O que se sabe até agora sobre cloroquina, hidroxicloroquina e coronavírus

Foto: Carolina Antunes/PR
A hidroxicloroquina tem ocupado espaço de destaque quando se fala em novo coronavírus e perspectivas de tratamento. Ao mesmo tempo em que muitos apostam suas fichas na droga, como é o caso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), pesquisadores permanecem cautelosos e as pesquisas ainda se mostram inconclusivas.

Veja abaixo algumas das principais perguntas e respostas sobre a droga.

Qual a diferença entre a cloroquina e a hidroxicloroquina?

A hidroxicloroquina é um derivado oxidado da cloroquina, criado para reduzir a distribuição tecidual da droga e diminuir sua toxicidade, especialmente a ocular, segundo José Luís Vieira, do grupo de toxicologia da UFPA. A hidroxicloroquina também foi desenvolvida para driblar a resistência do tratamento da malária à cloroquina.

Ambas têm sido testadas e usadas contra o coronavírus.

Para que doenças essa droga já é aprovada?

Para lúpus, malária, artrite reumatoide e doenças inflamatórias. Ainda não há estudos conclusivos e uma indicação oficial para o tratamento de Covid-19.

Por que a droga começou a ser associada ao novo coronavírus?

Há anos se sabe que a cloroquina e seus derivados têm efeito in vitro contra os coronavírus. Diante da pandemia do novo coronavírus, o Sars-CoV-2, cientistas chineses fizeram testes preliminares do remédio, e o médico infectologista francês Didier Raoult, que estuda o medicamento há décadas, propôs testá-lo em pacientes.

Os estudos chamaram a atenção do mundo num momento em que se busca um medicamento para a Covid-19. A associação da cloroquina com o novo coronavírus, porém, só ganhou repercussão mundial de vez depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que a cloroquina seria testada contra a pandemia no país. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro também se tornou um defensor da substância.

Quais são as evidências científicas do uso dos medicamentos contra a Covid-19?

Além da Covid-19, a cloroquina e a hidroxicloroquina já foram testadas contra zika, influenzas, ebola e chikungunya. Em células, as drogas apresentavam resultados interessantes, mas a utilização em animais apresentava problemas.

O estudo do francês Didier Raoult é uma das evidências mais citadas. A pesquisa afirmou ter identificado efeito da hidroxicloroquina em 20 pacientes, mas avaliou somente a carga viral dos pacientes, não seu resultado clínico, como febre e oxigenação.

A Isac (International Society of Antimicrobial Chemotherapy), responsável pelo periódico onde o estudo foi publicado, afirmou em 3 de abril que a pesquisa não “atendia aos padrões esperados, especialmente pela falta de explicações dos critérios de inclusão e triagem de pacientes”.

A Isac também afirma que é importante ajudar a comunidade científica a publicar novos dados rapidamente, “mas isso não pode acontecer às custas da redução do escrutínio científico”.

Um editorial da revista médica inglesa BMJ também afirmou que o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a Covid-19 é prematuro e potencialmente danoso.

Além do estudo de Raoul, a revista cita as fragilidades e métodos questionáveis de um estudo chinês com 62 pacientes que também tem sido apontado como prova de eficácia.

O Ministério da Saúde afirma que, “até o dia 23 de março de 2020 foram identificados dois estudos clínicos, com resultados divergentes, sobre o uso de hidroxicloroquina. Os dois estudos são pequenos e com alto risco de viés.”

Atualmente, há pelo menos 80 estudos no mundo testando cloroquina ou hidroxicloroquina contra a Covid-19, e com mais dados será possível saber qual seu real efeito contra a doença.

Os casos de pacientes que contraíram o coronavírus, usaram a cloroquina e se recuperaram não servem como prova de que o remédio funciona?

Relatos de caso não têm o mesmo poder e a força dos estudos controlados, nos quais os pesquisadores dividem aleatoriamente os pacientes em diferentes grupos —um deles toma o remédio e o outro, sem saber, recebe placebo, por exemplo— para poder aferir se a droga fez mesmo diferença no curso da doença.

Na ciência, o chamado padrão ouro são os estudos controlados randomizados duplo-cegos, ou seja, nem os pesquisadores nem os pacientes sabem se estão tomando o medicamento ou o placebo, para evitar viés.

