Entenda a morte de miliciano e os elos dele com Flávio Bolsonaro

Adrianoda Nóbrega: Foto divulgação/Polícia Civil
Foragido havia um ano, o ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega é acusado de comandar a mais antiga milícia do Rio e tinha um histórico de ligações com Flávio Bolsonaro, senador e filho do presidente da República.

Ele foi morto na madrugada deste domingo (9), no município de Esplanada (BA), ao ser alvo de operação que envolveu as polícias baiana e fluminense.

Quem é Adriano da Nóbrega?
É um ex-capitão do Bope, elite da Polícia Militar carioca. É suspeito de comandar uma milícia no Rio de Janeiro e de integrar um grupo de assassinos profissionais do estado. Já foi preso e solto três vezes, por um assassinato e uma tentativa de assassinato. Foi expulso da PM em 2014 por ter ligação com bicheiros.

Qual a ligação de Adriano com Flávio Bolsonaro?
O ex-policial foi citado na investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro que apura se houve “rachadinha” no gabinete de Flávio quando ele era deputado estadual. Segundo o MP-RJ, contas de Adriano foram usadas para transferir dinheiro a Fabrício Queiroz, então assessor de Flávio e suspeito de comandar o esquema de devolução de salários.

Queiroz e Adriano trabalharam juntos no 18º Batalhão da PM. Foi por meio de Queiroz que familiares de Adriano foram contratados como assessores no gabinete de Flávio: a mulher do ex-capitão, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, de 2007 até novembro de 2018, e a mãe dele, Raimunda Veras Magalhães, de abril de 2016 a novembro de 2018.

Há outras relações entre os Bolsonaro e Adriano?
Em 2005, enquanto estava preso preventivamente pelo homicídio de um guardador de carros, Adriano foi condecorado por Flávio com a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio. Flávio já havia homenageado o hoje ex-policial dois anos antes. O então deputado estadual apresentou uma moção de louvor em favor de Adriano.

Adriano também foi defendido por Jair Bolsonaro, então deputado federal, em discurso na Câmara dos Deputados, em 2005, por ocasião da condenação por homicídio. O ex-capitão seria absolvido depois em novo julgamento.

Qual a ligação de Adriano com o caso Marielle?
Os acusados pelo Ministério Público pela morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018, são o policial reformado Ronnie Lessa (suspeito de ser o autor dos disparos) e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz (suspeito de dirigir o carro). A polícia investiga se há relação de Lessa com uma quadrilha de matadores da qual Adriano é suspeito de fazer parte.

Por que ele estava foragido?
Adriano estava foragido havia cerca de um ano. No início de 2019, ele foi um dos 13 alvos de uma operação deflagrada pelo Ministério Público do Rio para prender milicianos na zona oeste carioca.

Em quais circunstâncias ele foi morto?
Em uma operação conjunta das polícias da Bahia e do Rio de Janeiro. Ele foi encontrado em Esplanada, interior da Bahia, e, segundo a polícia baiana, reagiu com tiros à ordem de prisão. Ainda de acordo com as autoridades da Bahia, ele acabou atingido em meio à troca de tiros, foi levado a um hospital da região, mas não resistiu. Uma funcionária do hospital, porém, disse à Folha que ele já chegou morto.

A polícia apreendeu quatro armas e 13 celulares na casa onde ele estava. O sítio era de um vereador do PSL de Esplanada, Gilson Batista Lima Neto. Ele diz que a propriedade estava vazia e que não tinha qualquer relação com Adriano.

Há suspeita de ‘queima de arquivo’?
O advogado de Adriano, Paulo Emilio Catta Preta, disse que seu cliente temia ser morto como “queima de arquivo”. No último dia 1º, a polícia dos dois estados já haviam tentado prendê-lo em um condomínio de luxo na Costa do Sauipe, mas ele fugiu. Depois disso, ligou para o advogado dizendo que estaria morto se a polícia o encontrasse ou caso se entregasse. Contrariando a polícia, a família diz que ele estava em condições precárias de fuga e não estava armado ao ser preso.

O que ele poderia esclarecer?
Adriano poderia esclarecer se houve e como funcionava o esquema da “rachadinha” de Flávio Bolsonaro.
Também poderia explicar de onde vinha sua relação com o hoje senador Flávio, a ponto de ter sido homenageado por ele, e se essa relação significa um elo mais amplo entre os Bolsonaro e as milícias do Rio. Também poderia esclarecer eventual envolvimento da milícia na morte de Marielle.

De quais crimes Adriano foi acusado?
Ele foi expulso da PM em 2014 pela ligação com jogo de máquinas caça-níqueis, mas esteve preso três vezes como policial. A primeira prisão foi em 2004 pelo homicídio do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, 24. Ele chegou a ser condenado em 2005, mas recorreu e terminou absolvido em 2007. No ano seguinte, foi preso pela tentativa de assassinato do pecuarista Rogério Mesquita, mas foi solto após o fim do prazo da prisão temporária. Em 2011, voltou a ser preso e solto por esse crime. Acabou inocentado por falta de provas.

Folha de S.Paulo

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