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Ofensiva de Trump desafia Fachin no STF após tensão no comando do TSE com ataques de Bolsonaro
Pela segunda vez, os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso e Edson Fachin se sucedem no comando de um órgão em um momento de alta tensão e marcado por ataques ao Judiciário.
Em 2022, a ameaça era interna. Fachin assumia a presidência do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) num momento em que o então presidente Jair Bolsonaro (PL) mais uma vez subia o tom de contestação às urnas e à Justiça Eleitoral —e quando a participação dos militares em comissão do tribunal ganhava contornos preocupantes, alinhada aos interesses do então mandatário.
Passados mais de três anos, o ministro volta a receber o bastão de Barroso nesta segunda-feira (29). Desta vez, porém, para assumir a presidência do Supremo. Se antes o foco de preocupação vinha do próprio presidente da República, que já ameaçava não aceitar o resultado da eleição, agora ela vem de fora.
Fachin assume a corte diante de uma desafiadora e inédita campanha de punições a ministros do STF por parte de uma potência estrangeira.
Além de ter aplicado tarifas de 50% ao Brasil, citando como uma das justificativas o julgamento de Bolsonaro, o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já cancelou vistos da maioria dos magistrados do Supremo e aplicou a Lei Magnitsky –sanção destinada a torturadores e violadores de direitos humanos– ao ministro Alexandre de Moraes. Na semana passada, a punição foi estendida até mesmo à esposa do magistrado.
Alguns dias após o tarifaço, aplicado em julho, o ministro Barroso publicou uma manifestação no site do tribunal dizendo que cabia ao Executivo a resposta política imediata, mas que, enquanto chefe do Judiciário, cabia a ele fazer uma reconstituição dos fatos.
Segundo o ministro, as sanções eram fundadas “em compreensão imprecisa dos fatos ocorridos no país nos últimos anos”. Além de outras manifestações do presidente da corte negando, por exemplo, que haveria uma caça às bruxas contra Bolsonaro, duas notas institucionais da corte foram publicadas a respeito das punições.
Apesar de ter um perfil mais contido e reservado que a maioria dos seus pares, Fachin não deixou de condenar a postura dos EUA.
“Eu entendo que punir um juiz por decisões que tenha tomado é um péssimo exemplo de interferência indevida. Ainda mais quando isso advém de um país estrangeiro”, afirmou em palestra no mês passado, ao mesmo tempo em que falou também da importância da autocontenção do Judiciário.
Ana Cláudia Santano, que é coordenadora da Transparência Eleitoral Brasil e acompanhou de perto os desafios da eleição de 2022, representando a sociedade civil no comitê de transparência criado pelo TSE, ressalta que o cenário agora é outro. “É um momento desafiador muito mais complexo justamente porque esses conflitos não são internos, eles são internacionais”, diz ela, apontando a imprevisibilidade de Trump como complicador.
A professora de direito avalia ainda que a situação sobre como responder às sanções traz um dilema. Ela pondera, por exemplo, que é preciso que a corte tenha muito cuidado ao publicar notas sobre as sanções tanto para não adentrar competências da diplomacia brasileira quanto para que não se adiante juízo sobre processos.
Se já é uma incógnita como o tópico Trump se desenrolará —e se o pior já passou—, ao longo de seu mandato, Fachin deve enfrentar outros momentos desafiadores e turbulentos.
Passado o julgamento do ex-presidente, o bolsonarismo promete seguir com a bandeira anti-STF e a defesa de uma anistia ampla. O resultado da próxima eleição pode aumentar ou diminuir a temperatura do cenário deflagrado. Sob a relatoria do ministro Gilmar Mendes, já há mais de uma ação na corte discutindo a constitucionalidade da regra atual sobre impeachment de ministros.
E, apesar de a PEC da Blindagem ter sido enterrada, não deixa de existir o fantasma de que propostas restringindo os poderes do Supremo avancem no Congresso —insatisfeito com ações envolvendo emendas parlamentares.
Na avaliação de Ana Laura Pereira Barbosa, professora de direito da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), será positivo se Fachin encampar reformas do processo decisório da corte, para fortalecê-la. “Seria uma forma por meio da qual o tribunal poderia se proteger ainda mais de ataques e reforçar a sua independência, imparcialidade e competência para arbitrar as questões constitucionais”, diz ela.
Além de destacar a personalidade mais discreta de Fachin como aspecto positivo para a construção da imagem da corte como órgão colegiado, Ana Laura acredita que, passado o grosso das ações do 8 de Janeiro e o julgamento de Bolsonaro, o ministro terá maior potencial de ação que Barroso com a pauta da corte.
Em 2022, quando esteve à frente do TSE, em que tinha também função administrativa, Fachin manteve posição firme em meio à tensão gerada por Bolsonaro.
Além de ter acumulado declarações fortes em defesa da Justiça Eleitoral e do pleito, o ministro atuou para melhor estruturar equipe do tribunal que lidava com desinformação eleitoral e para informar e preparar a comunidade internacional quanto ao que se passava no Brasil.
Buscou ainda, diante da escalada de questionamentos das Forças Armadas dando munição à campanha contra as urnas empreendida pelo então presidente, isolar tais ações. Além de ter negado a implementação de sugestões dos militares ou pedidos para reuniões particulares, fora da comissão que tinha sido criada pelo ministro Barroso, Fachin chegou a afirmar, por exemplo, que quem “trata de eleição são forças desarmadas” e que não havia “poder moderador para intervir na Justiça Eleitoral.
“Para remover a Justiça Eleitoral de suas funções terão que antes remover este presidente da sua presidência. Diálogo sim, joelhos dobrados, jamais”, disse em evento à época dos ataques do ex-presidente.
Jogos Escolares de Ipiaú tem abertura nesta segunda-feira
A Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais), segunda maior investigada na fraude no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), continua a captar associados enquanto é investigada pela PF (Polícia Federal).
A entidade realizou um treinamento online no fim de agosto para novos vendedores. O objetivo é buscar associados que topem pagar R$ 37 mensais. Quem conseguir um novo cliente fica com 10% da mensalidade como comissão, o equivalente a R$ 3,70.
A Conafer apresenta seu público-alvo como pessoas “de baixa renda e baixa consciência de mercado”. São elas: agricultores familiares, ribeirinhos, quilombolas, povos originários. Trabalhadores informais, autônomos, idosos, mães, jovens, famílias de baixa renda e sem plano de saúde.
No seu site, a entidade lista diversos benefícios para seus clientes, como R$ 200 para a compra de remédios, R$ 1.000 em caso de morte acidental e sorteios de R$ 10 mil mensais, entre outros.
