'Nem eu nem PL podemos dizer que houve fraude nas eleições', diz chefe de campanha de Flávio
Rogério Marinho classifica carta com teor golpista como 'desabafo' de candidato derrotado à PresidênciaO coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), Rogério Marinho (PL-RN), afirmou nesta quarta-feira (28) que nem ele nem o PL podem afirmar que houve fraudes nas eleições deste ano, como disse o candidato derrotado à Presidência em uma carta com teor golpista, porque "não há provas nesse sentido".
Em entrevista a jornalistas no Senado, Marinho disse que Flávio "está fazendo um desabafo" diante de um resultado "inesperado" no segundo turno. "É evidente que, se você faz alguma afirmação, precisa trazer provas. Eu não posso fazer essa afirmação, não tenho provas e eu acabei de dizer que [a carta] é um desabafo de alguém. Suponho que seja desabafo de alguém que está se sentindo injustiçado", declarou.
Flávio Bolsonaro trocou a expressão "verdadeiro presidente" por "líder do Brasil" na abertura de um texto golpista divulgado nesta quarta. Ele fugiu para os Estados Unidos após perder o segundo turno das eleições para Lula (PT) no domingo (27), com 48,21% dos votos válidos, contra 51,79% do petista. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e o próprio PL reconheceram o resultado das urnas.
Ao menos quatro versões do documento de Flávio circularam, mas apenas as duas últimas foram publicadas pelo próprio senador. "Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil", afirmava a abertura das versões divulgadas pelos aliados.
Líder da oposição no Senado, Rogério Marinho negou ter tido conhecimento prévio sobre o documento e, perguntado sobre a mudança das expressões, limitou-se a dizer que "deve ter havido algum problema na confecção da carta" e que a versão publicada por último, em que Flávio recua, é a oficial.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura, enviou uma nota em que prega respeito ao resultado das urnas, afirma que a eleição acabou e que é hora de a direita unir esforços.
"O atual momento exige serenidade e respeito ao resultado das urnas. A eleição acabou, e agora é hora de olhar para a frente e cuidar do Brasil que queremos construir. Seguiremos trabalhando e fiscalizando as ações do governo. É hora de a direita unir esforços, defender os interesses de milhões de brasileiros e manter o compromisso com o futuro do nosso país", disse a senadora.
Um congressista de direita disse, com a condição de não ser identificado, que não vê apoio à carta de Flávio na ala mais moderada do PL e que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), deve ter cada vez mais espaço como líder do grupo, mesmo filiado a outro partido.
Segundo ele, a dúvida ainda paira sobre aqueles que estão na ala mais radical do PL —e que, em muitos casos, também fizeram coro ao ataque golpista de 8 de Janeiro.
O governador de São Paulo reagiu à carta golpista de Flávio afirmando que entende "o sentimento de Flávio, entendo a indignação e a revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente".
Nas redes sociais, a carta de Flávio foi ignorada por diversos aliados que costumam compartilhar as publicações do senador. Um dos poucos que divulgou o texto foi o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), que está foragido, e o deputado federal e senador eleito Gustavo Gayer (PL-GO).
O ex-ministro de Jair Bolsonaro Adolfo Sachsida, coordenador econômico da campanha de Flávio e era cotado para o Ministério da Fazenda em caso de vitória, foi questionado pela reportagem sobre a carta, mas não respondeu.
O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que é general do Exército da reserva e foi vice-presidente no governo de Jair Bolsonaro (PL), disse que o texto de Flávio é "pura ação política", e não há apoio ao tom de golpe empregado no documento.
Partidos de centro também se manifestaram poucas horas após a divulgação da carta, sem citá-la diretamente. Dois deles, o União Brasil e o MDB, apoiaram o candidato do PL, mas deixaram clara a posição de respeito ao resultado de domingo.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi questionado por jornalistas a respeito do texto, mas não deu declarações.
Na entrevista, Rogério Marinho também relatou ter tido um contato com Flávio no início da noite desta quarta por meio de um advogado, o qual não citou o nome, e que deve voltar a conversar com ele com mais regularidade a partir desta quinta-feira (29). Disse, porém, que não discutiu com o senador sobre como ele irá fazer oposição dos Estados Unidos ou sobre quais seriam as condições para retornar ao país.
O líder da oposição no Senado ainda voltou a negar ter tido conhecimento da fuga do candidato derrotado. Aliados de Flávio Bolsonaro afirmaram reiteradamente desconhecer onde estava o candidato, enquanto outra parte confirmava que ele já estava nos Estados Unidos na terça-feira (27). Ele chegou ao país nesta manhã, depois de cruzar a fronteira pela Argentina e fazer escala no Equador até Miami, na Flórida.
"Tentei contactá-lo no começo da manhã de ontem, porque estive com ele pela última vez às 16h, 16h e pouco da tarde da segunda-feira [26] até ele gravar um vídeo. Estava lá com um grupo de pessoas. E, como não consegui contato com ele, tentei através das pessoas que estavam em seu entorno. Ele me mandou uma breve mensagem de texto, 8h20, 8h30, e depois não tive mais contato com ele", declarou Marinho.
Na carta, o bolsonarista agradece os presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos EUA, Donald Trump. O republicano, no entanto, disse que não vai se envolver na situação política do Brasil, mas confirmou que autorizou a entrada de Flávio no país –onde ingressou com registro humanitário de até um ano de vigência.
Marinho minimizou a declaração de Trump: "[O presidente dos EUA] Tem direito de opinar sobre eleições, mas eu espero, de fato, que não haja nenhuma intervenção no processo interno do Brasil".
O senador também afirmou que a equipe da campanha vai insistir nas ações apresentadas ao TSE que acusa a chapa de Lula e Geraldo Alckmin (PSB) de abuso de poder econômico por iniciativas consideradas eleitoreiras, como o perdão de cerca de R$ 15 bilhões em dívidas de microempreendedores.
CENTRÃO ISOLA NARRATIVA DE FLÁVIO
O MDB publicou em seu perfil no X, o antigo Twitter, que "reafirma sua total confiança no sistema eleitoral brasileiro e, portanto, na legitimidade do resultado do pleito".
O presidente do União Brasil, o deputado eleito Antônio Rueda, publicou uma declaração em seu Instagram. O partido declarou que a democracia é "um valor inegociável" e "não depende de quem vence ou perde uma eleição, mas do compromisso de todos com o veredito das urnas".
O PP, que está federado com o União Brasil e também apoiou Flávio Bolsonaro, não se manifestou até o momento. "A eleição de 25 de outubro transcorreu com lisura e o seu resultado deve ser respeitado", completou Rueda.
O PSD de Gilberto Kassab reafirmou, após a carta com teor golpista, o reconhecimento da eleição do presidente Lula. O candidato do partido à Presidência, Ronaldo Caiado, apoiou Flávio Bolsonaro, mas a legenda permaneceu neutra.
Por Isadora Albernaz/Thaísa Oliveira/Augusto Tenório/Folhapress
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