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Contrabando vai da fronteira à internet e desafia fiscalização no Brasil
Um produto contrabandeado percorre uma longa cadeia antes de chegar às mãos do consumidor. A mercadoria cruza fronteiras, passa por transportadores, centros de distribuição, galerias comerciais e marketplaces até chegar ao varejo —muitas vezes sem que o comprador saiba sua origem.
As canetas emagrecedoras se tornaram um dos exemplos mais recentes dessa engrenagem. Segundo auditores da Receita Federal, o medicamento, cuja comercialização irregular preocupa autoridades sanitárias, hoje figura entre os principais desafios no combate ao contrabando nas fronteiras brasileiras.
"É um produto que entra ilegalmente no país e está muito disseminado na região das fronteiras, onde é possível comprá-lo em farmácias", afirma George Souza, diretor de assuntos técnicos da Unafisco (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal).
A preocupação neste caso vai além das questões tributárias. "Como não são regulamentadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), as canetas emagrecedoras são tratadas como um problema de saúde pública", afirma.
A situação é semelhante à dos chamados vapes (cigarros eletrônicos), cuja produção e venda não são permitidas no país devido aos riscos que podem causar à saúde do consumidor.
Para Souza, a falta de pessoal é um dos principais desafios para o trabalho da Receita Federal, em especial nas regiões de fronteira seca.
"Nos portos e aeroportos, o compartilhamento de informações entre os países e o trabalho de inteligência acabam sendo parceiros importantes dos auditores", diz.
Ele lembra que o Brasil tem mais de 7.000 quilômetros de fronteiras secas. Nas rotas terrestres —além da Polícia Federal, que também atua em rotas nos portos e aeroportos— a Receita conta com o apoio da Polícia Rodoviária Federal, que fiscaliza as estradas federais e muitas vezes intercepta as cargas antes de chegarem aos centros de distribuição.
As polícias são importantes no trabalho porque muitas vezes as rotas utilizadas para o transporte de produtos contrabandeados e piratas são as mesmas do tráfico de drogas e de armas e munições.
Consultor jurídico e de relações institucionais do BPG (Grupo de Proteção às Marcas, na sigla em inglês), o advogado Luiz Claudio Garé aponta que a distribuição desses produtos segue ainda o mesmo roteiro de distribuição no mercado físico, com a venda no atacado principalmente em centros de comércio popular da cidade de São Paulo, como as regiões do Brás, do Bom Retiro e da rua 25 de Março.
"Uma vitória importante das empresas foi a responsabilização das galerias pelas lojas nelas instaladas que vendem produtos piratas e contrabandeados", disse Garé, com relação a uma decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça).
Ele lembra que algumas galerias nesses centros comerciais vivem basicamente do comércio de produtos ilegais, sejam piratas ou contrabandeados.
Esses produtos geralmente chegam pelas rotas já conhecidas, vindos da Ásia via porto, com falsas declarações de conteúdo, ou pelas rodovias, vindos de países vizinhos como Paraguai, Bolívia, Argentina e Uruguai.
"Outra rota que tem chamado a atenção é via Suriname, com os produtos chegando pela via fluvial e entrando no Brasil pelo Pará. É uma rota para distribuição desses produtos para as regiões Norte e Nordeste, mas também tem servido para abastecer o país inteiro", disse Garé.
As informações têm como base as apreensões e os trabalhos conjuntos das marcas com o poder público. Ele comenta que as rotas acabam sendo também de mão dupla, com produtos falsificados no Brasil que são distribuídos também em outros países da região.
Garé aponta a região de Nova Serrana (MG) como um centro de fabricação de calçados piratas a de Arapongas (PR) como centro de fabricação de bonés falsos.
"Geralmente, onde há fabricantes legais há também centros de pirataria. Os falsificadores aproveitam o conhecimento técnico, a facilidade de conseguir máquinas e mão de obra especializada da região", disse. Tanto a entrada quanto a saída ilegal de produtos causam prejuízo aos cofres públicos.
A internet se tornou outra grande preocupação com o comércio de produtos contrabandeados e piratas.
"Os marketplaces permitem que qualquer pessoa coloque produtos para vender, o que facilita a venda de produtos piratas e falsificados diretamente ao consumidor por diferentes perfis", afirma Garé.
A preocupação, segundo ele, atinge também perfumes, medicamentos e até peças para veículos. O advogado comenta que a internet também facilitou a importação direta feita por lojas internacionais, que nem sempre entregam produtos originais.
O presidente do ETCO (Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial), Edson Vismona, afirma que, enganados ou não quanto à origem do que estão comprando, os consumidores de produtos piratas ou contrabandeados buscam preços menores.
Ele cita o exemplo das milícias do Rio de Janeiro, que estariam falsificando as marcas de cigarros do Paraguai para vender nas áreas que dominam. "Os compradores já buscam essas marcas porque sabem que são mais baratas", disse.
No caso, as milícias não só mantêm as fábricas clandestinas para a produção do cigarro como obrigam todos os comerciantes de suas áreas de influência a venderem apenas as mercadorias que são produzidas por elas, multiplicando assim o lucro com a venda dos falsificados.
Por Leonardo Fuhmann | Folhapress
Braskem pede recuperação extrajudicial em meio a dívida de US$10 bilhões / Por Redação
A petroquímica Braskem entrou com pedido de recuperação extrajudicial enquanto lida com uma dívida superior a US$10 bilhões em suas operações no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. A informação foi divulgada por duas fontes ligadas à Reuters, nesta segunda-feira (24). A situação financeira da empresa foi afetada pelos preços baixos no setor petroquímico e por um desastre relacionado às suas minas de sal no Nordeste.
Fundada em 2002, a empresa nasceu da consolidação de ativos petroquímicos da antiga Odebrecht (atual Novonor). Hoje avaliada em cerca de R$6,2 bilhões, a companhia está muito distante do auge registrado em outubro de 2017, quando seu valor de mercado superou os R$60 bilhões.
A empresa estava em negociações avançadas para um potencial pedido de recuperação extrajudicial no Brasil antes do final de agosto, quando expiraria uma proteção emergencial de 60 dias, ao mesmo tempo em que explorava opções de reestruturação para sua subsidiária mexicana.
No segundo trimestre de 2026, a companhia divulgou receita líquida de R$ 21,72 bilhões, crescimento de 22% sobre o segundo trimestre de 2025, um Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 1 bilhão e um lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, revertendo prejuízo de R$ 267 milhões registrado no mesmo período do ano anterior.
