empresário que foi preso pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que investiga as fraudes bilionárias no INSS.

Além de expor o caso específico do empresário preso pela PF, Cohen criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teve altercações com petistas e foi tido por eles como uma testemunha alinhada a bolsonaristas na comissão. Passou, então, a ser duramente questionado por governistas, que acusaram-no de mentir à CPMI e pediram uma nova convocação ao colegiado.

A reunião com Pimenta

No dia 24 de setembro de 2025, Alcântara reuniu o deputado federal Paulo Pimenta com o ex-policial civil de São Paulo Rogério Giglio, que havia trabalhado para Eli Cohen no passado.

Àquela altura, Giglio havia gravado Eli Cohen sem sua autorização em uma conversa informal em seu escritório. Também produziu um vídeo no qual acusa o advogado de pedir R$ 5 milhões para a bancada da oposição para depor de maneira desfavorável ao governo Lula na CPMI. Hoje, Giglio afirma que suas declarações eram mentirosas, que nunca houve extorsão, e assume ter feito o material falso sob encomenda da Fictor.

No encontro, segundo Giglio e Alcântara, Paulo Pimenta afirmou que suas declarações eram fortes, mas que não tinham boa corroboração em provas. Isso não impediria, porém, que Pimenta usasse o áudio gravado por Giglio para pedir uma nova convocação de Eli Cohen no mês seguinte, em outubro de 2025. Outros petistas também torpedearam Cohen na CPMI com uso da gravação, que foi publicada em veículos de imprensa, e com o uso de um depoimento de Giglio em cartório.

Ao Estadão, Alcântara afirma que foi apresentado a Giglio por um advogado de Rubini, ex-sócio da Fictor, e que tentou usar a situação para oferecê-la aos petistas. “Cara, eu conheço todo mundo, não tenho amizade com todo mundo, mas consigo chegar. Só que tinha que realmente comprovar irregularidade. Aí eu consegui através de relação que eu tinha, marquei esse encontro lá nessa casa mesmo e aí esse policial foi lá, chegou lá, ele relatou diversas coisas”, afirma Alcântara. Ele diz que Pimenta reclamou da falta de provas que confirmassem seu depoimento - o que o próprio petista confirmou em entrevista ao Estadão.

O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) afirmou ter participado do encontro, mas disse não ter sido informado que o imóvel era alugado por um executivo da Fictor. Ele afirma que foi levado à casa por um advogado de sua proximidade, que prometeu apresentá-lo a uma pessoa que “tinha interesse em apressar informações” que seriam relevantes sobre o depoimento que Cohen havia prestado à CPMI. Ele afirma preferir não expor o advogado que o levou à casa.

Também afirmou que Alcântara, o consultor, não se apresentou como representante do grupo. “Em nenhum momento esse senhor Felipe (Alcântara) se apresentou como sendo da Fictor. Estou sabendo agora dessa informação”, disse.

O parlamentar teria sido levado à reunião por um amigo com o objetivo de se reunir com Giglio. Na ocasião, pediu ao policial que oficializasse seu relato em depoimento à Polícia Federal e opinou que o vídeo da conversa com Cohen não tinha valor legal.

“Esse Rogério (Giglio) apresentou para mim um vídeo. Eu disse para ele que aquilo ali, sem um depoimento formal, não tinha qualquer valor. Um vídeo gravado com falas de uma pessoa não tem nenhum valor jurídico. Para nós, só teria interesse se houvesse uma formalização através de um depoimento na Polícia Federal”, disse.

À reportagem, Rogério Giglio afirmou que, no dia 4 de setembro de 2025, três dias após o depoimento de Cohen à CPMI, foi chamado pelo advogado Renato de Matteo Reginatto, a quem conhecia havia anos, ao seu escritório, no Itaim Bibi, em São Paulo. O advogado teria lhe oferecido um emprego para fazer trabalho de inteligência para a Fictor. Parte do trabalho seria de reunir informações sobre Cohen. Giglio afirma que receberia até R$ 30 mil mensais por um período de dois anos.

Gigilio relata que foi pressionado para prestar um depoimento mentiroso. “Foi totalmente direcionado. Eu assinei um depoimento com a versão que eles queriam. Ditaram, falaram para eu dizer que o Eli pediu dinheiro. Ele nunca pediu”, disse. Ele disse ter recebido de Alcântara a passagem para se encontrar com Pimenta em Brasília.

Reginatto, o advogado citado como contratante, nega a história. Diz que é advogado de Luiz Philippe Rubini, ex-sócio da Fictor, e também do próprio Giglio. Afirmou que não pode falar sobre o caso porque envolve clientes e qualquer declaração implicaria em ferir seu sigilo profissional, mas rechaçou que tenha oferecido emprego a Giglio. Ele afirma que “não tem interesse em Eli Cohen e suas disputas com Rogério Giglio Gomes”.

Por meio de nota, o ex-sócio da Fictor Luiz Philippe Rubini afirmou nunca ter conhecido Giglio e, quanto a Reginatto, seu advogado, disse que ele “prestou apenas serviços de consultoria a uma das empresas investidas da Fictor, sem qualquer relação com agendas políticas”.

Foi o consultor da Fictor, Felipe Alcântara, quem disse ao Estadão ter falado em cifras com o ex-policial. “Eu sabia que ele não tinha provas. E aí eu blefei, falei: ‘Olha, me entrega todos os fatos realmente que o Eli é um cara que tá em conluio com a direita, falsificando informação, que eu te garanto R$ 50 mil por mês. Se você fizer isso, tá garantido’. Essa foi a minha fala, entendeu?”, relatou.

Reginatto tem uma história antiga com Cohen. Ele foi alvo da Operação Encilhamento, da Polícia Federal, que investigou desvios em fundos de pensão municipais. Cohen era denunciante. A Justiça, em 2019, chegou a expedir mandado de prisão contra Reginatto, que acabou absolvido em novembro de 2025, por falta de provas.

Evento com petistas e Itaipu

Foi Alcântara que consultou a Usina Hidrelétrica de Itaipu sobre a possibilidade de a Fictor indicar uma gestora para gerir um fundo de reserva da empresa binacional. Pessoas que conhecem a negociação afirmam ao Estadão, em condição de anonimato, que a ideia seria a Fictor gerir até R$ 1 bilhão de Itaipu e partiu de Rubini.

A empreitada não andou porque havia impedimentos legais. Itaipu alegou que somente poderia aplicar esses recursos em bancos públicos, como a Caixa e o Banco do Brasil. “Foi feito um agendamento técnico. Tem e-mail trocado sobre isso. Foi tratado com o jurídico de Itaipu”, disse Alcântara.