Na página, há depoimentos de supostos clientes. Uma pessoa identificada como Julio Cesar Pataxó diz que, como liderança indígena, se sente respeitado e valorizado na Conafer. “Eles nos apoiam com seriedade, fortalecem nossa cultura e garantem espaço de fala nos debates nacionais”, escreveu.
Uma foto acompanha o depoimento. Em uma busca pela imagem na internet, é possível encontrar o mesmo retrato nos perfis de redes sociais de pessoas identificadas como Pedro Augusto Francisco Neto, Jorge Andrade e Luiz Gustavo Ribeiro, entre outros.
O mesmo acontece com as fotos do agricultor familiar Ricardo R. Ramos e da empreendedora Anne Roberta.
Apesar das fotos falsas, a entidade afirma em seu site que tem mais de 70 mil afiliados ativos em todo o Brasil. Em carta publicada em suas redes sociais em junho deste ano, ela afirmou ter 597,2 mil associados com vínculo válido e vigente.
Procurada, a Conafer não respondeu.
A CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que apura o caso deve ouvir o presidente da entidade, Carlos Lopes, nesta segunda (29).
A Conafer é a segunda entidade com mais descontos associativos registrados no INSS, com R$ 484 milhões descontados entre 2019 e 2024, ficando atrás só da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), que recebeu R$ 2,1 bilhões no período.
Após a deflagração da Operação Sem Desconto pela Polícia Federal, o INSS bloqueou todos os descontos automáticos nos benefícios previdenciários, o que gerou problemas de caixa para a Conafer. A solução foi buscar novos clientes.
Antes dos problemas financeiros, a entidade mantinha a Frente Parlamentar em Defesa do Empreendedorismo Rural no Congresso. Ela pagava o aluguel da sede da frente, uma mansão no Lago Sul, e bancou gastos com café da manhã no lançamento do grupo de parlamentares, segundo informações obtidas pela Folha.
A vistoria do imóvel para a locação foi realizada em 28 de março do ano passado, e o lançamento da frente ocorreu menos de um mês depois, em 18 de abril.
A atuação da Conafer no Congresso ajudou a entidade a conseguir emendas parlamentares, que eram direcionadas ao Instituto Terra e Trabalho. Ao todo, foram R$ 14,5 milhões em empenhos em 2023 e 2024 a partir de emendas de seis parlamentares e duas bancadas. Desse total, R$ 9,3 milhões foram pagos.
Além disso, a instituição mantém uma segunda entidade que realizava descontos nas aposentadorias do INSS, a AAB (Associação de Aposentados do Brasil), que não está na lista de investigadas da PF.
Ela recebeu R$ 28 milhões em descontos em aposentadorias e pensões pagas pelo INSS entre agosto de 2024 e abril de 2025. Isso representa uma média mensal de R$ 3 milhões nesse período de nove meses.
Lucas Marchesini /Folhapress
Michelle Bolsonaro diz que quer ser primeira-dama, não presidente do Brasil
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| A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro |
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) afirmou, neste sábado (27), que não quer ser presidente, mas primeira-dama, complementando que seu candidato para as eleições de 2026 é seu marido, Jair Bolsonaro (PL). O ex-presidente, entretanto, está inelegível e foi condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) a 27 anos e três meses de prisão.
“Vamos trabalhar para reeleger o nosso presidente Jair Messias Bolsonaro, porque eu não quero ser presidente, não. Eu quero ser primeira-dama”, disse Michelle, que é presidente do PL Mulher, durante evento do partido em Ji-Paraná, Rondônia.
No discurso em Rondônia, ela defendeu o ex-presidente e afirmou que pode representá-lo. “Se ele quiser, serei a voz dele nos quatro cantos da nação”, afirmou, em referência à inelegibilidade do marido.
Disse ainda que quer priorizar a família: “Minha total atenção está voltada para cuidar das minhas filhas e do meu marido neste momento delicado”.
Na última semana, em entrevista ao jornal britânico The Telegraph, Michelle havia admitido a possibilidade de entrar na disputa caso fosse “a vontade de Deus”.
“Me levantarei como uma leoa para defender nossos valores conservadores, verdade e justiça. Se, para cumprir a vontade de Deus, se tornar necessário que eu assuma a candidatura política, estarei pronta para fazer o que Ele pedir para mim”, disse a ex-primeira-dama, que é evangélica.
Em pesquisa Datafolha do mês passado, Michelle aparece mais bem posicionada que os filhos de Bolsonaro em eventual disputa contra o presidente Lula (PT).
Nas simulações de segundo turno, teria 40%, contra 48% do petista. Já Eduardo Bolsonaro (PL-SP) perderia para Lula por 49% a 37% e, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por 48% a 37%. Na disputa contra o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o atual presidente ganharia por 45% a 41%.
A possibilidade de uma chapa de Tarcísio com Michelle na vice é exaltada por alguns aliados de Bolsonaro. Michelle, entretanto, sempre vinha se colocando como pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal.
Além da sua recente condenação por liderar a trama golpista em 2022, Bolsonaro foi declarado inelegível em 2023 por criticar e atuar contra o sistema eleitoral, quando fez reunião com embaixadores para atacar as urnas eletrônicas durante a campanha no ano anterior.
Bruna Fantti/Folhapress
Câmara paga 116% a mais por quilo de café em licitação
Em um ano, a Câmara pagou 116% a mais pelo quilo do café. Após licitação, o órgão desembolsará R$ 1,7 milhão por 29 toneladas do produto, que será fornecido por um semestre. A Casa começou neste mês a servir o café moído comprado por R$ 59,09 o quilo. Em 2024, o preço médio pago foi de R$ 27,36 pelo mesmo produto.
A licitação foi encerrada em abril, quando o produto acumulava uma inflação anual de 85,5%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Procurada, a Câmara afirmou que a diferença de preço nas licitações “acompanha a majoração do produto no mercado”. Leia o comunicado ao fim da reportagem.
O certame, destinado a servir deputados, servidores e visitantes do órgão, previa pagar R$ 63,78 pelo quilo do café em pó. No total, a Casa comprou 29 toneladas do produto com as seguintes especificações: ao menos 85% de “café arábica”, um grão mais refinado, e com a torra “moderadamente clara a moderadamente escura”.
As empresas vencedoras foram Odebrecht Indústria e Comércio de Café — presença frequente na Casa e que não tem relação com a empreiteira alvo da Lava Jato — e a Fino Sabor Indústria. A Odebrecht venderá 22 toneladas de café a R$ 58,50 o quilo, enquanto a Fino Sabor vai fornecer sete toneladas a R$ 60,87 o quilo.
