Como Janja e Fernanda Bolsonaro têm marcado presença na campanha eleitoral dos maridos?

Mulheres de Lula e Flávio Bolsonaro viraram ativo eleitoral para dialogar diretamente com público feminino, cada vez mais disputado por candidatos

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os dois principais candidatos à Presidência da República, contam com suas mulheres – Rosângela da Silva, a Janja, e Fernanda Bolsonaro, respectivamente – como ativos em suas campanhas para conquistar o apoio do eleitorado feminino.

De um lado, Janja conta com mais liberdade, participa ativamente dos comícios e opina nas estratégias de Lula. Já Fernanda adota tom discreto, mas também já se pronunciou em eventos de Flávio e tem nova agenda com o marido na próxima semana.

Até o momento, Janja discursou em três dos cinco primeiros comícios de Lula desde o início da campanha. Ela costuma se pronunciar imediatamente antes do presidente, com discurso todo voltado ao público feminino. Somados os tempos dos três pronunciamentos, ela falou por cerca de 42 minutos (13 minutos em São Bernardo, 19 minutos em Belo Horizonte e 10 minutos no Rio). Só não participou dos comícios em Natal e Salvador.

Duas semanas antes do começo da campanha, na Convenção Nacional do PT, Lula abriu o discurso com uma autocrítica. Nenhuma mulher estava prevista para falar — Lula pediu, então, que Janja se pronunciasse no evento. Ela gesticulou negativamente três vezes.

“Quero fazer uma crítica a mim. Não é possível que a gente tenha esquecido do principal evento da nossa campanha e não tenha colocado uma mulher para falar”, disse. Após a insistência do presidente, Janja assumiu o microfone. “É difícil porque a gente precisa estar todo dia se reafirmando, né, mulherada”, afirmou.

Em todos os pronunciamentos durante a campanha, Janja disse que as mulheres são as “guardiãs da democracia” e que foram o público decisivo para eleger Lula em 2022.

Ela costuma conclamar as mulheres a conversar com outras mulheres sobre Lula. “Vamos juntas, vamos conversar com nossas amigas, mães, filhas, irmãs, vizinhas, vamos discutir sobre as políticas públicas do presidente Lula e sobre quanto elas já transformaram e irão transformar ainda mais nossa vida e as vidas das nossas famílias”, afirmou.

Para promover o presidente, ela trata de iniciativas do governo federal com o recorte de como essas iniciativas afetam a vida das mulheres. Ela mencionou em todos os comícios, por exemplo, as escolas em tempo integral.

Em discurso no Rio, no último sábado, 22, ela falou da proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, principal iniciativa do governo Lula sobre o tema. “Ele (Lula) sabe da aflição de mães, pais e avós que saem para trabalhar angustiadas sem a certeza de encontrarem seus filhos vivos quando voltam para casa. Queremos nossos meninos e meninas na escola, praticando esporte, fazendo cultura, aprendendo uma profissão, sonhando com um futuro digno, e não sendo atraídos pelo crime”, disse.

Para além dos discursos, Janja surpreendeu Lula em São Bernardo do Campo ao exibir um videoclipe que gravou ao lado do cantor evangélico Kléber Lucas, cantando um dos jingles da campanha. Ela foi ao palco e cantou em playback ao lado de Lucas — algo que fez novamente durante o comício no Rio.

Integrantes da campanha dizem que Janja tem liberdade para atuar na campanha. Ela costuma participar das reuniões, opina e conversa com membros. Até o momento, ela não tem um cargo oficial na campanha.

Esses integrantes destacam o pronunciamento dela em São Bernardo, quando homenageou Marisa Letícia, mulher do petista desde os tempos das greves dos metalúrgicos no final da década de 1970. Dona Marisa, como era conhecida, morreu em 2017.

“A estrela da nossa bandeira, do nosso partido, traz à nossa memória o cuidado e carinho de Dona Marisa. Foi ela quem bordou a primeira bandeira do PT. E é a ela que eu dedico toda a minha admiração”, disse.

Mulher de Flávio Bolsonaro é menos conhecido do público

Fernanda, por sua vez, discursou por quase quatro minutos em dois comícios: 3 minutos e 21 segundos na convenção nacional que lançou a candidatura de Flávio a presidente, em São Paulo, e 30 segundos no ato inaugural de campanha em Copacabana, no Rio.

Mais desconhecida do público (ela tem 459 mil seguidores no Instagram, diante de 2,9 milhões de pessoas que seguem Janja), Fernanda usou parte do tempo no primeiro comício para se apresentar, pediu desculpa por usar uma “colinha” por não estar acostumada com discursos e manifestou apoio ao marido em nome dela e das filhas. Assim como Janja, o discurso foi voltado para as mulheres.

“Eu não quero assistir mais essas notícias de mulheres sendo violentadas, sendo assassinadas todos os dias no nosso País. Isso precisa acabar, ninguém aguenta mais. Ninguém aguenta mais quatro anos de PT”, declarou Fernanda no auditório do estádio do Pacaembu.

No segundo ato, numa manifestação-relâmpago, voltou ao tema: “Boa tarde, Copacabana, boa tarde, mulheres do meu Brasil. Com Flávio Bolsonaro, as mulheres vão ter mais oportunidades, mais segurança. E quando as mulheres vencem, a família inteira vence. E o Brasil inteiro vai vencer com Flávio Bolsonaro 22”.

Fernanda é cirurgiã dentista e faz atendimentos em sua clínica em Brasília durante a semana, o que a impede de viajar com Flávio. Na semana que vem, no entanto, ela estará presente numa agenda em Porto Alegre com o marido e o candidato do PL ao governo, Luciano Zucco.

Quem tem cuidado das redes sociais de Fernanda é a mesma equipe que administra os perfis de Flávio. Ela começou a fazer publicações em dezembro de 2025, dias após o marido se lançar pré-candidato a presidente, mas a frequência de posts disparou após a confirmação da candidatura, em 25 de julho. Antes do evento, foram 16 vezes; desde então, são 33.

Na internet, Fernanda tem compartilhado imagens ao lado do marido em atos políticos, além de versículos bíblicos, conteúdo sobre saúde bucal (sua especialidade profissional) e fotos com a economista Daniella Marques, coordenadora econômica do programa de governo de Flávio e uma das pessoas da campanha mais próximas a ela.
Por Guilherme Caetano/Levy Teles/Estadão

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