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Sob Bolsonaro, militares vão de moderadores a controlados por presidente

Foto: Sergio Dutti/Agência Estado

Se no início do governo Jair Bolsonaro os militares espalhados pelo primeiro escalão serviam como um anteparo para conter o radicalismo gestado no gabinete do ódio e nos braços ideológicos da gestão federal, a situação mudou dois anos depois.

Há quem perdeu a força ou até mesmo o cargo, enquanto outros militares se aproximaram do bolsonarismo e do jogo político conduzido pelo presidente. Tanto que alguns ganharam de colegas de farda um apelido: “generais do centrão”.

O movimento permitiu que as Forças Armadas passassem a sofrer uma interferência política cada vez maior —evidenciando que quem manda é Bolsonaro— a despeito da hierarquia e das regras tão caras aos militares.

Na prática, essa plataforma impecavelmente conservadora não tem respaldo de um amplo setor do partido, e a crise de identidade contribui para o racha que a legenda vive no momento, com direito a disputa judicial.

O partido está em conflito entre seu presidente nacional, Adilson Barroso, e o vice, Ovasco Resende, que o acusa de manobrar internamente para permitir a filiação do senador Flávio Bolsonaro (RJ), na última segunda-feira (31).

A ala ligada a Resende diz que Barroso ignorou o estatuto partidário para aparelhar a convenção nacional com aliados. E vê com desconfiança o alinhamento total do Patriota ao bolsonarismo, por enxergar a sigla como sendo de centro.

O partido surgiu da junção do antigo PEN (Partido Ecológico Nacional), comandado por Barroso, com o PRP (Partido Republicano Progressista), de Resende. Na prática, as duas partes nem sempre tiveram relação harmoniosa, e as diferentes visões afloraram agora.

Em artigo publicado na revista do partido em abril de 2020, Resende criticou o fato de bolsonaristas e petistas buscarem criar um clima de extremismo no Brasil.

“Bolsonaristas de um lado e petistas do outro, em torno de mitos artificiais que disputam o poder com uma fome de leão, enquanto a grande maioria do povo brasileiro trabalha, sobrevive e sonha com dias melhores que são prometidos, mas que nunca chegam”, escreveu o vice-presidente da legenda.

À Folha ele afirmou que “estatutariamente o Patriota é um partido de centro”.

Secretário-geral do partido e aliado de Resende, Jorcelino Braga diz que o Patriota é um partido de centro, não conservador. “Eu entendo por centro tudo que tem equilíbrio, que tem bom senso. O presidente [Barroso] pode definir o partido como conservador, mas eu digo que sou de centro”, diz.

Braga é também presidente do diretório estadual de Goiás e foi um dos patrocinadores de uma representação enviada à Justiça Eleitoral contestando as alterações no partido feitas de forma unilateral por Barroso.

Na quarta-feira (2), o ministro Edson Fachin rejeitou a ação dizendo que ela deve ser encaminhada à Justiça comum, o que deve ocorrer nos próximos dias.

Braga afirma não ser contra a filiação do presidente em princípio, mas diz que é preciso discutir exatamente o espaço que os aliados de Bolsonaro teriam internamente.

“O que queremos saber é qual o projeto. O que querem? Querem o controle do partido? O Adilson prometeu o controle para eles? Somos uma executiva eleita até 2022”, diz.

Em entrevista à Folha na quinta (3), Barroso afirmou que o debate sobre a ocupação de espaços pelos bolsonaristas não entrou na pauta ainda, mas sinalizou que mudanças deverão ocorrer.

“Se tiver alguém em algum lugar que não tem habilidade para perseverar, para fazer o Patriota crescer, essa pessoa tem de deixar a vaga. E continua quem tem essa habilidade”, declarou o presidente do partido.

O Patriota tem, no comando de seus diretórios estaduais, políticos que nem sempre foram conservadores “puro-sangue”, o que poderia levar a um processo de expurgo com a entrada do presidente.

