Novo governo terá desafio de recuperar planejamento do setor de energia e deter escalada de preços
O próximo presidente vai precisar resolver um paradoxo no setor de energia. O Brasil avança na transição e ampliou fortemente a oferta de renováveis, que têm custos cada vez mais baixos. No entanto, convive com cortes de produção de eletricidade e aumentos na conta de luz.
Também não tem infraestrutura para usar gás natural no lugar de fontes mais poluentes, muito menos escalar o consumo de biocombustíveis.
Especialistas dizem que a situação é crítica em alguns segmentos, e a raiz dessa distorção está na perda da capacidade de planejamento nessa área tão estratégica para o desenvolvimento econômico.
Há um consenso entre os técnicos de que as decisões na área de energia como um todo —que reúne eletricidade, óleo e gás, biocombustíveis— passaram a ser tomadas de forma fragmentada, fonte a fonte, setor a setor.
Também atendem muito mais a lobbies pontuais, sem considerar o efeito sobre o custo para o consumidor, o impacto para o desenvolvimento econômico interno ou a competitividade do Brasil no cenário internacional.
O desarranjo é generalizado, afirma a diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética, Rosana Santos. Mas, segundo ela, o segmento que mais sofre é o setor elétrico.
O país convive diariamente com o curtailment —cortes compulsórios na geração, principalmente de fontes renováveis, quando a produção supera a capacidade de consumo ou de escoamento do sistema. O problema se agravou com a rápida expansão da geração solar distribuída, instalada em telhados e fazendas solares.
Durante o dia, a oferta solar dá um salto, mas cai rapidamente ao pôr do sol, obrigando o sistema a recorrer a outras fontes para equilibrar oferta e demanda.
O excesso de geração pode levar a apagões e vem desafiando a gestão do ONS (Operador Nacional do Sistema). O sobe e desce na oferta também faz o preço ter forte oscilação no mercado livre, ambiente onde empresas compram e vendem sem depender da distribuidora local.
Os cortes, por sua vez, afetam o caixa de hidrelétricas, usinas eólicas e solares, que não são pagas quando não produzem. Os prejuízos já levaram a recuperações judiciais e paralisaram investimentos em energia limpa, isso num momento em que o mundo demanda mais dessas fontes.
Rosana lembra que, para dar segurança ao sistema diante do desequilíbrio entre oferta e demanda, o governo federal fez o Leilão de Reserva de Capacidade, que alimentou muita divergência.
Térmicas foram contratadas para garantir potência nos momentos de maior necessidade. Mas não houve a devida atenção aos preços, transferindo custos para os consumidores. Segundo ela, estimativas apontam um impacto de US$ 5 a US$ 10 por MWh (megawatt-hora) sobre o setor produtivo, o que ela classifica como gigante.
"Quando se faz um leilão desse jeito, sem se preocupar com o impacto sobre a economia, com certeza você está fugindo do planejamento e atuando mais setorialmente do que qualquer outra coisa."
Rosana diz que encarecer a energia é um contrassenso no momento em que o Brasil tenta usar suas renováveis como vantagem industrial —beneficiar minerais estratégicos, produzir fertilizantes, ganhar mercado com combustíveis de baixo carbono e receber grandes data centers.
Para a especialista, planejar o setor significa ir além de decidir a construção de usinas e linhas de transmissão. Representa estabelecer uma conexão entre o avanço dessa infraestrutura e as atividades que o Brasil quer priorizar para crescer e gerar empregos nas próximas décadas.
Ela cita como exemplo a exploração de novas reservas de petróleo. Os programas de governo dos candidatos que lideram em intenção de votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, defendem ampliar a exploração de petróleo e gás. Nenhum, porém, detalha como a renda gerada pelas novas reservas será usada para preparar a economia para um futuro menos dependente dos combustíveis fósseis.
A indústria é o setor que há mais tempo alerta para o descontrole nos preços da energia. Grandes consumidores de setores como cimento, alumínio, químicos, vidro e cerâmica sofrem com aumentos acima da inflação, explica o executivo Lucien Belmonte, presidente da Abvidro (Associação Brasileira das Indústrias de Vidro).
A energia é um insumo relevante mesmo em produtos nos quais esse custo não é evidente. Representa 29,8% do preço final do pão francês e 18,7% do preço do café moído. Em produtos mais intensivos em energia, o peso chega a 43,9% —caso dos revestimentos de pisos e paredes— e 31,6%, no cimento.
"Inúmeras cadeias estão se tornando inviáveis no Brasil por causa do custo da energia", afirma Belmonte, que também atua como porta-voz da União Pela Energia e coordenador do Fórum do Gás.