O ex-deputado pelo PT e hoje dirigente de Itaipu indicado pelo governo federal, Ênio Verri, esteve presente mais de uma vez na mansão. Em uma delas, foi em um evento recheado de correligionários. Entre eles, o então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e a então deputada federal e presidente do PT, Gleisi Hoffmann - hoje, sucessora de Padilha na pasta. Alcântara relatou ao Estadão que petistas ficaram desconfortáveis, depois, com o uso da casa da Fictor, e cortaram relações.

O presidente de Itaipu não quis se manifestar. Pessoas próximas afirmaram ao Estadão que ele de fato esteve na casa. A ministra Gleisi Hoffmann afirmou que “se recorda de ter sido convidada para um encontro com pessoas do Fictor, juntamente com outros parlamentares, durante o qual não ouviu, não discutiu nem encaminhou qualquer proposta de interesse do grupo”.

Alexandre Padilha afirma que “nunca participou de reuniões ou encontros em que este tema foi tratado, incluindo o período em que foi ministro de Relações Institucionais”.

Eli Cohen afirmou ao Estadão que “se forem confirmadas essas narrativas, os fatos revelam um quadro de extrema gravidade institucional, envolvendo fabricação de versões e provas, indevida provocação da Polícia Federal contra um advogado no exercício regular da advocacia, coação de depoentes, obstrução da Justiça e uso de estruturas políticas e econômicas para promover o linchamento reputacional de quem teve a coragem de denunciar o esquema de fraude contra os aposentados”. “Devemos exigir a apuração rigorosa e a responsabilização de todos os envolvidos”, diz.

Por Luiz Vassallo/Gustavo Côrtes/Carlos Eduardo Valim/Estadão

Lula reforça discurso voltado a mulheres em evento na Grande São Paulo e fala sobre Tarcísio

Em um discurso repleto de quebras de protocolo, e com uso de palavrões, presidente exaltou políticas contra a violência de gênero.

Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Em um discurso repleto de quebras de protocolo, com uso de palavrões, o presidente Lula (PT) exaltou políticas contra a violência à mulher, atacou indiretamente o adversário Jair Bolsonaro (PL) e criticou homens com medo de "uma dedada", em referência ao exame de detecção de câncer de próstata.

O petista esteve em Mauá (Grande São Paulo) na tarde desta segunda-feira (9) para evento sobre investimentos em saúde e educação.

Em clima de campanha, o presidente focou em setores considerados cruciais para o resultado das eleições, como os jovens, com quem fala a partir da bandeira da educação, e as mulheres. Lula associou os dois segmentos e focou na necessidade de educação das mulheres, dizendo que " uma menina sem profissão vai se humilhar".

"A mulher não é propriedade do homem. Ela é livre", afirmou. "Uma mulher, quando tem uma profissão, ela vai morar com alguém se ela quiser, ela vai ficar com alguém se ela gostar", disse. "Uma mulher não pode ficar morando com um homem por conta de um prato de comida, por conta do pagamento do aluguel".

Ele falou em mudar o currículo escolar, da creche à universidade, para que os homens aprendam "que não são melhores do que as mulheres" e disse que é preciso intervir em casos de agressão. "Mulher não é saco de pancada de ninguém. Mulher tem que ser respeitada, ela passa o dia inteiro cuidando das crianças, lavando merda, lavando fralda, lavando cama, lavando banheiro, fazendo comida. Chega em casa, tem dois ovos para comer [...] É só ovo? É só ovo! Não comprou carne porque ela não tinha dinheiro, ela não tem culpa. 'Não estou gostando da comida', vai para a cozinha fazer", disse.

No mesmo tom, o presidente afirmou que "nós homens, quando ficamos tomando uma cachaça fora e chegamos em casa tarde, a gente quer que nossa mulher entenda. ‘Não, amor, entenda, eu estava com os meus amigos, eu estava jogando bola’. A gente quer que a mulher compreenda, mas, quando a gente chega em casa, que a mulher não está e ela demora meia hora para chegar, nós já ficamos putos da vida, ficamos nervosos e já ficamos xingando".

Lula ainda criticou homens que, por preconceito, não se submetem ao exame de toque para a detecção precoce do câncer de próstata: "Enquanto a mulher se submete a um monte de exames, o homão tem vergonha de tomar uma dedada".

Além do presidente, os ministros da Saúde, Alexandre Padilha (PT), da Educação, Camilo Santana (PT), e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) fizeram discursos —todos eles em tom eleitoral, comparando a gestão atual com a de Bolsonaro e a de Michel Temer (MDB).

Alckmin, por exemplo, criticou a educação do governo anterior. "A única discussão era homeschooling: estudar fora da escola. Estudar em casa. Proposta racista que nasceu nos EUA, quando a Suprema Corte decidiu que deviam estudar na mesma escola brancos e negros", disse. "Hoje, a prioridade é creche para a mamãe poder ter tranquilidade, escola de tempo integral, Pé-de-meia", afirmou.

Já Padilha alfinetou o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao dizer que há governos, como o de Tarcísio, sinalizando que é iniciativa local o programa Agora Tem Especialistas, do governo federal.

"Tem estado que criou a tabela do estado tal. Aqui em São Paulo está acontecendo isso. Vai na TV, fala que criou uma tabela com o nome do estado de São Paulo e não mostra que 70% do recurso dessa tabela é do governo federal, é o presidente Lula que coloca, repassa os recursos para as secretarias estaduais e municipais".

"Eu só quero que se reconheça que o ex-presidente que governou esse país não deu um real para esse estado durante todo o período que governou", afirmou Padilha, em referência a Bolsonaro, padrinho político de Tarcísio.

Ao lado de prefeitos do ABC filiados ao PL, Lula também atacou o antecessor. "Se todo presidente da República e todos os governadores fizessem assim, a gente teria muito menos problemas. Vocês sabem que, no governo passado, os estados do Nordeste que não estavam do lado do presidente não receberam um centavo de ajuda para nada. E podem ter certeza de que eu estou colocando mais dinheiro no estado de São Paulo do que qualquer presidente".

Ele também acenou a prefeitos do PL, dizendo colaborar com as gestões apesar de serem parte da oposição. "Aqui tem dois prefeitos que são do PL. O PL é partido do Bolsonaro. O PL é o maior inimigo nosso da Câmara. Mesmo assim vocês estão recebendo ambulância, porque vocês foram eleitos pelo voto, e eu respeito o voto do povo da cidade de vocês", afirmou aos políticos do ABC.