Ao todo, a dívida da companhia é de R$54 bilhões.Em junho, a companhia finalizou o processo de entrada da gestora IG4 na operação. A transação foi feita a partir da venda da maior parte do controle da Novonor no negócio, que repassou 50,1% do capital votante e 34,3% do capital social da petroquímica ao fundo Shine I.
O restante das ações pertence à Petrobras e a Novonor ainda manteve 4% das ações. A assinatura do contrato foi anunciada no dia 20 de abril.
Em dezembro do ano passado, quando anunciou a intenção de compra da fatia da Novonor, o IG4 comprou cerca de R$20 bilhões em dívidas da construtora com os maiores bancos do Brasil. As ações da Braskem eram dadas como garantia nesses contratos.
Em 2015, a Braskem realizou seu último grande investimento ao anunciar a construção de uma planta fabril no México, onde hoje opera a subsidiária Braskem Idesa. O objetivo era reforçar sua presença global na indústria petroquímica através da joint venture com a mexicana Idesa.
Na ocasião, a companhia desembolsou US$5,2 bilhões para montar uma fábrica focada na produção de eteno base gás e três plantas de polietileno.
Acontece que, meses após a inauguração da planta mexicana, em 2016, a operação Lava Jato atingiu a Odebrecht e jogou a construtora numa espiral de dívidas.
Dois anos depois, em março de 2018, a companhia viu o início de um dos maiores desastres ambientais do país com o afundamento de solo em bairros de Maceió (AL). A causa foi a extração inadequada de sal-gema em 35 minas subterrâneas, que causou tremores de terra, rachados em imóveis, fendas nas ruas e a evacuação de mais de 60 mil pessoas que moravam nos bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol.
A atividade de mineração só foi interrompida na região em maio de 2019. Naquele ano, a Odebrecht entrou em recuperação judicial, o que, combinado com o passivo ambiental de Maceió, ajudou a agravar a crise financeira da Braskem.
Beneficiários unipessoais voltam a crescer no Bolsa Família perto da eleição
O número de beneficiários unipessoais no programa Bolsa Família voltou a crescer em 2026, ano eleitoral.
O número de beneficiários unipessoais no programa Bolsa Família voltou a crescer em 2026, ano eleitoral. A categoria alcançou 3,9 milhões em julho, um número abaixo do pico de 5,9 milhões registrado em janeiro de 2023 —que reflete a folha de pagamento de dezembro de 2022, último mês do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)—, mas acima dos 3,5 milhões observados em janeiro deste ano.
A categoria entrou no radar de especialistas e técnicos do Executivo após o fenômeno de divisão artificial das famílias nas eleições de 2022. No fim do ano anterior, a gestão Bolsonaro introduziu um benefício mínimo de R$ 600 por família, independentemente do número de integrantes, o que acabou induzindo pessoas que moravam juntas a declarar que moravam sozinhas para receber mais de um benefício. Simultaneamente, o afrouxamento dos mecanismos de controle permitiu que a prática se alastrasse pelo país.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vinha tentando regularizar a situação por meio de um pente-fino nos cadastros. Técnicos do Executivo esperavam uma continuidade da redução, mas o que se vê é a inversão desse movimento. De janeiro a julho de 2026, último dado disponível, houve um acréscimo de 344 mil famílias unipessoais no Bolsa Família. No mesmo período, o total de beneficiários também subiu de 18,8 milhões para 19,3 milhões.
Procurado, o MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome) atribuiu o crescimento dos beneficiários unipessoais a uma oscilação esperada diante da dimensão do programa e também dos fluxos de entrada e saída, que ocorrem todo mês e acabam influenciando o estoque de beneficiários. A pasta disse, em nota, não ver sinais de nova divisão artificial de cadastros.
Especialistas avaliam que a variação está dentro da média dos últimos meses e também pode ser fruto da mudança demográfica, dado que há mais indivíduos vivendo sozinhos. Ainda assim, veem uma saturação dos esforços para regularizar o cadastro e recomendam estudos adicionais, sobretudo no caso de municípios com aumento expressivo ou participação elevada de unipessoais no âmbito do programa.
Levantamento feito pela Folha mostra que, em 128 municípios, o número atual de unipessoais no programa cresceu mais de 100% em relação ao fim de 2022, quando houve o pico das distorções no cadastro. Em 211 cidades, a expansão ficou entre 50% e 100% no período. Outros 613 apresentaram crescimento de 10% a 50% nesse mesmo intervalo.
A alta recente é o primeiro movimento do tipo desde o segundo semestre de 2024, quando um repique na quantidade de unipessoais chamou a atenção do MDS, levando o órgão a reforçar ações de fiscalização.
Naquele ano, diante das eleições municipais, o ministério levantou a suspeita de uso eleitoral do Cadastro Único, que é porta de entrada para quase 2.000 benefícios em todo o Brasil.
O governo federal financia boa parte dos programas, mas as prefeituras operam o cadastro e aplicam as regras de seleção dos beneficiários, sem arcar com os pagamentos.
Em nota, o MDS disse não ver indícios de uso eleitoral do cadastro em 2026.
Segundo integrantes do governo, as prefeituras em geral colaboram com a revisão, mas a pasta conta com uma lista interna de 306 municípios e três estados considerados críticos, o que inclui aqueles que não respondem a ofícios, não compartilham dados da folha de aposentados e pensionistas do município ou têm proporção elevada de unipessoais.
Outros 45 municípios e cinco estados estão na categoria que requer atenção, ou seja, ainda não são considerados críticos, mas precisam de acompanhamento.
Em julho, representantes do MDS se reuniram com membros dos TCEs (Tribunais de Contas dos Estados) para discutir um plano de ação. A ideia é que os tribunais reforcem os pedidos de informação e, se for o caso, abram processos de monitoramento.
META DE UNIPESSOAIS
O número de beneficiários unipessoais em julho representou 19,9% do total de famílias contempladas pelo programa. O percentual está acima dos 16% estipulados como referência para as revisões.
A meta foi criada em 2023 para tentar induzir o ajuste no cadastro e tomou como referência a proporção de domicílios com um só integrante em todo o país conforme a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).
Municípios acima da meta passaram a ter regras mais rígidas para incluir unipessoais. Desde 2025, exigia-se entrevista domiciliar, mas a DPU (Defensoria Pública da União) questionou na Justiça o risco de gargalo e prejuízo a vulneráveis.