Na licitação anterior, em agosto de 2024, a Câmara fechou o contrato por R$ 1,6 milhão por 59 toneladas de café, ou R$ 27,36 por quilo. Na ocasião, a compra valeu por um ano.
Inflação acumulada do café bateu recorde
Em abril, quando a licitação foi concluída, a inflação acumulada do café moído nos últimos 12 meses era de 80,2%, um recorde desde 1995. Os dados são do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE.
Nos próximos dias, o preço do produto deve ter alta de 10% a 15% no supermercado, segundo a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic). A entidade ressalvou que o reajuste não deve alterar a média anual do preço.
Leia o comunicado da Câmara
“A diferença de preço do quilo do pó de café entre as licitações encerradas em agosto de 2024 (Edital 90025/2024) e em abril de 2025 (Edital 90014/2025) acompanha a majoração do produto no mercado. Ambas as licitações foram realizadas na modalidade pregão eletrônico, no tipo menor preço”.
Eduardo Barretto/Estadão
Deputado Mauro Benevides Filho sofre AVC e é internado; ele está consciente, segundo nota
O deputado federal Mauro Benevides Filho (PDT-CE) sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) na tarde desta sexta-feira, 26, e está internado, sob observação médica, segundo nota divulgada nas redes do próprio parlamentar.
A nota afirma que, de acordo com o boletim médico, “o parlamentar apresenta quadro clínico estável, encontra-se consciente, orientado e sem sequelas aparentes”.
Benevides tem 66 anos e cumpre seu segundo mandato na Câmara dos Deputados e recentemente apresentou um projeto de lei que proíbe instituições financeiras, administradoras e gestoras de fundos de investimento de movimentar recursos de clientes em contas de titularidade da própria instituição, chamadas de “contas-bolsão”.
A proposta surgiu na esteira da Operação Carbono Oculto, ofensiva contra o crime organizado no País que atingiu fintechs da Faria Lima
Estadão
Moraes veta participação de bispo com histórico político em grupo de oração na casa de Bolsonaro
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| O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal) |
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes barrou a inclusão do bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, no grupo religioso autorizado a visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar há mais de um mês. Bolsonaro permanece detido enquanto aguarda os próximos desdobramentos da condenação imposta pelo STF, que o sentenciou a 27 anos e 3 meses de prisão.
Robson Rodovalho integra o grupo de orações de Michelle Bolsonaro. O pedido de inclusão foi enviado na última sexta-feira, 19, informando que a reunião de oração aconteceria na quarta-feira, 24.
A solicitação da defesa baseou-se na Lei nº 7.210/1984, que garante assistência religiosa a pessoas privadas de liberdade em instituições civis e militares.
Na decisão, Moraes destacou que o grupo não pode desviar de sua finalidade principal, criticando a tentativa de incluir pessoas com o objetivo de realizar visitas que não foram formalmente solicitadas ou desvio da pauta prevista na proposta de visita.
“O ‘Grupo de Orações’, entretanto, não pode ser usado como desvio de finalidade, acrescentando diversas e distintas pessoas como integrantes somente para a realização de visitas não especificamente requeridas”, pontou Moares.
A resposta foi divulgada no dia 23, e o nome de Robson Rodovalho foi oficialmente vetado. Além de líder religioso e fundador da Igreja Sara Nossa Terra, Robson tem trajetória na política, ele foi deputado federal pelo Distrito Federal entre 2006 e 2010. No entanto, em 2010, teve o mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por infidelidade partidária, ao trocar o DEM pelo PP.
Esta é a segunda visita de religiosos autorizada por Moraes. A primeira foi liberada no dia 15 de setembro, quando o ministro autorizou a realização de um culto.
Durante a última manifestação da direita, realizada no dia 7 de setembro, Michelle Bolsonaro criticou a decisão de Moraes por não permitir que o grupo realizasse uma oração com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Eu não posso fazer um culto religioso porque ele [Moraes] não permitiu, e eu pedi. Libera a petição. Libera os meus irmãos para estarem comigo nesse momento”, disse a ex-primeira-dama durante o ato na Avenida Paulista, em São Paulo.
Bruna Rocha/Estadão
Fachin abre mão da Lava Jato e prioriza pautas trabalhista e prisional na presidência do STF
O ministro Edson Fachin decidiu deixar a relatoria de mais de cem processos ligados à Operação Lava Jato ao assumir a presidência do STF (Supremo Tribunal Federal), na próxima segunda-feira (29).
A chegada ao principal cargo do Judiciário marca o fim de uma trajetória de oito anos de Fachin à frente da principal investigação que mirou políticos e empresários. A operação acabou enterrada, sob o argumento da existência de vícios processuais e de nulidade de colaborações premiadas.
Fachin assumiu a relatoria dos casos em fevereiro de 2017, por sorteio, após o responsável pela Lava Jato no Supremo, ministro Teori Zavascki, morrer em um acidente aéreo.
Os processos que estão no gabinete de Fachin são, em geral, os resquícios da operação. São petições do ex-senador Delcídio do Amaral para trocar a prestação de serviços à comunidade por multa, um processo de alienação de bens do doleiro Alberto Youssef e o acompanhamento de processos contra o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, que desceram à primeira instância.
O ministro tomará posse como presidente do Supremo em cerimônia que contará com a presença de autoridades dos Três Poderes e representantes da sociedade civil. Ele assume o cargo após dois anos de gestão de Luís Roberto Barroso —seu antecessor que, por regra do tribunal, ficará responsável por todo o acervo de processos deixado pelo novo presidente.
Fachin fica na presidência do Supremo até setembro de 2027. Seu vice-presidente será Alexandre de Moraes, reeditando a dobradinha do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de 2022.
Tradicionalmente, o presidente do tribunal fica com menos processos em seu gabinete e deixa de receber novos casos. Após anos de desgaste e reviravoltas na Lava Jato, Fachin decidiu deixar o comando do caso para trás —agora, todos ficarão com Barroso, que passará a integrar a Segunda Turma do STF.
No auge da operação, Fachin se movimentou para ficar com os processos. Ele pediu para mudar de turma depois da morte de Teori para participar do sorteio que definiria o novo relator. A estratégia foi costurada entre a então presidente Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e Celso de Mello, além do próprio Fachin.
Após assumir os casos, ele teve uma conduta alinhada ao Ministério Público Federal e ao então juiz titular 13ª Vara Federal de Curitiba Sergio Moro. Foi favorável, por exemplo, à manutenção da condução coercitiva e da prisão após condenação em segunda instância, dois mecanismos depois declarados inconstitucionais pelo STF.
