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Um em cada cinco brasileiros diz já ter recebido oferta para compra de voto, diz pesquisa
Levantamento mostra que a maioria da população não se sente confortável para denunciar o crime eleitoral
Um em cada cinco brasileiros (22%) afirma já ter recebido oferta para vender o voto em alguma eleição, segundo pesquisa Ipsos-Ipec realizada em conjunto com o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e divulgada nesta segunda-feira, 11.
O levantamento faz parte da campanha “Voto não tem preço, tem consequências” e mostrou que a maioria dos entrevistados, ou seja, 62% da população, não se sente segura para denunciar o crime eleitoral, tampouco sabe como fazê-lo.
A pesquisa mostra que três quartos da população consideram a oferta de dinheiro uma forma de compra de voto. Segundo a socióloga Adelia Franceschini, consultora do levantamento, porém, essa não é a única maneira de abordar os eleitores.
“Há muitas outras formas de compra de voto que não chegam nem a 30%, como oferecer consultas médicas, facilitar o acesso a benefícios sociais, oferecer churrasco ou festa, entre outras”, explica.
“Temos dois problemas: um é a compra de votos em si, porque 22% já é muita gente. O outro é que cerca de 70% não entendem muitas moedas de troca como compra de voto, mas sim como um ‘favorzinho’”, afirma a socióloga.
A pesquisa também mostra que candidatos a cargos municipais são os que mais motivam tentativas de coação de eleitores. Vereadores correspondem a 59% dos relatos de pessoas que afirmam já ter sido abordadas por candidatos ou cabos eleitorais com esse tipo de proposta. Prefeitos aparecem em seguida, com 43%.
Além disso, mesmo entre os que não foram diretamente abordados para vender o voto, 39% relatam que essa prática ocorre “sempre” onde moram. A soma dos que dizem que isso acontece “frequentemente” ou “às vezes” chega a 30%.
O levantamento mostra que o Nordeste é a região com maior incidência de entrevistados que apontaram ter recebido abordagens para vender o voto: 32%, dez pontos a mais que a média nacional e bem acima dos 18% do Sudeste, a mais populosa do país.
“Quanto menor a cidade, mais compra de votos. Mais gente depende de emprego na prefeitura, por exemplo. O dinheiro também é mais ‘útil’, ao permitir mais facilmente a satisfação de necessidades. Já nas cidades maiores, as cestas básicas são mais ‘práticas’ para os candidatos”, diz o cofundador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, Chico Whitaker.
Como denunciar
Um dos objetivos da campanha do MCCE é incentivar denúncias de compra de votos ao Ministério Público e à Justiça Eleitoral. A pesquisa mostra, porém, que 62% dos brasileiros não sabem como denunciar o crime, enquanto 52% afirmam não se sentir seguros para fazer a denúncia.
A compra de votos, chamada pela legislação de “captação ilícita de sufrágio”, pode ser denunciada por meio do aplicativo Pardal, da Justiça Eleitoral e do Ministério Público, além de delegacias, promotorias, e-mails e ouvidorias. O crime inclui oferecer dinheiro, benefícios ou vantagens em troca de votos e pode levar a até quatro anos de prisão.
A pesquisa foi feita pelo Ipsos-Ipec entre 4 e 8 de dezembro do ano passado, com 2000 entrevistas em 131 municípios. O nível de confiança utilizado é de 95%. A margem de erro para as perguntas que englobam toda a amostra é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.
Por Maria Magnabosco/Estadão
TSE se aproxima da eleição de 2026 com mistério sobre suspensão de perfis de 2022
Dez dias antes do segundo turno das eleições de 2022, o plenário do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), à época sob a presidência do ministro Alexandre de Moraes, aprovou uma resolução que ampliou os poderes da própria corte para combater desinformação no processo eleitoral, independentemente de solicitação de candidatos ou do Ministério Público.
Passados três anos e meio, ainda não se sabe quantos conteúdos e perfis foram suspensos pelo tribunal com base nessas regras, tampouco quais critérios justificam que processos relacionados a essa atuação sejam mantidos sob sigilo.
Uma parcela das ordens sigilosas proferidas pelo TSE com base nessa resolução veio a público em 2024, a partir de um relatório do comitê do Congresso dos EUA, que incluía decisões tanto da Justiça Eleitoral quanto do STF (Supremo Tribunal Federal).
Em levantamento realizado pela Folha, de 25 processos do TSE citados no documento, 22 não têm sequer registro de sua existência na consulta pública do tribunal, retornando o resultado "nenhum processo encontrado". A maioria não tem qualquer registro de sua movimentação no DJE (Diário Judicial Eletrônico).
Além de os processos não estarem acessíveis de modo a permitir uma pesquisa mais aprofundada por parte da imprensa ou da academia, o tribunal não fornece dados quantitativos gerais sobre como se deu sua atuação com base na nova norma.
Em abril passado, o TSE negou um pedido de acesso à informação da Folha que requisitava dados gerais, como total de posts, vídeos, perfis, contas e grupos bloqueados ou removidos com fundamento na resolução, bem como a quantidade de contas reativadas. O tribunal afirmou que não possui "categorização quantitativa ou qualitativa de links, canais e/ou grupos removidos".
Em resposta a recurso protocolado pela reportagem, o tribunal disse ainda que não houve negativa de acesso, mas "tão somente esclarecimento quanto à inexistência de dados consolidados na forma pleiteada". Acrescentou ainda que "os dados referentes a ações que tramitam ou tramitaram em segredo de Justiça não são disponibilizadas para pesquisa aberta ao público, em razão de sua natureza sensível ou de determinação judicial específica".
A resposta é assinada pela desembargadora Andréa Pachá, secretária-geral da presidência da corte, posto hoje ocupado pela ministra Cármen Lúcia.
A Folha ainda questionou o tribunal, via assessoria de imprensa, por qual motivo há processos em que o sigilo foi tirado e outros que não, além dos critérios utilizados para tanto, mas não houve resposta.
Artur Pericles Lima Monteiro, doutor em direito constitucional pela USP (Universidade de São Paulo), afirma que, apesar de ser factível que haja processos em que o sigilo seja justificável, o cenário atual, em que não se tem nem sequer dados gerais, não é adequado.
Ele afirma que a regulação adotada pelo tribunal com essa resolução transitou entre o exercício da atividade jurisdicional e de poder de polícia (em que a Justiça Eleitoral atua em seu braço administrativo).
"Esse apego à aplicação das regras sobre transparência de processos judiciais, sem levar em conta esse caráter híbrido da atuação do TSE, está criando um cenário em que o dever constitucional de informação não é satisfeito", diz.
Monteiro avalia que seria do próprio interesse institucional do TSE prestar contas sobre como atuou.