Ao falar de caravanas para mutirões de exames que seu governo estava entregando, o presidente cometeu um ato falho. Disse que iria a uma caravana com "a Marisa", em referência à primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva, de quem ele é viúvo desde 2017, para depois se corrigir e dizer "Janja" — Rosângela Lula da Silva, 59, com quem é casado desde 2022.

O petista, candidato à reeleição no pleito de 2026, deu a largada para a eleição com estratégia que mira valorizar programas de governo, como o Pé-de-meia, Gás do Povo e Desenrola.

Pela manhã, o presidente participou de ato no Instituto Butantan, em São Paulo, onde anunciou investimento na infraestrutura, produção de vacinas e insumos imunobiológicos. No evento, Esper Kallás, diretor do instituto, se emocionou ao falar da importância da ciência e do SUS (Sistema Único de Saúde) no país.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), não compareceu ao ato. Já Lula reforçou o discurso, um dos pilares para a campanha de reeleição, de soberania nacional e cutucou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dizendo que se ele "conhecesse o que é a sanguinidade de Lampião num presidente, não ficaria provocando a gente".

Por Bruno Ribeiro/Ana Gabriela Oliveira Lima/Folhapress

CPI do INSS cancela audiência que ouviria filho de Camisotti e deputado estadual do MA

O presidente da CPI mista do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), senador Carlos Viana (Podemos-MG), cancelou a audiência do colegiado prevista para esta segunda-feira (9) que ouviria Paulo Camisotti, filho do empresário Maurício Camisotti, e o deputado estadual do Maranhão Edson Araújo (PSB).

Segundo Viana, Camisotti apresentou um atestado médico "de última hora", enquanto Edson Araújo foi orientado pela Junta Médica do Senado a não viajar a Brasília devido a uma cirurgia feita recentemente, apesar da avaliação de que ele estaria apto a depor na CPI.

"O cancelamento ocorre após o senhor Paulo Camisotti apresentar atestado médico de última hora, informando a impossibilidade de comparecimento à oitiva para a qual estava regularmente convocado", escreveu o senador em publicação no X (ex-Twitter).

"A Junta Médica do Senado decidiu que o senhor Edson Queiroz está em condições de prestar depoimento, mas não deve se deslocar até Brasília neste momento, em razão de cirurgia recente. Diante disso, a oitiva será remarcada para data oportuna, em estrito respeito à recomendação médica", afirma outra nota de Viana.

Os depoimentos serão remarcados. A nova data ainda não foi informada pelo presidente do colegiado.

Como mostrou a Folha, relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontam que R$ 59,9 milhões foram pagos à Rede Mais Saúde, administrada por Paulo Camisotti. Seu pai, Maurício, é apontado como possível beneficiário do esquema de desvios.

Os documentos também mostram que R$ 16,1 milhões foram repassados à Prospect Consultoria Empresarial, de Antonio Carlos Camilo Antunes, que é apontado como o operador do esquema e que ficou conhecido como "Careca do INSS".

Tanto Antunes quanto Maurício Camisotti estão presos desde 12 de setembro. A Segunda Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) validou a prisão, decretada sob o argumento de que os dois tentavam frustrar as investigações sobre os descontos em benefícios previdenciários.

Já Edson Araújo foi convocado a depor na CPI do INSS por ser vice-presidente da CBPA (Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura). A entidade é uma das citadas na Operação Sem Desconto, da PF (Polícia Federal), que investiga as fraudes.

Por Isadora Albernaz/Folhapress

Gasto da Câmara com viagens aumenta 78% no primeiro ano de Motta

O gasto da Câmara dos Deputados com o pagamento de diárias para alimentação e hospedagem de parlamentares em viagens oficiais aumentou 78% no primeiro ano da gestão de Hugo Motta (Republicanos-PB) e passou de R$ 2,1 milhões, em 2024, para R$ 3,8 milhões, em 2025.

A variação não considera a inflação no período, que foi de cerca de 5%. Dados compilados obtidos pela Folha indicam que 202 dos 513 deputados federais pediram o benefício em 2025, ante 153 no ano anterior, fazendo com que o total de diárias também subisse de 876 para 1.482.

Têm em comum, nos dois anos, alguns dos principais cartões postais do mundo, como Londres, Roma, Genebra, Nova York e Buenos Aires. No ranking dos dez principais destinos, nenhum brasileiro.

Palco do "Gilmarpalooza", como ficou conhecido o Fórum Jurídico capitaneado pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes, Lisboa aparece no topo da lista. Em 2024, a Câmara pagou diárias até a capital portuguesa para 33 deputados federais; em 2025, para 42.

No ano passado, uma edição inédita do "Gilmarpalooza" também motivou a ida de parlamentares para a capital da Argentina.

Já Nova York e Londres viraram polos de atração por conta, respectivamente, do roteiro conhecido como Brazil Week e do fórum empresarial Lide, organizado pelo ex-governador de São Paulo João Doria.

No ano anterior, o Fórum Esfera Internacional, promovido pelo grupo Esfera Brasil, colocou a Itália na rota das autoridades brasileiras.

Apesar de milionário, o valor das diárias inclui apenas pequenas despesas de transporte local, como táxis, mas não o gasto com passagens aéreas ou, no caso do presidente Hugo Motta, com o uso de aviões da FAB (Força Aérea Brasileira).

O deputado federal Cláudio Cajado (PP-BA), por exemplo, recebeu R$ 40 mil para pagar as passagens até o Uzbequistão, em abril do ano passado, além de R$ 12 mil em diárias, para participar da assembleia da UIP (União Interparlamentar), organização que reúne 178 Parlamentos.

Cajado diz que integra a Comissão de Relações Exteriores há anos e é hoje vice-presidente do Brasil da UIP, além de membro do comitê executivo mundial. O deputado afirma que os países integrantes precisam participar das atividades "marcando posição, debatendo e votando as matérias".

"Fui eleito para um mandato na UIP por quatro anos e não represento a mim próprio, mas o Brasil e os países que integram o grupo geopolítico [da América Latina e Caribe]", diz, destacando que as missões a que se dedica são sempre institucionais, oficiais e autorizadas.

O presidente da Câmara, recordista de viagens no ano passado, diz que o aumento de despesas com missões oficiais deve ser entendido dentro do contexto "de crescente apelo pela chamada diplomacia parlamentar", além do maior protagonismo do Congresso.