Indicado por Dilma Rousseff para o STF em 2015, Fachin passou a ser criticado por petistas por negar diversos pedidos da defesa de Lula para reverter decisões de Moro. Em abril de 2018, foi um dos seis ministros contrários ao habeas corpus pedido pelo então advogado e hoje colega de corte Cristiano Zanin para Lula. A decisão abriu caminho para a prisão do petista.
O desgaste da Lava Jato começou em 2019, quando mensagens obtidas por hackers revelaram conversas entre procuradores e Moro sobre procedimentos a serem tomados pelos investigadores. Mesmo com críticas de outros ministros às condutas, Fachin manteve a posição pró-Lava Jato no STF.
Em 8 de março de 2021, o ministro deu uma virada e surpreendeu o mundo político ao anular as condenações de Lula depois de decretar a incompetência da Justiça de Curitiba para julgar o petista.
A decisão também extinguiu os processos que poderiam decretar a parcialidade de Moro na Segunda Turma do Supremo. Um dia depois, no entanto, o colegiado retomou o processo sobre a conduta do ex-juiz e concluiu, por 3 votos a 2, que Moro não foi imparcial —Fachin ficou vencido, junto com Kassio Nunes Marques. Posteriormente, o plenário do Supremo confirmou a decisão.
Nos últimos quatro anos, os reveses da Lava Jato se acumularam no STF, incluindo a derrubada de condenações e atos da força-tarefa sob o argumento de irregularidades na condução de investigações e processos. Restaram poucos processos e decisões de destaque a serem tomadas.
Como uma prestação de contas, Fachin pediu ao Supremo a criação de um painel virtual para divulgar as delações premiadas firmadas no período e os valores recebidos por meio desses acordos.
Sob relatoria do ministro, foram 172 acordos de colaboração fechados. Desses, 152 delatores pagaram multas ou perderam bens obtidos por meio de crimes, devolvidos ao patrimônio público. Em valores totais, foram recuperados à administração pública R$ 2,9 bilhões.
Cézar Feitoza, Ana Pompeu e José Matheus Santos/Folhapress
Donald Trump pode visitar Bolsonaro no Brasil, de acordo com apoiadores do ex-presidente
Apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) afirmam que o presidente dos EUA, Donald Trump, pode vir ao Brasil para visitar o ex-presidente
Apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) afirmam que o presidente dos EUA, Donald Trump, pode vir ao Brasil para visitar o ex-presidente.
A viagem estaria sendo articulada pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo aliado dele nos EUA, o apresentador Paulo Figueiredo, que tem amplas conexões com setores do governo Trump.
Sobre a possibilidade, Figueiredo afirmou que não tem comentários a fazer.
Fábio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro e próximo de Eduardo, postou uma mensagem em seu perfil no X falando sobre a hipótese de um encontro de Trump com Bolsonaro no Brasil.
“Nada vence o próprio testemunho. Que tal uma visita do Donald Trump ao Presidente @jairbolsonaro na sua casa para que ambos evidenciem uma ‘Química Perfeita’ atualizando a prosa? Obviamente a Corte e os advogados do Presidente seriam consultados com antecedência. Fica a dica”, escreveu.
Wajngarten afirmou depois que, tendo em vista que Bolsonaro está preso, uma visita de Trump a ele seria oportuna.
“O [ex] presidente [Bolsonaro] atualizaria o Trump sobre o seu estado de saúde. Trump teria a oportunidade de ver as recorrentes crises de soluço que ele tem, os vômitos, decorrentes do atentado à faca que sofreu em 2018”, afirma.
Wajngarten diz, no entanto, que colocou o texto no X como uma ideia particular, e que não sabe de nenhuma articulação concreta em andamento.
Nesta semana, Trump teve um rápido encontro com Lula na Assembleia Geral da ONU. Em seu discurso, disse que teve “uma química excelente” com o petista, e que os dois poderiam se encontrar na próxima semana.
Lula confirmou. Mas disse que a data da conversa entre os dois ainda não foi marcada.
Líderes do PCC frequentaram casa de empresário alvo da Operação Spare, diz MP-SP
Dinheiro encontrado pela Receita Federal durante mandados de busca e apreensão na Operação
A investigação que resultou na Operação Spare nesta quinta-feira (25) —que aponta um esquema de lavagem de dinheiro em postos de combustíveis, casas de apostais e no setor hoteleiro— encontrou indícios de que o empresário Flávio Silvério Siqueira se encontrou com integrantes da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).
Há registros de que os traficantes Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, e Rafael Maeda Pires, o Japa, já teriam frequentado uma casa de Silvério em Itu, no interior paulista, segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo.
A defesa de Silvério afirmou que seu cliente não tem qualquer envolvimento com o crime organizado. Também disse que ele é alvo de uma perseguição dos órgãos de investigação e que está à disposição da Justiça para todos os esclarecimentos necessários.
O advogado Marco Antonio Gonçalves lembrou que seu cliente foi vítima de extorsão de policiais civis em 2006 —o caso foi denunciado pelo Ministério Público—, e afirmou que desde então ele é alvo das mesmas acusações, das quais ele inclusive já foi absolvido no passado.
Silva foi assassinado com tiros de fuzil em frente a um hotel na zona leste de São Paulo, em fevereiro de 2018. Ele era apontado como principal liderança do tráfico de drogas no litoral paulista e teria participado, segundo o Ministério Público do Ceará, da morte de dois líderes do PCC: Gegê do Mangue e Paca, assassinados numa área de mata em Aquiraz (CE).
Japa, por sua vez, foi encontrado morto com um tiro na cabeça dentro de um carro, no estacionamento de um prédio no Tatuapé, na zona leste da capital paulista, em agosto de 2023. Ele já foi apontado como participante de um esquema de lavagem de dinheiro do PCC em empresas agenciadoras de jogadores de futebol.
Segundo a delação premiada de Antônio Vinícius Gritzbach —assassinado no aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos—, Japa participou de um tribunal do crime, no qual Gritzbach foi julgado pelo assassinato de outro líder do PCC.
Já Silvério, também conhecido como Flavinho, é apontado pela investigação do Ministério Público paulista e da Receita Federal como líder no esquema de lavagem de dinheiro que envolvia postos de combustível, empreendimentos imobiliários, motéis e lojas de franquia.
A casa frequentada por Cabelo Duro e Japa em Itu foi vendida por Silvério no ano de 2018. Esse caso seria apenas um exemplo de conexão do empresário com o PCC, segundo o MPSP.
