Concorrência cresce, e vendas do Brasil à Argentina despencam no 1º semestre

Entrada de produtos no país tem queda de 19,4%, revertendo resultado da primeira metade de 2025

Foto: Agência Brasil/Arquivo
Revertendo um movimento do mesmo período do ano passado, quando os argentinos passaram a comprar até mais carnes do Brasil, as exportações brasileiras para o país vizinho caíram 19,4% no primeiro semestre de 2026.

De acordo com o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), de janeiro a junho, o Brasil vendeu US$ 7,4 bilhões à Argentina, ante US$ 9,1 bilhões na primeira metade do ano anterior —com redução da participação do país nas exportações brasileiras de 5,5% para 4%.

Há um ano, enquanto o Brasil enfrentava a primeira onda de tarifas dos Estados Unidos e buscava outros mercados para seus produtos, a Argentina se mostrou como uma opção de venda.

Neste ano, a perda de mercado argentino ocorreu de forma gradual durante 2026, após um final de 2025 com alguns meses de crescimento nas compras brasileiras. Ainda assim, a Argentina permanece como o terceiro maior destino das exportações do Brasil, após a China e os Estados Unidos.

No mês de junho de 2026, as principais exportações brasileiras para a Argentina foram de veículos de passageiros (16,9%), partes e acessórios de veículos automotivos (7,9%) e veículos de transporte de mercadorias (4,3%).

No primeiro semestre, as vendas de veículos de passageiros brasileiros caíram 28,2% em valor ante o mesmo período de 2025; no caso das autopeças e acessórios, a redução foi de 28,7%.

No sentido contrário, o Brasil comprou da Argentina veículos automóveis para transporte de mercadorias (26,5% do total), veículos automóveis de passageiros (10,6%) e trigo e centeio (7%).

As oscilações no comércio entre os dois países são comuns devido a uma maior instabilidade da economia argentina, à demanda da indústria automotiva e à taxa de câmbio. O comércio já apresentou períodos de queda e recuperação, com um crescimento de mais de 30% em alguns meses.

A política econômica do governo argentino também tem tido dificuldade para manter a demanda por consumo.

Ainda assim, a publicação com os dados de queda nas vendas brasileiras coincide com a crise recente após as ofensas proferidas por Javier Milei ao presidente Lula (PT) em um evento do PL que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto.

Milei também sugeriu que o governo brasileiro estaria financiando uma campanha contra sua administração, levando o Itamaraty a convocar o embaixador argentino para explicações. Nos dias seguintes, o governo argentino disse acreditar que a crise política não impactará a relação diplomática ou comercial.

Para além das divergências com Lula, Milei tem tomado medidas para flexibilizar as importações, o que acaba favorecendo a entrada de produtos chineses no mercado local e afeta o mercado automotor, importante para o Brasil.

A Casa Rosada criou uma cota de 50 mil unidades por ano para importação de veículos elétricos e híbridos com tarifa zero, sendo que metade pode vir de marcas da China. O governo também facilitou a entrada de autopeças sem necessidade de validação extra de selos de segurança e meio ambiente.

"A queda no custo das peças de reposição acabará com a prática de preços combinados e aumentará a segurança dos veículos", concluiu o então porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni.

No primeiro semestre, a China voltou a ultrapassar o Brasil como principal fonte de importações. Segundo o Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos), os argentinos compraram US$ 7,98 bilhões dos asiáticos, ante US$ 7,35 bilhões do Brasil.

Desde que o ultraliberal chegou ao poder, o cenário automotivo na Argentina acelerou essa mudança, especialmente com a presença crescente das montadoras chinesas, que se consolidaram no mercado.

Em apenas seis meses desde que passou a ser vendida na Argentina, a BYD já passou a figurar entre as dez marcas mais vendidas no país. Outra chinesa, a Baic, chegou a figurar no top 10 no fim de 2025.

No acumulado de 2026, a BYD vendeu mais de 8.000 veículos na Argentina (3% do total no período), ficando em oitavo lugar e tendo um desempenho superior à de outras marcas tradicionais, como Honda e Nissan, de acordo com a Acara (Associação de Revendedores Automotivos da República Argentina).

A abertura da economia pelo governo Milei também é entendida como um esforço para reduzir os preços e melhorar a situação econômica do país, ao mesmo tempo que a inflação continua a ser um problema para os argentinos.

Enquanto a indústria de autopeças da Argentina sente a dor da terapia de choque de Milei, com as importações da China tendo saltado 80,9% em 2025, o governo afirma que a importação de veículos elétricos está ajudando a reduzir a inflação e que as opções para os consumidores melhoraram.

"Sinto o consumidor argentino mais aberto às marcas chinesas, há uma curiosidade sobre os veículos elétricos e híbridos e quem pode comprar um carro hoje acaba ficando interessado pelas outras no mercado", conta o vendedor Andrés Baglio, que trabalha em uma concessionária de Buenos Aires.
Por Douglas Gavras/Folhapress

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