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Celebração dos 250 anos dos EUA começa com calor e forte segurança em ares de comício de Trump

Protetores solares em aerossol foram proibidos na festa em Washington, e cada pessoa pode levar apenas uma garrafa de água

Em janeiro de 2025, o frio extremo atrapalhou a cerimônia de posse de Donald Trump. O evento teve de ser transferido às pressas para um espaço fechado, e o tradicional desfile foi cancelado.

Neste sábado (4), o mau tempo pode voltar a dificultar os planos do presidente. A celebração dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, que Trump trata como uma espécie de comício, coincide com uma previsão de calor de 38°C, que impactou o horário de abertura do evento.

Antes, autoridades recomendaram que o público chegasse às 13h (14h pelo horário de Brasília) para a abertura dos portões. Com a forte onda de calor, o horário foi mudado para às 17h (18h no Brasil).

As temperaturas tórridas não são os únicos desafios para quem quer assistir ao evento, que culmina, no fim do dia, com uma apresentação de fogos de artifício que promete bater o recorde mundial.

Para chegar à área do evento, será preciso passar por uma estrutura de segurança que a imprensa local compara à dos aeroportos do país.

O governo classificou as festas da independência como um "evento nacional de segurança especial", a mesma categoria usada para as cerimônias de posse e para a competição esportiva Super Bowl.

Isso significa que haverá mais medidas de segurança do que o comum, incluindo o bloqueio de vias por veículos policiais, cercas e barreiras de concreto. O público terá de passar por detectores magnéticos.

As autoridades também proibiram a entrada de itens como geladeiras térmicas e cadeiras. São coisas que os americanos estão habituados a levar ao National Mall —um enorme gramado que vai do Capitólio ao Lincoln Memorial— durante as celebrações da independência.

Os americanos costumam celebrar o famoso 4 de Julho com churrascos e piqueniques, no que é tido como uma festa típica dos espaços públicos. Todas essas medidas, no entanto, transformaram o cenário na capital.

Gerou ainda mais críticas o fato de que os agentes federais proibiram a entrada de protetores solares em aerossol e só deixaram que cada pessoa trouxesse uma garrafa de água.

Além disso, o cerco de segurança também reduziu a área útil do parque.

Como o discurso do presidente está previsto para as 21h45 (22h45 no Brasil) e os fogos só serão disparados por volta das 22h30 (23h30 no Brasil), quem quiser garantir um lugar na grama terá de encarar horas de confinamento sob o sol escaldante. Os serviços de emergência já se preparam para atender às vítimas de desidratação.

As celebrações da independência vêm sendo planejadas há uma década. Ao voltar ao governo, porém, Trump criou uma comissão paralela e alterou a narrativa dos eventos.

Seus críticos o acusam de ter se apropriado da data para fins políticos e partidários. Ele próprio se referiu às comemorações como um "comício" em uma postagem na rede Truth Social.

A politização afastou governadores da oposição e esvaziou os pavilhões. Diversos estados governados por democratas decidiram não enviar representantes oficiais à Great American Fair (grande feira estadual americana). A exposição, montada ao longo do Mall, tem atraído um público menor do que o esperado, segundo a imprensa.

Com todo esse cenário em mente, os moradores de Washington têm ido às redes sociais reclamar —ou simplesmente dizer que não iriam comparecer à festa. Há outros pontos ao redor da cidade para ver os fogos sem precisar entrar no espaço oficial, como bares com vista para o parque.

O espectro de um evento despovoado preocupa Trump, cuja obsessão por recordes de público é conhecida. O presidente chegou a pedir aos seus seguidores que viessem e, assim, evitassem que a imprensa dissesse que estava vazio.

Por Diogo Bercito/Isabella Menon/Folhapress

Cidade de Caracas vive dividida entre normalidade e vidas arruinadas por terremotos

Vários setores da capital operam com regularidade; exceto pelos milhares de desalojados vivendo em parques

Hotel destruído por terremoto na Venezuela

À primeira vista, Caracas, a capital da Venezuela localizada entre as montanhas e transformada nos anos 1950 em uma metrópole, opera em normalidade. Não há desabastecimento. Transporte e comércios funcionam como antes. O sinal de internet foi restabelecido.

Mas há pontos onde o impacto brutal dos terremotos que atingiram o país no último dia 24 ficam visíveis, e as vidas impactadas pela tragédia ocupam a capital. Há milhares de pessoas desalojadas pelos tremores morando em parques e nas ruas.

A placa diz: camping. Mas o acampamento no extenso Parque del Este, com 82 hectares e projetado pelo artista e paisagista brasileiro Roberto Burle Marx, virou abrigo para os que perderam suas casas ou parte delas em Caracas.

Ainda na sexta (3), ao redor de 2.000 pessoas, entre elas 300 crianças e adolescentes, ainda moravam ali. Recebiam comida, roupas e atendimento de saúde. Há uma clínica móvel prestando atendimento e exames variados —entre eles, o oftalmológico, para os que perderam seus óculos nos terremotos.

O que não há é uma data para voltar à normalidade. "O que precisamos agora é uma casa", diz Kimberlly Paola Torres López, 19, da região caraquenha de El Junquito, enquanto nina a bebê Valentina, filha de uma mulher que está vivendo na barraca ao lado.

As paredes da casa de Kimberlly caíram. Ela, seu bebê de 8 meses e sua mãe conseguiram sair a tempo. "Já recolheram todos os nossos dados, mas ainda não sabemos de nada".

As famílias foram desalojadas pelo impacto dos terremotos em Caracas e correram para o parque, onde receberam barracas para morar. Muitas estão ali há nove dias. Outras demoraram a chegar e foram para o Parque del Este depois de ouvir no boca a boca que havia famílias morando ali.

A zona mais afetada da capital venezuelana foi a região de Chacao, especialmente os bairros de classe média alta de Los Palos Grandes e Altamira, zonas de maior atividade sísmica. Três edifícios colapsaram. Ao menos 62 pessoas morreram na região, e 28 foram resgatadas vivas, segundo as autoridades locais.

As brigadas de ajuda internacional enviadas ao país com socorristas (como as de Brasil, Chile, El Salvador, Costa Rica e de mais dezenas de países) não atuam na capital, onde os trabalhos são feitos por equipes locais, dado o menor volume de destruição. Essas equipes estão concentradas em La Guaira.

É um cenário de impacto, claro, mas muito distante do encontrado em La Guaira, a "praia dos caraquenhos", a região mais afetada pelos terremotos. Ali, a cifra de mortos é de milhares; a de desaparecidos, de dezenas de milhares. Os dados mais atualizados a nível nacional contabilizam 2.645 mortos.

Cartazes de desaparecidos, mesmo os de La Guaira, estampam algumas das paredes de Caracas. Familiares colam fotos com seus números de contato ou mesmo as cédulas de identidade dos desaparecidos, para o caso de eles serem identificados vivos em algum dos parques de Caracas.

As pessoas não param de chegar para fixar mais cartazes de busca no chamado "Muro da Esperança". Desde o dia após o terremoto, no entanto, nenhuma das pessoas buscadas naquele mural foi encontrada, diz a responsável por atender à imprensa no local.

Muitos ali no parque são crianças. E o tema da infância tem despertado preocupação. O regime liderado por Delcy Rodríguez não diz quantos dos desaparecidos são crianças, e tampouco diz à reportagem quantos menores de idade estão órfãos após os terremotos, ainda que diga que este é um número baixo.

