Brasil considera preocupantes pontos do Conselho de Paz e deve recusar convite de Trump
O presidente Donald Trump durante conversa com Lula na Malásia, no ano passadoO governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) observa com preocupação trechos da proposta do Conselho de Paz de Donald Trump, e a tendência é que o Brasil recuse fazer parte do grupo.
Alguns fatores considerados mais críticos para o governo brasileiro são a falta de menção específica ao conflito na Faixa de Gaza e a concentração de poderes de Trump frente às deliberações do Conselho.
O texto original prevê o direito dos países de proporem alterações, mas destaca a necessidade de aprovação do presidente —que será Trump por ao menos três anos— assim como o poder de veto a decisões dos Estados-membro.
A tendência de que o governo recusaria a proposta foi manifestada pelo assessor especial da Presidência, Celso Amorim, ao jornal O Globo na quinta-feira (22), e reiterada por auxiliares do governo à Folha de São Paulo.
Apesar de ter sido criado sob o pretexto de monitorar os conflitos em Gaza, a região não é mencionada na proposta de Trump. O documento se refere a "áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos", sem especificar o escopo de atuação do Conselho.
Dois interlocutores a par das discussões internas sobre o convite indicam que se a região fosse citada no texto, haveria um estímulo para que o Brasil aderisse ao grupo, o que não ocorreu.
Há, ainda, uma avaliação de que aspectos como esse colocam o texto do Conselho na contramão de propostas consideradas mais adequadas pelo Brasil para lidar com os conflitos, o que torna a adesão brasileira mais difícil.
Nesta sexta-feira (23), durante evento em Salvador, Lula referiu-se ao Conselho como uma iniciativa de Trump de criar uma nova ONU (Organização das Nações Unidas). A sobreposição às forças de segurança da ONU é uma preocupação do governo e possível empecilho à adesão ao grupo.
"O presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU e que ele sozinho é o dono da ONU", disse. "Já falei com muitos outros presidentes tentando ver se é possível a gente encontrar uma forma de se reunir e não permitir que o multilateralismo seja jogado pro chão e para que predomine a força da arma, da intolerância de qualquer país do mundo".
Desde que recebeu o convite na última sexta-feira (16), Lula já travou conversas por telefone com diversos líderes mundiais, nas quais tratou da questão da paz. Entre eles, Xi Jinping, da China, Narendra Modi, da Índia, e Recep Tayyip Erdogan, da Turquia.
As ligações visam, além da discussão do tema, uma coleta de perspectivas mundiais e não uma elaboração de resposta negativa conjunta. Segundo os interlocutores ouvidos pela reportagem, a resposta ao convite deverá ser feita de forma direta.
De acordo com um auxiliar do Planalto, uma possível retaliação americana ao Brasil, em caso de não-adesão ao Conselho, não está entre as preocupações principais. A postura até o momento segue a de observação e consulta à reação dos demais países convidados.
O brasileiro também conversou com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, sobre a paz na região, que compartilha parte do território da Faixa de Gaza e é palco da guerra entre Israel Hamas.
Das nações chamadas por Trump para integrar o grupo 70% são autocracias ou ditaduras.
Um integrante do Itamaraty diz que o órgão continua buscando informações mais claras sobre o nível de relevância em Gaza e outros aspectos considerados preocupantes para o Brasil. De acordo com ele estão sendo feitos questionamentos jurídicos, consultas a países parceiros até eventualmente haver o retorno direto a Trump — que ainda não tem data para acontecer.
Trump já declarou publicamente querer a participação de Lula no Conselho, no mesmo dia em que o brasileiro o acusou de querer "governar o mundo pelo Twitter".
Por Mariana Brasil/Folhapress
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