"O tribunal está nos dizendo que sequer gerou as informações necessárias para que uma análise sobre o que aconteceu nas eleições de 2022 a partir dessa regulamentação pudesse ser realizada", avalia. "Qual foi o impacto disso, quais foram os acertos, quais foram os erros?"
A Folha já tinha apresentado um pedido de acesso à informação de mesmo teor ao TSE em 2023, ainda na gestão de Moraes. A resposta à época foi que, "por determinação judicial, os procedimentos em questão permanecem, até o momento, sob segredo de Justiça".
Assim como agora, também naquela ocasião não tinham sido solicitadas informações específicas sobre os processos.
Após o segundo turno das eleições de 2022, o tribunal intensificou sua atuação, em meio a uma série de articulações e movimentos de cunho golpista, incluindo manifestações que defendiam uma intervenção militar.
Em 2024, já sob críticas de falta de transparência, o TSE previu a criação de um repositório de decisões sobre desinformação, com objetivo inclusive de guiar as demais instâncias da Justiça Eleitoral. Constam nele apenas decisões proferidas em representações protocoladas por alguma parte, mas nenhuma ordem dada em procedimentos abertos de ofício pelo TSE.
Para Carla Nicolini, que é advogada eleitoral e membro da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político), a atuação mais proativa do tribunal estava amparada na resolução que foi aprovada. Ela questiona, porém, a falta de transparência.
"O ponto que chama atenção não é a existência desses procedimentos, mas o fato de alguns não apresentarem qualquer rastreabilidade pública", diz.
Ela afirma que falta clareza sobre os critérios concretos adotados para definir o grau de restrição de acesso em cada caso, por haver situações semelhantes com níveis distintos de publicidade, e quais os critérios para cessação das medidas.
"Não está claro em que momento o tribunal entende que a ordem deixa de ser necessária, nem se há algum tipo de monitoramento contínuo das contas envolvidas ou se a atuação é reativa, a partir de novas ocorrências."
Em diferentes casos envolvendo políticos ou influenciadores de maior destaque, houve reestabelecimento das contas por Moraes.
Um dos perfis citados no relatório do Congresso dos EUA, em despacho do TSE, e que segue indisponível no Brasil (segundo aviso do X, por ordem judicial) é o @Fabiotalhari. Essa foi uma entre várias contas que teriam divulgado, segundo a ordem, uma live do argentino Fernando Cerimedo, responsável à época por enunciar teorias da conspiração sem embasamento científico sobre as urnas.
O próprio Cerimedo, por outro lado, teve seu perfil principal desbloqueado por ordem de Moraes no fim de janeiro de 2023, conforme consta em outro despacho no relatório.
Bastante ativo no X e crítico do governo atual, Fábio Talhari usa atualmente uma outra conta nessa rede, que consta ter sido criada em novembro de 2022.
Em post de janeiro de 2023, em seu Instagram, ele afirmou que seu perfil no X teria sido alvo de uma ordem de Moraes. O processo em que ele é citado, porém, é um dos que não podem ser encontrados na busca do tribunal. A Folha tentou contato com Talhari, mas não teve retorno.
Dos três processos que constam no relatório dos EUA e que estão disponíveis na consulta pública, o primeiro a ter o sigilo removido foi o da então deputada federal Carla Zambelli, ainda em dezembro de 2022, quando seus perfis seguiam bloqueados.
O segundo, contra o Coronel Fernando Montenegro, veio a público em março de 2023. Na ocasião, Moraes apontou o fim "do processo político-eleitoral" e o encaminhamento de cópia dos autos ao STF e determinou o arquivamento do processo junto da retirada do sigilo.
André Boselli, coordenador de ecossistemas de informação da ONG Artigo 19, especializada em temas ligados à liberdade de expressão, diz que seria importante haver mais transparência quanto à atuação do tribunal com base na resolução de 2022.
"É uma resolução muito extraordinária, muito específica, e que dá um poder grande para o próprio TSE. Estamos falando de restrição a um direito fundamental, que é o exercício da liberdade de expressão", diz ele.
Por Renata Galf/Folhapress
Zema reforça aceno a eleitorado bolsonarista a partir de operação da PF contra Ciro Nogueira
Auxiliares de Flávio ponderam sobre ter mineiro na vice a partir de espaço na direita e posições radicaisRomeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato do partido Novo à Presidência
Em busca de espaço para se cacifar na direita, Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato do partido Novo à Presidência, aproveitou a operação da Polícia Federal a respeito do Banco Master que mirou o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), para reforçar seu discurso antissistema e conquistar eleitores mais radicais.
A estratégia, que inclui chamar políticos de Brasília e ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) de intocáveis, busca tanto ampliar o espaço no eleitorado bolsonarista como viabilizá-lo como vice de Flávio Bolsonaro (PL), embora aliados do senador tenham dúvidas sobre a aliança.
Ao protagonizar embates com o STF e dar declarações polêmicas, como a favorável ao trabalho infantil, Zema tem se diferenciado de Flávio, que busca um discurso de moderação para evitar a rejeição ligada ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
"Eu tenho sido o pré-candidato que mais tem colocado a boca no trombone, eu não tenho rabo preso", disse Zema na quinta-feira (7), após a operação.
O alvo da crítica do ex-governador é o presidente Lula (PT), a quem chama de omisso na crise do Master, mas a fala acaba atingindo também os adversários do mesmo campo da direita.
Entre as principais suspeitas da PF estão a de que Ciro Nogueira, que foi ministro da Casa Civil na gestão Bolsonaro, recebia quantias repassadas por Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, dono do Master. Além disso, de acordo com as investigações, haveria o pagamento de outras despesas pessoais do parlamentar, como viagens de jatinho.
Em vídeos divulgados em suas redes após a operação, Zema reforçou a pauta anticorrupção e diz que o tema vai influenciar as eleições de outubro. Ele não menciona o nome de Ciro Nogueira, mas exibe uma foto dele e de Vorcaro enquanto fala de "políticos vendidos", "raposas velhas que só querem te roubar" e "safados" que acobertam as fraudes do Master.
Aliados de Flávio se dividem em relação a ter Zema como vice na chapa —o mineiro diz que manterá sua candidatura até o fim, mas a chapa com o PL é defendida por parte dos aliados de ambos os lados. O outro nome cogitado para a vice, o da senadora Tereza Cristina (PP-MS), sofreu um abalo por causa da operação contra o presidente do PP, mas não está descartado.
A crítica a Ciro nas redes também serviu para contrapor Zema à possível aliança de Flávio com o PP. O principal articulador político do ex-governador em Minas Gerais, no entanto, é integrante do PP, o ex-deputado e pré-candidato ao Senado Marcelo Aro.