A reportagem foi informada que, somente em Caracas, quatro menores de idade estariam sob custódia do Estado após terem perdido seus responsáveis diretos nos terremotos e ainda não terem sido reunidos com nenhum outro familiar. Esse número, porém, tende a ser muito superior em La Guaira, onde milhares ainda são buscados sob os escombros. Mas a cifra é desconhecida.

Na capital, orfanatos se organizam para acolher essas crianças, mesmo que ainda não tenham sido informados de quantas elas são e de onde estão.

Alguns foram reprimidos pela ditadura por estarem fazendo campanhas online para pedir doações que lhes permitissem comprar mais colchões e outros itens de necessidade dos órfãos. Outros foram reprimidos por terem feito campanhas para encontrar crianças que supostamente teriam sido resgatadas dos escombros, mas que nunca foram entregues a seus pais.

As estatísticas oficiais dizem que há 15 mil pessoas sem moradia no país; a ONU estimou que são mais de 50 mil. Além das que de fato viram suas casas ruirem, porém, há aquelas que tiveram a estrutura de seus lares comprometida, como com profundas rachaduras, e temem voltar aos imóveis.

Até aqui houve mais de 800 réplicas dos terremotos gêmeos do último dia 24, nenhuma delas com intensidade semelhante à daqueles tremores. Mas os tremores secundários assustam às pessoas. O impacto não somente físico e financeiro, mas também psicológico, ainda não tem prazo para acabar.

Por Mayara Paixão/Folhapress

Trump e Lula levaram atual relação entre Brasil e EUA ao pior momento em 200 anos, dizem diplomatas

Depoimentos ao Museu da Pessoa mostram a perplexidade de embaixadores com o estado atual das relações do Planalto com a Casa Branca

Esse é o momento mais grave das relações entre o Brasil e os Estados Unidos em mais de 200 anos. O assombro e a perplexidade com a aparente falta de diálogo, a aposta no unilateralismo e as mudanças provocadas pela presidência de Donald Trump, além do comportamento do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, estão entre os ingredientes dessa situação e são descritos por diplomatas entrevistados para o projeto Memórias da Diplomacia da Brasileira, uma parceira do Museu da Pessoa e da Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB).

O jornal O Estado de São Paulo consultou uma dezena dessas entrevistas, feitas sob a curadoria do jornalista e historiador Mauro Malin. Os entrevistados, como o embaixador Rubens Ricupero, serviram nos EUA e contaram a sua experiência, bem como avaliaram a atual situação da relação entre os dois países após o tarifaço de Trump. “Em Washington, o êxito ou não do teu trabalho depende das condições do país que você representa e eu, quando era embaixador lá, já tinha começado no Brasil a investigação do impeachment do (presidente Fernando) Collor. E depois houve o agravamento da inflação; o Brasil estava muito mal”, disse Ricupero


Na época, segundo o diplomata, o país latino-americano mais festejado nos EUA era o México, em razão do acordo de livre comércio. “Depois, admiravam muito o Chile. A própria Argentina de (Carlos) Menem. O Brasil era visto como um país muito complicado”, contou. A solução para lidar com essa imagem foi procurar think tanks e organizar seminários na embaixada brasileira, em Washington.

“E foi uma experiência boa. Agora, eu acho que não, com esse presidente que eles têm hoje, o Trump, é o momento mais grave do relacionamento com o Brasil. Nunca vi nada parecido em 200 anos de relação”, afirmou. Para ele, não há nada que se assemelhe ao momento atual. “Porque mesmo no golpe de 1964, que eles participaram da conspiração, mas não eram ostensivos, eles faziam isso clandestinamente. Dessa vez, é público, notório, ostensivo, com declarações de apoio a (Jair) Bolsonaro. Se isso continuar, é muito grave, porque nós vamos chegar às eleições e eles vão querer influir sobre as eleições”, disse Ricupero.

Para ele, no entanto, o tiro vai sair pela culatra. “Porque vai ajudar mais o presidente Lula do que o Bolsonaro, mas é uma tensão muito grande na relação com o Brasil.” O embaixador lembrou outro momento grave das relações entre os dois países: os meses que antecederam o golpe de estado de 1964. Em dezembro de 1962, ele testemunhou a visita inesperada ao Brasil de Robert Kennedy. Irmão do presidente americano John Kennedy, Robert era o chefe do Departamento de Justiça.

“Ele veio para dar um aperto no (presidente João) Goulart, porque os americanos já estavam conspirando no Brasil contra o governo Goulart, que era um governo de esquerda.” Ricupero contou que já estava deitado, quando o ministrondas Relações Exteriores, Hermes Lima, que estava no Rio, telefonou e disse: “Olha, vai chegar o Robert Kennedy, você convoca aí os automóveis da garagem e vai recebê-lo na base militar (de Brasília)".

Ricupero disse: “Mas, ministro, como é que eu vou? Eu sou terceiro-secretário, é a função mais modesta da carreira”. Lima respondeu: “Não, você diz que é o representante do governo brasileiro. Porque eu não posso, estou no Rio de Janeiro e não vou chegar a tempo”. Ricupero foi lá. Robert Kennedy chegou às 2 horas. O embaixador americano em Brasília, Lincoln Gordon, estava ali. De manhã, às 11 horas, Robert foi recebido por Goulart no Palácio da Alvorada.

“Eu nunca soube, aliás nunca ninguém soube o que aconteceu. Apenas agora, 50 anos depois, os americanos publicaram um memorando de 11 páginas em que o Lincoln Gordon conta a conversa, porque na conversa só estava o João Goulart, do nosso lado não tinha ninguém, nem intérprete. E do lado americano tinha o Robert Kennedy, o Lincoln Gordon e o intérprete americano (José de Seabra), que eu conheci até por acaso. Então ele conta, é um aperto enorme, que ele vem dizer: ‘Olha, se isso continuar, você não conta com a nossa ajuda’. Ele diz claramente, ele só não diz que iam dar o golpe, mas é bem próximo disso. É uma entrevista dramática. Eu estava do lado de fora, eu não assisti”.

A dramaticidade dos eventos lembrados por Ricupero foi traduzida para o presente pelo também embaixador Paulo Sérgio Traballi Bozzi. “Estamos enfrentando o leão da montanha. O cara (Trump) é muito poderoso, um homem que tem um porta-aviões que leva 6 mil sujeitos embarcados, e tem 160 aviões de todo tipo e tamanho e sai de casa com uma força-tarefa, um submarino nuclear. Não se pode brincar com esse cara, não dá para brincar com esse cara. Não estou dizendo que temos que nos submeter à vontade dele. Não é isso”.

O papel de Lula e as Malvinas

Além do período que antecedeu a derrubada de Goulart, os diplomatas entrevistados para o registro da memória do Itamaraty lembraram outros momentos das relações entre o Brasil e os Estados Unidos e apontaram também o papel do Brasil nesses episódios. A embaixadora Débora Vainer Barenboim-Salej trabalhou em Washington no tempo em que a embaixador do Brasil na capital americana era Marcílio Marques Moreira. “A simpatia pelo Brasil era tanta que o diplomata do Departamento de Estado coava cafezinho, na mesa dele, para me servir um café quando eu chegava. Não é porque eu sou bonitinha, é porque o Brasil tinha um peso, que em algum momento deixou de ter nos EUA”.

