Moradores relatam vigilância e prisões em estado remoto da Venezuela após ataques dos EUA no Caribe

Sucre, a apenas 11 km de Trinidad e Tobago, era lar de algumas das mais de 80 pessoas mortas por Washington

Bombardeios dos Estados Unidos contra supostos barcos de narcotráfico levaram a uma intensificação da vigilância por parte das autoridades no remoto estado de Sucre, no nordeste da Venezuela. O aumento das patrulhas de agências de segurança e apoiadores do partido governista alimenta o medo entre os moradores, segundo quatro residentes e um visitante recente.

Sucre, que chega a fica a apenas 11 km de Trinidad e Tobago, era o lar de algumas das mais de 80 pessoas mortas até agora na campanha de ataques de Washington no Caribe e no oceano Pacífico. O estado é o segundo mais pobre da Venezuela, e cerca de 60% de sua população trabalha para o regime.

Na semana passada, a agência de notícias Reuters revelou que os EUA estão prestes a lançar uma nova fase de operações relacionadas ao país sul-americano.

O governo Trump afirma que os ataques prejudicaram as operações dos cartéis de drogas, incluindo grupos que ele acusa de serem liderados pelo ditador vezuelano, Nicolás Maduro. O regime sempre negou qualquer envolvimento com o crime e acusa Washington, por sua vez, de tentar controlar os recursos naturais da Venezuela, especialmente suas vastas reservas de petróleo.

O aumento da vigilância pode indicar o desejo da ditadura de controlar de forma mais rígida uma região há muito dominada por atividades criminosas, incluindo o tráfico de drogas.

Dois familiares de pessoas de Sucre que foram mortas em ataques a barcos disseram ter recebido a visita de policiais e agentes do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional) logo após os ataques. Por medo de represálias, eles pediram para permanecer em anonimato.

As autoridades revistaram suas casas e os advertiram para não publicarem nada sobre a morte de seus entes queridos nas redes sociais. Os parentes disseram não ter recebido nenhuma informação oficial e desconhecem qualquer investigação sobre as mortes de seus familiares.

Washington não tornou públicos detalhes sobre os venezuelanos mortos nos ataques, e Caracas não divulgou os nomes. Como os corpos não foram encontrados, as famílias não puderam realizar os funerais.

Quatro moradores de Guiria —cidade litorânea no estado de Sucre cuja economia depende principalmente do contrabando marítimo de produtos ilícitos, incluindo drogas, e que sofreu com os ataques— disseram à Reuters que observaram um aumento no número de agentes de segurança de diversas agências desde meados de setembro, com as patrulhas se intensificando ainda mais nas últimas duas semanas.

O Ministério das Comunicações da Venezuela, responsável por responder a todas as solicitações da imprensa em nome do regime, não se manifestou sobre o aumento da atividade de segurança em Sucre. A ditadura afirma que o país é uma democracia e que as forças de segurança atuam em conformidade com a lei.

A agência de notícias não conseguiu apurar o motivo do envio de mais agentes do regime venezuelano para Sucre, mas a contraespionagem e a vigilância de tropas e cidadãos —especialmente pela Direção-Geral de Contraespionagem Militar (DGCIM) e pelo Sebin— são pilares centrais do regime de Maduro, segundo observadores internacionais, grupos de direitos humanos, ex-soldados e parlamentares da oposição.

A DGCIM, sancionada pelos EUA e sob investigação do TPI (Tribunal Penal Internacional), foi acusada de abusos sistemáticos, incluindo tortura e execuções extrajudiciais. A vigilância do Sebin tem como alvo figuras da oposição, jornalistas e outros.

Os agentes que patrulham Sucre às vezes estão à paisana e usam sedãs e SUVs, disseram as testemunhas, que afirmaram reconhecê-los por não serem da cidade. Em outros casos, testemunhas viram agentes uniformizados do serviço, das forças armadas, da DGCIM e da polícia nacional realizando patrulhas, especialmente à noite.

"Eles passam pelas mesmas áreas várias vezes, a qualquer hora. Antes, não eram tão persistentes, agora estão em todos os lugares o tempo todo", disse um líder comunitário, que pediu anonimato por motivos de segurança.

Um comerciante, também falando sob condição de anonimato, disse que a maioria das patrulhas é realizada em motocicletas e viaturas policiais. As patrulhas incluem membros civis de grupos de motociclistas aliados ao partido governista, conhecidos como coletivos. "Tudo é organizado pelo governo –civis e policiais patrulham as ruas juntos", disse ele. "Tudo parece calmo, exceto pelo aumento da vigilância na cidade."

As patrulhas, que, segundo moradores, aumentaram após o anúncio de exercícios militares conjuntos entre os EUA e Trinidad e Tobago no final de outubro, resultaram em prisões, disseram dois residentes. Os moradores também relataram a presença de postos de controle em algumas áreas e disseram que muitas vezes não fica claro quem os controla.

A economia local de Guiria, que além do tráfico de drogas também é parcialmente sustentada pelo comércio informal de alimentos e outros produtos com Trinidad e Tobago, mostra sinais de estagnação. "Só houve movimento nas lojas recentemente por causa dos bônus pagos pelo governo; fora isso, não há dinheiro circulando", disse uma balconista de uma mercearia.

"Nenhum barco de qualquer tipo está saindo para Trinidad e Tobago —nem migrantes, nem pessoas comprando mercadorias lá para vender aqui, e certamente não aqueles que levam produtos venezuelanos para vender lá, que era outra forma de ganhar dinheiro. Tudo está praticamente morto", concluiu ela.

Um ex-morador de Carupano que visitou recentemente a cidade, na costa norte de Sucre, disse que a DGCIM instalou um centro de comando em um hotel estatal e que a atividade em espaços públicos diminuiu devido ao aumento da presença das forças de segurança.

"As pessoas da cidade sabem que existem indivíduos que não fazem parte da comunidade, não são de lá. Pessoas andando por aí como civis, mas que pertencem à inteligência do governo", disse o ex-morador. "Há muito segredo —ninguém fala sobre isso porque não sabem se alguém está ouvindo".

Por Folhapress

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente esta matéria.