Belmonte aponta a evolução dos preços da energia no Brasil em relação a outros mercados como um sinal da perda de competitividade do país. De 2000 a junho de 2026, considerando valores em dólar, o preço da energia elétrica para o setor produtivo brasileiro acumulou alta de 327,7%. O valor é quase o dobro dos 145,3% de alta registrada nos Estados Unidos e um salto se comparado ao aumento de apenas 12,5% na União Europeia.
O gás natural ficou 154,5% mais caro no Brasil, enquanto houve queda de 64% no mercado americano. No caso do óleo diesel, o avanço foi de 266,2% no Brasil, frente aos 222,1% dos EUA e os 198,1% da UE. Os comparativos foram feitos pela Ex Ante Consultoria Econômica para a Abrace (Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia e Consumidores Livres).
Na avaliação de Belmonte, a redução do preço da energia deveria estar incluída dentro da política econômica do Estado, dado o peso que tem sobre a inflação. Um ponto de partida seria rever subsídios, que já passaram de R$ 50 bilhões ao ano. "Subsídio não é um direito eterno e irrevogável", afirma.
O presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, Luiz Eduardo Barata, defende ir além. Segundo ele, medidas pontuais já não bastam, e é necessária uma grande reforma do setor elétrico, que reveja toda a sistemática de expansão do sistema e sua governança.
"A expansão se faz hoje por caneta, movimentos políticos, movimentos de pressão, não por instrumentos técnicos e econômicos", afirma Barata.
A mudança deveria começar pelo próprio critério usado para definir a política energética. "O foco da reforma tem que ser o consumidor, que paga a conta, não o interesse particular das empresas de cada setor, como tem sido feito", diz o especialista.
A reforma também terá de preparar o sistema para as mudanças climáticas, afirma Barata. Eventos extremos já afetam reservatórios, rios, linhas de transmissão e redes de distribuição, exigindo que o planejamento incorpore riscos que antes não estavam presentes.
Barata não prevê uma crise de abastecimento semelhante à de 2001. O país conta hoje com abundância de geração renovável e capacidade térmica. O risco, afirma, é outro: uma crise de sustentabilidade do setor, com empresas em dificuldades financeiras e uma operação cada vez mais delicada e complexa.
Mesmo com sobra de energia, diz, podem ocorrer apagões pontuais por dificuldades na gestão do sistema.
Em suas propostas para esse setor considerado estratégico, Lula e Flávio Bolsonaro prometem energia mais barata, expansão da transmissão, armazenamento e uso da matriz renovável para atrair investimentos.
As estratégias, porém, divergem em pontos importantes: Lula vincula a transição energética à política industrial e atribui papel relevante à Petrobras, enquanto Flávio propõe reduzir gradualmente a CDE (Conta de Desenvolvimento Energético) e os incentivos às fontes de energia, além de enfatizar investimento privado e segurança regulatória.
VEJA AS PROPOSTAS DOS DOIS PRINCIPAIS CANDIDATOS
Lula
- O programa propõe ampliar o uso de energia renovável e biocombustíveis, desenvolver hidrogênio de baixa emissão e substituir progressivamente os combustíveis fósseis. A transição energética aparece ligada à transformação ecológica e à nova política industrial
- Ainda assim, o programa prevê ampliação da exploração de óleo e gás em terra e no mar e a revitalização de campos maduros, com exigências socioambientais maiores
- Petrobras é apontada como instrumento para estimular refino, petroquímica, gás, fertilizantes e indústria naval, além de investir em atividades de baixo carbono
- O programa ainda prevê ampliar capacidade de refino e logística e fortalecer a cadeia nacional de petróleo e gás, reduzindo a dependência externa de derivados
- Renováveis, biocombustíveis e outras tecnologias de baixo carbono são tratadas não apenas como questão ambiental, mas como cadeias nas quais o Brasil pode produzir tecnologia, industrializar e atrair investimentos
Flávio Bolsonaro
- O programa aposta em solar, eólica, biocombustíveis e hidrogênio verde, relacionando a disponibilidade de energia limpa à atração de indústrias e novos investimentos
- Em vez de apresentar sua substituição progressiva de energia fóssil, o programa propõe aproveitar mais as reservas brasileiras e ampliar a produção
- Uma das propostas mais concretas e diferenciadas é permitir a exploração de gás não convencional por fraturamento hidráulico, submetida a regras ambientais
- Prevê investimentos para modernizar refinarias e aumentar a capacidade de escoamento e transporte do gás natural, buscando ampliar sua oferta
- O programa associa a expansão do setor energético a investimento privado, segurança jurídica e previsibilidade regulatória
- A proposta ainda faz uma conexão explícita entre a energia renovável e a atração de atividades como implantação de data centers, exploração de minerais críticos e industrialização
Por Alexa Salomão/Folhapress
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