Auxiliares de Flávio afirmam que ter Zema na vaga de vice seria importante para conquistar votos em Minas Gerais, estado considerado decisivo em eleições presidenciais. Por outro lado, há dúvidas sobre a capacidade do ex-governador de transferir votos a aliados.
Pesquisa Genial/Quaest sobre o Governo de Minas Gerais divulgada na semana passada mostra o candidato de Zema, o atual governador Mateus Simões (PSD), que foi seu vice, com 4%, atrás de Cleitinho (Republicanos, 30%), Alexandre Kalil (PDT, 14%) e Rodrigo Pacheco (PSB, 8%).
Além disso, a chapa com Zema poderia atrapalhar o palanque de Flávio em Minas, ainda segundo parte dos seus aliados. Enquanto o senador ainda busca um candidato que o represente no Estado, Zema está comprometido com Simões, que por sua vez é do partido do presidenciável Ronaldo Caiado (PSD), o que levaria Flávio a ter um palanque dividido.
Outro ponto negativo levantado por integrantes da equipe de Flávio é o fato de Zema se engajar em embates com o STF, o que iria contra o esforço do filho de Bolsonaro de amenizar sua imagem.
Esse ponto também é dúbio no entorno do senador. Com 75% dos brasileiros considerando que os ministros do STF têm poder demais, segundo o Datafolha, o fato de Zema ter protagonizado o confronto com a corte é visto por uma ala como uma qualidade que o credencia para a vice.
Um cacique da federação União Progressista (União Brasil-PP) afirma que Zema puxou para si a pauta do enfrentamento à corte, que será um dos temas mais importantes da eleição. Ele prevê que a imagem do tribunal tende a piorar nos próximos meses e que o ex-governador de Minas Gerais conseguiu capitalizar o tema junto à opinião pública.
Pressionado pelos adversários da direita e pelo PT, cuja tática é ligar o Master ao bolsonarismo, Flávio se reposicionou em relação à operação que atingiu Ciro Nogueira. Sua primeira manifestação pública buscava distanciamento —não mencionava o presidente do PP e apenas defendia as investigações.
Já em vídeos publicados mais tarde em suas redes, o senador cobrou a instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre o Banco Master e voltou suas críticas ao PT.
No último dia 22, durante uma entrevista à imprensa na Câmara dos Deputados em que afirmou que o STF é incendiário, Zema foi tratado, de forma amistosa, como candidato a vice por parlamentares do PL. Na ocasião, o ex-governador afirmou que se manterá na disputa e que os candidatos da direita estarão juntos no segundo turno.
"O próprio Bolsonaro disse que quanto mais candidatos a direita tiver, melhor. [...] Até hoje não teve pedido formal de ninguém pra ninguém, de ser vice, mas eu tenho certeza de que a direita tem bons candidatos e nós estaremos todos juntos no segundo turno", disse.
Por Carolina Linhares/Folhapress
Flávio escala tropa de choque de parlamentares influenciadores para rebater ataques nas redes
Entre os deputados da linha de frente, estão Nikolas Ferreira (PL-MG) e Júlia Zanatta (PL-SC)O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) escalou uma tropa de choque de parlamentares aliados para rebater acusações que surjam contra ele nas redes sociais. A ideia seria rebater o que a campanha considerar serem "fake news".
A escolha dos parlamentares foi feita a dedo pelo presidenciável e levou em conta aqueles que são mais ativos e populares nas redes sociais.
A definição ocorreu em um encontro realizado no gabinete do senador no dia 28 de abril. Entre os presentes, estavam a deputada Júlia Zanatta (PL-SC) e os deputados Gustavo Gayer (PL-GO) e Maurício Marcon (PL-RS).
Um nome que chamou a atenção foi o do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Ele participou por videoconferência, mas integrantes do PL dizem que o diálogo é um claro sinal de que vai participar ativamente da campanha do filho do ex-presidente.
Por Gabriela Echenique/Folhapress
Lula se irrita com PT, falta a eventos e cobra estratégia pré-eleitoral
O presidente Lula deixou de participar, na segunda-feira (4), de jantar de adesão oferecido pelo PT, apesar de a data ter sido definida para acomodar a agenda do Palácio do Planalto.
A justificativa apresentada foi a de que, devido a uma recente cirurgia na cabeça, o petista deveria evitar situações em que pudesse suar em excesso. Mas a ausência foi apontada por aliados como a expressão pública das críticas reservadas que Lula tem feito ao partido que ajudou a fundar.
Essa foi a segunda vez que Lula faltou a um evento do partido em menos de duas semanas. No dia 26 de abril, o presidente tampouco participou do encerramento do congresso petista. Enviou apenas uma mensagem de vídeo.
"Nós temos que mostrar com muita clareza, mas uma proposta séria, que seja coisa factível, que a gente possa executar. Porque senão a gente fica prometendo e o cara pergunta 'pô, por que vocês não fizeram?'", disse na gravação.
Na noite de segunda, Lula não foi o único ausente. Apenas três ministros do governo prestigiaram a confraternização do PT.
Em suas conversas, o presidente repete que os petistas têm que fazer a sua parte para uma eleição dura. Ainda segundo relatos, Lula se queixa de falta de combatividade do partido, cada vez mais concentrado em discussões como cota de candidatos no fundo partidário.
Lula se ressente de uma ação mais enérgica dos petistas nas redes e nas ruas. Ele chegou a cobrar detalhes da estratégia de comunicação montada pelo PT. Esse mal-estar traduz um acúmulo de dissabores do presidente com integrantes da direção partidária.
No ano passado, Lula chegou a ser desafiado por uma ala contrária à eleição do atual presidente do partido, Edinho Silva. Em março do ano passado, o presidente foi alertado para o risco de derrota de Edinho na eleição partidária.
Embora tenha em Edinho uma pessoa de sua confiança, e apesar da escolha de um secretário de comunicação, Éden Valadares, alinhado com o ministro Sidônio Palmeira (Secom), Lula não mantém relação com todos os integrantes da chamada máquina partidária.
Para o congresso partidário, Lula acompanhou de perto a redação do manifesto da sigla. Ele chegou a sugerir a exclusão de propostas controversas, como reformas do sistema financeiro.
Sob orientação do presidente, a cúpula do PT decidiu retirar da pauta do encontro do partido temas polêmicos que poderiam ampliar o desgaste às vésperas da campanha. Mas, além do manifesto, foram elaborados dois outros textos, o que também contrariou Lula —defensor da ideia de divulgação apenas de uma redação.
Nenhum dos documentos foi publicado até agora.
Em suas conversas, Lula também reclama de uma falta de combatividade das lideranças do governo e do PT no Congresso. Segundo interlocutores, Lula afirma que o perfil dos petistas que ocupam esses postos é muito brando para a disputa eleitoral que se avizinha.