O comandante do Maranhão, por exemplo, é o deputado Marreca Filho, que é aliado do governador Flávio Dino, do PC do B.

Em Santa Catarina, quem chefia a legenda é Vanderson Soares, que já foi filiado ao PSB. Hoje, ele se diz conservador e afirma que defende a entrada de Bolsonaro, mas desde que de forma negociada.

“A gente quer uma construção, não quer nada de cima para baixo. Seria muito deselegante que o grupo do presidente entrasse no partido e assumisse todos os diretórios”, afirma.

Em Pernambuco, o atual presidente regional é o deputado federal Pastor Eurico, que também é egresso do PSB. “Se o presidente vier, é bem-vindo. Se não vier, o partido seguirá em frente. O presidente é uma pessoa, o partido é uma conjunção de pessoas”, afirma ele.

Segundo Eurico, a legenda tem de se preparar para um grande movimento de filiações caso a entrada de Bolsonaro se confirme.

“Claro que, com a vinda do presidente, teremos uma avalanche de gente, muitos virão de carona. É preciso ver quais diretrizes vão ser traçadas para isso”, diz.

Ao mesmo tempo, parte dos presidentes de diretórios estaduais não deve ter problemas para seguir em seus postos, por terem posições ideológicas que não se diferenciam muito do bolsonarismo.

Um exemplo é o chefe da legenda em Mato Grosso, o ex-deputado federal Victorio Galli Filho. Evangélico, ele ganhou destaque em 2017 por apresentar projeto de lei “rebaixando” Nossa Senhora Aparecida de padroeira do Brasil para padroeira apenas dos brasileiros católicos apostólicos romanos.

Ele também foi condenado a pagar R$ 100 mil por discurso homofóbico e disse que jamais levaria o filho para assistir a filmes da Disney, por enxergar que muitas das suas produções desvalorizam a família.

Já o presidente do diretório da Paraíba, delegado Walber Virgolino, cultiva a imagem de linha-dura, frequentemente aparecendo com chapéu de Lampião e peixeira na cintura.

“Sou bolsonarista antigo, de carteirinha. Acho que por isso o presidente vai me deixar [no comando estadual do partido], mas a gente sabe que em política só não vimos boi voar”, afirma.

Lideranças do partido preveem que será inevitável um expurgo de quadros mais centristas, que não se adaptarão à guinada bolsonarista da legenda.

Na última terça-feira (1º), o vereador Gabriel Azevedo, de Belo Horizonte, foi expulso por criticar a entrada do presidente na legenda.

O mesmo já havia acontecido em São Paulo com o vereador Fernando Holiday, quando o flerte de Bolsonaro com o Patriota ainda estava no início. Os próximos a saírem devem ser o também vereador paulistano Rubinho Nunes e o deputado estadual Arthur do Val, ambos ligados ao MBL (Movimento Brasil Livre).

“É um partido que tem muitas pessoas que estão mais ao centro, outras passaram por partidos de esquerda. E um presidente [Barroso] que se diz conservador, mas que para mim é apenas bolsonarista mesmo”, diz Holiday, atualmente no Novo.

Adilson Barroso

Fundador e presidente do partido, principal avalista da entrada de Bolsonaro na legenda

Flávio Bolsonaro

Senador pelo Rio de Janeiro, acaba de anunciar filiação ao partido, abrindo caminho para a entrada do pai

Ovasco Resende

Vice-presidente do partido, acusa Barroso de ter dado golpe interno para facilitar a entrada dos bolsonaristas

Fred Costa

Líder da bancada na Câmara, o deputado federal mineiro é outro dos que questionam a maneira como o presidente está entrando na legenda

Arthur do Val (Mamãe Falei)

Deputado estadual em São Paulo e ligado ao MBL, deve deixar o partido por fazer oposição a Bolsonaro

Suéllen Rosim

Prefeita de Bauru (SP), é considerada uma estrela em ascensão e deve ganhar espaço na estrutura partidária

Folhapress

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