Baremboim-Salej atribuiu essa situação ao que chamou de a “politização, a ‘petização’ da diplomacia, em particular da embaixada em Washington”. Para ela, houve muita “pisada de bola” do governo Lula, como o apoio à candidata democrata Kamala Harris nas eleições presidenciais de 2024, quando ela foi derrotada por Trump. Para ela, “não tinha nada que dizer que queria que a Kamala ganhasse as eleições". “Isso é um tipo de ingerência em outros países, que não faz parte da diplomacia brasileira, não podia ter falado e pesou; é um dos fatores que criou o começo do mal-estar com o atual governo Trump”.

O embaixador Sérgio Eduardo Moreira Lima trabalhava em Washington em outro momento importante da história do hemisfério: quando a Argentina decidiu invadir as Ilhas Malvinas, em 1982. “Essa questão do conflito das Malvinas foi muito importante, porque o Brasil tinha um acordo, que se chamava Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Isso significava que se você tivesse uma potência de fora do hemisfério, de fora das Américas, atacando algum país (das Américas), como aconteceu, todos os países das Américas deveriam se apoiar por esse tratado”, contou.

Mas os americanos não fizeram isso. Os EUA decidiram apoiar o Reino Unido e cederam a base da Ilha de Ascensão, no Atlântico Sul, para os britânicos. O Brasil não apoiou os argentinos, mas, de acordo com o diplomata, a decisão de Washington “abalou a confiança na própria liderança americana”. “E mostrou que nós teríamos que buscar um entendimento a respeito da segurança hemisférica”.

Moreira Lima conta que o episódio ajuda a “entender o funcionamento dos poderes, entender o jogo”. “Perceber que, de repente, existe um tratado, acredita-se naquilo e que os americanos iriam apoiar os países da região, mas eles concedem todo o apoio à Inglaterra. Foi interessante. Para o Brasil foi um enorme desafio”, concluiu.

Na época, o Itamaraty adotou uma postura equidistante e conseguiu se credenciar para cuidar dos interesses dos dois beligerantes. Quatro décadas depois, o diplomata se espanta com a situação atual da diplomacia. “Nunca imaginei que fosse viver esse momento, um momento em que estamos nos afastando de uma ordem que tinha seu fundamento no direito.” Segundo ele, de repente, o mundo entrou em um terreno do unilateralismo, que significa uma desconstrução de séculos de tudo que o Brasil contribuiu – até com ajuda dos americanos – para construir.

O real e o acordo nuclear

Mário Vilalva, que foi cônsul-geral em Boston (EUA) entre 1996 e 1999, realçou a importância da “facilidade de acesso” para o trabalho dos diplomatas. “Se você não tiver essa facilidade, não consegue nada. Veja hoje o que está se passando aí, que ninguém consegue conversar com o governo norte-americano no momento, não tem facilidade de acesso neste momento”, disse.

O embaixador comparou a crise a partir da chegada ao poder de Trump ao momento em que viveu nos Estados Unidos. Também, naquela época, era preciso levar aos atores políticos e econômicos dos EUA “o conhecimento sobre o que era o Brasil” com o objetivo de evitar que legislações americanas comprometessem as exportações brasileiras. “Hoje, passamos por uma situação muito parecida, em que há um presidente nos Estados Unidos (Trump) que conhece pouco o Brasil e, quando você conhece pouco, você se arrisca a tomar medidas que não são justas”.

O diálogo e a estratégia de levar conhecimento do Brasil aos EUA foi o que fez o embaixador Carlos Alberto Lazary Teixeira. “Fui diretor da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos da Flórida. Ali desenvolvemos um trabalho importante de projeção do Brasil, de participação em feiras, toda a área comercial”. Esse interesse depende não apenas da diplomacia, mas do momento do País.

Teixeira conta que, após o Plano Real (1994), o interesse dos americanos pelo Brasil cresceu. “Eu fazia oito palestras por ano. No momento em que houve o lançamento do Plano Real, eu fui convidado, no ano seguinte, a fazer mais de 50 palestras. O Brasil entrou no radar com o Plano Real.”

Além da economia, temas como a proliferação de armas atômicas no hemisfério também despertavam a atenção dos americanos. E foram motivo de atritos entre os países. O embaixador Paulo Roberto Almeida, que trabalhou entre 1999 e 2003 nos EUA, contou que, naquela época, o “grande inimigo do Brasil era John Bolton”, descrito por ele como o homem forte do Departamento de Estado. Era Bolton, segundo Almeida, quem proibia a exportação de qualquer material sensível ao Brasil.

“Não estou falando de materiais militares, mas sim de supercomputadores, por exemplo, que você usa para definir clima, ambiente. Você precisa de supercomputadores para fazer a previsão de chuvas. E o John Bolton achava que os supercomputadores seriam usados para simulações de explosões nucleares clandestinas. Então, vetava tudo.” Isso ocorrido, de acordo com Almeida, porque o Brasil não havia assinado o Tratado de Não Proliferação de armas nucleares.

A reação americana aos programas nuclear e aeroespacial brasileiros começou ainda nos anos 1970, quando, durante o regime militar, o País assinou um acordo de cooperação espacial com a França para o lançamento de foguetes, mas que, para os americanos, podia significar mísseis. A mesma oposição ocorreu quando o Brasil firmou o acordo nuclear com a Alemanha Federal, em 1975, para a construção de reatores nucleares, além das pesquisas sobre a tecnologia de enriquecimento de urânio.

“Os americanos fizeram enormes pressões sobre o Brasil em 1975, 1976 e 1977, sendo contrários a esse acordo Brasil e República Federal Alemã”, disse o diplomata. Essa foi uma das causas que levou o presidente Ernesto Geisel cancelar o acordo de cooperação militar que o Brasil mantinha com os Estados Unidos. “Era uma cooperação antiga, vinha da Segunda Guerra Mundial”, lembrou.

Para ele, é preciso que o Brasil se lembre que é uma potência média, que deveria manter uma posição “imparcial, neutra, autônoma, em relação aos conflitos entre grandes potências”. Mas, segundo ele, não é o que Lula fez. Primeiro com os Brics, quando se uniu à China e à Rússia. Depois, ao apoiar “todas as eleições dos seus colegas esquerdistas na América Latina, desde 2003″. “Ou seja, interferiu nos assuntos internos de outros Estados.”

Ele citou ainda a declaração de Lula de apoio à candidata democrata Kamala Harris. Tudo isso aumentaria os desafios da atual situação. “E o Brasil, como potência média, devia estar unido a outras potências médias contra as violações do direito internacional pelas grandes potências. Infelizmente, não é o que está acontecendo hoje”, afirmou.

Seu colega, Tadeu Nascimento Valadares, afirmou que os desafios estão além dos desencontros entre a gestão de Trump e a de Lula. “Os desafios são muito claros: o que nós estamos vivendo não é só um momento; estamos vivendo uma época de grandes riscos. E por quê? Simplificando a mais não poder, vivemos uma época que os historiadores da longa duração chamam de um momento de mudança de paradigmas ou de mudança de transição de hegemonias.”

