BYD tenta convencer governo a renovar benefício e abre guerra com montadoras

A montadora chinesa BYD intensificou, nas últimas semanas, uma ofensiva junto ao governo federal para tentar reverter o fim de benefícios tributários que possui para importação de kits de montagem de carros elétricos.

O movimento abriu uma nova frente de conflito com as demais fabricantes instaladas no país, que acusam a empresa de tentar mudar regras acertadas no ano passado, ameaçando investimentos bilionários já anunciados pela indústria.

O embate ocorre em torno dos chamados kits CKD e SKD, conjuntos de peças importadas usados para montar veículos no Brasil. No sistema CKD, o carro chega completamente desmontado. No SKD, parte dos conjuntos já vem montada. Em ambos os casos, o grau de nacionalização é reduzido em comparação com uma produção tradicional, feita no país.

Em novembro de 2023, o governo decidiu restabelecer gradualmente o Imposto de Importação dos veículos eletrificados. A política previa a volta progressiva da tarifa até atingir o teto de 35%, limite da Tarifa Externa Comum do Mercosul. Em julho de 2025, após pressão das montadoras, o Gecex (Comitê-Executivo de Gestão da Camex) antecipou para janeiro de 2027 a alíquota cheia para kits CKD e SKD, que originalmente só chegaria a esse patamar em julho de 2028.

Foi criada, ainda, uma cota temporária de importação com imposto zerado entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, equivalente a US$ 463 milhões (R$ 2,3 bilhões). Segundo a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), esse mecanismo representou uma renúncia de aproximadamente US$ 102 milhões (R$ 525 milhões) em arrecadação e acabou sendo aproveitado por poucas empresas.

A partir de julho deste ano, os carros elétricos importados e prontos passarão a pagar tarifa integral de 35%. Já os kits CKD e SKD chegam à alíquota cheia em janeiro de 2027.

Conforme informações obtidas pela Folha, a BYD tenta convencer o governo a recriar benefícios equivalentes e adiar o aumento da tributação.

No dia 20 de maio, o vice-presidente Geraldo Alckmin recebeu no Palácio do Planalto o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, representantes da BYD e do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).

Na última segunda-feira, 15 de junho, houve nova reunião, dessa vez em São Paulo, com o ministro do Desenvolvimento, Márcio Fernando Elias Rosa, no BNDES. O tema registrado foi "atuação da BYD no Brasil".

As montadoras tradicionais enxergam as reuniões como sinal de que a empresa chinesa tem ganhado espaço dentro do governo para tentar reverter o cronograma definido em 2025. Nos bastidores, executivos relatam preocupação com a possibilidade de o assunto avançar rapidamente dentro da Camex (Câmara de Comércio Exterior).

A expectativa de integrantes do setor é que o tema seja apreciado pelo Gecex na terça-feira (23).

A reportagem questionou a montadora chinesa sobre o assunto, por meio de email enviado à sua assessoria de comunicação, às 16h55 desta sexta-feira (19). Não houve resposta até a publicação deste texto.

A defesa do governo baiano em favor da BYD está ligada ao peso do investimento da empresa em Camaçari, na região metropolitana de Salvador.
A montadora chinesa assumiu a antiga fábrica da Ford, fechada em 2021, e anunciou investimentos de R$ 5,5 bilhões para transformar o complexo na maior unidade da companhia fora da Ásia, com capacidade inicial para produzir 150 mil veículos por ano, podendo chegar a 600 mil unidades em fases posteriores.

O projeto é considerado uma das principais apostas econômicas do governador Jerônimo Rodrigues e do ministro da Casa Civil, Rui Costa, ambos do PT baiano, por representar a retomada do polo automotivo do Estado e a recuperação de empregos perdidos após a saída da Ford.

A reportagem questionou o governo da Bahia e o Mdic para comentar o assunto. Não houve resposta até a publicação deste texto.

Nesta quinta-feira (18), uma reunião extraordinária foi convocada de última hora pelo CAT (Comitê de Alterações Tarifárias), um tipo de instância técnica preliminar da Camex. A avaliação entre executivos do setor é que o encontro aconteceu para permitir que o assunto chegasse ao Gecex, órgão responsável pela decisão final.

À Folha de S.Paulo o presidente da Anfavea, Igor Calvet, disse que o setor espera que seja mantido o que já estava combinado.

"Pedimos apenas respeito ao que foi pactuado. Confiamos que o governo cumprirá o cronograma de recomposição das alíquotas anunciado no ano passado e não voltará com as cotas, em respeito aos bilhões em investimentos que as fabricantes nacionais estão colocando no Brasil justamente para acelerar a ampliação do portfólio, incluindo o lançamento de modelos eletrificados. O que pedimos é previsibilidade", comentou.

A reação à ofensiva da BYD também mobilizou a indústria de autopeças. Na sexta-feira (19), em carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores) pediu a manutenção integral do cronograma de recomposição das tarifas e se posicionou contra a recriação de cotas ou novos benefícios para kits CKD e SKD.

Na carta, a entidade afirma que as importações já foram favorecidas por uma "enorme renúncia fiscal" e argumenta que a agressividade dos fabricantes chineses vem sendo enfrentada por outros países por meio de tarifas elevadas e medidas antidumping.

No início do ano, presidentes da Volkswagen, Toyota, General Motors e Stellantis enviaram uma carta ao presidente pedindo que o governo não renovasse os benefícios para CKD e SKD.

A Anfavea também acionou o Mdic. A associação argumenta que as fabricantes que estão no país já anunciaram R$ 140 bilhões em investimentos até 2033. Segundo a entidade, os veículos eletrificados produzidos localmente representaram cerca de 26% das vendas do segmento em 2025 e já respondem por aproximadamente 40% em 2026.

Ao mesmo tempo, o emplacamento de eletrificados importados cresceu 214% entre 2023 e 2025. Os estoques de carros no mercado brasileiro chegaram a 150 dias em maio, movimento que a Anfavea atribui principalmente à antecipação de importações antes da entrada em vigor das tarifas cheias.

Segundo a entidade, isso criou uma distorção competitiva, permitindo que algumas empresas ampliem sua participação no mercado usando produtos de fora com imposto reduzido.

A Anfavea calcula que a manutenção das benesses para kits importados pode causar uma perda potencial de R$ 96,8 bilhões em vendas para a indústria de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões em arrecadação e eliminação de cerca de 68 mil empregos diretos e 191 mil vagas em toda a cadeia produtiva.

Do outro lado, a BYD sustenta que a manutenção dos benefícios ajudaria a manter os preços dos carros elétricos mais baixos, acelerando a eletrificação do mercado brasileiro.

Por André Borges / Folhapress

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