Em julho deste ano, governo e DPU fecharam um acordo para flexibilizar a exigência até julho de 2027. Com isso, a tendência é cair o ritmo de ajuste no cadastro, segundo técnicos.
Hoje, há 3.813 municípios com proporção de famílias unipessoais acima da meta de 16%. É o maior patamar desde que essa estatística passou a ser divulgada, em setembro de 2023. Desses, 736 exibem percentuais acima de 25%. Em 35 deles, a fatia das famílias de um só integrante representa 40% ou mais dos beneficiários.
O MDS afirma que a existência de municípios com percentuais acima da meta não representa, por si só, uma irregularidade e antecipa que estuda definir metas regionalizadas.
"Para os casos em que a proporção de unipessoais supera 40%, está prevista a realização de estudos específicos para avaliar a adoção de parâmetros regionalizados", diz o órgão. "A intenção é ajustar os limites às características demográficas de cada território, o que poderá, inclusive, resultar em percentuais superiores aos atuais 16% onde os dados mostrarem que essa composição é compatível com a realidade local."
Segundo a pasta, a divulgação dos microdados do Censo Demográfico de 2022 por município, feita em julho deste ano, vai ajudar nessa atualização.
O economista Daniel Duque, do FGV Ibre, espera que famílias unipessoais cresçam no CadÚnico e no Bolsa Família, dada a tendência de redução do tamanho das famílias.
Isso não anula os efeitos do ocorrido em 2022, que ele chama de "descontinuidade" no programa, induzida por um benefício básico elevado sem considerar o número de integrantes.
"O governo atual tentou reverter esses incentivos. Mas, recentemente, essa política chegou a uma saturação em termos de capacidade. A partir desse limite, volta a tendência demográfica", avalia.
Segundo Duque, não se sabe se a saturação resulta do sucesso das revisões ou de seu limite. Ele diz que "é difícil o governo ter conseguido resolver 100% do problema" e sugere reduzir o benefício básico e elevar o valor por membro da família.
O economista Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, avalia que as variações recentes no número de unipessoais são pequenas para sinalizar mudança de tendência, mas cada município merece um "olhar mais fino" para detectar situações fora da curva.
Por Idiana Tomazelli/Folhapress
Programa nuclear da Marinha lidera gasto militar brasileiro Por Igor Gielow e Gustavo Patu | Folhapress
O programa nuclear da Marinha recebeu 4,5 vezes mais verbas em 2025 em relação ao ano anterior, chegando ao topo do ranking de investimentos militares do Brasil pela primeira vez na história recente. Ele empatou em dispêndio com o controle do tráfego aéreo, atividade de forte aplicação civil.
O projeto do Gripen foi o quarto a receber mais verbas, deixando a liderança que ocupava desde 2016. Enquanto o programa nuclear viu pago em valores corrigidos R$ 1,4 bilhão, ante R$ 311 milhões em 2024, o do caça sueco recebeu R$ 965 milhões, abaixo do R$ 1,6 bilhão do ano retrasado.
O ritmo de entrega dos aviões está aquém do contratado em 2014. A previsão inicial era ter os 36 caças, inclusive os 15 produzidos no Brasil, voando em 2024. Até aqui, 11 foram entregues, e a previsão atual é que o último chegue só em 2032. O governo anunciou negociar mais 20, restando saber de onde virá o dinheiro.
A rubrica do programa da Marinha se refere só a desenvolvimento tecnológico, mas está diretamente ligada à construção do primeiro submarino nuclear do país, o Álvaro Alberto.
Segundo a Força, os valores foram empregados no aprimoramento do domínio do ciclo do combustível nuclear, na implantação do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica e no desenvolvimento do reator que será usado no submarino.
Parte expressiva da verba, R$ 953 milhões, foi destinada a empresas contratadas para os projetos, principalmente para serviços de engenharia. A fase mais crítica da empreitada, a integração do reator ao casco, ainda está por vir.
O programa nuclear da Marinha se arrasta, com idas e vindas, desde 1979. Ele logrou sucesso com a construção de ultracentrífugas para enriquecer urânio, o que lhe valeu um embate com a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) em 2004 acerca do regime de inspeções.
Na ditadura, o projeto integrava o esforço que incluía a fabricação da bomba atômica. O Brasil chegou perto, mas abdicou da intenção em 1990, aderindo ao TNP (Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares) oito anos depois.
O presidente Lula (PT) insinuou arrependimento pelo caminho. Em discurso durante visita à fábrica da indústria bélica Avibrás em julho, disse que o Brasil precisava se armar porque havia "muito maluco no mundo", uma referência às aventuras militares do americano Donald Trump.
Reclamou que o Brasil aderiu ao TNP, mas que potências estabelecidas não reduziram seus arsenais, enquanto outras entraram no clube nuclear. Nesta semana, o petista defendeu prioridade ao submarino à sede do programa nuclear da Marinha, em Iperó (SP).
O projeto do submarino nuclear em si consumiu R$ 649 milhões numa rubrica própria, ocupando o sétimo lugar no ranking de gastos, seguido por obras em estaleiros, com R$ 582 milhões.
O foco renovado na área nuclear acompanha a reta final da etapa anterior, a de fabricação no Brasil de quatro submarinos de propulsão convencional de desenho francês. Em 2025, esse programa recebeu R$ 461 bilhões e viu a última unidade lançada ao mar para testes.
Ambos os projetos saíram do acordo militar Brasil-França de 2008. Além da questão do fornecimento do combustível nuclear e da integração do reator, há ainda alguns óbices políticos à frente.
Para o submarino ir em frente, ele precisa ter o emprego de seu combustível vistoriado e aprovado pela AIEA, que negocia com o Brasil. O temor em Viena, sede dessa agência da ONU, é o da proliferação indevida de material atômico.
Militares brasileiros, sob reserva, apontam pressão política das potências nucleares e a vontade da AIEA de ver o Brasil aderindo aos chamados Protocolos Adicionais ao TNP, que permitem um grau de inspeção muito maior do que o usual.
A injeção de dinheiro na área também visa aplacar as dificuldades até aqui. O Álvaro Alberto só deverá estar no mar em 2038 —13 anos depois do prazo do projeto original.
No cômputo geral, o Brasil tem uma baixa taxa de investimento militar, equivalente a 8,25% dos R$ 133,3 bilhões empregados em 2025. O grosso vai para pessoal, 77,7%, e os 14,05% restantes para custeio.