Além disso, também de acordo com a Promotoria, o grupo ligado a Silvério seria sócio de José Carlos Gonçalves, o Alemão, que também é alvo na Justiça por suspeitas de ligação com o PCC.
Alemão foi citado na investigação da Carbono Oculto e, em setembro de 2020, preso na Operação Rei do Crime por suspeita de que lavava dinheiro para a facção criminosa. Na ocasião, a Polícia Federal apontou vínculos dele com o líder máximo da facção, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola.
Segundo a investigação à época, uma tia de Marcola foi proprietária de uma das empresas de Alemão. O MPSP aponta que ele divide a propriedade de uma aeronave e de empreendimentos imobiliários com o grupo ligado a Silvério.
A investigação que resultou na Operação Spare teve início a partir da apreensão de máquinas de cartão de crédito em duas casas de jogos de azar localizadas em Santos, no litoral paulista —uma na rua da Paz, no bairro Boqueirão, e outra na Euclides da Cunha, no Gonzaga.
Nos dois casos, os equipamentos estavam registrados em nome de postos de gasolina, o que levantou a suspeita dos investigadores. As contas bancárias inscritas nas máquinas estavam vinculadas à fintech BK Bank, apontada por investigadores como peça central na engrenagem de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis descoberta na Carbono Oculto. Deflagrada no fim de agosto, a operação mostrou a infiltração do PCC na cadeia produtiva do setor de combustíveis e do mercado financeiro.
Ao menos 267 postos ainda ativos movimentaram mais de R$ 4,5 bilhões entre 2020 e 2024, mas recolheram apenas R$ 4,5 milhões em tributos federais, segundo a Receita.
A ação desencadeada hoje, que cumpriu 25 mandados de busca e apreensão em sete municípios paulistas, é um desdobramento da Carbono Oculto.
A investigação aponta que parte do lucro da organização criminosa é proveniente de crimes de adulteração de combustíveis, com postos vinculados a Silvério.
Segundo a Receita Federal, recursos de origem ilícita eram inseridos no setor formal por meio de empresas operacionais. Esse movimento acontecia por maquininhas via fintechs, e posteriormente os recursos lavados eram reinvestidos em negócios, imóveis e outros ativos, por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCP).
Responsável pela defesa do BK Bank, o escritório Fernando José da Costa Advogados afirmou que não foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços vinculados à instituição de pagamento.
Bolsonaro pede a Eduardo que ‘feche a boca’, mas filho intensifica ataques
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| Foto: Ton Molina/STF/Arquivo |
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pediu a interlocutores que conversam com seu filho Eduardo Bolsonaro para que ele “feche a boca” e não atrapalhe as negociações políticas em torno da anistia e da redução de penas para o pai.
Os dois não podem se falar diretamente, por determinação do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. Ambos são investigados no inquérito que apura coação à Justiça desde que Eduardo foi para os EUA advogar por sanções contra o Brasil e os magistrados que julgam o ex-presidente na Corte.
Um dos mensageiros, que deve se encontrar com o deputado federal nos EUA é o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-SP), que visitou Bolsonaro na semana passada. Ele nega que se reunirá com o parlamentar.
As tentativas até agora foram em vão e só irritaram ainda mais o filho do presidente, que segue no ataque.
Ele diz a interlocutores acreditar firmemente que Bolsonaro não está conseguindo avaliar direito o quadro político por estar hoje na condição de “refém”. Ou, como disse mensagem respostada por seu maior aliado nos EUA, Paulo Figueiredo, “é uma vítima presa, doente e incapaz de decidir”, que não pode negociar “os termos da própria soltura”.
Eduardo escreveu nesta quinta (25) em seu perfil no X que a “PGR [Procuradoria-Geral da República] me denuncia [por] coação, mas quem está sob coação é o meu pai”.
Além de limitado para decidir, Jair Bolsonaro, na visão dele, não estaria percebendo que querem enfiar um acordo goela abaixo de sua garganta, apoiando outro candidato para disputar a Presidência e dando de bandeja ao elegido os votos bolsonaristas —que podem nunca mais voltar para a família.
“Existe um movimento para exterminar com a direita. Quem ignorar isso é um verdadeiro negacionista, apenas um peão no tabuleiro prestes a ser tirado do jogo”, afirma.
Nas últimas semanas, o deputado federal partiu para o ataque ao Centrão e até mesmo ao PL, partido dele e do pai.
Se lançou candidato a Presidente da República sem o aval de Bolsonaro, disse que disputará até mesmo contra Tarcísio de Freitas, comemorou as sanções à mulher de Alexandre de Moraes e manteve os ataques ao STF na temperatura máxima, chamando os ministros de “mafiosos”.
Em um dos ataques mais virulentos, repostou mensagem crítica ao presidente do PL, Valdemar da Costa Netto, e disse que não tinha abdicado “de tudo” para “trocar afagos mentirosos com víboras” nem se “sujeitar aos esquemas espúrios dos batedores de carteira da ocasião”.
Mônica Bergamo/Folhapress
Tiroteio em escola deixa dois alunos mortos no Ceará
Um ataque a tiros em uma escola do Ceará deixou duas pessoas mortas e três feridas, na manhã desta quinta-feira (25). A situação ocorreu na Escola Estadual Luiz Felipe, em Sobral.
Segundo o Metrópoles, ainda não se sabe a causa do tiroteio. Informações preliminares apontaram que os corpos dos estudantes ficaram no pátio da escola. Tiros foram ouvidos por testemunhas que passavam do lado de fora do colégio.
“Os suspeitos efetuaram os disparos de arma de fogo pela calçada da escola, atingindo as vítimas no estacionamento da instituição. Na ocorrência, uma quantidade de droga, balança de precisão e embalagens foram apreendidas com uma das vítimas”, disse a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE).
O órgão informou ainda que “equipes da Polícia Militar do Ceará (PMCE), da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) e da Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) foram acionadas e estão no local realizando os primeiros levantamentos sobre o fato que está em andamento”
Relator chama ‘Careca do INSS’ de ladrão, advogado protesta e CPI tem bate-boca
O depoimento de Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, à CPI que apura fraudes em descontos nas aposentadorias, teve tumulto e bate-boca. Parlamentares pediram ajuda à segurança do Senado e a sessão foi suspensa depois que o deputado Zé Trovão (PL-SC) se levantou e foi até a mesa principal da comissão, onde gritava para o advogado de Antunes “baixar a bola” com dedo em riste.