Nesse sentido, não está descartada a substituição de líderes do governo no Congresso, especialmente após a rejeição no Senado da indicação do chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Jorge Messias, para ocupar vaga no STF (Supremo Tribunal Federal).
Por Catia Seabra/Folhapress
Quaest: veja intenções de voto para presidente no 2º turno em 10 estados
Pesquisa Quaest ouviu 11.646 pessoas entre os dias 21 e 28 de abril. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.
Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (6) mostra as intenções de voto para presidente em dez estados em cenários de 2º turno.
Foram testados cenários de 2º turno com Lula (PT) contra Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD).
Veja os resultados abaixo:
Cenário Lula x Flávio Bolsonaro
Segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, Flávio Bolsonaro tem vantagem em 5 estados e destaca as diferenças percentuais entre os dois pré-candidatos:
"Nas simulações de 2º turno, Flávio vence com folga no RS (+26), PR (+20), GO (+13), SP (+12) e RJ (+13). Lula vence disparado na Bahia (+33), Pernambuco (+34) e Ceará (+28). No Pará, Lula tem vantagem de 7 pp. Em MG, eles aparecem empatados, com vantagem numérica de Lula (+3)."
Rio Grande do Sul
- Flávio Bolsonaro (PL): 57%
- Lula (PT): 31%
- Indecisos: 5%
- Branco/nulo/não vai votar: 7%
Paraná
- Flávio Bolsonaro (PL): 50%
- Lula (PT): 30%
- Indecisos: 8%
- Branco/nulo/não vai votar: 12%
Goiás
- Flávio Bolsonaro (PL): 47%
- Lula (PT): 34%
- Indecisos: 6%
- Branco/nulo/não vai votar: 13%
São Paulo
- Flávio Bolsonaro (PL): 47%
- Lula (PT): 35%
- Indecisos: 4%
- Branco/nulo/não vai votar: 14%
Rio de Janeiro
- Flávio Bolsonaro (PL): 45%
- Lula (PT): 32%
- Indecisos: 8%
- Branco/nulo/não vai votar: 15%
Minas Gerais
- Flávio Bolsonaro (PL): 36%
- Lula (PT): 39%
- Indecisos: 5%
- Branco/nulo/não vai votar: 20%
Pará
- Flávio Bolsonaro (PL): 36%
- Lula (PT): 43%
- Indecisos: 9%
- Branco/nulo/não vai votar: 12%
Ceará
- Flávio Bolsonaro (PL): 28%
- Lula (PT): 56%
- Indecisos: 5%
- Branco/nulo/não vai votar: 11%
Pernambuco
- Flávio Bolsonaro (PL): 23%
- Lula (PT): 57%
- Indecisos: 6%
- Branco/nulo/não vai votar: 14%
Bahia
- Flávio Bolsonaro (PL): 22%
- Lula (PT): 55%
- Indecisos: 8%
- Branco/nulo/não vai votar: 15%
Cenário Lula x Romeu Zema
De acordo com Nunes, há "um empate em Minas, São Paulo, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul, e vitória do Lula no Pará, Rio e nos estados do Nordeste", quando se analisa uma disputa entre Lula e Romeu Zema. Veja os resultados abaixo:
Cenário Lula x Ronaldo Caiado
Goiás
- Ronaldo Caiado (PSD): 51%
- Lula (PT): 26%
- Indecisos: 7%
- Branco/nulo/não vai votar: 16%
São Paulo
- Ronaldo Caiado (PSD): 34%
- Lula (PT): 35%
- Indecisos: 7%
- Branco/nulo/não vai votar: 24%
Paraná
- Ronaldo Caiado (PSD): 32%
- Lula (PT): 29%
- Indecisos: 13%
- Branco/nulo/não vai votar: 26%
Rio Grande do Sul
- Ronaldo Caiado (PSD): 29%
- Lula (PT): 32%
- Indecisos: 15%
- Branco/nulo/não vai votar: 24%
Minas Gerais
- Ronaldo Caiado (PSD): 26%
- Lula (PT): 38%
- Indecisos: 6%
- Branco/nulo/não vai votar: 30%
Pará
- Ronaldo Caiado (PSD): 25%
- Lula (PT): 43%
- Indecisos: 12%
- Branco/nulo/não vai votar: 20%
Rio de Janeiro
- Ronaldo Caiado (PSD): 22%
- Lula (PT): 32%
- Indecisos: 12%
- Branco/nulo/não vai votar: 34%
Pernambuco
- Ronaldo Caiado (PSD): 17%
- Lula (PT): 56%
- Indecisos: 8%
- Branco/nulo/não vai votar: 19%
Ceará
- Ronaldo Caiado (PSD): 17%
- Lula (PT): 57%
- Indecisos: 7%
- Branco/nulo/não vai votar: 19%
Bahia
- Ronaldo Caiado (PSD): 15%
- Lula (PT): 56%
- Indecisos: 9%
- Branco/nulo/não vai votar: 20%
A Pesquisa Quaest ouviu 11.646 pessoas entre os dias 21 e 28 de abril, sendo 1.650 em São Paulo; 1.482 em Minas Gerais; 1.200 no Rio de Janeiro e na Bahia; 1.104 no Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás; 1.002 no Ceará e 900 em Pernambuco e Pará. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos em São Paulo e de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%.
Por Camila da Silva, g1 — São Paulo
Rejeição a Messias sinaliza isolamento de Lula na eleição e aliança restrita à esquerda
A rejeição histórica da indicação de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal) foi lida por lideranças partidárias como um sinal do isolamento do presidente Lula (PT) nesta eleição. A avaliação é que está em curso uma reorganização de forças em torno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que está empatado com o presidente nas pesquisas de intenção de voto para o segundo turno.
O cálculo é que a rejeição não tira votos do petista, mas o episódio ilustra como partidos do centrão se afastaram de Lula, que nesta eleição deve contar com uma aliança restrita a partidos de esquerda. Esse cenário, sim, teria capacidade de prejudicá-lo eleitoralmente a longo prazo.
Do lado petista, a avaliação é a que o presidente deverá reforçar o discurso antissistema que tenta emplacar para a campanha eleitoral. Por esse raciocínio, Lula poderia dizer ao eleitorado que o Senado o impediu de colocar uma pessoa íntegra no STF. A corte está pressionada por causa do escândalo do Banco Master.
Políticos próximos a Lula avaliam também que a derrota de seu indicado ao Supremo poderá ter influência sobre a aliança do petista em pelo menos dois estados.
O presidente gostaria que seu candidato a governador em Minas Gerais fosse Rodrigo Pacheco (PSB-MG), mas parte dos governistas avalia que ele atuou para derrotar Messias. Isso deixaria a aliança ainda mais difícil –sem contar que Pacheco nunca assumiu publicamente uma candidatura.