Os dados da execução orçamentária são em valores corrigidos pelo IPCA até julho, tendo sido aferidos pelo Siga Brasil, sistema de acompanhamento de gastos federais do Senado. O ranking não inclui o maior programa militar em curso no país, o das fragatas Tamandaré.
Uma manobra feita nos estertores do governo Michel Temer (MDB) custeia o programa. Uma estatal da Marinha, a Emgepron, foi capitalizada para tocar o negócio fora do então teto de gastos. Até o ano passado, o projeto havia consumido R$ 9,6 bilhões, com três navios já prontos.
Assim, os R$ 2,4 bilhões destinados ao projeto em 2025 entram na conta das despesas de estatais, e não da Defesa. O Tribunal de Contas da União contestou a manobra, mas ela acabou aprovada, embora o governo de Jair Bolsonaro (PL) não tenha conseguido repeti-la em outras áreas, como queria.
Por Igor Gielow e Gustavo Patu | Folhapress
Pix apresenta problemas neste domingo
Usuários relatam dificuldades para fazer transferências em diversos bancos; BC ainda não se pronunciou
O Pix enfrenta problemas de operação na manhã deste domingo (23). Relatos nas redes sociais e na plataforma Downdetector apontam que o sistema estava indisponível.
Em testes feitos pela reportagem, não foi possível fazer transferências em três bancos. Na Downdetector, os relatos de falhas começaram por volta das 6h30, com pico de queixas às 8h17, quando mais de 2.400 reclamações foram registradas. Procurado, o Banco Central ainda não se pronunciou.
O Pix é o principal meio de pagamento eletrônico do país. Segundo o Banco Central, o sistema movimentou R$ 35 trilhões em 2025, com quase 80 bilhões de transações realizadas ao longo do ano. Em dezembro do ano passado, 148 milhões de pessoas físicas utilizaram a ferramenta, com crescimento de 5% em relação ao ano anterior. Quase 13 milhões de empresas utilizam o Pix.
Como a Folha mostrou em julho, a redução das verbas para investimento e os constantes cortes do Orçamento do governo federal para o BC (Banco Central) têm adiado projetos de atualização tecnológica e inovações do Pix.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já falou publicamente sobre a falta de recursos e de pessoal e sobre os riscos para a fiscalização do BC, ao defender a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) de autonomia financeira. Em carta, servidores do BC disseram em junho que a PEC é necessária para preservar e fortalecer o Pix.
Ministros do Brasil e EUA vão retomar negociação comercial- Por Agência Brasil
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e representantes do Ministério das Relações Exteriores (MRE) deverão se reunir na próxima semana com o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para retomar as negociações comReunião foi acertada após ligação de Lula para Trump nesta sexta (21)erciais entre os dois países.

A reunião ainda terá a data acertada pelas equipes dos dois governos. O Mdic confirmou ter recebido contato do representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, depois da conversa telefônica desta sexta-feira (21) entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente estadunidense, Donald Trump.
A retomada das tratativas abre um novo canal de diálogo entre Brasília e Washington em meio à disputa comercial provocada pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
Ligação de Lula
Lula telefonou para Trump na manhã desta sexta-feira. A conversa durou uma hora e 20 minutos e, segundo o Palácio do Planalto, ocorreu de forma cordial.
O presidente brasileiro defendeu a retomada das negociações comerciais e afirmou que as justificativas apresentadas pelo governo norte-americano para a adoção das novas tarifas são infundadas.
Entre os argumentos utilizados pelos Estados Unidos para fundamentar as medidas estão questões relacionadas a desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos associados a trabalho forçado.
Lula afirmou que as tarifas prejudicam tanto o Brasil quanto os Estados Unidos e defendeu o diálogo como caminho para preservar a relação comercial entre os dois países.
Trump concordou com a necessidade de manter os vínculos comerciais e sinalizou a retomada do contato entre as equipes dos dois governos.
Novo canal
A reunião deverá envolver Márcio Elias Rosa, integrantes do MRE e representantes do USTR. Em nota conjunta, o Mdic e o MRE consideram que a sinalização dos dois presidentes cria uma nova oportunidade para a busca de uma solução negociada para o impasse comercial.
Cooperação contra crime
Além das tarifas, Lula e Trump discutiram segurança e cooperação no combate ao crime organizado.
O presidente brasileiro defendeu uma atuação conjunta dos dois países e afirmou que as organizações criminosas exercem pressão sobre populações vulneráveis, mas não devem ser equiparadas a organizações terroristas.
Lula também apresentou ações adotadas pelo Brasil para combater essas estruturas, incluindo medidas de asfixia financeira, que resultaram na apreensão de aproximadamente R$ 17 bilhões.
Entre as iniciativas citadas estão a Lei Antifacção e a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus.
Trump, segundo o Planalto, manifestou disposição para ampliar a cooperação e afirmou que indicará integrantes de alto escalão para dar continuidade às tratativas.
Conflitos internacionais
Os presidentes também trataram das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
Sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia, os dois defenderam a necessidade de uma solução negociada. Lula também criticou a falta de atuação do Conselho de Segurança das Nações Unidas diante dos conflitos internacionais.
O presidente brasileiro sugeriu a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para discutir alternativas diplomáticas.
Durante a conversa, Trump também abordou as perspectivas do governo norte-americano para o conflito com o Irã.
Ao defender a busca por soluções diplomáticas, Lula afirmou: “Os grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas aqueles que põem fim aos conflitos”.
BNDES desembolsa maior valor para crédito no 1º semestre desde governo Dilma
O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) desembolsou R$ 75,6 bilhões em crédito no primeiro semestre de 2026, alta de 31,2% ante igual período do ano passado.
Os dados são da série histórica que o banco público disponibiliza em valores constantes –corrigidos pela inflação.
A quantia liberada é a maior para o intervalo de janeiro a junho desde 2015 (R$ 124,3 bilhões), no segundo governo Dilma Rousseff (PT).
Para uma parcela dos analistas, o estímulo à economia gerado pela alta nas operações pode representar um desafio para a política do BC (Banco Central) de combate à inflação. O BNDES rebate esse argumento.
Os desembolsos são a última fase do fluxo de financiamentos do banco. São os recursos liberados para as diferentes atividades econômicas.
O recorte setorial mostra que a instituição desembolsou quase R$ 28,5 bilhões para infraestrutura no primeiro semestre, o equivalente a 37,6% do total. É o principal valor entre as quatro atividades detalhadas pelo BNDES.