Antunes declarou à CPI que jamais foi o “Careca do INSS”, afirmou ser o maior interessado em esclarecer as acusações das quais é alvo e disse que nunca tentou obstruir qualquer investigação e que sua prisão foi desnecessária.
Ao concluir sua fala, Antunes disse que responderia às perguntas dos deputados e senadores, mas não do relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL). O motivo, segundo o depoente, é que Gaspar vinha o chamando de ladrão nas reuniões anteriores.
É comum que perguntas sejam feitas mesmo se o depoente não se dispuser a responder.
Alfredo Gaspar começou sua fala repetindo que Antunes é ladrão. “Estamos diante daquele que praticou o maior roubo contra aposentados ou pensionistas do Brasil”, disse o relator.
O advogado de Antonio Carlos Antunes, Cleber Lopes, protestou reiteradamente fora do microfone, enquanto Gaspar falava mais alto. Em seguida, começou um tumulto.
Nesse momento Zé Trovão se aproxima da mesa e e gritava para o advogado de Antunes. Cleber Lopes respondia e a situação foi ficando mais tensa.
O deputado Duarte Jr. (PSB-MA), que presidia a sessão temporariamente, pediu ajuda aos seguranças do Senado. Lopes e Antunes ameaçavam deixar a sessão. O presidente do colegiado, Carlos Viana (Podemos-MG), voltou à reunião e afirmou que eles não poderiam fazer isso.
Gaspar voltou a discursar e fazer as perguntas, que não foram respondidas, sempre se referindo ao depoente como “senhor Careca do INSS”. Também disse que o advogado do depoente era pago “com dinheiro roubado do povo brasileiro”.
O relator afirmou que Antunes irá para um presídio onde terá de conviver com presos cujos parentes foram vítimas do esquema de desvios ilegais. Em uma de suas últimas manifestações, Gaspar afirmou que o Careca do INSS seria um forte candidato a ser executado se houvesse pena de morte no Brasil.
O depoimento de Antunes é o mais esperado da CPI até agora. Ele é apontado como peça central de um esquema de descontos irregulares em aposentadorias junto com Maurício Camisotti, que supostamente seria sócio oculto de uma das entidades beneficiadas pelos descontos irregulares.
Apontado em investigação como “epicentro da corrupção ativa” e lobista profundamente envolvido no “esquema de descontos ilegais de aposentadorias”, Antunes recebeu R$ 53,58 milhões de entidades associativas e de intermediárias, de acordo com a investigação da Polícia Federal.
Segundo relatório de investigadores, o pagamento ocorreu por meio de empresas de Antunes, que teria repassado R$ 9,32 milhões a servidores e companhias ligadas à cúpula do INSS.
Empresas de Antunes teriam feito repasses de R$ 6,8 milhões para firmas de altos funcionários do INSS também investigados, segundo depoimento de Rubens Oliveira, apontado como um intermediário do esquema.
Como a Folha mostrou, Antunes comprou salas comerciais e pagou R$ 700 mil com Pix. Também deixou de registrar imóveis comprados por meio de uma empresa offshore.
Caio Spechoto, Folhapress
Centrão já articula candidatura de Ratinho como alternativa a Tarcísio de Freitas
O Centrão já começou a articular a candidatura presidencial do governador Ratinho Jr., do Paraná, como alternativa a Tarcísio de Freitas para enfrentar Lula em 2026.
Nesta semana, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, reuniu empresários, médicos e políticos em torno de Ratinho Jr. em um jantar em São Paulo.
O clima, segundo um dos presentes, era de “descolamento” gradual da candidatura presidencial de Tarcísio e de incentivo à candidatura do governador do Paraná.
Líderes do PP e do União Brasil, que também apoiam Tarcísio, afirmaram à coluna que, caso a candidatura do governador fique inviabilizada, Ratinho será uma boa opção e poderá unir o campo de oposição a Lula.
“Se a família do Jair Bolsonaro seguir criando confusão, com candidatura de Eduardo Bolsonaro e atacando o governador, não tenha dúvida de que poderemos nos unir em peso à candidatura do Ratinho”, afirmou um dos líderes à coluna.
O paranaense teria a vantagem de, além de unir o Centrão, não ter dever de lealdade absoluta a Bolsonaro, a quem não deve a carreira política. Com isso, não teria que se submeter aos desígnios da família, considerada instável.
Tanto Eduardo quanto Flávio Bolsonaro acreditam que, se o pai, Jair Bolsonaro, apoiar Tarcísio ou qualquer outro candidato que não seja da família, os votos que hoje seriam “dele” migrariam para elegido e nunca mais retornariam ao seu grupo.
Os lideres do Centrão relembram ainda que tanto o governador de SP quanto o do Paraná têm desempenho similar nas sondagens eleitorais.
Segundo pesquisa Datafolha, Tarcísio e Ratinho teriam o mesmo percentual de votos contra Lula num eventual segundo turno se as eleições fossem hoje.
O petista teria 45% dos votos, contra 41% de Tarcísio, e 45% contra 40% de Ratinho Jr.
Na avaliação geral, embora possa ter apoio de Jair Bolsonaro, o governador de SP pisou fundo no freio de sua candidatura diante dos desgastes que a movimentação em torno de seu nome tem gerado.
Só no último mês, ele se indispôs com o Supremo Tribunal Federal (STF) ao ir a um protesto pela anistia de Jair Bolsonaro e chamar o ministro Alexandre de Moraes de tirano.
Por outro lado, sua atuação pelo perdão ao ex-presidente tem sido apontada como insuficiente por bolsonaristas.
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por sua vez, já afirmou a diversos interlocutores, como antecipou a coluna, que será candidato a presidente em 2026 com ou sem o apoio do pai, e até contra Tarcísio. O que seria uma dificuldade ainda maior para o governador, que teria que entrar em guerra eleitoral com o filho do ex-presidente —algo considerado inimaginável.
Tarcísio já disse publicamente, e repente nos bastidores, que não será candidato a Presidente da República.
A candidatura dele, no entanto, ainda é considerada viável, já que a decisão final deve ser tomada em março, prazo para a desincompatibilização. Mas o Centrão já começa a flertar firme com Ratinho para torná-lo uma candidatura alternativa politicamente viável.
Mônica Bergamo/Folhapress
Lula usa tática de aproximação com Trump, mas não vai de 'peito aberto' para reunião, diz especialista
Um sinal de afago após meses de acirramento político. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu com um gesto amistoso para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Assembleia Geral da ONU.
Trump chamou Lula de "um cara legal" e sinalizou, em seu discurso na terça-feira (23/9), um encontro com o presidente brasileiro na próxima semana, após os mandatários conversarem por menos de 40 segundos no evento das Nações Unidas.