Outro possível desdobramento é no Maranhão. Aliados de Lula acreditam que a rejeição de Messias também teve participação do ministro do STF Flávio Dino, que governou o estado por oito anos. Parte dos petistas defende que, confirmada a participação de Dino, o partido apoie Orleans Brandão (MDB) para o governo maranhense. Ele é sobrinho do atual governador, Carlos Brandão, que rompeu com o ministro do Supremo.
Neste terceiro mandato, Lula conseguiu atrair alas de legendas como União Brasil, PP e Republicanos oferecendo ministérios e cargos. Tal operação, porém, deixou de ser interessante, e os partidos, diante de uma perspectiva de possível vitória de Flávio, têm pouca iniciativa de ajudar Lula.
O presidente tentou atrair o MDB para sua coligação na disputa presidencial deste ano, mas não obteve sucesso. A tendência é que tenha ao seu lado, além da esquerda, apenas setores de partidos de centro que podem se beneficiar eleitoralmente de uma proximidade com o petista. Por exemplo, políticos da Bahia e outros estados onde o presidente é popular.
Demonstrações de força de Flávio e da oposição poderão reduzir a capacidade do presidente da República de atrair o apoio desses setores partidários.
Por mais que a rejeição de Messias não tire votos de Lula diretamente, a classe política entende que a derrota é sintoma da dificuldade que o PT terá para garantir palanques para Lula, já que há menos parlamentares dispostos a se associar ao governo.
A derrota também mostrou que o petista não conseguiu contar com a boa vontade do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), chefe de uma Casa que era considerada pelo governo a mais segura do Legislativo. Ele trabalhou pela rejeição de Messias, embora negue publicamente.
Líderes políticos, porém, acreditam que a derrota de Messias não tirará votos de Lula por dois fatores. O primeiro, que o fato político ocorre mais de cinco meses antes da eleição de outubro. O segundo, que o episódio se restringe a um assunto do Legislativo.
Nessa ótica, a opinião dos senadores não refletiria o pensamento médio do brasileiro, que pouco acompanharia o rito de indicações à Suprema Corte. Ou seja, o clamor pela rejeição de Messias ao STF estaria restrita apenas ao eleitorado bolsonarista.
Petistas ouvidos pela reportagem acreditam que o tema não chegará à eleição. O eleitorado teria mais interesse em projetos como o novo Desenrola e outras ações ligadas a temas econômicos.
Além disso, integrantes do partido avaliam que a rejeição de Messias pelo Senado dá ao presidente da República e a seu grupo político uma deixa para tentar colar no centrão escândalos de corrupção, tentando atingir Flávio Bolsonaro.
Aliados do petista avaliam que ele costuma se fortalecer depois de situações de crise.
Citam como exemplo a reação do governo depois de o Congresso derrubar a tentativa do Executivo de aumentar o IOF (imposto sobre operações financeiras), em 2025. O grupo político do presidente adotou um discurso de "ricos contra pobres" que o ajudou a sair das cordas e, meses depois, foi importante para Lula recuperar a própria popularidade.
Um sinal de que o presidente pretende se apresentar como um andidato antissistema foi dado na noite de quinta-feira (30), no pronunciamento de Lula divulgado em rede nacional de TV. "Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil", disse o presidente.
Integrantes de outros partidos avaliam que isso poderá ser um tiro no pé do governo porque afastará outras forças políticas de Lula. Ficaria mais difícil para o presidente obter apoio para seus projetos no Congresso até o fim do mandato e também para atrair novos deputados e senadores para sua base de apoio.
Aliados do presidente, porém, destacam que a medidas importantes do governo em termos de popularidade também não devem ser afetadas pela derrota recente. Petistas apostam que o apelo do fim da escala 6x1 não deixará Alcolumbre postergar a pauta e que o Desenrola 2.0 está sendo executado via MP (Medida Provisória), sem necessidade de aval do Congresso.
Por Augusto Tenório e Caio Spechoto/Folhapress
STF avança sobre casos com impacto eleitoral e pode esvaziar atuação do TSE em 2026
Os últimos movimentos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) indicam uma tendência de atuação em casos com impacto eleitoral, o que, na prática, pode esvaziar o papel do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições de 2026. Esse movimento já aparece em episódios envolvendo o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), o senador Flávio Bolsonaro (PL), e o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), ambos pré-candidatos e alvos de medidas no Supremo.
A atuação de ministros do STF ocorre justamente em meio às críticas sobre interferências indevidas da corte seja em assuntos do Congresso, seja em relação a políticos que criticam publicamente os magistrados, como ocorreu com Zema e Alessandro Vieira.
O Supremo já virou tema de candidatos à eleição indicando que o tribunal está na pauta da campanha. O ex-governador de Minas Gerais tem reiterado críticas a ministros do STF por conta do envolvimento no caso Master. Em pesquisas recentes, a imagem da corte aparece desgastada por conta do episódio. Segundo levantamento Atlas/Estadão publicada em fevereiro, a desconfiança com a Corte alcança 60% da população.
Após publicar um vídeo com críticas, em tom de sátira, à atuação do ministro Gilmar Mendes, o ex-governador de Minas Gerais foi alvo de notícia-crime enviada pelo magistrado, com pedido de inclusão do nome de Zema no inquérito das fake news, sob relatoria de Alexandre de Moraes. Mendes também acionou a Procuradoria-Geral da República contra o senador Alessandro Vieira, antigo relator da CPI do Crime Organizado, por suposto abuso de autoridade.
Para especialistas ouvidos pelo Estadão, episódios como esses indicam uma tendência a ser replicada durante as eleições de 2026, com ministros acionando diretamente o STF ao se sentirem alvo de candidatos, o que pode, na prática, “driblar” a Justiça Eleitoral.
Os especialistas também apontam que os casos de Zema e Vieira são juridicamente inadequados: o ex-governador de Minas Gerais não possui foro na Corte e, portanto, a eventual investigação deveria tramitar na Justiça comum; já Vieira está protegido pela imunidade parlamentar, o que afastaria a configuração de crime.
Políticos avaliam que esses movimentos funcionam como forma de intimidação e desestímulo a críticas à atuação dos magistrados durante a campanha.
Procurados, o STF e o gabinete do ministro Gilmar Mendes não se manifestaram.
Pelas regras, cabe à Justiça Eleitoral, formada pelo TSE e pelos Tribunais Regionais Eleitorais, organizar o processo eleitoral e julgar disputas envolvendo candidatos, desde propaganda irregular até a disseminação de desinformação. No caso das eleições presidenciais e dos recursos oriundos dos Estados, a competência é do TSE, enquanto disputas envolvendo outros cargos são julgadas inicialmente pelos tribunais regionais dos respectivos Estados. Ao STF cabe julgar recursos contra decisões do TSE.