Agropecuária (R$ 17,7 bilhões), indústria (R$ 15,6 bilhões) e comércio e serviços (R$ 13,8 bilhões) vieram na sequência. Os quatro segmentos tiveram alta nos desembolsos ante o primeiro semestre de 2025.
O valor direcionado para infraestrutura aumentou 48,3%. Dentro desse setor, o transporte rodoviário foi a área que mais recebeu financiamentos –quase R$ 15 bilhões, um avanço de 190,4%.
Ao comentar a expansão dos desembolsos, o diretor de planejamento e relações institucionais do BNDES, Nelson Barbosa, diz existir uma recuperação dos investimentos em infraestrutura no país, puxados por concessões, especialmente de rodovias. Ele também lembra que o banco passou a operar programa de renovação da frota de caminhões e ônibus.
O diretor ainda cita o impacto de iniciativas como a política industrial do governo Lula (PT), os empréstimos após o tarifaço de Donald Trump e as enchentes no Rio Grande do Sul, os financiamentos a exportações da Embraer e os repasses a micro, pequenas e médias empresas.
Outra métrica que mostrou alta no primeiro semestre foi a das aprovações. É nessa etapa em que ocorre o aval do BNDES para a liberação dos recursos, antecedendo os repasses. Ou seja, as aprovações tendem a virar desembolsos ao longo do tempo.
De janeiro a junho, os pedidos de crédito aprovados somaram R$ 111,7 bilhões em valores constantes, alta de 44,9% ante igual período do ano passado. O montante é o maior para o primeiro semestre desde 2014 (R$ 168 bilhões), no primeiro mandato de Dilma.
IMPULSO É MENOR DO QUE NO PASSADO
O BNDES afirma que, no acumulado dos 12 meses até junho, as aprovações alcançaram o patamar equivalente a 2,1% do PIB (Produto Interno Bruto), enquanto os desembolsos chegaram a 1,4%.
As proporções subiram ao longo do terceiro governo Lula, mas seguem abaixo dos níveis verificados em gestões anteriores do PT. As aprovações ultrapassaram 5% do PIB em 2009, 2010 e 2012, e os desembolsos ficaram acima de 4% em 2009 e 2010.
Para o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale, os dados indicam que o atual incentivo do banco à economia não tem a mesma intensidade do passado petista. A ampliação das operações, porém, coloca "um pouco de preocupação" no cenário antes das eleições, diz ele.
O alerta, segundo Vale, ocorre porque a aceleração do crédito destoa da atuação do BC no momento. O BC recorre a uma taxa básica de juros (Selic) de dois dígitos para tentar esfriar a economia e, assim, conter a inflação.
"O BNDES está trabalhando de forma conjunta com o [lado] fiscal [do governo] para tentar manter um estímulo à economia no momento em que o Banco Central está tentando seguir no caminho contrário", diz.
"A gente está revivendo um pouco do passado, em um grau menor", acrescenta.
Barbosa afirma que o BNDES está aberto a essa discussão e que os questionamentos são legítimos. Ele, contudo, diz considerar "infundadas" as preocupações no momento.
O diretor menciona que os desembolsos saíram da faixa de 1% do PIB no final de 2022 –último ano do governo Jair Bolsonaro (PL)– para perto de 1,5%. Na visão de Barbosa, esse impulso à demanda, diluído em quatro anos, não é significativo a ponto de pressionar a Selic.
Para ele, o BNDES complementa recursos do mercado privado e contribui para a ampliação da capacidade produtiva da economia. Isso, diz, aumenta a oferta de bens e serviços no longo prazo, ajudando a conter a inflação.
Segundo o diretor, quase dois terços dos desembolsos da instituição ocorrem por meio de taxas de mercado. "O BNDES é muito mais afetado pela política monetária do que afeta a política monetária", afirma Barbosa, que foi ministro da Fazenda e do Planejamento no segundo governo Dilma.
Luis Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Rating, diz que o financiamento de longo prazo para infraestrutura é uma das marcas históricas do banco.
Nos últimos anos, porém, debêntures incentivadas também ganharam força como opção para a captação de recursos por empresas, aponta ele. As debêntures são títulos de dívida emitidos pelas companhias para financiar seus projetos.
"Se a gente comparar a época Dilma com hoje, o BNDES era meio hegemônico nesse segmento de infraestrutura. Todo mundo tinha que bater na porta da avenida do Chile [endereço da sede do banco no Rio]", afirma Santacreu.
"De lá para cá, teve um crescimento muito forte dos bancos privados e, principalmente, do mercado de capitais, através das debêntures de infraestrutura. Isso não substituiu o BNDES, mas também virou uma alternativa."
Por Leonardo Vieceli/Folhapress
Governo amplia a R$ 200 mil teto de financiamento para motoristas de apps de olho em eleição Por Fernanda Brigatti, Folhapress
Baixa adesão leva Planalto a rever critérios; somente 11% do valor destinado ao programa foi concedido
O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu aumentar o teto de preço dos veículos que podem ser financiados por motoristas de aplicativos e táxis. Dos atuais R$ 150 mil, o valor passa a R$ 200 mil e inclui também veículos híbridos elétricos.
A mudança busca aumentar a abrangência do programa, em um aceno de Lula em meio à campanha eleitoral. A portaria dos ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) com as alterações nas regras foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União desta quarta (19).
Como mostrou a Folha, até agora apenas 11% dos R$ 30 bilhões disponível para o Move Aplicativos foi liberado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o que levou o governo a criticar os grandes bancos, que estariam superdimensionando o risco de crédito dos motoristas de aplicativo.
O anúncio do crédito para a categirua é parte de uma série de ações de Lula para aumentar sua popularidade em ano eleitoral. Desde o início de seu terceiro mandato, o petista vem tentando atrair esses profissionais, que são vistos como mais afeitos ao campo bolsonarista, para sua base de apoio.
As mudanças no programa devem ampliar de 63% para 88% o alcance no mercado. Internamente, o Mdic considerou que a elevação do teto aumentará a ofertas de modelos, a concorrência e as opções disponíveis.
Com isso, espera chegar a categorias, dentro dos aplicativos, de padrão superior, como Uber Comfort, Uber Black e 99Plus.
Podem buscar financiamento por meio do Move taxistas e motoristas de aplicativos com cadastro ativo há pelo menos um ano e, no mínimo, cem corridas no período na plataforma.
