Aos 99 anos, Mestre Felipe segue ensinando os valores da Capoeira Angola

Em uma visita memorável ao Recôncavo Baiano, estudantes da UESC e o grupo Mucumbo celebraram o legado, a sabedoria e a resistência do capoeirista mais velho do mundo em atividade. No último final de semana (06 e 07 de junho de 2026), o município de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, foi palco de um encontro que uniu gerações, história e muita emoção. Um grupo de estudantes do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), acompanhados pela professora doutora Flávia Alessandra de Souza, esteve presente para homenagear o Mestre Felipe Santiago, que completou 99 anos em 11 de maio de 2026.

A filosofia do Mestre: elegância, amor e bem-estar

Mais do que técnica, Mestre Felipe — carinhosamente chamado de “Neco” — compartilha uma lição de vida. Hoje, enfrentando desafios de saúde, ele brinca com a sabedoria de quem já viveu muito: “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”. Ele recebe a todos com uma elegância e gentileza singulares, dedicando seus dias a transmitir os valores aprendidos com os antigos. Como ele mesmo diz: “Nasci não tive, vou morrer não vou levar; aquilo que souber não me custa nada eu passar”.
Para o Mestre, a capoeira — que ele afirma ter sido o primeiro esporte do mundo — não é violência, mas uma prática de bem-estar, filosofia e inteligência emocional, mantendo o foco na mandinga, na estratégia, na ancestralidade e na ritualística. Ele enfatiza: “O capoeirista deve ser contido, não exibicionista”.

Para ele, a fama não vem apenas do jogo, mas da educação, da ética e da diplomacia. “Você entra para se mostrar, ele entra para aprender”, diz, reforçando que o verdadeiro capoeirista é aquele que sabe brincar e apanhar sorrindo, sem ser tomado pelo ódio ou pela raiva.

Conexões entre teoria e ancestralidade

A visita foi uma imersão na história de resistência do povo negro. Mestre Felipe recorda como a capoeira era perseguida e vista como “coisa de malandro”, nascida nos matos e nas pontas de rua, até ganhar as praças e, finalmente, as escolas.

Os estudantes da UESC puderam correlacionar essas memórias com as reflexões de W.E.B. Du Bois, em As Almas do Povo Negro, percebendo a capoeira como um instrumento vital de resistência cultural. O Mestre também relembra figuras como o justiceiro Besouro Mangangá, que utilizava a capoeira para defender os menos favorecidos das injustiças sociais da época.

O despertar de um Mestre
O interesse de Mestre Felipe pela capoeira nasceu ainda na infância, observando rodas realizadas sob as árvores de Santo Amaro. Seu impulso decisivo veio aos 18 anos, quando, durante uma conversa sob uma jaqueira com Mestre Arlindo, começou a cantar e recebeu o incentivo que mudaria sua trajetória: “Neco, você tem jeito”. Após interrupções causadas pelo trabalho, a disciplina o conduziu ao aperfeiçoamento. Sobre a evolução das músicas e da própria capoeira, ele pontua: “A mudança é necessária, mas temos que ver como e em quê se muda”.

Um encontro de fraternidade: o grupo Mucumbo
A visita contou com a presença da Associação de Capoeira Angola Mucumbo, fundada pelo saudoso Mestre Virgílio, de Ilhéus, considerado um “irmão de capoeira” de Mestre Felipe. Cumprindo o ensinamento deixado por Mestre Virgílio de sempre honrar seu amigo, os integrantes do Mucumbo uniram-se aos estudantes da UESC para celebrar esse elo eterno de amizade, respeito e ancestralidade.

“Eu Nasci em Santo Amaro”

Durante o encontro, o grupo também esteve com Simone Ferreira Souza, filha do Mestre, responsável por registrar essa trajetória no livro Eu Nasci em Santo Amaro: Relatos Biográficos e Memórias. A obra constitui um importante documento sobre os mestres do Recôncavo Baiano e sobre a capoeira como processo de aprendizagem, transmissão de saberes e preservação da memória cultural.
A lição final

A matéria encerra-se com o convite que Mestre Felipe faz a todos em forma de poesia: “Capoeira, esporte é defesa, é ataque, é luta e é dança, é cultura e é folclore, é saúde e é arte. […] trago a capoeira enraizada no meu corpo e plantada no meu coração. Por isso eu aviso a vocês que façam o que eu faço: faça da capoeira a planta e o seu coração o jarro.” A visita termina com o Mestre entoando versos inesquecíveis: “O seu chofer, é hora de viajar, eu estava na beira da linha fazendo farinha para o carro levar.” Acompanhe o Mestre Felipe Santiago: @mestrefelipesantiago e o grupo MUCUMBO em @mucumbo_acam.

Autor: Matheus de Oliveira Silva, estudante de Ciências Sociais na UESC e psicólogo, em constante busca dos saberes ancestrais para compreender as feridas e as curas do nosso tempo. @matheuspsicologo_
(Compartilhado do Giro Ipiaú)

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