E como esse processo atinge a América Latina? Para ele, a região continua sendo dominada pelos EUA na área militar, por meio da projeção de sua força, como ocorreu na Venezuela, mas, ao mesmo tempo a “hegemonia comercial de cooperação hoje, apesar das diferenças de regime, já é chinesa”. O diplomata lembrou que “transições de hegemonia foram sempre resultantes de enormes conflitos bélicos”. “Esse é o quadro geral dos grandes desafios da diplomacia brasileira”, concluiu.
Por Felipe Frazão/Marcelo Godoy/Estadão

Número de mortos em terremotos na Venezuela sobe para 1.719

As autoridades venezuelanas atualizaram, nesta segunda-feira (29), o balanço oficial dos terremotos que atingiram o país no dia 24 de junho. Segundo o governo, o desastre já deixou 1.719 mortos, além de 5.034 feridos e 15.866 pessoas desabrigadas.

Os números foram apresentados pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, durante a divulgação do mais recente relatório sobre os impactos da tragédia. Ele é irmão da vice-presidente executiva da Venezuela, Delcy Rodríguez.

Enquanto as equipes de resgate continuam as buscas em áreas afetadas, a expectativa é de que o número de vítimas aumente. De acordo com estimativas das Nações Unidas, cerca de 50 mil pessoas ainda permanecem desaparecidas sob escombros ou sem contato com familiares, o que mantém o cenário de preocupação no país.
Por: Bahia.ba

Mortes após terremotos na Venezuela sobem para 1.430 Por Agência Brasil

Dois brasileiros estão entre as vítimas
O número de mortes em razão dos terremotos que atingiram a Venezuela na quarta-feira (24) subiu para 1.430. O balanço foi divulgado neste sábado (27) pelo governo venezuelano.

Os números mostram ainda 3.238 feridos pelos tremores, que registraram magnitude de 7,5 e 7,2 graus na escala Richter. Segundo o governo venezuelano, foram contabilizadas pelo menos 430 réplicas de menor intensidade.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que dois brasileiros – uma mulher e um homem – morreram em decorrência dos terremotos. Uma das vítimas é a brasiliense Vanessa Zacarias da Silva, 44 anos.

Na tarde de sexta-feira (26), um novo terremoto, de magnitude 4,9, atingiu a costa norte da Venezuela. O tremor foi sentido na capital Caracas e na cidade vizinha de Maracay.

Venezuela registra 920 mortes, e sismos abalam a Caracas de construções vulneráveis devido à crise

Capital tem estrutura antiga, e país convive com interrupção constante de rede elétrica, o que pode dificultar buscas

Terremoto foi o maior a atingir Caracas em mais de um século
O maior terremoto a atingir Caracas em mais de um século encontrou a capital da Venezuela com uma infraestrutura precária, em parte resultado de uma crise econômica que abate o país há mais de uma década.

Na manhã desta sexta-feira (26), cerca de 36 horas após tremores de magnitude 7,2 e 7,5, as autoridades do regime comandado pela líder interina, Delcy Rodríguez, tinham confirmado 920 mortos. A tendência, no entanto, é que o número cresça —o Serviço Geológico dos Estados Unidos calcula, com base em uma escala técnica previamente estabelecida, que há 42% de chances de que o número total de óbitos fique entre 10 mil e 100 mil.


O órgão cita a precariedade da área atingida. "De modo geral, a população desta região reside em estruturas vulneráveis a tremores sísmicos, embora existam construções resistentes. Os tipos de construção vulneráveis predominantes são alvenaria de tijolos sem reforço e blocos de adobe", afirma o serviço.

A situação se dá em parte pela situação econômica da população. De acordo com a Encovi (Pesquisa Nacional de Condições de Vida, na sigla em espanhol), feita pela Universidade Católica Andrés Bello, 55% dos venezuelanos estavam em situação de pobreza multidimensional, que se calcula a partir de índices como renda, emprego, moradia e serviços, em maio de 2025.

Pesquisas sobre a distribuição urbana de Caracas são escassas, mas, em 2016, quando a crise econômica ainda estava em seu início, um programa social do regime estimava que cerca de 60% da população vivia em favelas na capital.

Nos últimos anos, diversos estudos demonstram como a fragilidade das construções poderia ser perigosa durante a ocorrência de um terremoto. Um deles, publicado em 2014 na Revista da Faculdade de Engenharia da UCV (Universidade Central de Venezuela), calcula os riscos em Guarenas e Guatire —naquele momento, as principais áreas de expansão da região metropolitana de Caracas.

De acordo com o estudo, o número de mortos em um terremoto de magnitude moderada a grande que ocorresse às 2h da madrugada e atingisse os dois locais poderia matar quase 20 mil pessoas. Os autores afirmam no artigo que apenas 40% da população dos municípios estudados viviam em edifícios formais. Todas as construções informais e mais da metade das formais eram de alta vulnerabilidade em uma situação de sismo.

"Caracas é uma cidade de estruturas antigas", afirma Valentina Páez Hernández, mestre em engenharia sísmica pela UCV, à reportagem. Ela calcula que cerca de 80% dos edifícios são anteriores à principal norma para construções resistentes a terremotos, elaborada em 1982. Frisa, porém, que a situação foi excepcional —o tremor foi o mais forte registrado no país desde 1900.

O texto é um marco por ter sido o primeiro elaborado com uma base científica mais robusta, com a ajuda da Fundação Venezuelana de Investigações Sismológicas, no rescaldo do terremoto de 1967. O sismo daquele ano foi de magnitude 6,3 e matou mais de 200 pessoas.

Para além da precariedade dos prédios, a Venezuela está em uma situação frágil em relação à infraestrutura de serviços básicos em geral.

Nesta quinta, a rede elétrica estava funcionando na maior parte do país, mas partes de Caracas e de outras cidades atingidas, como Catia la Mar e La Guaira, estão sem energia elétrica —uma situação que não chega a ser novidade para os venezuelanos.

A maior parte do país, inclusive a capital, sofre apagões diariamente. De acordo com a Encovi, somente 10% da população disse nunca sofrer cortes de energia em maio de 2025, período no qual foi feito o último levantamento. Do restante, 39% disseram ficar sem luz várias horas por dia —número que chegou a uma mínima de 8% em 2016, mas que desde então só cresceu até chegar ao seu pior patamar em onze anos, em 2025.

Em relação à água encanada, a situação também é preocupante. Chega a 78% a porcentagem de pessoas que têm acesso ao serviço, índice que era de 85% em 2016. A frequência em que ele funciona, no entanto, é irregular: apenas 19% dizem ter água encanada diariamente e de forma contínua, e 11% dizem ter apenas uma vez por semana.

O cenário de falta de energia e água deve afetar o uso de equipamentos e a comunicação, prejudicando as buscas nas 48 horas seguintes ao evento, essenciais para resgatar sobreviventes sobre os escombros.

Por Daniela Arcanjo/Folhapress

Venezuela busca vítimas soterradas de terremoto que já matou 164; VÍDEO mostra comemoração com resgates

Mais de 500 equipes de emergência estão trabalhando para tirar sobreviventes dos escombros. Dezenas de chefes de estado e de governo se solidarizaram e se colocaram à disposição para enviar ajuda humanitária e mais especialistas em resgate para acelerar as buscas.