O veículo a ser financiado precisa ser de montadora habilitada no programa Mover (Volks, Fiat, Renault, GM, Honda, Hyundai, Nissan, Peugeot, Toyota, BMW, BYD e GWM). Ele também ser enquadrado como sustentável, ser flex, híbrido ou híbrido a etanol.
Além da elevação do teto para R$ 200 mil, o goveno também mudou redação da norma para o conceito de veículo híbrido, o que deve garantir também a inclusão de carros que usem eletricidade e algum outro combustível, como gasolina ou etanol.
A medida provisória que criou o programa foi publicada em junho e vale até 15 de setembro.
Um dos pontos de resistência pelo setor bancário ao programa foi a fixação de uma taxa de juros abaixo da praticada no mercado em financiamentos automotivos.
O Move Brasil tem taxa fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) em 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres. No mercado, a taxa média para financiamento de automóveis é de 28% ao ano, segundo informações monitoradas pelo próprio governo.
Desde que o programa foi lançado, o presidente Lula vinha cobrando que bancos públicos federais destravassem a concessão de crédito no âmbito do Move.
Motoristas de plataformas como Uber e 99 enfrentam dificuldade para acessar o programa. Eles relatam negativas na concessão do crédito e redução na pontuação do Serasa após múltiplas consultas em diferentes bancos.
Por Fernanda Brigatti, Folhapress
Diesel da refinaria de Mataripe sobe mesmo com subvenção; gasolina cai com demanda menor
Mesmo após aderir ao programa de subvenção dos combustíveis do governo, o preço do diesel S-10 produzido pela Refinaria de Mataripe, na Bahia, teve reajuste médio de 8,2% a partir desta quinta-feira, enquanto a gasolina caiu 6,5% em média. O preço do diesel S-10 com subvenção atingiu R$ 4,88 o litro, contra R$ 4,51 o litro na semana passada.
Sem a subvenção, o preço do diesel S-10 da refinaria baiana seria de R$ 6,05 o litro, de acordo com dados publicados pela Acelen, braço do fundo de investimentos árabe Mubadala no Brasil que controla Mataripe. O diesel S-500 não teve o preço alterado
Já a gasolina fez o caminho contrário, seguindo a tendência global de queda devido à redução de consumo. O preço médio caiu de R$ 3,43 o litro na semana passada, com subvenção, para R$ 3,21 o litro, também com o desconto. Sem a subvenção, o preço da gasolina na Bahia seria de R$ 3,65 o litro, informou a Acelen.
O baixo preço do etanol tem sido competitivo com a gasolina no Brasil, também favorecendo a queda de preços do combustível fóssil no mercado interno.
Apesar de acompanhar o preço de paridade de importação (PPI), a Acelen também registra, no momento, preços defasados em relação ao mercado internacional, em patamares bem abaixo dos registrados pelos combustíveis da Petrobras.
O diesel negociado pela Acelen, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), fechou a quarta-feira, 19, com defasagem de 24% em relação ao mercado internacional, enquanto a gasolina está com o preço 17% defasado
Segundo a Abicom, os preços do diesel da Petrobras estão com defasagem de 85% - chegando a 88% no polo de importação de Suape -, e a gasolina com preços 48% inferiores ao Golfo do México, região usada como parâmetro pelos importadores. A estatal também aderiu à subvenção do governo, para evitar que a alta volatilidade do setor provocada pelos conflitos no Oriente Médio atinja o bolso do consumidor brasileiro.
O petróleo tipo Brent operava pela manhã nesta quinta em alta de mais de 3%, cotado acima de US$ 94 o barril, depois de ter retomado o patamar de US$ 70 o barril no início de agosto.
Por Denise Luna, Estadão Conteúdo
Empresas preveem crescimento menor e até recessão para 2027, com juro alto e inadimplência
"A pouco mais de quatro meses da virada do ano, grandes empresas e bancos do Ibovespa preveem um cenário pouco animador para a economia do país em 2027"
A pouco mais de quatro meses da virada do ano, grandes empresas e bancos do Ibovespa preveem um cenário pouco animador para a economia do país em 2027.
Segundo levantamento feito pela Folha com as 76 companhias listadas no índice da Bolsa, a expectativa de parte delas é que a economia cresça menos no próximo ano e que o juro alto afete ainda mais as operações na comparação com 2026. Os dados levam em conta o conteúdo das teleconferências de resultados do segundo trimestre deste ano.
O aumento do endividamento das famílias tem respingado até nas contas básicas, como água e luz. Empresas do setor, como CPFL Energia e Copasa, têm intensificado o corte no fornecimento de serviços.
"Há um desafio no pagamento das contas de energia, que reflete na última linha no aumento da nossa inadimplência", apontou Gustavo Estrela, CEO da CPFL Energia, ao comentar a alta do indicador: de 0,82%, no segundo trimestre de 2025, para 1,08% este ano. "Nossa principal ferramenta de controle de inadimplência são as ações de corte", afirmou.
Para a Copasa, que também classifica como desafiador o nível de endividamento das famílias, a estratégia tem sido também adotar mecanismos antecipados de cobrança e "mexer nas réguas de negociação", afirmou o CEO, Cleyson Jacomini.
"Além dos pagamentos eletrônicos, como Google Pay e Apple Pay, estamos trabalhando para ampliar a forma de execução e aumentar a vigilância e a ação de cobrança, com cortes no caso de inadimplência, para reverter essa tendência."
O cenário, segundo Marcelo Kfoury, professor de economia do Insper, mostra como o alto endividamento vira uma bola de neve mesmo em meio às mínimas históricas de desemprego.
"Alguém começa a pagar cheque especial, rotativo do cartão de crédito, e não consegue pagar as contas que tem. A pessoa recebe R$ 2.000 por mês, paga R$ 1.000 de prestação, e o resto sobra para comer, e não sobra para pagar energia e nem água. Ela vai escolhendo o que ela paga", diz Kfoury.
No setor varejista, Lojas Renner e Assaí falam em pressão no consumo diante da Selic (taxa básica de juros) maior do que a esperada. CPFL Energia e Copasa, de serviços básicos, mencionam calotes em contas de água e luz diante do endividamento recorde das famílias.