Ele afirma que o estado de tensão e incerteza mundial faz com que seja ainda mais importante que todos estejam mais bem informados e conectados e que, por isso, é natural que os deputados "interajam mais com suas contrapartes estrangeiras".

Motta também destaca que o Congresso exerceu a presidência do P20 (G20 dos Parlamentos) em 2024 e do Fórum Parlamentar do Brics em 2025. "Essa condição de liderança também eleva a atenção de parceiros estrangeiros para os trabalhos do Parlamento brasileiro, com a consequente demanda por contatos", diz.

O valor das diárias foi reajustado em 60% em abril de 2024 pelo então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), subindo para US$ 391 (cerca de R$ 2040) para países da América do Sul, US$ 428 (aproximadamente R$ 2233) para os demais e R$ 842 para viagens nacionais. O presidente ganha um valor maior: US$ 428, US$ 550 (por volta de R$ 2869) e R$ 981, respectivamente.

O deputado federal Murilo Galdino (Republicanos-PB) participou de cinco missões oficiais em 2025 e recebeu R$ 55 mil em diárias —o quarto maior valor pago pela Câmara no ano. Galdino diz que foi a todas as agendas na condição de presidente da Comissão Especial da Nova Lei dos Portos.

"Foram necessárias algumas viagens e deslocamentos para conhecer a realidade portuária de outros países", diz, acrescentando que há total transparência e que a análise de gastos públicos deve sempre observar o propósito e o resultado, não só o valor.

Todos os parlamentares procurados apresentaram diferentes justificativas para a necessidade das missões. O deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ) diz que tem recebido muitos convites por ser o relator da reforma administrativa. No Fórum Jurídico de Lisboa do ano passado, por exemplo, afirma que foi o palestrante do primeiro debate.

"Quando recebo esses convites, eu não aceito que paguem a passagem. Eu prefiro que seja um gasto [da Câmara] do que um patrocínio de empresa, entendeu? É uma escolha de compliance minha", diz.

Recordista de viagens em 2024, Zé Vitor (PL-MG) foi um dos participantes do Fórum Esfera Internacional em Roma. Todas as outras viagens, segundo ele, se deram em razão da Frente Parlamentar do Etanol, da qual é presidente.

O deputado afirma que também foi à 29ª COP (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), em Baku (Azerbaijão), como membro da Comissão de Meio Ambiente.

"Não viajo a passeio nem para participar do ‘Gilmarpalooza’. Quando eu piso fora do Brasil em nome da Câmara, é para trabalhar e poder representar o setor produtivo", diz, acrescentando ter feito visitas técnicas sobre a produção de açúcar a partir de beterraba, por exemplo.

O deputado federal Lucio Mosquini (MDB-RO) teve o terceiro maior gasto de 2024, com R$ 37 mil. Ele participou de três missões oficiais —para Lisboa, onde participou do "Gilmarpalooza", Roma e Guayaramerín (Bolívia).

"O deputado, no ano de 2023/2024, foi membro da Mesa Diretora, e as viagens foram todas a serviço da Câmara dos Deputados. No ano de 2025, não houve viagem", disse, em nota, em referência ao cargo de quarto secretário.

Já a deputada federal Bia Kicis (PL-DF) recebeu R$ 36 mil em diárias e outros R$ 22 mil em passagens para participar de três missões oficiais em 2024 —dentre elas, a eleição do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A deputada diz que o nome dela "é lembrado quando se trata da defesa dos direitos humanos", em uma referência aos casos de bolsonaristas acusados de tentativa de golpe.

Uma das agendas daquele ano foi uma audiência pública intitulada "Brasil: crise da democracia, da liberdade e do Estado de Direito". "Fui convidada a participar de várias missões oficiais e fóruns internacionais pelo reconhecimento do meu trabalho na defesa da liberdade e contra violações de direitos", diz.

O deputado João Carlos Bacelar (PL-BA) foi procurado, mas não quis se manifestar. Bacelar foi o segundo deputado que mais gastou em 2024 e o terceiro em 2025.

Por Thaísa Oliveira/Folhapress

Governo muda percepção e prevê postura 'recatada' de Trump nas eleições brasileiras

Boa relação do presidente norte-americano com o presidente Lula é um dos motivos para o otimismo. No entanto, auxiliares de Lula reconhecem que uma das principais características de Trump é ser volúvel.
A percepção do governo Lula sobre como a Casa Branca deve se comportar diante das eleições brasileiras mudou.

Neste momento, diplomatas avaliam que, diante da estabilidade na relação entre Lula e Donald Trump, a tendência é de que não haja tentativas de influência no processo eleitoral nem um movimento explícito para apoiar um candidato do campo da direita.

Apesar do otimismo, há no entorno de Lula o entendimento de que o presidente americano tem como característica ser volúvel, o que obriga o Brasil a não baixar a guarda e a atuar de forma estratégica para preservar a proximidade entre os dois mandatários.

“Acho que a tendência até a eleição é de uma postura mais recatada do lado do Executivo americano”, afirmou uma fonte do governo que acompanha as tratativas com a Casa Branca.

Diplomatas atribuem a redução do risco de interferência à relação pessoal construída nos últimos meses entre Lula e Trump. Essas fontes citam a forma cortês — e, em alguns momentos, até carinhosa — com que o presidente americano tem tratado o petista.

Relação pessoal entre os presidentes

Na avaliação desses diplomatas, a boa relação pessoal funciona como um fator de blindagem, mesmo diante de pressões internas e externas para que a Casa Branca favoreça uma candidatura de direita.

Quando o tarifaço de Trump foi imposto ao Brasil, em julho do ano passado, ministros e diplomatas brasileiros interpretaram a decisão como uma tentativa de forçar uma mudança de regime no país — seja para reabilitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, seja para desgastar o governo Lula em ano pré-eleitoral.

No fim do ano passado, mesmo após Washington relaxar as tarifas e recuar na aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, persistia no entorno de Lula a desconfiança de que, mais adiante, a gestão Trump voltaria a agir para favorecer um candidato direitista, mais alinhado às posições da Casa Branca.

Naquele momento, Lula e Trump já haviam conversado por telefone e se encontrado pessoalmente na Malásia.

Zonas de influência

Em dezembro, o Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou sua nova doutrina de segurança nacional, que prevê um mundo organizado por zonas de influência, com a América Latina subordinada aos interesses de Washington.

Nessa configuração, os EUA passam a se atribuir o direito de interferir em processos internos de qualquer país inserido em sua área de influência.

