Caso Master: Planalto desaprova estratégia usada por Wagner de tentar usar Lula como escudo na crise
Auxiliares do presidente dizem que permanência do senador na liderança do governo pode ficar insustentávelO senador Jaques Wagner (PT)O Palácio do Planalto desaprovou a estratégia usada pelo senador Jaques Wagner (PT) de usar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como escudo para se defender das acusações que pesam contra ele. Ao dizer em entrevista à BandNews que Lula não vai tirá-lo da liderança do governo no Senado, nesta quinta-feira, 28, Wagner procurou demonstrar a total confiança do amigo-presidente.
Auxiliares diretos de Lula afirmaram, porém, que a situação de Wagner caminha para ficar insustentável. O argumento é que não dá para o presidente colar no senador Flávio Bolsonaro (PL), seu principal rival, a pecha de “Bolsomaster”, por causa das ligações dele com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e, ao mesmo tempo, manter o líder do governo no Senado depois de tudo o que a Polícia Federal descobriu.
Interlocutores do presidente no Planalto demostraram irritação com o fato de Wagner ter afirmado, na entrevista, que Lula lhe disse: “Fique firme; essa é uma tentativa de desestabilizar você, mas conte com minha confiança”.
O governo fará o que for necessário para não permitir que o escândalo do Master atinja Lula às vésperas das eleições. Diante desse cenário, se Wagner precisar ser rifado, será, mesmo a contragosto do presidente, seu amigo há quatro décadas.
Lula telefonou para o senador nesta quinta-feira para lhe prestar solidariedade, mas pediu que ele se defendesse em público e esclarecesse as acusações o mais rápido possível.
Wagner foi alvo da Operação Compliance Zero, que investiga a suspeita de que ele tenha recebido um imóvel de R$ 2,5 milhões, em Salvador, do banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. Além disso, a Polícia Federal apura pagamentos que teriam sido feitos a ele como propina por meio de uma empresa ligada à sua nora.
Na entrevista, Wagner negou todas essas acusações. Disse nunca ter recebido dinheiro do Master, mas admitiu que pediu para Augusto Lima comprar um apartamento, sob a condição de que ele o recompraria mais tarde.
“Eu tinha interesse de dar, de ajudar a minha filha a comprar um apartamento desses”, afirmou o senador, que demonstrou intimidade com Augusto Lima ao chamá-lo pelo apelido. “Como Guga, o Augusto Lima, é um investidor, eu disse a ele: ‘Você pode comprar? Depois eu vou recomprar’. Porque o apartamento está em construção e eu teria que vender o apartamento de minha filha para poder complementar o apartamento ou ela financiar”.
A explicação não foi considerada convincente por três auxiliares de Lula ouvidos pelo jornal O Estado de São Paulo. O senador também disse que os US$ 55 mil e 33 mil euros encontrados pela Polícia Federal em endereços ligados a ele eram fruto de diárias pagas pelo Senado, declaradas e não utilizadas em missões internacionais.
Lula acompanhou a entrevista de Wagner à tarde, no Palácio da Alvorada, ao lado do ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira. O presidente chegou a Brasília na madrugada desta quinta-feira, vindo de uma viagem a Évian-les-Bains, na França, após participar do G-7, grupo que reúne as sete maiores economias do mundo.
Como informou o Estadão, o discurso de Lula sobre a nova crise será o de que, sob seu comando, a Polícia Federal tem autonomia para investigar quem quer que seja, doa a quem doer. Ao afirmar que o presidente disse a ele que as acusações foram feitas apenas para tentar desestabilizá-lo, Wagner assumiu um tom que não interessa ao governo.
Por Vera Rosa/Estadão
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