'Filho do pedreiro não quer mais ser pedreiro', diz CEO de construtora para público de altíssimo padrão
Executivo enviou equipe de dez pessoas à China para buscar tecnologias que substituam trabalhadores.
Luciano Amaral, CEO da Benx, ecoa uma queixa recorrente na construção civil. O setor afirma que não há mão de obra suficiente para sustentar o boom do setor imobiliário nas capitais.
O problema estaria afetando o lançamento dos prédios e o prazo das obras, segundo o executivo.
A companhia que ele comanda investe no altíssimo luxo para desviar da competição acirrada nas faixas econômicas aquecidas pelo programa Minha Casa, Minha Vida e do impacto conjuntural na classe média.
Qual problema é maior para o setor? Juros ou mão de obra?
A falta de mão de obra é muito preocupante. Ainda não conseguimos desenvolver tecnologias em massa que substituam essa mão de obra. O filho do pedreiro não quer mais ser pedreiro, o filho do mestre não quer mais ser mestre. Tenho feito reuniões para buscar soluções. Fizemos uma incursão recente com dez pessoas na China, visitando obras, para tentar trazer alguma tecnologia de lá em parceria com fornecedores.
A que o sr. atribui essa falta de mão de obra?
É bem claro que as pessoas não querem mais. O mundo mudou. É um trabalho muito pesado, de muito esforço físico. Hoje, em vez disso, é possível fazer um curso técnico. Podem ser Uber, há muitas opções que não existiam. Outro fator é o boom imobiliário. Não formamos profissionais e aumentamos a produção. Como é que faz? Falta mão de obra.
E o possível fim da escala 6x1? Com que olhos o sr. enxerga?
O governo não pode tomar uma medida assim, de repente. Precisa pensar e tratar as consequências. O que eu mais ouço é que o país não investe em educação e não investe em produtividade, que está caindo no Brasil. Se a produtividade está caindo e você ainda diminui o tempo de trabalho, é preciso pensar como isso influencia na vida das pessoas, nos custos, na inflação.
A Benx se afastou da classe média. O movimento é uma guinada permanente ou é um porto temporário?
Nada é permanente. O mercado imobiliário é muito cíclico. Estamos num momento de explosão imobiliária, baseada no Minha Casa, Minha Vida, mas a classe média é sempre muito forte no consumo. Uma empresa do tamanho da nossa tem que revisitar o planejamento estratégico todos os anos. Até porque o Brasil é país no qual os juros vão de 2% a 15%, de 15% a 10%, não dá para ter uma estabilidade com essas taxas.
Vocês esperam que as unidades do 280 Art, projeto no Itaim, cheguem a até R$ 180 milhões. O aumento de preços no mercado se deve a um aumento real da riqueza e da demanda ou vivemos uma bolha especulativa em regiões específicas?
Não é uma bolha. Há riqueza em São Paulo. No agro há riqueza, mas é setorizado. Se pegamos dez ou 15 indústrias brasileiras, vemos quantos executivos elas geraram. Cada prédio de altíssimo padrão tem 20, 25 apartamentos, 30 é o máximo. Não é como se fizéssemos 200 unidades. Basta olhar o mercado financeiro, que têm crescido uns 500 mil executivos ganhando dinheiro. Para dar vazão, você precisa de vários prédios.
O Parque Global demorou 21 anos para sair do papel, em grande parte devido a imbróglios judiciais. Ainda pensa em investir no modelo bairro planejado?
O Parque Global é um "case" sob todos os ângulos. A insegurança jurídica é o problema mais grave do país. Essa á uma opinião compartilhada por muita gente. O modelo de bairro, no entanto, é tão forte, que saiu vencedor depois desse problema de insegurança jurídica.
A marca Arbórea é aposta para o segmento de luxo. Há espaço para empresa nativa brasileira?
Não tenho nada contra o brand residence, acho que é mercado importante, mas depende do local e do público para funcionar. Nem todo brand residence vai atingir altíssimo padrão. Nós decidimos criar essa marca agora e temos três projetos direcionados para esse cliente.
Por Luana Franzão/Folhapress
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