A busca por vítimas dos terremotos que devastaram a Venezuela na noite desta quarta-feira (24) - e deixaram 164 mortos e 971 feridos até o momento - continua nesta quinta-feira (25) e, segundo informações, mais de 500 equipes de emergência estão trabalhando para tirar sobreviventes dos escombros.
AO VIVO: Veja as últimas atualizações do terremoto

Imagens da imprensa e das redes sociais mostram a comemoração dos venezuelanos a cada sobrevivente encontrado com vida após os tremores (veja no vídeo acima), considerado o pior do país em 100 anos.

Até a manhã desta quinta, 164 mortes haviam sido confirmadas, mas o serviço geológico dos Estados Unidos estima que o número de mortos possa ficar entre 10 mil e 100 mil.

Dezenas de chefes de estado e de governo se solidarizaram e se colocaram à disposição para enviar tanto ajuda humanitária, como produtos médicos, quanto equipes de resgates. Além do Brasil, a lista inclui vários países que já sofreram terremotos devastadores, como os Estados Unidos, a Turquia, o México e Portugal.

Segundo a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que agradeceu à comunidade internacional pelo apoio recebido, os primeiros socorristas estrangeiros devem chegar nas próximas horas.

O governo venezuelano cancelou aulas e suspendeu serviços não essenciais.

O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou solidariedade e disse ter mandado todas as agências do governo americano ajudarem.

A China, que era a principal compradora do petróleo venezuelano antes da captura e prisão de Nicolás Maduro por militares americanos, afirmou que vai fazer o que for possível para ajudar.

O que se sabe sobre o terremoto devastador na Venezuela

Dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram a Venezuela na noite de quarta-feira (24) e provocaram pelo menos 20 réplicas nas horas seguintes, segundo o governo venezuelano. Os tremores foram sentidos em cidades do Norte do Brasil.

Prédios e casas desabaram em Caracas e outras cidades do país. Até a última atualização desta reportagem, o governo não havia divulgado um balanço nacional de mortos e feridos. No entanto, autoridades venezuelanas confirmaram a existência de vítimas.

Os dois abalos ocorreram com menos de um minuto de diferença. O epicentro do terremoto principal foi localizado próximo à cidade de El Guayabo, a cerca de 160 quilômetros de Caracas.

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, decretou estado de emergência após os terremotos. Em pronunciamento na televisão estatal, ela afirmou que equipes de resgate, segurança e assistência civil foram mobilizadas para atender as áreas afetadas.

Rodríguez também anunciou a suspensão de aulas e todos os serviços não essenciais para que as autoridades que se concentrem no resgate das pessoas que estão sob os escombros. Redes de gás e eletricidade foram desligadas para evitar uma tragédia maior.

👉 Veja, abaixo, o que se sabe sobre o terremoto até agora.
Como foram os terremotos?
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), um terremoto de magnitude 7,2 atingiu a região às 19h no horário de Brasília. Menos de um minuto depois, um segundo tremor, de magnitude 7,5, foi registrado na mesma área.

O terremoto principal ocorreu a cerca de 13 quilômetros de profundidade. A distância é considerada próxima da superfície, o que pode intensificar os efeitos dos tremores em edifícios.

Há vítimas?

Durante a madrugada desta quinta (25), a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, comunicou a morte de 32 duas e 70 feridos.

O prefeito de Chacao, município da região metropolitana de Caracas, informou que houve mortes e que ao menos 16 pessoas ficaram feridas após o desabamento de duas estruturas.

Delcy Rodríguez, prestou solidariedade às famílias das vítimas ao anunciar medidas emergenciais.

Relatos de autoridades e moradores indicam que prédios e casas desabaram em Caracas e em outras cidades.

Imagens mostraram equipes de resgate trabalhando nos escombros de um edifício que desabou na capital venezuelana. Familiares também procuravam informações sobre pessoas que poderiam estar presas sob os destroços.

No litoral, um hotel de pelo menos oito andares desabou. Imagens que circulam nas redes sociais mostram o edifício completamente destruído. Não há informações de mortos ou feridos.

O Aeroporto Internacional Simón Bolívar, principal terminal aéreo do país, foi fechado após sofrer danos provocados pelos tremores, segundo o governo.

Hospitais da capital foram mobilizados para atender feridos. Em uma unidade de saúde, funcionários foram convocados para reforçar o plantão da noite.

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Sim. A Rede Sismográfica Brasileira informou que os terremotos foram registrados por estações de monitoramento no país e sentidos por moradores de cidades da Região Norte.

Houve relatos de tremores em Belém, Manaus, Boa Vista e Macapá, além de outros municípios desses estados.

Segundo o sismólogo Bruno Collaço, do Centro de Sismologia da USP, é relativamente comum que terremotos dessa magnitude sejam percebidos a grandes distâncias.

"Apesar do susto que podem causar nas pessoas por aqui, a distâncias como essa não há chance de danos para as cidades brasileiras", afirmou.

Há risco de tsunami?

Inicialmente, o Sistema de Alerta de Tsunamis dos Estados Unidos emitiu um aviso para Porto Rico e para as Ilhas Virgens americanas e britânicas. O alerta também mencionava a possibilidade de ondas perigosas em Aruba, Curaçao e Bonaire.

O aviso foi cancelado retirada cerca de uma hora depois.

Por que há terremotos na Venezuela? Os tremores foram sentidos no Brasil?Quais foram os danos? 
A Venezuela está localizada em uma área de intensa atividade sísmica, na região de encontro entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul.

Segundo o USGS, cerca de 30 mil pessoas morreram em um terremoto que atingiu Caracas e Mérida em 1812.

VÍDEOS: agora no g1

China amplia retaliação aos EUA e endurece restrições comerciais

A China anunciou uma nova rodada de medidas de retaliação contra os Estados Unidos, ampliando as tensões entre as duas maiores economias do mundo. O governo chinês impôs controles de exportação a dez empresas americanas e proibiu órgãos públicos de adquirir produtos de outras 46 companhias dos EUA, incluindo gigantes do setor de defesa como Lockheed Martin, Raytheon e a divisão de defesa da Boeing. A reportagem é do Estadão.

As medidas foram anunciadas após o Pentágono incluir as empresas chinesas Alibaba e Baidu em uma lista de companhias supostamente ligadas às Forças Armadas chinesas. Em resposta, o Ministério do Comércio chinês classificou a decisão americana como um “ato flagrante” e afirmou que as restrições têm como objetivo proteger a segurança nacional do país.

A nova escalada reforça a disputa estratégica entre Washington e Pequim nos campos da tecnologia, defesa e comércio internacional. Embora as restrições passem a valer imediatamente, o governo chinês informou que empresas instaladas na China com participação de capital americano não serão afetadas pelas novas regras. O episódio evidencia o aprofundamento da rivalidade entre as duas potências e pode gerar impactos relevantes nas cadeias globais de produção e nos mercados internacionais.

Por Redação

Trump sugere que EUA podem cobrar pedágio no estreito de Hormuz- Por Redação

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu neste sábado (20) que o governo americano pode cobrar um pedágio de passagem no estreito de Hormuz se não houver acordo com o Irã nas negociações de paz em curso.
Em publicação nas redes sociais, o republicano disse que a rota permanecerá livre de cobranças -a menos que os EUA decidam impor uma taxa caso o acordo não seja concluído, "como forma de reembolso de custos passados, presentes e futuros".