Naquele mês, um diplomata próximo ao governo afirmou não ter ilusões sobre a volatilidade da relação bilateral. “Os americanos querem uma zona de influência totalmente subordinada. Não podemos achar que todas as nossas preocupações se dissiparam.”

Daqui até as eleições, o esforço da diplomacia brasileira será manter a proximidade com a Casa Branca como uma espécie de vacina contra movimentos da oposição bolsonarista. Nesse sentido, o governo tem insistido na necessidade de tirar do papel ações de cooperação com os Estados Unidos para combater o crime organizado.

A ênfase no tema tem relação com o cenário eleitoral. O Palácio do Planalto prevê que segurança pública seja um debate central no pleito e que a oposição tentará desgastar Lula com esse assunto.

Discutir o tema diretamente com Trump, portanto, é visto como uma forma de tentar neutralizar ações da oposição — sobretudo do grupo ligado ao senador Flávio Bolsonaro, provável candidato do campo da direita.

Por Guilherme Balza, Isabella Calzolari, Fernanda Rouvenat, GloboNews e g1 — Brasília

Lula afirma que Cuba sofre 'massacre de especulação' provocado pelos EUA

Presidente ainda disse ser grato pela parceria 'exitosa' que Brasil tem com a China, e citou reuniões sobre terras raras no contexto da tentativa norte-americana de diminuir a dependência da cadeia dominada por Pequim.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar a pressão dos Estados Unidos sobre Cuba e defendeu uma solução interna para a situação da Venezuela, que foi alvo de uma intervenção norte-americana no mês passado.

Lula ainda reforçou o discurso da soberania nacional, algo que tem repetido ao longo das agendas públicas desde o ano passado, e se disse orgulhoso da parceria do país com a China.

"O nosso país é um país soberano. A gente quer trabalhar com todo mundo, mas a gente não quer dono, não quer voltar a ser colonizado. O nosso país é solidário ao povo cubano, que é vítima de um massacre de especulação dos Estados Unidos contra eles. E que nós temos que encontrar, enquanto partido, um jeito de ajudar", afirmou.

"Nós temos que dizer alto e bom som que o problema da Venezuela tem que ser resolvido pelo povo da Venezuela e não pelos Estados Unidos ou pelo [Donald] Trump", prosseguiu.
XApós a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela em 3 de janeiro deste ano, o presidente venezuelano Nicolás Maduro foi capturado junto com sua esposa, Cilia Flores, e levado para Nova York para ser julgado por tráfico de drogas.

O comando do país passou para Delcy Rodríguez, então vice-presidente. Sob pressão, ela conduz mudanças exigidas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao mesmo tempo em que mantém o discurso chavista.

Terras raras

Em seu discurso, Lula ainda citou participar de reuniões que tratam sobre terras raras, alvo de disputa entre EUA e China.

"E, agora, embaixador, toda a conversa, toda a reunião é para evitar que os países vendam terras raras, minerais críticos para a China. É uma briga meio escondida, mas tudo é para a China, contra a China. E eu quero dizer que eu sou muito grato, muito grato à parceria que o Brasil tem com a China", frisou o presidente.

A declaração foi dada durante o encerramento do evento de comemoração de aniversário dos 46 anos do Partido dos Trabalhadores (PT), em Salvador, na Bahia.

A disputa entre Estados Unidos e China pelo controle das terras raras — minerais essenciais para celulares, carros elétricos, painéis solares, turbinas eólicas e armamentos — voltou a se intensificar neste início de 2026.

Washington tenta articular uma aliança internacional com mais de 50 países, incluindo o Brasil, para reduzir a dependência da cadeia dominada por Pequim, que controla 70% da extração e 90% do processamento global desses elementos.

Os EUA afirmam que a concentração da produção em um único país compromete a segurança geopolítica e econômica, enquanto a China reage acusando Washington de tentar distorcer a ordem comercial internacional.

A ofensiva norte-americana inclui negociações multilaterais e a criação de um estoque estratégico de minerais críticos — movimento que mira diretamente o domínio chinês em um setor considerado tão estratégico quanto o petróleo no século passado.

Por Afonso Ferreira, Mariana Laboissière, g1 e TV Globo — Brasília

Vorcaro vendeu parte de empresa dona de jatinho a fundo da Reag em meio a ofensiva da PF sobre o Master

Dois meses antes de ser preso, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro vendeu 55% de uma de suas principais empresas, a Viking Participações, para um fundo de investimentos administrado pela Reag. Ele renunciou ao cargo de administrador da firma e passou o posto para um ex-despachante de Nova Lima (MG).

A Viking é uma holding patrimonial que ficou conhecida por ser a dona de três aeronaves usadas por Vorcaro, incluindo o jato em que o banqueiro pretendia viajar ao exterior no dia em que foi preso, em 17 de novembro. Ele foi solto 12 dias depois.

Segundo cálculos feitos por investigadores, o valor estimado desse jatinho, um Falcon 7X, gira em torno de R$ 200 milhões.

A venda da participação da Viking foi assinada e oficializada pela junta comercial em setembro de 2025, quando o banco de Vorcaro já vivia uma crise. No início daquele mês, o Banco Central rejeitou a aquisição do Master pelo BRB e, semanas depois, vieram à tona as notícias de que a Polícia Federal abrira um inquérito sobre o banco.

O documento registrado na Jucemg (Junta Comercial de Minas Gerais) mostra que Vorcaro transferiu mais da metade do capital social da Viking no dia 17 de setembro para o Stern Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia.

A alteração contratual, na qual Vorcaro "cede e transfere, a título oneroso", 55% do capital da Viking, formalizou a entrada do FIP Stern no negócio e a renúncia de Vorcaro como administrador da empresa. O lugar do banqueiro na administração passou para Adriano Garzon Correa, que assumiu como administrador não-sócio.

Ele já foi sócio de outras empresas que depois foram encerradas, incluindo uma firma de despachante. Procurado pela reportagem, Garzon Correa não deu resposta.

Também procurada, a assessoria de imprensa de Vorcaro afirmou, em nota, que ele ainda é controlador da Viking.

"A defesa de Daniel Vorcaro esclarece que a venda de parte da Viking foi realizada ainda em 2024. Ao longo de 2025 ocorreram apenas atos burocráticos e formalizações societárias inerentes à operação. Daniel Vorcaro permanece acionista e controlador da Viking. A operação seguiu critérios comerciais regulares. Vorcaro segue colaborando com as autoridades", diz a nota.

Também procurada pela reportagem, a Reag, administradora do fundo Stern, não se manifestou.

