PT tenta usar crise na Venezuela contra a direita e reaviva divisões internas
Catalisador de emoções, discurso sobre a Venezuela marca radicalidade em debates internos do PTHá pelo menos duas décadas, o Brasil corre o risco de virar uma Venezuela. É o que a direita repete a cada eleição, em contraponto à relação amistosa entre o PT e o regime chavista. Pois o fantasma está novamente à solta. Com a invasão dos Estados Unidos à Venezuela, e a decorrente deposição do ditador Nicolás Maduro, a direita quer amedrontar os petistas. Mas eles dizem que já não acreditam em assombrações,
Integrantes do PT tentam usar a crise venezuelana contra o bolsonarismo, com o discurso da soberania nacional. A estratégia, dizem parlamentares da base do governo, é mostrar que a oposição tem pretensões entreguistas para o Brasil. Contudo, a Venezuela ainda é um assunto incômodo para o partido, porque ressuscita divisões internas sobre o conceito de democracia e, sobretudo, o reconhecimento de uma ditadura no país vizinho.
"Essa coisa de Brasil virar Venezuela nunca pegou. O que vai pegar nas eleições é a bandeira da paz na América do Sul. A direita está atacando a democracia e defendendo uma intervenção aqui", diz o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do partido na Câmara.
Lindbergh refere-se à montagem compartilhada pela internet pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), no mesmo dia da captura do ditador venezuelano. Nela, o presidente Lula (PT) aparece sendo preso pelo Exército americano.
Em seguida, parlamentares de esquerda acionaram a PGR (Procuradoria-Geral da República) contra Nikolas. Em outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que hoje é o candidato da direita ao Planalto, havia feito outra postagem, dando margem para acusações de entreguismo. Em sua conta no X, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sugeriu, em uma publicação do secretário de Defesa do governo Donald Trump, que os Estados Unidos fizessem uma operação, no Rio de Janeiro, contra o narcotráfico.
Com o avanço das investigações da trama golpista, os apelos do bolsonarismo à política externa tornaram-se constantes. Segundo a Polícia Federal, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), à época ainda exercendo mandato como deputado, pressionou o governo Trump a aplicar sanções contra o Brasil. De acordo com a denúncia da PF, o objetivo era coagir o Judiciário brasileiro durante o processo que acabou por condenar seu pai a 27 anos de prisão. Ao reverter o tarifaço de Trump, o Planalto incorporou o discurso pela soberania.
"A direita vai se enrolar novamente, assim como ocorreu com as tarifas. Eles se iludem achando que têm protagonismo com Trump, mas o presidente americano só está interessado numa política imperialista", afirma Lindbergh.
Em meio às incertezas sobre o futuro da Venezuela, PT, PSOL e MST fundaram uma frente em solidariedade à população vizinha. Lula e a bancada do partido escreveram notas criticando a intervenção dos EUA.
Em contraste, os governadores de direita, entre os quais o de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comemoraram a ação. Em um vídeo, Tarcísio usou a imagem de Lula abraçado a Maduro para relacionar o episódio com a chance de uma derrota da esquerda nas eleições de outubro. O governador reavivou, assim, as comparações entre o PT e o chavismo, antiga tática resumida numa famosa sentença: o Brasil vai virar uma Venezuela. A frase se apoia na recusa do PT em reconhecer a ditadura daquele país.
Um relatório da ONG Human Rights Watch, de 2017, já denunciava a concentração de poder no Executivo, as violações dos direitos humanos e a censura à mídia. Em 2024, a vitória de Maduro não foi reconhecida por observadores, como o Carter Center, nem pela OEA (Organização dos Estados Americanos). Lula não reconheceu a lisura daquele pleito, mas, naquele ano, disse que a Venezuela não era uma ditadura, mas apenas um "regime desagradável". Já o PT afirmou que a eleição de Maduro havia sido democrática. O hoje líder do governo Lula no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), divergiu e chamou à época o regime de ditadura.
A postura hesitante espelha as divisões internas do PT e suas respectivas visões sobre autoritarismo. Tais diferenças foram expostas com a crise dos últimos dias. Presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, o deputado Reimont (PT-RJ) diz que o regime venezuelano é uma ditadura e, assim como Israel e Honduras, viola os direitos humanos.
Reimont afirma que a frente de esquerda não é a favor de Maduro, mas em solidariedade à população local. "Compreendemos que a Venezuela deve resolver os problemas por conta própria", conta ele, integrante da CNB (Construindo Um Novo Brasil), corrente majoritária da sigla, liderada pelo próprio Lula.
Reimont reconhece que a direita deve despertar, nas eleições, o fantasma da Venezuela, sugerindo que o PT apoia criminosos. Contudo ele diz ter agora elementos de contra-ataque. "A nossa estratégia na eleição precisa estar ligada à comparação, porque a direita tem nada a apresentar. Então, eles usam esse terrorismo. Mas temos frases de efeito agora, do tipo 'como Deus está acima de tudo e Trump está acima da América Latina?'".
A visão de Reimont sobre a Venezuela, no entanto, não é unânime no partido. Alinhado à corrente Articulação de Esquerda, o historiador Valter Pomar diz que a direita, comparando Brasil à Venezuela, mostra desejo por uma intervenção externa. Ele nega a caracterização de Maduro como ditador.
"Se a Venezuela fosse uma ditadura, Trump não teria sequestrado Maduro. Ademais, nosso problema real hoje não é a caracterização do chavismo. O problema real é saber se a América Latina será dos Estados Unidos ou será dos latino-americanos", diz Pomar, diretor de cooperação internacional da Fundação Perseu Abramo e professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC.
Pomar defende ainda a aproximação do Brasil com a Venezuela, porque o futuro, afirma ele, por um fortalecimento regional. "Contra Trump, seguiremos fazendo as alianças que forem necessárias."
Ainda no início dos anos 2000, Lula e Chávez integraram a chamada onda rosa de governos de esquerda. A afinidade entre os dois líderes ficou evidente com a criação de diferentes grupos de cooperação e instituições políticas. O petista gravou depoimentos para as campanhas de TV do aliado e, posteriormente, de Maduro. Professora de ciência política da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Mayra Goulart diz que Lula e Chávez compartilharam um projeto de desenvolvimento social e econômico da América Latina.
Com o tempo, o sonho ficou distante, porque as crises na Venezuela e a redução do preço das commodities tornaram os recursos financeiros mais escassos. Em paralelo, conta a professora, o regime chavista se fechou cada vez em seu próprio militarismo, o que gerou desconfiança das esquerdas. Em termos de política brasileira, a Venezuela, diz Goulart, preenche o lugar que Cuba, durante a Guerra Fria, ocupou no imaginário social. O chavismo representa, ao mesmo tempo, o socialismo e o antissocialismo nas Américas.
"A Venezuela é um marcador de radicalidade. É menos o PT precisar dela do que esse país ser um catalisador de emoções a partir da ideia de comunismo", afirma.
Por Gustavo Zeitel, Folhapress
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