"Não haverá cobrança de pedágio no estreito de Hormuz durante os 60 dias de cessar-fogo. E também não haverá cobrança após esse período, a menos que sejam impostas pelos Estados Unidos da América como forma de reembolso de custos passados, presentes e futuros, caso o acordo não seja concluído", escreveu na rede Truth Social.

A publicação ocorreu horas depois de a Guarda Revolucionária do Irã e o comando militar iraniano anunciarem um novo fechamento do estreito de Hormuz ao tráfego de embarcações. Segundo Teerã, a medida foi adotada em resposta a violações do acordo de cessar-fogo firmado nesta semana entre Irã, Estados Unidos e seus aliados.

Em comunicado, as autoridades iranianas orientaram embarcações a evitarem a passagem, alegando riscos à segurança. O governo iraniano atribuiu a decisão aos recentes ataques israelenses no sul do Líbano, que deixaram dezenas de mortos e aprofundaram a instabilidade regional.

Apesar do anúncio iraniano, autoridades americanas contestaram a versão. O Exército dos EUA informou que o tráfego marítimo permaneceu ativo ao longo do sábado. Segundo Washington, 55 embarcações atravessaram o estreito transportando cerca de 17 milhões de barris de petróleo.

O vice-presidente americano, J. D. Vance, declarou à emissora Fox News que não havia evidências de interrupção efetiva da navegação.

O estreito de Hormuz é considerado uma das passagens marítimas mais importantes do mundo. Localizado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, o corredor é responsável pelo escoamento de uma parcela significativa do petróleo exportado por países produtores da região.

Desde o início da atual escalada militar, a possibilidade de interrupções no tráfego marítimo tem sido acompanhada com atenção por governos e mercados financeiros devido ao potencial impacto sobre os preços da energia.

Irã anuncia fechamento do Estreito de Hormuz após ataques de Israel ao Líbano -

O Irã anunciou neste sábado (20) o fechamento do Estreito de Ormuz, segundo agências de notícias do país. A decisão ocorreu após ataques de Israel ao Líbano, um dos pontos do acordo entre EUA e Teerã.
Irã citou violação do compromisso firmado entre os dois países para justificar a decisão. "Diante da clara violação dos compromissos dos Estados Unidos em relação ao primeiro artigo do memorando de entendimento sobre o fim da guerra, e em resposta às contínuas e implacáveis violações do cessar-fogo pelo regime sionista no sul do Líbano, as quais resultaram no assassinato brutal e no deslocamento de centenas de milhares de pessoas inocentes naquele território, bem como considerando a falha das forças de ocupação sionistas em se retirarem do sul do Líbano, anuncia-se que o Estreito de Ormuz será fechado ao tráfego de embarcações", declarou o Quartel-General Central Khatam al-Anbiya do Irã.

Primeiro artigo do documento prevê a interrupção imediata e permanente das operações militares entre o Irã, os EUA e aliados em todas as frentes, incluindo o Líbano, disse a agência iraniana. Acordo prevê que as partes se abstenham de futuras ações militares ou ameaças de uso da força. "O memorando também destaca o respeito à integridade territorial e à soberania do Líbano, enquanto as negociações para um acordo final estão programadas para serem concluídas em um prazo máximo de 60 dias", mencionou o comunicado oficial do Comando militar iraniano.

Comando militar do Irã afirmou que "este é o primeiro passo de resposta à quebra de confiança do inimigo". O comunicado informou ainda que, "caso a agressão continue, novas medidas serão planejadas e adotadas para forçar o inimigo a cumprir seus compromissos".

A passagem marítima entre o Irã e Omã, por onde passava cerca de 20% do abastecimento global de petróleo, estava em processo de reabertura. Com a assinatura do protocolo do acordo para pôr fim à guerra entre Estados Unidos e Irã, o estreito seria reaberto "instantaneamente" e o bloqueio americano dos portos iranianos seria suspenso, segundo afirmou o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, país que media as conversas.

Anúncio sobre a reabertura chegou a ser divulgada pelo primeiro-ministro paquistanês nas redes sociais. O protocolo "entrará em vigor com efeito imediato e, como primeiro passo, a República Islâmica do Irã reabrirá o Estreito de Ormuz sem demora e os Estados Unidos suspenderão imediatamente o bloqueio naval", escreveu Sharif no X.

Com o anúncio da abertura na quinta-feira, Irã chegou a impor novas regras para os navios. A autoridade marítima iraniana responsável pelo estreito exigiu hoje que todos os navios que desejem atravessá-lo apresentassem um pedido de trânsito com 48 horas de antecedência, apesar da reabertura até aquele momento.

Ataques ao Líbano matam 10

Horas antes do anúncio do fechamento, aviões de guerra e drones israelenses atingiram locais no sul do Líbano, informou a agência de notícias do país. Entre as vítimas, há mulheres e crianças.

Segundo a agência Reuters, um oficial militar israelense disse que os ataques foram uma resposta aos mais de 50 projéteis que teriam sido disparados pelo grupo Hezbollah contra alvos das forças israelenses. O grupo extremista, porém, não assumiu a autoria dos ataques até o momento.

Um dos ataques israelenses atingiu um prédio residencial de três andares na cidade de Barish, no sul, no distrito de Tiro. Ainda segundo a Reuters, o exército libanês informou que um ataque israelense matou um soldado na estrada Kfarrumman-Nabatieh e acusou Israel de minar os esforços para restaurar a estabilidade.

Ministério da saúde do Líbano afirma que 3.912 pessoas foram mortas, incluindo mulheres e crianças, desde o início do conflito. As autoridades israelenses dizem que pelo menos 32 soldados e quatro civis foram mortos nos últimos ataques.
Por Folhapress

Depois do Irã, a terceira guerra mundial vem aí, mas não envolve quem você pensa

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Governo americano proibiu o acesso ao modelo de IA da Anthropic Fable Foto: Marissa Leshnov/The New York Times
O governo Trump passou a última semana tentando pôr fim a uma guerra enquanto se envolvia cada vez mais em outra. A primeira guerra, a guerra contra o Irã, parece o epílogo de uma era; parece improvável que os Estados Unidos empreendam outra guerra para promover uma mudança de regime no Oriente Médio em um futuro próximo. Já a segunda guerra, a batalha em torno dos modelos de inteligência artificial de ponta da Anthropic, é o início de um novo tipo de conflito, com potências privadas e governos nacionais lutando para determinar quem realmente governa um mundo dominado pela IA.

A natureza do conflito envolvendo a Anthropic pode ser rapidamente resumida, mesmo que os detalhes estejam em disputa. Há dois meses, a empresa se recusou a divulgar publicamente seu modelo mais recente, o Mythos, alegando várias preocupações com a segurança (e exaltando o poder revolucionário do modelo). Após apresentar uma prévia do Mythos ao governo dos EUA e a certas empresas, a Anthropic lançou então o Fable, uma versão do modelo com várias barreiras de segurança. A Amazon, investidora e cliente da Anthropic, descobriu uma maneira de contornar algumas dessas proteções. Isso foi relatado à Casa Branca; a resposta da Anthropic foi considerada insatisfatória, e o governo utilizou seu poder de controle de exportações para proibir o uso do Fable por qualquer cidadão estrangeiro dentro dos Estados Unidos e por qualquer pessoa fora do país — uma regra que a Anthropic interpretou como uma exigência para desativar o novo modelo de IA.

