Cresce impressão de que Jerônimo não consegue coordenar a própria campanha, por Raul Monteiro*
Liberdade, de um lado, e restrição, do outro, têm marcado a montagem das duas chapas principais à sucessão estadual. Enquanto o oposicionista ACM Neto (União) usa e abusa do direito de escolher livremente seus parceiros na disputa, enfrentando apenas os constrangimentos naturais ao processo, partidários, políticos e eleitorais, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) se viu até agora imprensado entre as duas principais lideranças de seu grupo para montar a própria chapa. De sua cota, só ele mesmo, por ser candidato natural, ainda assim depois de questionamentos de seu grupo, que vexatoriamente vieram a público, quanto à sua capacidade de ganhar o pleito.
Não é um cenário fácil para Jerônimo, mas não se pode eximí-lo de culpa pelo tamanho do desafio que enfrenta agora. Ele decorre em parte da dificuldade de, nestes pouco mais de três anos em que governa, o governador introjetar o papel de mandatário que deveria ter se aparelhado para exercer plenamente o poder político e administrativo que formalmente detém, como fizeram seus antecessores. Diferentemente do adversário, que se articula com os quadros de que dispõe no mercado para tentar montar o melhor grupo para concorrer, o governador recebeu um pacote pronto de candidatos à majoritária que o mantém engessado à espera de que o melhor lhe aconteça.
O compromisso de apoio ao ministro Rui Costa (Casa Civil) ao Senado foi selado em 2022, na campanha em que Jerônimo se elegeu. O senador Jaques Wagner (PT), por sua vez, acabou repentinamente impondo ao governador seu nome à reeleição, aproveitando-se das fragilidades que identificou no colega Angelo Coronel (PSD), hoje apoiando Neto, quando poderia ter liberado a vaga para acomodar um aliado que pudesse representar, no mínimo, algum reforço direto a Jerônimo. Para sorte do grupo, tanto o ministro quanto o senador aparecem bem colocados nas pesquisas, exibindo números acima daqueles registrados para os candidatos ao Senado que marcharão ao lado de Neto.
Não é o caso, no entanto, do vice-governador Geraldo Jr. (MDB), cuja manutenção na chapa Wagner tenta empurrar goela abaixo de Jerônimo, a despeito da percepção geral de que se trata de personagem reconhecidamente imprestável do ponto de vista político e eleitoral. Norteado por uma birra que só parece crescer, o petista age assim exclusivamente para bloquear a escolha para a vaga do ex-deputado Ronaldo Carletto, presidente do Avante, por ser o preferido de Rui. Na disputa que protagonizam, os dois parecem pouco se importar com o resultado das urnas, como se certos de que a conta vai cair mesmo para Jerônimo, a quem vão responsabilizar por eventual derrota.
O problema é que entre o rochedo representado por Rui e o mar personalizado por Wagner, o governador vai passando a impressão de que assiste de forma passiva à redução das margens de manobra que deveria ser capaz de utilizar a fim de coordenar sua reeleição. Às notícias sobre o mau estado das finanças do governo, motivo de desespero de fornecedores de quase todos os setores, somam-se várias outras, entre as quais se destacam as ligadas à suspeita de que Jerônimo não vai conseguir cumprir as promessas de distribuir convênios recheados de recursos para municípios, apresentadas de forma explícita como meio para atrair o apoio de prefeitos à sua campanha.
*Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.
Por Raul Monteiro*
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