Na quarta-feira (24/9), Lula afirmou que está otimista com possibilidade de os governantes fazerem uma reunião o mais rápido possível e acabarem com mal-estar que existe hoje na relação Brasil e EUA.
"Tive outra satisfação de ter um encontro com o presidente Trump. Aquilo que parecia impossível deixou de ser impossível e aconteceu. Fiquei feliz quando ele disse que pintou uma química boa entre nós."
Lula também disse que espera que a conversa seja entre "dois seres humanos civilizados", quando perguntado se temia constrangimentos como o que ocorreu no tenso encontro em Washington de Trump com o presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky, em fevereiro.
"Não há por que ter brincadeira em uma relação entre dois homens de 80 anos de idade. Eu vou tratá-lo com o respeito que merece o presidente dos Estados Unidos, e ele certamente vai me tratar com o respeito que merece o presidente da República Federativa do Brasil", afirmou.
Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional e Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que a fala do presidente americano na ONU desfez o mito sobre a direita ter monopólio de acesso ao governo Trump.
"Foi um golpe duro na oposição, sobretudo na (ala) bolsonarista, que sentiu o baque e terá de se reorganizar, criar narrativas alternativas", avalia o especialista.
Para Lopes, Lula deve manter o tom defensivo que adotou até o momento, sem espaço para abrir mão da agenda política, o que seria negociar anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por golpe de Estado e outros crimes pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
"O Brasil suportou bem a pressão e o fato de estar sob fogo cerrado. Essa solidez defensiva acabou levando a uma revisão de rota, de curso de ação. Se Trump estivesse obtendo os resultados pretendidos pela sua política agressiva, imperial, é óbvio que ele não faria o recuo público que fez hoje.
Na mesa de negociações, o Brasil tem pautas importantes como a regulação das grandes empresas de tecnologia no país e o acesso dos Estados Unidos às terras raras.
Na entrevista a jornalistas nesta quarta, Lula sinalizou estar abertos a discussão dos minerais estratégicos. "Discutimos com o mundo inteiro nossas terras raras", afirmou o presidente.
Mas o professor da UFMG alerta: "Não se trata de buscar concessões a todo custo", diz.
Dawisson Belém Lopes - O Brasil esteve sob fogo cerrado por oito meses e, sobretudo nos últimos três, a pressão de Washington aumentou. Se, no primeiro momento, o Brasil conseguiu ficar fora do radar, nos últimos três meses, com o tarifaço e as pressões exercidas sobre o Judiciário brasileiro, o país definitivamente entrou em rota de colisão com os Estados Unidos.
O que aconteceu hoje nas Nações Unidas é bem importante, porque pode simbolizar um ponto de inflexão e o início de outra trajetória — diferente, mais construtiva. Mas não nos enganemos: o que foi acumulado durante os primeiros meses do governo Trump não vai se desfazer tão facilmente.
Existe hoje uma coleção de mercadorias e produtos brasileiros que estão, na prática, embargados pelos Estados Unidos. Uma sobretaxação de 50% significa, na prática, embargo.
O Brasil também tem sofrido com as tentativas de desestabilização do poder Judiciário, inclusive com sanções unilaterais impostas a membros da mais alta corte jurisdicional brasileira, o STF. Isso tudo não vai se desfazer da noite para o dia, magicamente. E muito disso nem é passível de negociação, não vai para a mesa de negociação.
O que entendo é que o Brasil suportou bem a pressão e o fato de estar sob fogo cerrado. Essa solidez defensiva acabou levando a uma revisão de rota, de curso de ação. Se Trump estivesse obtendo os resultados pretendidos pela sua política agressiva, imperial, é óbvio que ele não faria o recuo público que fez (na ONU).
BBC News Brasil - Existe a possibilidade de Lula sair desse encontro com boas negociações, se, ao menos publicamente, a imposição das sanções e tarifas são políticas?
Lopes – Não vejo, para o Brasil, tantos incentivos que permitam uma reversão completa de postura. Há margem para incrementos, acho que há margem para diálogo e pode até haver, de parte a parte, concessões para melhoramento dos termos do comércio. Acho que isso é possível, sim. Nesse âmbito, pequenas vitórias de parte a parte podem acontecer. Mas, politicamente, não.
Politicamente, o que pode acontecer é uma mudança mais ou menos radical do Trump, que não hesita em ser incoerente, em quebrar trajetórias e passar a fazer coisas que não fazia no minuto anterior. Isso ele faz historicamente. Ele não "troca de roupa" para mudar o relacionamento com líderes globais. E pode, ao se dar conta de que Bolsonaro é carta fora do baralho, que não vai haver anistia e que o STF no Brasil tem sido sólido e não vai ceder, começar a negociar com quem de fato tem as alavancas de poder na mão, que é o presidente Lula.
Mas não vejo, do ponto de vista internacional e doméstico, motivos para Lula sequer trazer à pauta o tema político. Afinal, a retórica que condiz com a verdade factual é a de que há independência dos poderes constituídos na República Brasileira. Se o Judiciário determina um curso de ação e o segue, não cabe ao Executivo sequer palpitar a esse respeito.
Isso não está na mesa de negociações. A pauta comercial pode, sim, acomodar aqui e ali algum avanço. É onde se pode conversar.
BBC News Brasil - Qual deve ser a postura de Lula diante desse encontro?
Lopes - O presidente foi inequívoco e claro ao dizer, naquele artigo publicado no The New York Times, que soberania e democracia não são negociáveis. O funcionamento do Judiciário e das instituições brasileiras de modo geral não é um assunto passível de discussão bilateral. Isso é uma pedra de toque, não está em questão.
Então, a postura deve continuar a ser defensiva, priorizando o interesse nacional do Brasil e não buscar concessões a todo custo.
Francamente, nesse caso, o presidente da República, que vive de negociação há décadas e faz disso seu ganha-pão, tem alguma expertise no assunto. Certamente não é ingênuo, não se deixou encantar pelo canto da sereia. A postura permanecerá defensiva, imagino.
BBC News Brasil - O que o Brasil tem na mesa como contrapartida?
Lopes - O Brasil tem um mercado de 210 milhões de consumidores, atraente para as empresas americanas. Acho que o que mais interessa hoje aos Estados Unidos é a possibilidade de atuação das big techs [grandes empresas de tecnologia], de capital estadunidense. As maiores do mundo são dos Estados Unidos, querem atuar no Brasil e com o mínimo de regulação possível. Esse é um dos temas que interessam ao empresariado.