É nesse ponto que nos encontramos agora, com a empresa e o governo negociando sobre como trazer o Fable de volta, enquanto vazamentos contínuos para a imprensa retratam um ou outro lado como irracional, imprudente ou ideológico e sem noção sobre tecnologia.

É um conflito repleto de ironias. Uma Casa Branca que se considera defensora de uma abordagem de livre mercado em relação à IA já utilizou, por duas vezes, medidas regulatórias severas contra a principal empresa de IA dos Estados Unidos. (No primeiro caso, no início deste ano, o Pentágono basicamente tentou excluir a Anthropic de todas as cadeias de suprimentos do governo devido a disputas sobre o uso de seus modelos em tempo de guerra.) Enquanto isso, a Anthropic se considera a empresa de IA mais atenta às questões de segurança e ávida por supervisão democrática, mas cada medida do governo Trump levou a empresa a gritar: “Não, não é assim!”

É claro que é assim que as guerras costumam se apresentar, com várias hipocrisias, choques culturais e mal-entendidos alimentando o conflito tanto quanto avaliações razoáveis do que está em jogo. Mas, além dos detalhes específicos sobre por que, digamos, os profissionais de tecnologia libertários do governo Trump desconfiam dos profissionais de tecnologia altruístas eficazes que dirigem a Anthropic, o tipo de conflito que estamos vendo aqui é determinado em grande parte pela trajetória dos modelos de IA: há poder potencial demais aqui para que não haja lutas contínuas e crescentes sobre quem realmente vai mandar.

A disputa em torno do Fable antecipa as duas formas gerais que esse conflito assumirá. Primeiro, há uma luta entre os setores público e privado, na qual os governos buscam um equilíbrio regulatório que lhes permita manter um veto significativo sobre os gigantes da IA sem aniquilar seu poder de inovação, enquanto as empresas de IA tentam manter o controle sobre seus próprios modelos e influência sobre como os governos utilizam suas inovações.

Há aqui um caminho que leva à nacionalização em tudo, menos no nome, e um caminho que leva a uma espécie de tomada de controle corporativa de fato do governo, ou pelo menos a uma simbiose do tipo “grande demais para falir”. E, ao longo desse caminho, pode haver não apenas conflitos entre presidentes e executivos de IA, mas também ações cada vez mais implacáveis entre empresas, por medo de que o cenário da IA se torne um “o vencedor leva tudo” em uma escala que nunca vimos antes no capitalismo. (Não estou dizendo que seja por isso que a Amazon trairia seu querido parceiro de negócios na Anthropic; estou apenas dizendo que existem trajetórias potenciais para as empresas de IA que poderiam ameaçar seus parceiros atuais com servidão ou irrelevância.)

Então, paralelamente à luta para controlar o poder da IA dentro das fronteiras americanas, há a luta geopolítica para maximizar o poder global (onde os únicos atores reais provavelmente são os Estados Unidos e a China) e manter a soberania (onde todos os demais provavelmente estarão se esforçando para manter alguma independência). O uso de controles de exportação para desativar o Fable provavelmente refletiu os temores dos EUA de que a China tivesse acesso a uma versão desbloqueada do modelo, mas também foi um aviso a todos os outros países do mundo: se acabarmos tendo modelos de IA que permeiam a economia, criados e regulamentados nos Estados Unidos, o governo americano controlará o botão de ligar e desligar.

Uma possibilidade do que isso significa é explorada em “Europa 2031”, um cenário futurista escrito por pesquisadores e investidores europeus em IA, no qual a União Europeia acaba optando pela vassalagem política e econômica aos Estados Unidos ou à China, por não dispor de modelos de IA suficientemente poderosos que estejam sob seu próprio controle.

Isso pode ser um exagero: as regras normais do comércio e da vantagem comparativa podem continuar a se aplicar; a Europa poderia manter sua influência geopolítica por meio de outras formas de conhecimento tecnológico; os modelos de código aberto podem permanecer competitivos (em vez de serem deixados para trás por IAs de ponta proprietárias que criam outras IAs de ponta em um ciclo acelerado).

Mas, no mínimo, o domínio americano e chinês em IA criará novos problemas para a soberania, novas formas de dependência e coerção, que pesarão fortemente sobre as potências médias à medida que suas economias se tornarem cada vez mais dependentes de modelos específicos e do acesso ao poder de computação.

Por fim, devo observar que, do ponto de vista de muitos analistas de IA, esse esboço de conflito futuro representa o cenário otimista, pois pressupõe que os atores humanos e as instituições humanas — Estados-nação, impérios, executivos, presidentes — ainda são os que lutam pelo controle. Essas guerras humanas serão travadas à sombra de um cenário mais sombrio — em que a guerra que realmente importa é contra nossa própria criação, e o que está em jogo não é se a Anthropic, o Pentágono ou Pequim detêm mais poder, mas se os seres humanos têm alguma influência alguma.
Fonte: Estadão

Israel desafia acordo de paz dos EUA com Irã e posta mapa com território ocupado no Líbano

             Ataque atribuído a Tel Aviv mata três pessoas, segundo agência estatal libanesa
O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu
Israel publicou nesta quinta-feira (18) um mapa mostrando uma zona ampliada de controle militar no sul do Líbano e afirmou que não descarta realizar ataques além dessa área, desafiando os termos de um pacto entre os Estados Unidos e o Irã que prevê o respeito à soberania libanesa.

A chamada "zona de segurança" quase 10 km dentro do território libanês. O Exército de Israel informou que suas tropas permanecerão na região "para eliminar ameaças do grupo Hezbollah, aliado de Teerã.

Um alto israelense de alto escalão disse à agência Reuters que Israel está conduzindo "negociações difíceis" com o governo do presidente Donald Trump para manter a área ocupada.

O novo mapa mostra uma expansão significativa da área sob controle israelense. Em abril, as Forças Armadas haviam divulgado uma versão anterior delimitando a chamada zona de segurança no sul do Líbano. Agora, a atualização indica que as tropas operam vários quilômetros mais ao norte, incluindo áreas próximas a Nabatieh, um dos principais redutos do Hezbollah, localizado ao norte do rio Litani.

Embora militares israelenses já atuassem em parte dessas regiões há várias semanas, esta é a primeira vez que o Exército reconhece publicamente a ampliação da zona de controle, destacada em vermelho escuro no mapa divulgado nesta quinta-feira.

Em discurso televisionado na quarta-feira, o líder do Hezbollah, Naim Qassem, rejeitou a ideia de zonas de segurança israelenses em território libanês. "Não há zonas amarelas, vermelhas ou verdes. Israel deve sair, e sairá", afirmou.

Um acordo provisório assinado na quarta-feira para encerrar a guerra no Oriente Médio prevê o fim dos combates em todas as frentes, incluindo no Líbano, e exige que as partes garantam "a integridade territorial e a soberania" do país.

Israel vem rejeitando os apelos para retirar suas tropas do território do país vizinho. A invasão israelense causou a deslocamento de mais de um milhão de pessoas na região, segundo as autoridades, e ao menos 1.530 mortos.

Desde o anúncio do acordo entre Teerã e Washington, a intensidade da violência no sul libanês caiu, mas não cessou. Segundo a agência libanesa NNA, três pessoas morreram nesta quinta em várias ofensivas atribuídas a Tel Aviv. Um dos episódios envolveu um ataque de drone contra um carro na região de KfarTebnit.