A Reag é investigada por suposta participação em fraude que teria inflado artificialmente ativos ligados ao Master e também foi um dos alvos da Operação Carbono Oculto —deflagrada pela Polícia Federal em agosto de 2025, que apura a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) em negócios da economia formal, incluindo o mercado financeiro.

Aberta em 2006, a Viking é uma das empresas mais antigas de Vorcaro.A firma aparece como acusada em um processo na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) aberto em 2020 para apurar irregularidades em um fundo de investimento imobiliário fechado, chamado Brazil Realty.

Entre os acusados no processo da CVM também estão Daniel Vorcaro, como responsável pelo Banco Máxima (antigo nome do Master), que comprou cotas do Brazil Realty, e seu pai Henrique, como responsável pela Milo, que também investiu no fundo.

A Viking está localizada em uma sala comercial da avenida Raja Gabaglia, em Belo Horizonte, que também abriga a empresa Vinc, de Vorcaro, e a FSW, que tem como sócios a empresa de turismo Belvitur e a Moriah, uma empresa do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que foi um dos alvos da segunda fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal no mês passado. Ele foi preso ao tentar viajar para Dubai, mas foi liberado horas depois.

No mesmo endereço da Viking estão outros negócios de Vorcaro e do pastor.

A empresa também foi usada em transações imobiliárias do ex-banqueiro que entraram no noticiário do escândalo do Master, como o apartamento de R$ 4,4 milhões doado a uma mulher que se definiu como sugar baby.

O imóvel, que foi doado para a mulher, em dezembro de 2024, pela Super Empreendimentos e Participações SA —uma empresa ligada ao pastor Zettel— havia sido adquirido da Viking nove meses antes.

Não é possível afirmar qual foi o valor da venda do controle da Viking para o Stern com base em dados públicos.

Ele já foi sócio de outras empresas que depois foram encerradas, incluindo uma firma de despachante. Procurado pela reportagem, Garzon Correa não deu resposta.

Também procurada, a assessoria de imprensa de Vorcaro afirmou, em nota, que ele ainda é controlador da Viking.

"A defesa de Daniel Vorcaro esclarece que a venda de parte da Viking foi realizada ainda em 2024. Ao longo de 2025 ocorreram apenas atos burocráticos e formalizações societárias inerentes à operação. Daniel Vorcaro permanece acionista e controlador da Viking. A operação seguiu critérios comerciais regulares. Vorcaro segue colaborando com as autoridades", diz a nota.

Também procurada pela reportagem, a Reag, administradora do fundo Stern, não se manifestou.

A Reag é investigada por suposta participação em fraude que teria inflado artificialmente ativos ligados ao Master e também foi um dos alvos da Operação Carbono Oculto —deflagrada pela Polícia Federal em agosto de 2025, que apura a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) em negócios da economia formal, incluindo o mercado financeiro.

Aberta em 2006, a Viking é uma das empresas mais antigas de Vorcaro.A firma aparece como acusada em um processo na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) aberto em 2020 para apurar irregularidades em um fundo de investimento imobiliário fechado, chamado Brazil Realty.

Entre os acusados no processo da CVM também estão Daniel Vorcaro, como responsável pelo Banco Máxima (antigo nome do Master), que comprou cotas do Brazil Realty, e seu pai Henrique, como responsável pela Milo, que também investiu no fundo.

A Viking está localizada em uma sala comercial da avenida Raja Gabaglia, em Belo Horizonte, que também abriga a empresa Vinc, de Vorcaro, e a FSW, que tem como sócios a empresa de turismo Belvitur e a Moriah, uma empresa do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que foi um dos alvos da segunda fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal no mês passado. Ele foi preso ao tentar viajar para Dubai, mas foi liberado horas depois.

No mesmo endereço da Viking estão outros negócios de Vorcaro e do pastor.

A empresa também foi usada em transações imobiliárias do ex-banqueiro que entraram no noticiário do escândalo do Master, como o apartamento de R$ 4,4 milhões doado a uma mulher que se definiu como sugar baby.

O imóvel, que foi doado para a mulher, em dezembro de 2024, pela Super Empreendimentos e Participações SA —uma empresa ligada ao pastor Zettel— havia sido adquirido da Viking nove meses antes.

Não é possível afirmar qual foi o valor da venda do controle da Viking para o Stern com base em dados públicos.

Por Joana Cunha, Iran Alves e Maeli Prado | Folhapress

Ciro Nogueira diz que vai votar em Messias para o STF

Ex-ministro de Jair Bolsonaro, ele afirma que indicado por Lula para a corte é seu amigo

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) afirma que vai votar em Jorge Messias para o STF (Supremo Tribunal Federal).

A declaração é simbólica por duas razões: ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, o parlamentar foi nos últimos três anos um dos principais líderes da oposição ao governo Lula.

Ao explicitar o apoio, ele consolida a impressão de que as resistências a Messias no Senado, que precisa aprovar seu nome, já estão sendo superadas.

Indicado por Lula em novembro, o atual advogado-geral da União enfrentou bombardeio cerrado, especialmente do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Que também já teria suspendido a artilharia para ajudar na aprovação.

"Eu gostaria que Bolsonaro estivesse indicando o Messias. Agora, mesmo sendo o Lula, eu vou votar nele. Mais do que isso: eu vou me expor e vou fazer campanha", afirma. "Messias nasceu em Pernambuco, mas viveu por muitos anos no Piauí. Eu o conheço há muitos anos. Ele é preparadíssimo. Além disso, é honesto e tem um coração muito bom", diz Ciro.

Ele compara o perfil de Messias ao do ministro Cristiano Zanin, também indicado por Lula ao STF. "Os dois são humildes, não gostam de holofotes", afirma.

O senador diz ainda que, apesar de ser oposição, não vota contra indicações para o STF que preenchem os requisitos jurídicos.

A segunda razão que torna a declaração de voto simbólica é que Ciro esteve com Lula em dezembro para buscar um acordo em torno das eleições deste ano.

O encontro ocorreu na Granja do Torto, a pedido do senador, no dia 23 de dezembro, e contou com a participação do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

O senador nega e diz que nesta data estava no Piauí.

Descrita pelos participantes como cordial, a conversa, não registrada na agenda do petista, teve o objetivo de reaproximar Nogueira de Lula, sob o patrocínio de Motta. Segundo relatos, o chefe do PP procurou o presidente em busca de um acordo para renovar seu mandato de senador pelo Piauí, estado governado pelo PT.