Deslocamento de casos
O professor Luiz Fernando Esteves, do Insper, critica a atuação do ministro Gilmar Mendes e avalia que, se medidas como essa se repetirem durante as eleições, podem levar ao deslocamento de casos com impacto eleitoral para o STF. Nesse cenário, diz ele, a iniciativa poderia ser interpretada como um “drible” ao TSE.
“Sobre Zema, esse caso sequer deveria ser discutido no STF. Não se trata de uma pessoa que tem foro por prerrogativa de função no tribunal. O ato do ministro de remeter a notícia crime contra o Zema para o inquérito das fake news pode ser considerado um drible no TSE”, diz.
A definição da competência, na prática, depende do uso político do conteúdo, argumenta o professor e pesquisador da PUC-SP Erick Beyruth. Se um candidato, durante as eleições, publica um vídeo com críticas a um ministro e passa a utilizá-lo como peça de campanha, com pedido explícito ou implícito de votos, cabe à Justiça Eleitoral avaliar se a informação é falsa e se houve impacto no equilíbrio da disputa.
Beyruth também explica que, caso um ministro se sinta ofendido por conteúdo publicado por um candidato, pode recorrer à Justiça comum por crimes como calúnia, injúria ou difamação, que não geram inelegibilidade - e não diretamente ao STF.
“Além de candidatos não terem foro, é lógico que o juiz que se sente ofendido não pode julgar o próprio processo”, diz, destacando que as condutas recentes dos ministros levam o tema do STF para a plataforma das eleições.
Os dados reforçam essa percepção. Levantamento da Quaest, de março, mostra que 66% dos brasileiros consideram importante votar em candidatos ao Senado que defendem o impeachment de ministros do Supremo. Já pesquisa AtlasIntel/Estadão indica que a Corte registra 35% de confiança entre os brasileiros, figurando entre as instituições com piores avaliações.
Nesse cenário, a depender de como o TSE decidir esses casos, ministros do STF podem levar diretamente à última instância da Justiça episódios em que se considerem alvo, o que pode reforçar o deslocamento dessas disputas para o tribunal.
Como mostrou o Estadão, o novo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, pretende despolarizar a atuação da Justiça Eleitoral e adotar um estilo diferente do de Alexandre de Moraes, que comandou as eleições de 2022 e foi alvo de críticas por decisões mais duras no combate contra candidatos.
Para especialistas, outro efeito colateral dessas medidas é a autocensura de candidatos, por receio de investigações e eventuais processos, com impacto nas campanhas. A leitura é compartilhada pelo senador Alessandro Vieira, que vê nas medidas um efeito de intimidação.
“Não só para candidatos, mas para qualquer cidadão que se sente inibido em manifestar sua opinião diante de reações agressivas e ameaçadoras”, afirma.
O senador avalia que esse ambiente acaba constrangendo o debate público. Vieira também critica declarações de ministros como Gilmar Mendes e Dias Toffoli, classificando-as como “uma reação descontrolada de quem não quer ser investigado”. Toffoli afirmou que a atuação do senador na CPI pode configurar abuso de poder com repercussões na esfera eleitoral, incluindo eventual inelegibilidade.
Liberdade de expressão
Na avaliação do advogado eleitoral Alberto Rollo, no entanto, críticas a ministros não são, por si só, irregulares. Para o especialista, não há problema na veiculação de conteúdos com questionamentos à atuação de ministros do STF por parte de candidatos, e discussões sobre os limites da atuação da Corte podem integrar o debate eleitoral.
“É preciso ter atenção à liberdade de expressão e diferenciá-la do que é efetivamente crime contra a honra. Altas autoridades devem suportar um nível maior de críticas do que cidadãos comuns”, diz.
Um dos casos citados pelo jurista como exemplo desse limite envolve a abertura de investigação por Moraes contra o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por suposta calúnia contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em publicação na rede X, em janeiro deste ano, o senador atribuiu a Lula crimes como tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, além de associar imagens do presidente ao ditador venezuelano Nicolás Maduro. A decisão de Moraes atendeu a pedido da Polícia Federal, com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República.
O efeito do inquérito das fake news
Os especialistas são unânimes em criticar juridicamente o pedido do ministro Gilmar Mendes para incluir Zema no inquérito das fake news e apontam que esse tipo de medida pode se repetir durante o pleito, reforçando o papel da investigação no cenário eleitoral. Em entrevista, o magistrado defendeu o prolongamento do inquérito pelo menos até as eleições, em meio ao que classificou como ataques à Corte.
“Eu tenho a impressão de que o inquérito continua necessário. E ele vai acabar quando terminar, é preciso que isso seja dito em alto e bom som”, disse Gilmar Mendes, completando: “Eu acho que foi um momento importante do Supremo ter aberto o inquérito e de mantê-lo pelo menos até as eleições”.
O inquérito das fake news foi aberto de ofício pelo ministro Dias Toffoli em 2019 para investigar ameaças a ministros e entregue à relatoria de Alexandre de Moraes. Ao longo de 7 anos, teve escopo ampliado, se tornando uma espécie de “escudo” da Corte em meio a críticas cada vez mais recorrentes, em razão das relações dos dois ministros - atuantes na ampliação do papel da Corte no âmbito eleitoral - com figuras do caso Master.
A expansão das frentes de investigação também acabou ampliando o poder de Alexandre de Moraes, que assumiu, utilizando-se o princípio da prevenção, ou seja, sem sorteio, a relatoria diversas apurações decorrentes do inquérito.
Foi neste âmbito que surgiram, por exemplo, a própria investigação que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e dezenas de aliados por golpe de Estado, uma investigação sigilosa para apurar o vazamento de dados fiscais de magistrados da Corte por servidores da Receita, do Coaf e do Serpro, a busca determinada contra o blogueiro Luís Pablo Conceição de Almeida, que publicou sobre o carro funcional do Tribunal de Justiça do Maranhão usado por Flávio Dino ou o caso de mais recente, do pedido de investigação das críticas de Romeu Zema a Gilmar Mendes.
“Há a possibilidade de o Supremo passar por cima do TSE. Já vimos decisões determinando a retirada de conteúdos no âmbito do inquérito das fake news. Críticas a ministros durante a campanha podem acabar sendo canalizadas para o Supremo por esse caminho”, completa Beyruth.
Por Hugo Henud/Estadão Conteúdo
Inteligência artificial provoca terremoto em campanhas eleitorais de 2026
Proibidos por resolução de TSE desde 2024, deepfakes são criticados, e dúvidas sobre regras ainda persistem
O uso de inteligência artificial já provoca um terremoto nas campanhas eleitorais deste ano.