O Hezbollah também mirou tropas israelenses no sul do país nesta semana, inclusive com drones explosivos que mataram e feriram soldados.

O grupo extremista arrastou o Líbano ao atacar Israel em solidariedade ao Irã. Israel respondeu com bombardeios e uma invasão terrestre no sul.

Aliados, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, e Trump entraram em choque repetidas vezes nas últimas semanas devido à questão do Líbano. Dentro do Estado judeu,membros do governo e da oposição criticaram o acordo costurado pelos EUA, alegando que ele não atende suficientemente às preocupações de Israel.

Trump não esconde sua frustração com Netanyahu e criticou as ações militares israelenses no Líbano, dizendo que não era necessário bombardear prédios inteiros para perseguir membros do Hezbollah. No entanto, não há sinais de que essas críticas se traduzirão em medidas concretas que possam forçar Israel a rever suas táticas militares.

Israel descreve os territórios que ocupou no Líbano, em Gaza e na Síria como "zonas de amortecimento" entre o país e seus inimigos, um elemento central de sua política de segurança recente.

A divulgação do mapa ocorre antes de uma nova rodada de negociações entre Israel e Líbano mediadas pelos EUA, marcada para a próxima semana em Washington.

Autoridades israelenses, falando sob anonimato, afirmam que Israel deixou aberta a possibilidade de se retirar do sul do Líbano caso as negociações avancem. Tel Aviv busca o desarmamento do Hezbollah como resultado dessas conversas, enquanto o Líbano exige a retirada das tropas israelenses.
Por Folhapress

Brasil diverge dos documentos do G7 e vê textos moldados para não desagradar a Donald Trump

Governo Lula deve aderir a apenas três dos oito documentos negociados pela França, anfitriã da cúpula

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Brasil encerrou o primeiro dia de participação na cúpula do G7 em Évian, na França
O Brasil encerrou o primeiro dia de participação na cúpula do G7 em Évian, na França, com um saldo diplomático que evidencia distância entre Brasília e o grupo das sete principais economias do mundo. Dos oito documentos negociados pela presidência francesa, o Brasil deve aderir a apenas três —e recusou dois dos três já divulgados nesta terça-feira (16).

Na avaliação do governo brasileiro, boa parte dos textos foi deliberadamente moldada para garantir a permanência dos Estados Unidos na cúpula e evitar o veto do presidente Donald Trump. O resultado, na visão de Brasília, foi uma série de documentos que omitem temas centrais, como mudança climática, reforma das instituições multilaterais e o papel da Organização Mundial da Saúde (OMS), para não contrariar Washington.

Dos três textos divulgados nesta terça, o Brasil aderiu apenas à declaração sobre o combate ao câncer —tema que o governo Lula considera prioritário na agenda de saúde pública, com programas de ampliação do atendimento oncológico na rede pública.

A declaração sobre parcerias internacionais para o desenvolvimento, que embasou a sessão da tarde em que Lula discursou, foi rejeitada pelo Brasil. O documento propõe a mobilização de capital privado e mecanismos de garantia para investidores como resposta à queda brutal na ajuda ao desenvolvimento, uma abordagem que Brasília considera insuficiente e despolitizada.

Na visão brasileira, o texto ignora as questões ambientais, de dívida externa e de combate à fome, e não menciona em nenhum momento a mudança climática —ausência que o governo brasileiro atribui diretamente à necessidade de acomodar os Estados Unidos.

A declaração sobre o surto de ebola na República Democrática do Congo e em Uganda também não recebeu o apoio brasileiro. O motivo: o texto não faz qualquer menção à OMS.

Segundo o governo brasileiro, a omissão foi deliberada para não contrariar Washington, que cortou drasticamente seu financiamento ao organismo. O Brasil optou por formalizar sua posição sobre saúde global por meio de uma carta de Lula ao secretário-geral da OMS, Tedros Adhanom, pedindo apoio de países do G20 e do G7 à agência.

Dos cinco textos restantes, que serão discutidos na quarta-feira (17), o Brasil deve aderir a mais dois: a declaração sobre proteção de crianças nas redes sociais —tema em que o Brasil tem legislação própria e experiência a compartilhar— e a declaração sobre combate ao narcotráfico, desde que o texto final se mantenha como o conhecido até agora, que aborda também lavagem de dinheiro sem enquadrar organizações criminosas como grupos terroristas.

O Brasil não deve assinar a declaração sobre desequilíbrios macroeconômicos, que na avaliação brasileira trata o problema como essencialmente ligado à China, sem mencionar os impactos do unilateralismo comercial e dos conflitos internacionais sobre as cadeias produtivas globais.

Brasília também ficará de fora da declaração sobre minerais críticos, cujo enfoque o governo brasileiro considera extrativista e geopolítico —voltado a criar uma coalizão ocidental contra a influência chinesa, sem considerar o direito dos países produtores a agregar valor às suas cadeias produtivas. A declaração sobre migração segue em avaliação de Brasília.

O debate sobre desenvolvimento

Na sessão da tarde, que reuniu os membros do G7 e os países convidados (Brasil, Índia, Coreia do Sul e Quênia), as intervenções evidenciaram diferenças de visão sobre o tema do desenvolvimento.

O anfitrião Emmanuel Macron focou mecanismos de garantia para mobilizar capital privado. Trump defendeu as contribuições americanas à África, sem conectar sua fala ao documento que embasava o debate. Lula argumentou que o problema não é escassez de recursos, mas escolha política sobre como usá-los, posição que diverge da abordagem predominante no texto do G7.

Nenhum líder rebateu diretamente o discurso brasileiro. A intervenção que mais se aproximou da posição de Brasília, segundo relatos de quem acompanhou a sessão, foi a da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que reconheceu que os países ricos cometeram erros nas últimas décadas e contribuíram para criar dependência nos países em desenvolvimento.

Lula e Trump: questão irrelevante

Nas redes sociais e em parte da cobertura jornalística, circulou nesta terça a dúvida sobre se Lula e Trump se cumprimentaram —ou se teriam deliberadamente se evitado. Imagens dos líderes reunidos para a chamada foto de família, retrato oficial do encontro, mostram Trump passando por Lula sem saudá-lo.

A assessoria do presidente brasileiro afirma considerar a questão irrelevante. Não há confirmação de que os dois líderes tenham interagido, mas também não há nenhum elemento que indique evitamento intencional.

Os dois estarão presentes nos mesmos eventos na quarta-feira, e um cumprimento informal não está descartado. O governo brasileiro reitera que não houve pedido de reunião bilateral entre Lula e Trump —e que, por ora, não há o que negociar num encontro formal.

Agenda de quarta-feira

No último dia da cúpula, Lula participará de sessão de trabalho sobre crescimento econômico equilibrado e de almoço com representantes das principais empresas de tecnologia do mundo para debater inteligência artificial.

Está prevista ainda uma possível bilateral com o ditador do Egito, Abdel Fattah Al-Sisi.

Ao fim dos trabalhos em Évian, o presidente segue para Genebra, onde deve se reunir com Valdecy Urquiza, secretário-geral da Interpol e primeiro brasileiro a ocupar o cargo, acompanhado do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues —encontro que ocorre num contexto de tensão com Washington após a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos.

Também deve entrar na agenda da quarta-feira uma reunião com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, a pedido de Kiev.

Por João Caminoto/Folhapress

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