Alfredo Setubal, CEO da holding Itaúsa, chegou a falar em "pequena recessão", fazendo coro a Armínio Fraga, economista e ex-presidente do Banco Central, no início do mês. A holding agrupa empresas de diversos setores, como bancos (Itaú Unibanco), calçados (Alpargatas), concessões rodoviárias (Motiva) e saneamento (Aegea).
Segundo o executivo, a economia tem desacelerado "apesar de todos os incentivos que o governo tem dado para o aumento de consumo e para renegociações de dívidas".
"Isso se refletirá em um menor consumo das famílias, que já apresentam um nível de endividamento bastante elevado. Estamos orientando as empresas investidas para ter um orçamento mais moderado e mais cauteloso também", disse.
O setor bancário também deu sinais de alerta na divulgação dos resultados. BTG Pactual e Santander indicaram que o ambiente mais complexo de 2027 está se tornando um consenso no mercado, com a inadimplência do crédito como principal ponto de atenção.
"O cenário mais desafiador de 2027 está se tornando um consenso. O nível de endividamento do governo e das famílias é muito alto, a taxa de juros está muito alta, e vai chegar um momento em que tudo isso vai impactar a economia", afirmou Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual.
Nas projeções do Boletim Focus desta semana, a Selic terminará 2027 em 12% ao ano, e o PIB, com crescimento de 1,5%. Para 2026, os especialistas consultados seguem vendo expansão de 1,98%.
Empresas do varejo também indicaram cautela. O Assaí Atacadista enxerga um "cenário de pressão de consumo" que deve perdurar e reajustou a rota diante da Selic elevada.
"A companhia está muito focada em desalavancar, então reduzimos níveis de investimento e seguramos uma série de projetos [devido à Selic alta]", disse Belmiro de Figueiredo Gomes, CEO do grupo.
Ele afirmou que o novo modelo de negócios a ser expandido será o que inclui farmácias e até eletropostos nas unidades.
A Yduqs, de educação, também projeta que o cenário de 2027 será desafiador, "muito parecido com o que foi 2026" na perspectiva macroeconômica, com "renda muito apertada" e endividamento elevado.
A perspectiva da empresa, no entanto, é positiva para o setor educacional, já que o próximo ano não será marcado por eventos que distraem o consumo ou geram incerteza, como a Copa do Mundo e as eleições presidenciais.
SELIC NAS ALTURAS
A cautela dos executivos tem relação com o ciclo de queda mais curto do que o esperado da taxa Selic. Hoje em 14% ao ano, o juro básico opera nos dois dígitos desde o início de 2022, para levar a inflação à meta de 3% do Banco Central. Até o começo do ano, a projeção era que a taxa caísse mais rapidamente, e alguns gestores chegaram a especular que os juros chegariam a "no mínimo" 11% ao fim de 2026.
Mas a guerra no Irã e o subsequente choque no mercado de petróleo rapidamente rebalancearam as projeções sobre o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), devido aos preços mais altos dos combustíveis.
Os incentivos do governo Lula (PT) em ano eleitoral tampouco ajudaram a baixar a Selic: ao oferecer alternativas para a tomada de crédito, o Executivo mantém o consumo aquecido, pressionando a inflação.
O brasileiro continua muito endividado. Segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio), o endividamento das famílias atingiu o recorde de 82% em julho –desse total, cerca de 30% estão inadimplentes e 12% declaram não ter condições de pagar o que devem.
Como mostrou a Folha, esse cenário pode levar a uma perda de ritmo do consumo em 2027, em um efeito rebote que, para economistas, embute o risco de uma desaceleração mais forte que o esperado da atividade econômica. Para as empresas, o efeito é em todas as pontas: fica mais difícil financiar as operações e gerar receitas com consumidores que estão com o bolso mais apertado.
"A Selic alta há bastante tempo cria um cenário desafiador para as empresas, já que afeta as decisões de investimento e o custo das dívidas. E afeta a receita, porque o consumo das famílias também está comprometido", diz Joelson Sampaio, professor de finanças da FGV (Fundação Getúlio Vargas).
Por Tamara Nassif e Maria Clara Matos/Folhapress
Bancários anunciam paralisação de 24 horas nesta quinta-feira
Comando Nacional dos Bancários afirma que bancos ainda não apresentaram proposta para a campanha salarial de 2026
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| Foto: Tomaz Silva/Agência Brasi |
Bancários de todo o país farão uma paralisação de 24 horas nesta quinta-feira (20),
Os bancários de todo o país farão uma paralisação de 24 horas nesta quinta-feira (20), segundo o Comando Nacional dos Bancários.
Segundo o sindicato que representa esses trabalhadores, a paralisação foi aprovada nesta segunda-feira (17), após assembleias realizadas para discutir uma resposta à condução das negociações dos bancos com a entidade patronal Fenaban (Federação Nacional dos Bancos).
As reivindicações são: 5% de aumento real para salários e demais verbas, além da reposição da inflação, aumento do piso salarial da categoria, aumento dos valores do vale-refeição (VR) e vale-alimentação (VA) e valorização da participação nos lucros e resultados (PLR).
Para Neiva Ribeiro, presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, a falta de negociação não é compatível com o "setor mais lucrativo do país".
"Os bancos estão com a nossa pauta de reivindicações desde o dia 24 de junho. A mesa de negociações começou no dia 2 de julho e, desde então, tiveram a oportunidade de apresentar uma proposta. Porém, até agora, faltando duas semanas para a data-base, não apresentaram nada", disse em nota.
A Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) e a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) disseram que receberam em 24 de junho a pauta de reivindicações referente à campanha salarial de 2026 e que a agenda para resolução está dentro do prazo.
Por Christian Policeno/Folhapress
Mais da metade dos trabalhadores termina o mês sem dinheiro, diz levantamento da Serasa
A pesquisa ouviu 1.008 profissionais de empresas públicas e privada
Mais da metade dos trabalhadores brasileiros (53%) chega ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar todas as despesas, segundo levantamento da Serasa Experian divulgado nesta terça-feira (18). O percentual é semelhante ao registrado em 2025, quando 54% dos entrevistados disseram estar nessa mesma situação.
Entre os trabalhadores ouvidos, 47% afirmam recorrer a algum recurso ou alternativa adicional para conseguir fechar as contas. Outros 6% terminam o mês sem dinheiro suficiente e sem recorrer a uma solução extra.
A pesquisa ouviu 1.008 profissionais de empresas públicas e privadas, incluindo trabalhadores com carteira assinada e pessoas que atuam como PJ (pessoa jurídica). As entrevistas foram realizadas pela internet entre os dias 12 e 30 de junho. A margem de erro é de 3,1 pontos percentuais.