Outro tema é o das terras raras, minerais estratégicos. O acesso a um suprimento confiável interessa muitíssimo aos Estados Unidos. O Brasil, que é um dos principais reservatórios do mundo, tem nisso um trunfo importante.
Mas não apenas. Os Estados Unidos também têm interesse em assegurar a provisão de café, por exemplo, a preços melhores do que os praticados atualmente, que estão inflacionando o café da manhã do americano médio.
Agora, um ponto importante: não se trata de buscar concessões a todo custo. As conversas precisam acontecer e o Brasil não precisa necessariamente entregar mais. Não acho que seja o caso. É uma negociação entre pares, entre homólogos, entre chefes de Estado. O pressuposto de que o Brasil deve conceder de toda maneira me incomoda. A relação deve continuar se pautando pela igualdade soberana entre as nações.
BBC News Brasil - A direita repercutiu a possibilidade de encontro com Lula como uma estratégia de Trump, "um bom negociador", que teria deixado "o presidente brasileiro numa situação impossível". Você concorda? Trump tem realmente sido um "bom negociador" nesses acordos bilaterais?
Lopes - O afago, ainda que circunstancial e improvisado, não atribuo a nenhuma racionalidade complexa de Donald Trump, nem a uma sofisticada tática para atrair Lula à mesa de negociação. Isso é bobagem. Trump é um animal do improviso e fez um discurso muito improvisado: por não ter conseguido ler o teleprompter, improvisou praticamente o tempo todo, começou num registro informal e terminou no mesmo tom.
Mas acabou jogando água no moinho do presidente brasileiro de maneira inesperada. Até hoje, argumentava-se que apenas a oposição de direita conseguia se conectar com Trump, que ele só reconhecia como interlocutor alguém da família Bolsonaro ou eventualmente Tarcísio de Freitas. O que se mostrou hoje em Nova York não foi isso.
A abertura dos trabalhos da Assembleia Geral escancarou outra realidade. Foi um golpe duro na oposição, sobretudo na bolsonarista, que sentiu o baque e terá de se reorganizar, criar narrativas alternativas.
A ideia rocambolesca de que Trump tenta atrair Lula para uma armadilha é bobagem. É evidente que a guarda deve ser mantida alta por parte do governo brasileiro. Mas isso é óbvio. O impacto político, porém, foi interessante, porque desfaz alguns mitos que vinham se arrastando.
BBC News Brasil – Lula poderia cair numa emboscada, como Zelensky, que foi praticamente linchado ao vivo no Salão Oval, ou Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, que foi alvo de acusações infundadas ao aceitar a reunião com Trump?
Lopes – Naturalmente, o presidente dos Estados Unidos explora muito bem a política como espetáculo. Ele se elegeu e se reelegeu praticando uma modalidade de política de conexão com o eleitorado que se vale muito das imagens e impressões que consegue construir. Ele é um comunicador de grande talento.
É óbvio que os representantes do Estado brasileiro, os diplomatas, estão cientes disso e não permitirão que o Brasil e seu chefe de Estado sejam expostos ao mesmo espetáculo degradante a que estiveram submetidos o presidente da África do Sul, o da Ucrânia, entre outros.
O Brasil tomará cautelas. Trump se nutre desse tipo de exposição, usa e abusa da política externa até o momento em que ela deixa de lhe render recompensas eleitorais. Depois, abandona. Cabe, portanto, ter todo o tipo de precaução em relação a essas táticas próprias do populismo de ultradireita.
BBC News Brasil - Na quarta, Lula se pronunciou e se mostrou bastante aberto e sem condicionantes para a conversa, inclusive sobre a possibilidade de se encontrarem presencialmente, o que seria, segundo ele, uma conversa civilizada entre dois homens de 80 anos. Como avalia a resposta do presidente?
Lopes - O tom é amigável, é um tom suave e que, na verdade, serve ao propósito duplo de lubrificar as relações bilaterais com os Estados Unidos, subir de nível e melhorar o que antes estava envenenado. Por um lado, há isso. Por outro, vejo também uma resposta à oposição, a um certo argumento veiculado nas redes sociais e na própria imprensa de que Lula teria medo de se encontrar face a face com Donald Trump e receio de ser humilhado na Casa Branca, como aconteceu, aliás, com outros presidentes, chefes de Estado e de governo.
Agora, é evidente que essa mensagem não pode ser tomada pelo valor de face. É importante entender, nas entrelinhas, que o presidente vai considerar o interesse brasileiro em primeiro lugar. Principalmente, essa evocação da senioridade — "dois homens de 80 anos" — já é uma tentativa de dar paridade à conversa, de mostrar de onde se está falando.
Há aí uma tática de discurso, que é justamente a equiparação entre dois homens tarimbados, experientes. Lula tenta identificar um ponto de apoio e uma possível área de convergência, que é a senioridade, sob uma luz positiva. Essa é uma tacada muito interessante, aliás, porque, afinal, como você sabe, há questionamentos sobre a idade provecta do presidente do Brasil e também do presidente dos Estados Unidos — ainda que em menor grau.
O que Lula convida a pensar é justamente na equiparação dos dois quando se trata da faixa etária. Eles pertencem ao mesmo mundo, viveram coisas parecidas, viram o mesmo mundo ao longo de 80 anos. Isso é muito interessante, uma jogada importante, uma tática discursiva feliz do presidente do Brasil. Mas não pode ser tomada pelo valor de face.
A cautela vai prevalecer, e o Brasil não vai de peito aberto para uma reunião assim. Lula pode falar nesses termos e evocar uma certa espontaneidade, mas é a tranquilidade de quem sabe que tem uma equipe técnica, diplomática, do mais alto nível.
BBC News Brasil - Tirando o aceno ao Brasil, Trump fez um discurso duro em relação à América Latina. Como você avalia essa postura?
Lopes - O tom geral para a América Latina foi duro, desencoraja qualquer prognóstico de aproximação hemisférica. Não é algo que tenha nascido agora com Trump. A região costuma aparecer nos discursos de chefes de Estado ou do Departamento de Estado sob ótica negativa: narcotráfico, crime organizado, imigração ilegal. É mais do mesmo.
No caso do Brasil, porém, há uma diferença. O país consegue se descolar da regra geral para a América Latina, talvez pela escala: sozinho, corresponde a um terço da população da região, ocupa metade do território da América do Sul e concentra cerca de metade da economia do subcontinente. É um país distinto. As conversas com o Brasil seguem outra toada.
- Rute Pina
- Role,Da BBC News Brasil em São Paulo
- X,@rutepina
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