Governo Lula adota cautela com Venezuela e vê acordo Trump-Delcy afastando dano político

Após uma primeira reação enérgica, o presidente Lula (PT) baixou o tom e tem evitado falar publicamente sobre a atuação dos Estados Unidos na Venezuela. Ainda assim, o governo avalia que a aproximação dos presidentes dos dois países, Donald Trump e Delcy Rodríguez, esvazia a exploração política da aliança histórica do PT com o chavismo.

Auxiliares de Lula preveem uma influência reduzida de temas internacionais na campanha presidencial deste ano, não só em relação à Venezuela. Entre as razões, está o entendimento de que temas internacionais muitas vezes são ignorados pela opinião pública porque não afetam o cotidiano do brasileiro.

A aposta do PT hoje é que os protestos e a repressão no Irã e as sucessivas crises causadas por Trump, por exemplo, tenham baixa ressonância junto ao eleitorado em outubro.

A proximidade do governo e do partido com a Venezuela sempre foi um flanco que a oposição explorou em ataques a Lula. Um dos motes do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), por exemplo, era afirmar que o Brasil seguiria o colapso social e econômico do país vizinho em caso de vitória do petista nas eleições.

Aliados de Lula, porém, dizem que ele iniciou um movimento de afastamento de Nicolás Maduro ainda em 2024, quando não reconheceu abertamente a vitória do ditador na última eleição na Venezuela. O pleito foi recheado de denúncias de fraude.

Apesar de o Itamaraty classificar a captura de Maduro o ato como um "sequestro", houve cuidado para não passar uma mensagem que pudesse ser lida como endosso ao regime do venezuelano.

Nos bastidores, aliados de Lula entendem que a saída de cena do ditador, retirado da Venezuela por militares norte-americanos e levado para julgamento nos EUA, deixa o petista numa situação politicamente mais confortável, uma vez que esvazia tentativas de associação entre os dois líderes.

O fato de Trump reconhecer Delcy —que era vice-presidente do país— como a principal interlocutora de Washington na Venezuela e ter escanteado a opositora María Corina Machado também diminui a pressão sobre Lula, ainda segundo auxiliares.

Para o PT, a oposição tentará levantar a relação de Lula com o chavismo na Venezuela para anular ganhos eleitorais em áreas que o partido considera pontos fortes do governo. Os petistas querem destacar medidas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.

Outra aposta está em propostas que mexem com o trabalho dos brasileiros, como o fim da escala 6x1 e a tarifa zero para transporte público.

O plano de petistas é que a relação bilateral entre Brasil e EUA entre na campanha a partir da reação de Lula ao tarifaço imposto pelo republicano em 2025. A ideia é mostrar que o presidente conseguiu reverter a situação sem abrir mão da soberania nacional.

Interferência na eleição

O principal temor em relação ao cenário internacional para a eleição continua sendo uma possível interferência dos Estados Unidos —não apenas do governo, mas das plataformas digitais.

A expectativa é que a relação positiva que se instalou entre Lula e Trump desde o primeiro encontro entre os dois na Assembleia-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em setembro passado, reduza a probabilidade de uma ingerência direta de Washington. A imprevisibilidade do americano e a volatilidade do cenário internacional, no entanto, deixam aliados apreensivos.

O Brasil conta com a possibilidade de Trump usar no Brasil a mesma estratégia adotada nas eleições da Argentina e de Honduras neste ano. Na eleição legislativa argentina, Trump condicionou a concessão de um pacote de ajuda financeira ao país de US$ 20 bilhões a um bom desempenho do partido de Milei no pleito.

Na eleição presidencial hondurenha, Trump apoiou abertamente o candidato da ultradireita, Nasry "Tito" Asfura.

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