Com ferramentas de IA, equipes mandam mensagens cada vez mais segmentadas, marqueteiros substituem pesquisas qualitativas por "eleitores sintéticos" para testar a eficácia, vídeos e publicações na internet que levavam um dia e meio para ficarem prontos são finalizados em poucas horas.
Ao mesmo tempo, as campanhas pisam em ovos por causa da resolução do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que restringe a utilização de IA. Está claro para elas que deepfakes eleitorais (vídeos e áudios não autorizados que emulam candidatos ou outras figuras públicas) estão proibidos. Mas existem dúvidas sobre a legalidade de certos recursos.
A Folha conversou com integrantes das equipes de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidatos à Presidência, de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), pré-candidatos ao Governo de São Paulo, e de deputados federais e estaduais. Alguns pediram para não se identificar, afirmando serem informações estratégicas.
dedicadas a fazer impulsionamento com nanosegmentação. A campanha consegue customizar uma mensagem do candidato para, por exemplo, atingir mulheres da zona oeste de São Paulo sem plano de saúde e que têm probabilidade de passar a apoiar o político.
Softwares que usam IA monitoram a chamada "sentimentalização" —como as contas de redes sociais reagem a cada conteúdo. Milhões de perfis de redes sociais são "tagueados" para que sejam mapeados os temas que mais reverberam e como ressoam conteúdos do candidato e dos concorrentes.
Todas as campanhas ressaltam, porém, que é importante ter humanos no relacionamento direto com eleitores, porque as pessoas não gostam de interagir com robôs.
Uma campanha quis avaliar qual foi a repercussão do embate entre Romeu Zema, pré-candidato do Novo à Presidência, com o STF (Supremo Tribunal Federal). Em cinco segundos, conseguiu mapear nas redes sociais potenciais detratores e apoiadores, as teses-chave e ter sugestões de resposta.
Todas as principais pré-candidaturas têm IAs treinadas com discursos, reportagens, entrevistas e materiais do candidato e rivais.
"A IA vai ‘aprendendo’ o tom do discurso do candidato, suas expressões, como ele se posiciona em relação a temas", diz Nara Alves, sócia-diretora da Ela Marketing Político, que trabalha para candidatos de vários partidos.
Isso é usado para os briefings (a descrição do que se espera de cada peça de propaganda política) e para os roteiros, determinando o que seria adequado para falar em determinada cidade. Eles também conseguem ter versões do candidato mais irônico, sério ou agressivo –e depois testam o que funciona melhor usando software de "social listening", que mede reações nas redes sociais.
"A IA vem revolucionando cada processo das campanhas, da criação de conteúdo à segmentação de mensagens e mobilização de apoiadores", diz Bruno Bernardes, sócio da PLTK, agência do marqueteiro Pablo Nobel, responsável pela campanha de Tarcísio.
Os deepfakes, que estão proibidos por resolução de TSE desde 2024, são criticados por todos os marqueteiros.
Segundo Bernardes, a última eleição presidencial argentina mostrou o perigo. Vídeos falsos usando deepfake com a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher contestando Javier Milei e com o candidato peronista Sergio Massa cheirando cocaína viralizaram a duas semanas do segundo turno em 2023.
As contas produzindo e disseminando esses conteúdos não são diretamente ligadas aos candidatos.
Para o advogado eleitoral Hélio Silveira, esse deve ser um dos principais problemas da eleição.
Silveira, que trabalhou na campanha da deputada Tabata Amaral (PSB) à Prefeitura de São Paulo em 2024 e na de Fernando Haddad (PT) ao governo em 2022, espera um uso massivo de contas falsas para distribuir mensagens atacando candidatos, muitas delas com IA.
Apesar de os deepfakes serem a faceta mais visível do uso eleitoral de IA, é nos bastidores que a tecnologia vem fazendo transformações radicais. Para além da segmentação, a criação do conteúdo ganhou muita agilidade.
Um vídeo de Ronaldo Caiado abre com uma imagem de IA de uma bandeira do Brasil tomando tiros e começa a sangrar como se fosse carne humana.
"O Brasil assiste indignado, assustado e impotente à morte de milhares de filhos seus, vítimas da criminalidade", diz o pré-candidato no vídeo.
Segundo o marqueteiro de Caiado, Paulo Vasconcelos, sem IA, levaria quatro dias para fazer a peça. Com IA, demorou algumas horas.
Os locutores dos vídeos foram 100% substituídos por IA, assim como a geração de imagens de apoio.
Conteúdo manipulado
Durante a campanha, segundo a resolução do TSE, será preciso informar que o conteúdo foi manipulado. Além disso, no período entre as 72 horas que antecedem e as 24 horas que sucedem o término do pleito serão proibidos conteúdos alterados por IA que usem imagem ou voz de candidato ou pessoa pública, mesmo que rotulados.
Algumas campanhas estão recorrendo a chatbots para poupar gastos com pesquisas qualitativas, em que grupos de leitores opinam de forma mais aprofundada sobre temas.
O "eleitor sintético" da SVA Solutions–Galaxies cria, usando dados de grupos reais de eleitores, perfis que reúnem características de determinados segmentos. Por exemplo, "viúvas do PSDB", pessoas de centro-direita que costumavam votar nos tucanos e rejeitam Bolsonaro ou esquerdistas frustrados com o PT.
Esses perfis servem para testar mensagens ou mesmo gerenciar crises. "Quando temos pouca verba para fazer uma pesquisa ampla e entender como lidar com determinada questão do candidato, é uma opção", diz Andrés Benedykt, marqueteiro do candidato a deputado federal José Dirceu (PT).
Uma pesquisa qualitativa bem feita com mil entrevistados pode sair R$ 150 mil. O eleitor sintético custa R$ 65 mil por mês e pode ser acionado a qualquer momento.
Algumas ferramentas ainda suscitam dúvida nos departamentos jurídicos. A customização de mensagens usando IA, com a adaptação de vídeo ou áudio de candidatos para chamar eleitores pelo nome ou mencionar suas cidades de origem, ainda é zona cinzenta.
Alguns advogados acreditam que, desde que haja aviso de uso de IA, seja autorizado pelo candidato e não se trate de propaganda negativa, não há problema.
Outros acham que se trata de deepfake. Só seria possível usar IA para melhorar qualidade do áudio e vídeo. A resolução do TSE veda o uso "para prejudicar ou para favorecer candidatura" de conteúdo sintético em formato de áudio ou vídeo para criar, substituir ou alterar imagem ou voz de uma pessoa.
De qualquer maneira, muitos marqueteiros advertem que certos usos de IA podem sair pela culatra. "Acho arriscado fazer customização com áudio, qualquer estranhamento pode acabar gerando rejeição no eleitor", diz o marqueteiro Felipe Pimentel.
