Guerra no Irã eleva risco de inflação mais alta no mundo e dificulta vida dos BCs globais; entenda

Entre os analistas, há uma discussão sobre se o mundo já não tem uma alta de preços ‘contratada’, independentemente da duração da guerra
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Entrando na quarta semana, o conflito no Oriente Médio acendeu um sinal de alerta na economia global. Entre os analistas, há uma discussão sobre se o mundo já tem uma inflação mais alta “contratada”, independentemente da duração da guerra, o que tende a tornar a atuação dos bancos centrais mais difícil daqui em diante.

Até agora, a guerra já levou a cotação do barril de petróleo acima de US$ 100, com picos próximos aos US$ 120. Antes do início do conflito, o preço estava por volta de US$ 70.

Também destruiu uma série de instalações de petróleo e gás no Oriente Médio, que podem não ser restabelecidas rapidamente e manter os preços pressionados por algum tempo mesmo com o fim do conflito. Há ainda outro fator de preocupação: o aumento no preço dos fertilizantes, que pode se traduzir em mais inflação de alimentos, dado que o plantio das safras no hemisfério Norte ocorre nos próximos meses.

Por ora, o cenário econômico que se desenha caminha para ser diferente do que se esperava na virada do ano, quando a expectativa de queda de juros ao longo de 2026 era praticamente um consenso.

“Podemos estar falando de um choque não só de energia, mas também de alimentos, que pode impactar o mundo todo, dada a importância dos Estados Unidos como exportador agrícola”, diz Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management. “Acho que pode ser um choque bastante inflacionário e, obviamente, tudo depende da persistência do conflito, da destruição e da capacidade produtiva de energia e de fertilizantes nos próximos meses".

Ainda é difícil dimensionar qual será a duração do conflito e o impacto total da guerra para a economia global. Na última quinta-feira, 19, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que não há um “prazo definitivo” para o fim da guerra contra o Irã, mas disse que Washington está “no caminho certo”. Na semana passada, o presidente norte-americano Donald Trump disse que a guerra terminará em breve, sem estabelecer um prazo.

Desde o início do conflito, os preços de energia escalaram com o fechamento, pelo Irã, do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da produção global de petróleo. Pelo estreito, também são transportados ureia e materiais fosfatados, utilizados para a fabricação de fertilizantes.

“Agora, eu acho que não é só a extensão, mas as consequências desse conflito”, afirma Luis Otávio Leal, economista-chefe e sócio da G5 Partners. “Vamos discutir também se esse conflito vai provocar danos de monta suficiente para que a produção, mesmo após acabar o conflito, demore para voltar ao normal.”

Para o economista-chefe do banco C6, Felipe Salles, o impacto da guerra na inflação pode não ser temporário, como se esperaria de um choque de oferta como o que está ocorrendo agora. Isso porque, desde a pandemia, a inflação está pressionada e acima da meta em vários países, como os Estados Unidos.

“Esse ponto de partida da inflação importa. Muito possivelmente, os agentes econômicos terão na memória que, no último choque que tivemos – o da pandemia –, a inflação subiu e não cedeu depois. Tem um risco de que as expectativas sejam contaminadas e de que a inflação permaneça alta depois.”

A inflação elevada deve fazer com que bancos centrais em todo o mundo adotem posições mais conservadoras, mantendo juros altos ou diminuindo a velocidade de corte dos juros, diz Salles.

Mais dificuldade para os BCs

Na semana passada, vários bancos centrais importantes, como o da Europa, o da Inglaterra e o dos Estados Unidos, mantiveram as taxas de juros inalteradas e sinalizaram uma cautela maior na condução da política monetária daqui em diante.

Na quarta-feira, 18, o Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) manteve as taxas de juros entre 3,50% e 3,75%. Depois da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), em coletiva de imprensa, o presidente do banco central norte-americano, Jerome Powell, chegou a colocar no radar o risco de altas das taxas de juros.

“No caso americano, a inflação estava subindo. É um cenário em que a inflação já estava pressionada e já colocava uma dor de cabeça para o banco central dos EUA, porque ele já estava parando de reduzir os juros por causa disso”, diz Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados.

Vale destaca que o preço da gasolina nos Estados Unidos já subiu 34% e o diesel, 40%. “Com um choque dessa magnitude, começa a aumentar a chance de não só ficar com os juros parados, mas pensar, talvez, em aumentar os juros”, acrescenta.

Na quinta-feira, foi a vez de o Banco da Inglaterra (BoE) deixar os juros inalterados em 3,75% ao ano, diante das incertezas provocadas pelo conflito no Irã. O BC inglês destacou que o conflito no Oriente Médio deve provocar um aumento da inflação no curto prazo. No mesmo dia, o Banco Central Europeu (BCE) seguiu pelo mesmo caminho e não alterou as principais taxas de juros.

“Quando há incerteza, a tendência é aumentar o conservadorismo”, diz Leal, da G5 Partners.

No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, levando a Selic para 14,75% ao ano. Foi o primeiro corte em quase dois anos. Mas, antes do início do conflito, a expectativa majoritária do mercado financeiro era de que haveria um corte de 0,50 ponto porcentual.

No último relatório Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central, os analistas consultados elevaram a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano de 3,91% para 4,1%. Para 2027 e 2028, as previsões foram mantidas em 3,8% e 3,5%, respectivamente.

“Vai ser preciso ter muita cautela para conduzir esse processo sem deixar as expectativas se desancorarem fortemente”, afirma Solange, do UBS.

Atividade global

Embora o cenário para a inflação esteja mais complicado e os juros possam permanecer num patamar elevado, os economistas ainda não enxergam um impacto relevante para a atividade global, que tem se mostrado bastante resiliente ao longo dos últimos anos.

“O mercado, pelo menos, está precificando um impacto mais modesto na atividade. Normalmente, quando o impacto é maior, a gente vê isso já no preço das ações (que cairia de forma mais acentuada). As cotações não estão compatíveis com uma desaceleração brusca da atividade”, diz Felipe Salles, do C6. Ele alerta, no entanto, que o cenário pode mudar a qualquer momento dependendo do que acontecer na guerra.

O banco Itaú deve incorporar o impacto do conflito nas projeções de crescimento para a economia global nas próximas semanas. Mas, por ora, prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) mundial cresça 3,6% neste ano, um pouco acima dos 3,3% observados em 2025.

“A economia mundial tem se mostrado bem resiliente nos últimos anos. Já estamos vindo de alguns anos de surpresas positivas para o crescimento global”, afirma Pedro Schneider, economista do Itaú Unibanco. “No ano passado, por exemplo, mesmo com todo o aumento das tarifas do Trump, a economia global aguentou bem".
Por Luiz Guilherme Gerbelli/Luciana Dyniewicz/Estadão

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