Lula frustrou petistas ao não combater o voto do lulismo em Neto, por Raul Monteiro


O comando da campanha petista ao governo superestimou a visita de Lula à Bahia na semana passada. Claro que a passagem do presidente da República pelo Estado serviu para o arranjo de uma serie de providências, entre as quais a produção de cortes que já começaram a ser usados na campanha do governador Jerônimo Rodrigues (PT) na propaganda política e nas redes sociais. Mas o propósito principal que para o comando da campanha do governador justificaria a vinda de Lula à Bahia não se consumou.

Preocupados com o crescimento do voto Lula-Neto, pelo qual o eleitor faz sua salada de fruta eleitoral escolhendo um candidato a governador de uma orientação política e um presidenciável de outra, os petistas pretendiam que o presidente desembarcasse na Bahia determinado a atacar o candidato ao governo das oposições, ACM Neto (União Brasil), quando defendesse o voto na candidatura petista local. A ideia era dissuadir o eleitor lulista da ‘loucura’ de admitir a hipótese de votar num nome como o de Neto, carreando-o para a campanha de Jerônimo.

Mas não foi o que aconteceu. Lula se limitou a manifestar a preferência pelo seu candidato sem dirigir uma crítica sequer ao candidato das oposições a governador. A estratégia de bater em Neto seria perfeitamente factível, caso o momento fosse outro. Afinal, o presidente da República, em outras oportunidades, já atacou o ex-prefeito de Salvador sem dó nem piedade. Por trás da postura de Lula, está um cálculo muito bem feito que envolve basicamente a cautela com sua própria reeleição.

Afinal, as pesquisas e a realidade estão ai para mostrar ao presidente da República que esta talvez seja a eleição mais difícil de sua vida, se levado em conta que, diferentemente das anteriores, detém um mandato que lhe garante plenos poderes para disputar o pleito em condições, em tese, bastante privilegiadas. A diferença é que agora Lula, devido a inúmeros fatores que lhe são desfavoráveis, não está em condições de desperdiçar nenhum capital político. O risco de comprometer sua votação no Estado e sacrificar sua vitória é, portanto, paupável.

O novo momento do lulismo traz um desafio que petistas como Jerônimo não foram capazes de vislumbrar e cuja inobservância os leva a pagar um preço alto. Com o velho leão cansado de guerra, não dá mais contar com sua proteção salvadora na hora em que a porca torce o rabo. Tivesse Jerônimo feito o dever de casa, se aplicado na gestão estadual, como tanto lhe advertiram tanto o senador Jaques Wagner e o ex-ministro Rui Costa, hoje não estaria vendo a reeleição lhe escapar pelos dedos sem ter a uma Lula para recorrer.

* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.

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