No caso da Covid-19, isso é especialmente importante porque ela pode se curar sozinha, sem necessidade alguma de medicação, em cerca de 85% dos casos, segundo a OMS. O mesmo acontece com outros vírus respiratórios.

Desse modo, é necessário um protocolo de pesquisa rígido para conseguir apontar se um remédio realmente teve impacto na melhora dos pacientes. Também é importante medir qual o melhor momento de oferecer o remédio, efeitos de diferentes doses etc.

Esses remédios podem ser usados em pacientes com Covid-19 apesar de os estudos clínicos ainda estarem em andamento?

Sim, no modo off label, ou seja, fora da bula. Médicos podem indicar um remédio para outra indicação que não a prevista em sua bula desde que assumam os riscos e que os pacientes concordem com a prática.

Já que a Covid-19 não tem tratamento específico, por que não administrar o remédio?

Há quem defenda que, numa emergência, não há tempo hábil para esperar estudos clínicos rigorosos. Mas, como disse um editorial do BMJ, a droga é potencialmente perigosa. Ao ser usada em grande escala, como seria o caso nesta pandemia, a droga acabará causando problemas potencialmente fatais em muitos pacientes, como reações cutâneas, insuficiência hepática e arritmias.

Além disso, overdoses da droga são perigosas e difíceis de serem tratadas, afirma o editorial do BMJ. Isso já ficou claro, inclusive, em um estudo feito no Brasil. Na pesquisa, feita pela Fiocruz e pela Fundação de Medicina Tropical, doses de 10 g de cloroquina foram suficientes para apresentar quadros de toxicidade e reações adversas, como arritmias. O estudo, ainda em andamento, até o momento não mostrou diminuição na mortalidade em pacientes que tomaram a droga. O pequeno benefício observado ficou dentro da margem de erro.

Por esse motivo, atualmente a droga tem sido dada como medida compassiva, ou seja, quando todos os outros tratamentos já foram testados e nada mais fez efeito.

O que diz a OMS sobre isso?

A OMS (Organização Mundial da Saúde) tem sido cautelosa ao comentar sobre possíveis drogas contra a Covid-19 e afirma que não há cura para a doença até o momento.

A entidade também coordena um estudo multicêntrico global, chamado de Solidarity (solidariedade, em inglês), para acelerar o processo de identificação de drogas que possam ajudar na resposta à doença. Quatro medicamentos serão alvos de estudos: cloroquina e a hidroxicloroquina; combinação de remédios contra HIV, formada por lopinavir e ritonavir; combinação de lopinavir e ritonavir em conjunto com a substância Interferon beta-1b, usada no tratamento de esclerose múltipla; e o antiviral remdesivir, desenvolvido para ebola.

O que diz o Ministério da Saúde do Brasil?

O protocolo do ministério indica que somente pacientes hospitalizados com quadros graves e críticos de Covid-19 devem usar a cloroquina ou a hidroxicloroquina sob supervisão médica. A pasta orienta dosagens e cuidados, como verificar o eletrocardiograma do paciente antes da terapia, nas “Diretrizes para diagnóstico e tratamento da Covid-19”, publicadas em 6 de abril.

Quais são os estudos sendo conduzidos no Brasil?

Há diversos estudos em andamento no Brasil. O país, inclusive, participa do estudo Solidarity, da OMS, por meio da Fiocruz.

A Coalizão Covid Brasil vai analisar, a partir de três estudos controlados, a eficácia da hidroxicloroquina em uma amostra mais robusta de pacientes com quadros leves e graves do novo coronavírus.

Participam do esforço o Hospital Israelita Albert Einstein, o Sírio-Libanês, o HCor, a rede de pesquisa BRICNet e outras dezenas de centros médicos. A pesquisa tem parceria do Ministério da Saúde.

A Prevent Senior tem como protocolo o uso da hidroxicloroquina de 400 mg em associação com a azitromicina. A assessoria da Prevent diz que mais de 300 pacientes já usaram a droga e foram liberados.

A Folha questionou quantos pacientes não fizeram uso da droga e o número de mortes, mas a assessoria não revelou mais dados e disse que as informações estão sendo revisadas.

Folha de S. Paulo

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