Cassação de Flávio Bolsonaro entra no radar após novas revelações sobre Vorcaro e Dark Horse
Cassação de Flávio Bolsonaro entra no radar após novas revelações sobre Vorcaro e Dark HorseO Partido dos Trabalhadores protocolou no Conselho de Ética do Senado, nesta quarta-feira (2), uma representação contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedindo a perda do mandato por quebra de decoro parlamentar. A iniciativa ocorre após novas revelações envolvendo a relação do parlamentar com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
O documento, assinado pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva, sustenta que o caso deve ser analisado pelo Senado sob a perspectiva da conduta parlamentar, independentemente de eventual responsabilização criminal.
Segundo a representação, o Conselho de Ética tem a atribuição de avaliar a integridade e a dignidade da atuação dos parlamentares, que, na avaliação do partido, teriam sido “gravemente maculadas” por uma “teia de mentiras” construída por Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Vorcaro.
O PT afirma que não cabe ao colegiado realizar uma investigação criminal sobre o financiamento do filme ou sobre a atuação do banqueiro, mas analisar a conduta política do senador.
“Qualquer juízo de culpa criminal será proferido pelo Poder Judiciário, observadas todas as garantias constitucionais no processo”, afirma a representação.
Áudio com pedido de R$ 134 milhões e mudança de versão
Um dos principais pontos apresentados pelo PT é um áudio em que Flávio Bolsonaro aparece pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro.
Segundo o partido, inicialmente o senador negou a existência da negociação. Após a divulgação do áudio, Flávio passou a afirmar que se tratava de uma tentativa de obter um financiamento privado para o projeto.
Para o PT, a questão central não seria apenas a origem dos recursos, mas as diferentes versões apresentadas pelo senador e a relação entre o exercício do mandato e tratativas privadas envolvendo valores milionários.
A representação afirma que, “pela magnitude do aporte, da identidade do financiador, da natureza político-eleitoral da obra e, sobretudo, do contraste entre a atuação direta documentada e as versões públicas apresentadas pelo Representado”, haveria elementos para a análise de uma possível quebra de decoro parlamentar.
O partido também questiona as declarações de Flávio Bolsonaro sobre sua proximidade com Vorcaro. Segundo a representação, documentos e registros divulgados posteriormente indicariam uma relação mais próxima entre os dois do que aquela admitida publicamente pelo senador.
Mentira sobre pagamentos de Dark Horse
Outro ponto citado pelo PT envolve o financiamento do filme Dark Horse, que conta a trajetória de Jair Bolsonaro. Em entrevista à GloboNews, Flávio Bolsonaro afirmou que o último pagamento feito por Vorcaro para o projeto havia ocorrido em maio de 2025.
A representação menciona reportagem da revista piauí que revelou um novo repasse realizado em setembro daquele ano. O pagamento teria sido de US$ 1,6 milhão, transferido para o fundo Havengate, responsável pela gestão financeira do filme.
Para o PT, a diferença entre a declaração pública do senador e a informação divulgada posteriormente reforça a necessidade de análise pelo Conselho de Ética.
A legenda também afirma que Flávio Bolsonaro prometeu transparência sobre o financiamento do projeto, mas não apresentou o contrato com o Banco Master, a relação completa dos investidores nem a destinação detalhada dos recursos.
PT cita casos de Luiz Estévão e Demóstenes Torres
Para sustentar o pedido de perda de mandato, o PT recorreu a precedentes do Senado envolvendo cassações por quebra de decoro parlamentar.
A representação cita o caso do ex-senador Luiz Estévão, cassado em 28 de junho de 2000 por 52 votos a 18, com 10 abstenções. Segundo o documento, Estévão perdeu o mandato após apresentar declarações consideradas falsas à CPI do Judiciário sobre suas relações com a empresa Incal.
Também é citado o caso do ex-senador Demóstenes Torres, que perdeu o mandato em 2012 após processo no Conselho de Ética relacionado ao seu relacionamento com o empresário Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira, e à suspeita de atuação do mandato em favor de interesses particulares.
Na avaliação do PT, esses casos demonstram que o julgamento político sobre decoro parlamentar pode ocorrer independentemente de uma condenação criminal.
“A utilização da autoridade política do cargo em tratativas privadas de grande vulto, seguida de negativas ou explicações conscientemente desconformes com documentos, constitui irregularidade grave no desempenho do mandato e violação do dever de dignidade e respeito à coisa pública e à vontade popular”, afirma a representação.
Senado terá de avaliar pedido
O pedido apresentado pelo PT será analisado pelas instâncias responsáveis do Senado, que deverão decidir sobre a tramitação da representação e eventual abertura de processo no Conselho de Ética.
A legenda argumenta que imunidades parlamentares não impedem a responsabilização política quando a conduta de um senador for considerada incompatível com o decoro exigido pelo cargo.
“Claramente as imunidades parlamentares não constituem direito absoluto. A própria Constituição determina a perda do mandato eletivo do parlamentar cujo procedimento for declarado incompatível com o decoro parlamentar”, afirma o partido no documento.
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