A alimentação foi citada por 78% dos entrevistados que não conseguem chegar ao fim do mês com dinheiro suficiente, seguida pelas contas de consumo, como água, luz e gás, mencionadas por 72%. Também aparecem entre os gastos financiamentos de imóveis ou veículos (44%), roupas, utilidades e outros itens de consumo (43%), empréstimos (33%) e estudos (22%). Cada entrevistado podia indicar até três tipos de gasto.
A pesquisa também perguntou aos trabalhadores que passaram ou ainda passam por problemas financeiros nos últimos cinco anos sobre as consequências do endividamento e o o que a situação causa no dia a dia.
Na vida pessoal, irritabilidade e insônia foram citadas por 44% dos entrevistados. Foram mencionados ainda alterações de peso, depressão, dores físicas e isolamento social.
No ambiente de trabalho, 51% relataram estresse e 46%, exaustão extrema ou esgotamento físico. Outros 35% disseram ter percebido diminuição da atenção e 33%, queda de produtividade.
O estudante universitário Pietro Nascimento, 24, diz estar vivendo esta realidade. Ele decidiu sair da casa da família há pouco mais de um ano para morar sozinho em São Paulo (SP) em busca de mais independência e de um endereço mais próximo do trabalho.
No entanto, percebe que nenhum dinheiro sobra no fim do mês. "Só o aluguel consome quase metade da minha renda. Cerca de R$ 2.000 de um salário de R$ 4.500", conta.
Embora pretenda comprar um imóvel no futuro, Nascimento afirma que ainda não conseguiu dar passos concretos nessa direção. "Continuo pesquisando imóveis mais baratos e formas de financiamento."
Para especialistas da Serasa, a educação financeira é uma das formas de contornar a situação.
"Os dados mostram que a dificuldade de equilibrar o orçamento não é uma situação pontual. Quando esse cenário não se altera de um ano para o outro, vemos uma pressão persistente sobre a saúde financeira", diz Délber Lage, CEO da SalaryFits, empresa da Serasa Experian.
"Essa falta de margem pode levar à busca por alternativas para complementar a renda ou financiar despesas do dia a dia."
Por Gabriela Cecchin/Folhapress
Casas Bahia pede recuperação judicial após prejuízo bilionário -Por Redação
A Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial após registrar prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, em meio à deterioração de sua situação financeira. A empresa atribui a crise principalmente aos juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre o consumo e o capital de giro. O pedido, protocolado em São Paulo, também envolve outras nove empresas do grupo. A informação é do jornal O Globo.
O resultado representa uma forte piora em relação ao mesmo período de 2025, quando o prejuízo foi de R$ 555 milhões. Cerca de R$ 9,1 bilhões do resultado negativo foram relacionados a eventos não recorrentes, como baixas de ativos e despesas de reestruturação. A receita líquida cresceu 1,6%, para R$ 6,97 bilhões, mas o Ebitda ajustado caiu 9,4%, para R$ 518 milhões. A auditoria EY também apontou incerteza relevante sobre a continuidade das operações.
Para tentar recuperar o equilíbrio financeiro, a companhia vem reduzindo sua estrutura: 298 lojas foram fechadas até junho e o quadro de funcionários diminuiu. A empresa também está revisando estoques, contratos, despesas e investimentos, buscando reduzir a necessidade de capital e melhorar a geração de caixa. O pedido de recuperação judicial ocorre dois anos após a Casas Bahia recorrer a uma recuperação extrajudicial para renegociar dívidas.
INSS revela beneficiários que precisam fazer a prova de vida; confira
"Atualmente, o INSS utiliza dados de diferentes bases governamentais para confirmar que o beneficiário permanece em atividade civil. Entre as informações consideradas estão atendimentos em órgãos públicos, vacinação, emissão de documentos, votação, consultas médicas na rede pública e outras interações previstas nas regras."
A prova de vida do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) continua sendo feita automaticamente para a maioria dos beneficiários, mas quem receber uma notificação oficial deverá regularizar a situação dentro do prazo. O aviso é enviado pelo perfil oficial Governo do Brasil no WhatsApp, e o banco responsável pelo pagamento também pode informar a necessidade de comprovação pelo aplicativo ou pelo extrato.
Atualmente, o INSS utiliza dados de diferentes bases governamentais para confirmar que o beneficiário permanece em atividade civil. Entre as informações consideradas estão atendimentos em órgãos públicos, vacinação, emissão de documentos, votação, consultas médicas na rede pública e outras interações previstas nas regraQuando o sistema não encontra registros suficientes, o beneficiário passa a fazer parte do grupo que precisa realizar a prova de vida manualmente. Nessa situação, o governo envia uma comunicação oficial para que o procedimento seja feito e evitar futuros bloqueios no pagamento.
Como fazer a prova de vida
Após receber a notificação, o segurado pode realizar a comprovação na agência bancária onde recebe o benefício. Para isso, deve apresentar um documento oficial com foto. Em algumas situações, também é possível fazer o procedimento pelo aplicativo ou site Meu INSS, por meio de biometria facial vinculada à conta Gov.br.
O INSS destaca que não é necessário comparecer a uma agência da autarquia exclusivamente para realizar a prova de vida. O banco pagador ou os canais digitais disponíveis podem atender grande parte dos casos.
O prazo para regularizar a situação é de 60 dias após o recebimento da notificação.
Como consultar a situação
O beneficiário pode verificar se a prova de vida já foi registrada automaticamente pelo serviço “Prova de Vida” no aplicativo ou portal Meu INSS. Caso esteja válida, o sistema informa a data da última confirmação.
Outra alternativa é buscar informações pela Central 135, que funciona de segunda a sábado. Quem receber uma mensagem também deve conferir se ela foi realmente enviada pelo perfil oficial Governo do Brasil.
As comunicações legítimas não pedem senhas, dados bancários ou códigos de verificação por aplicativos de mensagens.
Atenção para golpes
O INSS também alerta que não realiza ligações nem visitas domiciliares para solicitar prova de vida. Por isso, pedidos de informações financeiras, transferências ou códigos devem ser tratados como tentativa de fraude.
A orientação é ignorar contatos desse tipo e utilizar somente os canais oficiais. Assim, apenas quem receber a comunicação oficial precisa realizar a comprovação, presencialmente ou pelos meios digitais disponíveis.
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