Por Patrícia Campos Mello, Folhapress
Para reforçar acusação de corrupção, campanha de Flávio vai chamar presidente de 'pai do Lulinha'
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| Foto: Andressa Anholete/Agência Senado/Arquivo |
A equipe de campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) definiu como uma das estratégias a serem lançadas nos próximos dias chamar o presidente Lula de "pai do Lulinha".
A equipe de campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) definiu como uma das estratégias a serem lançadas nos próximos dias chamar o presidente Lula de "pai do Lulinha".
A ideia é usar temas sensíveis que atingem diretamente o eleitor, como as fraudes do INSS e a pauta anti-corrupção.
Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, foi citado nas investigações que apuram o desvio de recursos de aposentadorias e pensões como um possível elo com Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, apontado como principal operador do esquema.
A defesa do filho do presidente confirma a relação com Antunes, mas diz que ela se refere à prospecção de negócios comerciais legítimos.
As acusações contra Lulinha não se limitam ao INSS. O filho do presidente já foi citado em uma operação no âmbito da Lava Jato, em 2019.
Por Gabriela Echenique, Folhapress
Lula testa mote para reeleição enquanto acumula tropeços no Congresso
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| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo |
O presidente Lula (PT) ensaia um mote para sua campanha de reeleição em um momento de dificuldades na relação com o Congresso Nacional. Ele sofreu duas derrotas importantes no Legislativo na última semana. Uma delas, a rejeição de seu indicado ao STF (Supremo Tribunal Federal), inédita desde o fim do século 19.
O petista instruiu auxiliares a encontrarem um novo cardápio de propostas que possam ser apresentadas como eixos para um quarto mandato. Na avaliação de Lula, a retomada de programas sociais e outras medidas econômicas adotadas nesses últimos anos falharam em alavancar sua popularidade.
Uma prévia do que pode ser seu discurso de campanha foi vista no pronunciamento em rede nacional de TV em alusão ao 1º de Maio. No vídeo, Lula criticou o "sistema", defendeu a redução da jornada semanal e o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso –mencionando que o projeto agora está com o Congresso– e anunciou o novo Desenrola, reedição do programa de regularização de dívidas.
Ele também se colocou contra as empresas de apostas esportivas (conhecidas como bets), acenou a mulheres e ao público religioso e defendeu as medidas de seu governo para conter a alta dos preços dos combustíveis causada pela guerra no Oriente Médio. Além disso, falou em defender a soberania e as riquezas do país.
O petista sofreu derrotas políticas tanto no dia em que o programa foi ao ar quanto na véspera.
Na quinta (30), o Congresso derrubou seu veto ao PL da Dosimetria, projeto que reduz as penas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de outros condenados no processo da trama golpista. No dia anterior, o Senado rejeitava a indicação do nome de Jorge Messias ao STF, o que também tornou mais difícil uma das alianças mais importantes de Lula.
O presidente quer que o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) seja seu candidato a governador em Minas Gerais, segundo estado com mais eleitores no país. Além de Pacheco até o momento não ter confirmado sua candidatura, setores lulistas desconfiam que ele tenha trabalhado contra Messias e perdido a vontade de apoiá-lo.
Na campanha, Lula não vai deixar de exaltar a área social, uma vez que as trajetórias tanto do partido quanto do próprio presidente são muito identificadas com essas ações. O diagnóstico, no entanto, é que serão necessárias novas bandeiras para a campanha à reeleição.
O presidente e seus aliados já vinham testando alguns tópicos, mas tanto o programa de governo quanto a linha central que será adotada na campanha ainda estão em fase de elaboração.
Nas últimas semanas, Lula deu sinais de que buscará reciclar seu discurso de defesa da soberania nacional, com objetivo de explorar o alinhamento do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) com os Estados Unidos. A ideia é se beneficiar da imagem negativa que Donald Trump tem no Brasil.
O melhor momento de popularidade do petista no atual mandato foi no segundo semestre do ano passado, quando usou tal discurso como resposta ao tarifaço imposto pelos EUA a produtos brasileiros.
Na campanha de 2022, uma das linhas mestras do discurso de Lula foi a retomada de programas sociais após o que teria sido um desmonte no governo Bolsonaro.
Em seu atual mandato, o petista consolidou o Bolsa Família em R$ 600 e criou um adicional de R$ 150 por filho de até seis anos das famílias beneficiárias. Também instituiu o Pé-de-Meia, que paga R$ 200 mensais a estudantes pobres do ensino médio para reduzir a evasão escolar, entre outras ações na área social.
Mesmo com o aumento de gastos nessa área, Lula não conseguiu impulsionar sua popularidade. As pesquisas apontam que ele e seu principal adversário estão empatados em intenção de voto para o segundo turno.
Os petistas também consideraram frustrantes os dividendos de popularidade produzidos pela entrada em vigor da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5.000 por mês.
Até agora, Lula tem dado mais espaço a bandeiras que já foram usadas na última campanha ou durante este terceiro mandato. Uma delas envolve a comparação de obras de sua gestão com as do mandato de Bolsonaro.
Em outra frente, tem dado declarações em série condenando a violência contra as mulheres, num esforço para recuperar terreno no eleitorado feminino, que foi decisivo para sua eleição em 2022.
O petista também pretende implantar o fim da escala 6x1. Lula quer o projeto aprovado pelo Congresso antes da eleição. A redução da jornada poderia se tornar uma marca da gestão do petista.
O governo gostaria de ter regulamentado o trabalho por meio de aplicativos, mas não conseguiu chegar a um acordo com empresas, motoristas e motociclistas envolvidos, e a ideia, por ora, foi engavetada.
Em um dos assuntos com potencial de ter centralidade na eleição deste ano, a segurança pública, Lula tem defendido a aprovação de uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que reorganiza as atribuições dos entes federativos. O projeto, no entanto, está em debate há mais de um ano.
O presidente condiciona à aprovação desse projeto a criação de um Ministério da Segurança Pública —promessa de sua campanha em 2022.
Uma possibilidade apontada por aliados é que o programa de governo de Lula tenha foco em desenvolvimento tecnológico. O PT elaborou um documento com propostas de diretrizes. Coordenador dessas discussões dentro do partido, Cristiano Silveira afirmou à Folha que o objetivo seria reduzir a dependência brasileira de tecnologias vindas de fora.
Lula escalou o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli para cuidar da elaboração de seu programa –mesclando ideias do PT e de outras forças políticas aliadas. Ele é parte do núcleo duro da pré-campanha junto com nomes como o presidente do PT, Edinho Silva, e do ex-prefeito de Diadema (SP) José de Filippi Jr.
Por Caio Spechoto, Folhapress
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