De acordo com políticos que estão dos dois lados da negociação, Nogueira articula a formação de um pacto segundo o qual Lula apoiaria enfaticamente apenas um candidato para o Senado, o também senador Marcelo Castro (MDB). Isso facilitaria a reeleição do presidente do PP, uma vez que haverá duas vagas em disputa em outubro deste ano.

Ao confirmar o encontro, um aliado de Nogueira disse que ele quer que o governo e o PT não atrapalhem sua candidatura, acenando, em troca, com uma neutralidade do PP na disputa presidencial. Por essa proposta, o partido não se aliaria formalmente ao pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na disputa contra Lula.

Por Mônica Bergamo/Folhapress

Ibama multa Petrobras em R$ 2,5 milhões por vazamento em perfuração na Foz do Amazonas

Segundo órgão ambiental, líquido descarregado no mar tem componentes que colocam em risco a saúde humana e o ambiente aquático

O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) lavrou um auto de infração contra a Petrobras no valor de R$ 2,5 milhões pelo vazamento de fluido durante a perfuração de poço na bacia Foz do Amazonas. O acidente ocorreu em janeiro.

Segundo o Ibama, a autuação decorre da descarga de 18,44 m³ de fluido de perfuração de base não aquosa (mistura oleosa) no mar, oriunda do navio sonda 42 (NS-42).

O fluido de perfuração é uma mistura de produtos utilizada durante o processo de perfuração de poços nas atividades de exploração e produção de petróleo e gás.

De acordo com o Ibama, o líquido descarregado acidentalmente no mar pela Petrobras contém componentes classificados na categoria de risco B, o que representa risco médio tanto para a saúde humana quanto para o ecossistema aquático.

A partir do auto de infração, a Petrobras tem prazo de 20 dias para efetuar o pagamento da multa ou apresentar defesa administrativa.

Após o acidente, a petroleira afirmou que o material é biodegradável e não causa impactos ambientais. Procurada pela agência Reuters para comentar a multa, a Petrobras não respondeu até a publicação.

Nesta semana, a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) autorizou a Petrobras a retomar a perfuração do poço, que havia sido paralisada no início do ano devido ao vazamento, impondo algumas condicionantes.

Inicialmente, a estatal previa concluir as atividades no poço em aproximadamente cinco meses.

O vazamento do fluido gerou protestos de ativistas e organizações indígenas locais, que há anos alertam sobre o impacto potencial que a exploração de petróleo pode ter nos ecossistemas marinhos e costeiros da região.

O presidente do Ibama disse à Reuters, mais cedo, que o órgão é muito rigoroso na concessão de licenciamento de exploração porque, embora acidentes aconteçam, os planos de gerenciamento são feitos para "reduzir ao máximo a possibilidade da ocorrência desse tipo de situação".

"É aquela coisa, você tem o extintor na parede, mas não quer que tenha um incêndio", comparou ele, ao avaliar que a região da Foz do Amazonas é "mais sensível" porque, mesmo estando em alto mar, tem áreas de corais e manguezais na costa.

O presidente do Ibama citou que a Petrobras é a autuada número 1 do órgão ambiental, "normalmente por causa de pequenos incidentes".

Por Ricardo Brito/Folhapress

Lewandowski comprou imóvel de alvo da PF por R$ 9,4 milhões antes de bloqueio judicial

Ex-ministro da Justiça diz que não conhecia os proprietários e que vem cobrando a regularização da residência ou a rescisão da venda

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Arquivo

Em 2024, o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, comprou, por R$ 9,4 milhões, um imóvel de Alan de Souza Yang, conhecido como “China”, alvo da Polícia Federal por sonegação bilionária no setor de combustíveis. A aquisição foi feita com uso da empresa familiar que mantinha em sociedade com seus filhos.

Meses antes desse negócio, a casa havia sido vendida à esposa de China por R$ 4 milhões. Um mês após a venda, a residência foi bloqueada pela Justiça Federal de São Paulo em virtude do desdobramento das investigações contra China. Isso significa que ela não pode ser vendida e que, se os investigados forem condenados, ela poderá até ir a leilão.

A compra da residência foi efetivada em março de 2024, um mês após a posse de Lewandowski como ministro da Justiça. Naquele momento, China era investigado havia anos pela PF, já havia sido condenado por adulteração de gasolina e era alvo de uma operação por sonegação em postos de combustíveis.

No ano seguinte, ele passaria a ser alvo da Operação Carbono Oculto, sob suspeita de ser um dos braços de um grupo de empresários ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A operação foi deflagrada durante a gestão do próprio Lewandowski no Ministério da Justiça.

Em conversa com o jornal O Estado de São Paulo, Lewandowski garante que a compra foi feita de boa-fé, que não conhecia e nunca tinha tido contato com os vendedores e que tem brigado para resolver a questão, com a regularização do imóvel ou, eventualmente, até com a sua devolução e ressarcimento do valor pago, uma vez que ele nunca pôde ser efetivamente considerado o dono da residência.

Segundo o ex-ministro, a compra foi feita logo após assumir o cargo no Ministério da Justiça por uma questão de segurança. Ele morava em uma casa de rua, e preferia, naquele momento, a segurança de um condomínio fechado.

A casa em questão foi apresentada a ele por um corretor de imóveis. “Eu fui na verdade ver uma outra casa, mas achei que era muito próxima ao muro, não tinha a segurança que eu buscava. Aí o corretor me falou dessa outra casa que estava à venda, e fomos ver.”

Lewandowski diz ter conhecido os proprietários apenas na ocasião do negócio, e que eles apresentaram todas as certidões e documentos comprovando que a casa estava numa situação regular. Ainda segundo o ex-ministro, não teria como saber que Alan de Souza Yang era investigado porque todos os processos relativos a ele corriam em segredo de Justiça.

“O preço pago foi o valor de mercado”, disse. O fato de os donos anteriores terem pago bem menos pelo imóvel foi simplesmente pela questão de ele ter sido vendido em leilão. O ex-ministro também enviou uma nota à reportagem, cuja íntegra pode ser lida ao fim desse texto.

Procurada, a defesa de China e de seus familiares não se manifestou.

Histórico de bloqueios

Documentos de cartório obtidos pelo Estadão mostram que a casa tem 777 metros quadrados e fica em um condomínio fechado na Zona Sul de São Paulo, região onde o ex-ministro já residiu em outros imóveis. Após um longo histórico de bloqueios judiciais sobre seus antigos donos em razão de dívidas com bancos, a residência foi comprada em leilão em 2019 pelo pai de China - que também é alvo de investigações da PF -, por R$ 4,9 milhões.

Em dezembro de 2023, o pai de Alan de Souza Yang vendeu o imóvel à sua nora, Anajá de Oliveira Santos Yang, que é casada com China, por R$ 4 milhões. Documentos da Polícia Federal mostram que ela está sob suspeita de ser laranja em transações do marido, que tem parcos recursos em suas contas bancárias.

A compra do imóvel pela mulher de China foi registrada no cartório de imóveis em fevereiro de 2024. Um mês depois, a empresa Eryal Empreendimentos e Participações, do recém-empossado ministro da Justiça e de seus familiares, comprou o imóvel por R$ 9,4 milhões. No 27.º Tabelionato de Notas de São Paulo, o registro da transação entre a mulher de China e a empresa da família Lewandowski mostra que o imóvel foi pago à vista, por meio de uma transferência bancária para a conta de Anajá na Caixa Econômica Federal.

Até dezembro de 2024, Lewandowski teve capital de R$ 2,1 milhões na Eryal. Depois, doou sua participação aos filhos sob condição de manter usufruto dos imóveis. A empresa foi aberta em 2016 e é dona de dois apartamentos no bairro do Brooklin. Um deles já foi a residência de Lewandowski no passado. A empresa ainda é dona de outro apartamento no Itaim Bibi, em São Paulo, de uma chácara em Itu e de um imóvel comercial em Brasília.

Família investigada

A vendedora formal do imóvel dos Lewandowski, Anajá de Oliveira Santos Yang, tem 37 anos, assim como o marido, e é de Maringá, no Paraná. Foi em postos de combustíveis naquele Estado que investigadores passaram em 2011 a seguir o rastro do casal - em processos públicos no Judiciário e no Diário Oficial de Justiça há pelo menos 10 anos. Eles acumulam investigações por adulteração de combustíveis.

Em depoimento, um ex-sócio dela em um posto no Paraná disse que, apesar de Anajá constar nos quadros da empresa, quem realmente administrava era China. O pai de China, que vendeu a casa a Anajá, também já foi alvo de investigações porque tem participações nos postos de combustível, punidos diversas vezes pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) e investigados pelo Ministério Público.

China já foi investigado ao lado do pai e condenado a penas mais brandas, como uma de dois anos convertida em multa, por adulteração de combustíveis. Em 2021, passou a ser alvo de um inquérito mais robusto da Polícia Federal, sobre sonegação de R$ 2 bilhões em distribuidoras de combustíveis.

A investigação culminou, em 2023, com a deflagração da Operação Ilusão, da Polícia Federal, que cumpriu mandados de busca e apreensão contra o empresário. No âmbito das investigações, a Receita Federal concluiu que ele era o sócio oculto da distribuidora suspeita de sonegação bilionária.

Quebras de sigilo fiscal e bancário mostraram que China declarava rendimentos anuais de R$ 84 mil, mas as cifras milionárias de seus negócios estavam mesmo em nome de Anajá, sua mulher. Para se ter uma ideia, em apenas um mês, mais de R$ 3 milhões entraram e saíram das contas bancárias dela. Ela é ligada a mais de 30 empresas. O marido, a um posto de combustível.

Operação Carbono Oculto

Em 2025, China passou a ser um dos investigados no âmbito da Operação Carbono Oculto, que apura sonegação e lavagem de R$ 52 bilhões atribuída aos empresários Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo. O esquema passava pelo uso de fundos de investimento do mercado financeiro.

Na decisão que deflagrou a Carbono Oculto, China é descrito como um braço da dupla, que está foragida e negocia delação premiada. Ele seria ligado ao fundo de investimentos Zeus, suspeito de lavagem de dinheiro para Mouhamad e Beto Louco.

As investigações também mencionam que uma empresa usada para aquisição de usinas sucroalcooleiras pelos empresários é ligada a China, citado na investigação como “proprietário de uma rede de distribuidoras e com relações com Mohamad, e conhecido pela adulteração de combustíveis”.

“A organização criminosa de Mohamad tem fortes laços com o Primeiro Comando da Capital (PCC), e as redes de postos, conveniências e distribuidoras estão conectadas a pessoas com histórico criminal por fraudes em bombas, tráfico internacional de drogas, e lavagem de capitais”, conclui o Ministério Público de São Paulo.

Lewandowski considera que a Operação Carbono Oculto, deflagrada durante a sua gestão no Ministério da Justiça, foi um passo fundamental no combate ao crime organizado.

Leia a íntegra do posicionamento do ex-ministro Ricardo Lewandowski

Antes de adquirir a casa onde reside, por meio de empresa de administração de bens, o ministro jamais teve qualquer contato com a antiga proprietária nem com seu marido, tendo sido apresentado ao casal por um corretor de imóveis no início de 2024.

O imóvel foi comprado pela vendedora por um preço equivalente àquele pago por seu antecessor, que, por sua vez, o adquiriu de um banco privado, mediante alienação fiduciária, posteriormente cancelada, a qual teve origem numa ação de execução por falta de pagamento, seguida de hasta pública frustrada.

Previamente à compra do imóvel, a atual adquirente tomou os cuidados de praxe, exigindo da vendedora a exibição de certidões negativas dos distribuidores da Justiça Estadual e da Justiça Federal, bem como de débitos tributários e trabalhistas, além de certidão de inteiro teor do Registro de Imóveis, dentre outras, as quais foram apresentadas e arquivadas no cartório que lavrou a escritura de venda e compra.

A vendedora, ademais, declarou, formalmente, sob as penas da lei, que “não existem fatos, ações, protestos, execuções ou quaisquer medidas judiciais ou extrajudiciais que afetem o imóvel objeto desta escritura e a segurança deste negócio”.

Declarou, ainda, que não possui “domicílio em paraíso fiscal no exterior ou em país com tributação favorecida ou regime privilegiado”.

Na sequência, a vendedora alienou o imóvel pelo valor de mercado praticado à época, lavrando-se a escritura correspondente, que foi registrada, sem qualquer impedimento, no Registro de Imóveis competente, transação essa regularmente contabilizada e declarada à Receita Federal.

Posteriormente, a adquirente veio a saber que o imóvel foi objeto de sequestro por parte da Justiça Federal, passando a respectiva anotação a constar da matrícula do imóvel.

Tendo em conta que a transação foi integral e legalmente concluída, tratando-se de ato jurídico perfeito, a adquirente, na qualidade de terceira de boa fé, está cobrando da vendedora a regularização do imóvel, sob pena de responder pela evicção de direito.
Por Luiz Vassallo/Carlos Eduardo Valim/Estadão

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